quinta-feira, 30 de julho de 2009

POR UMA VIDA MELHOR

Há pouco tempo fui ver uma exposição de fotografia a preto e banco.
Gérald Bloncourt, um Haitiano, exilado do seu país, expõe no CCB. Nessas fotos está retratado o período da emigração portuguesa para França, nos anos 60.

Uma enorme armação de ferro galvanizado com altura entre os 8 a 10 metros, sustenta em toda a sua volta e até ao topo umas centenas de garrafas vazias de vidro verde, todas elas com o gargalo para o interior como se encaixadas numa garrafeira. É uma escultura curiosa, aparentemente sem sentido de arte, mas a sua grandiosidade é espectacular. Autora desta escultura, a jovem Joana de Vasconcelos nascida em Paris em 1971, que tem esculturas espalhadas por todo o País e estrangeiro. Talvez por esse motivo o mérito de a expor no CCB. É o que deparamos à entrada dessa sala de exposições.

A exposição localizada no piso -1 é composta por 5 salas, 3 com fotos e 2 com curtas-metragens, ladeadas à direita por um longo corredor, também este expondo fotos. Salas amplas e desprovidas de quaisquer móveis mostram as cerca de 50 fotografias a preto e banco, como convém neste caso, iluminadas por projectores. Do tecto não é enviada qualquer iluminação. Os projectores asseguram a iluminação suficiente à exposição.
São fotos confrangedoras da emigração portuguesa para França, mostrando desde a sua passagem clandestina a pé pelos Pirinéus, ao desembarque na gare de Austerlitz. Famílias carregadas de malas, sacos e filhos ao colo; os acampamentos em Noisy-le-Grand; os bairros de lata onde viviam velhos novos e crianças no meio dum lamaçal imundo; as barracas de lata onde estes viviam com as fotos dos entes queridos, que se assemelhavam às que têm sido demolidas em Lisboa; as longas filas nos chafarizes para obtenção de água; o trabalho árduo na construção civil; etc. As últimas fotos mostram um cartaz da CGT (Confederação Geral de Trabalhadores) de 1964 e o Piquete dos Sindicalistas da CGT, que dava ajuda e orientava os recém-chegados e lhes expunha os seus direitos (da forma como viviam seria que tinham direitos? Mais pareciam escravos do que trabalhadores com direitos). As curtas-metragens, uma em francês e outra em português, das quais vi algumas passagens, relatavam em pormenor todos estes casos. Portugueses emigrantes contam os momentos vividos na época. Os camiões que os transportavam como animais e os largavam na fronteira francesa a mais de 30 horas de caminho a pé para o destino. Os mais novos lá se iam aguentando, mas os mais velhos, ficando para trás, por vezes desmaiavam. Seguiam aos 200 de cada vez e diariamente. A sede era o inimigo principal. Bebiam das poças.
O filme de José Vieira, ele próprio emigrante em França, editado em Março de 2001, relatando muitas destas passagens tem como música de fundo as baladas de “Zeca Afonso”.

Vim transtornado com o que vi. É chocante relembrar tudo aquilo que os nossos conterrâneos passaram em busca de um mundo melhor.
Recordei antigos amigos que também partiram para França mas, sem todavia se queixaram das condições em que viviam. Por vergonha ou teriam tido mais sorte? Nunca o saberei.
Hoje, recebemos imigrantes de leste e vingamo-nos do que passámos. Não é justo. Conheço alguns imigrantes, principalmente de leste, pessoas trabalhadoras, cultas, uma delas era empregada de limpeza na firma onde trabalhei, uma senhora com curso de enfermagem. No meu condomínio que andava em obras de limpeza exterior, trabalhava um moldavo, pessoa correctíssima, electricista de profissão. Estava empregado exercendo a sua profissão mas saiu porque não o puseram na Segurança Social e não lhe passavam recibos. Teve de vir para as obras.

Milhares de portugueses emigraram para países longínquos, os açorianos para a América, os nortenhos para França, muitos para fugir à vida militar, outros por causa da ditadura salazarista, a repressão, a PIDE, a miséria, a falta de emprego e os baixos salários tudo isto contribuiu para este êxodo. O trabalho lá fora era duro, mas os emigrantes sujeitavam-se. Trabalhavam na construção civil, ou como empregados de mesa ou cozinha.
Pela comunicação social temos conhecimento de nova vaga de emigração. A vida sócio-económica actual, os sucessivos aumentos de bens de primeira necessidade, a falta de emprego e os baixos salários assim a proporciona. Hoje são os imigrantes do Brasil que vêm servir ao balcão, empregados nas lojas, bares ou mesmo serventes de pedreiro.
Os provenientes dos chamados países de leste, tal como os nossos emigrantes, vieram em busca de trabalho que não tinham, num País acolhedor e hospitaleiro sem antecedentes racistas. Sujeitam-se aos trabalhos que os portugueses “agora” não querem fazer, preferindo fazê-lo longe do seu País e dos olhares dos seus conterrâneos.
Temos a construção civil cheia desses povos, muitos deles com cursos superiores, educados e trabalhadores.
Em contrapartida recebemos outros, principalmente do Brasil, pessoal feminino que não conseguindo emprego, ou não aceitando o que se lhe oferece, dedicarem-se à venda do seu corpo.

A maioria dos imigrantes ao entrarem em Portugal tentam aprender a nossa língua e vemos muitos destes, em particular os de leste, com uma facilidade espantosa muito rapidamente dominam o português.
Na realidade é fundamental a aprendizagem da língua do país em que nos inserimos. Uma forma de comunicação e maior facilidade na integração nesse país. Não é por acaso que estes emigrantes são bem aceites em Portugal.
Qualquer português que emigre para França, por exemplo, se falar perfeitamente o francês depressa conseguirá uma colocação estável e bem remunerada. Caso contrário espera-o um emprego na construção civil onde a língua pouco importa.

Verdade seja dita: mercê dessa imigração a construção civil em Portugal vai laborando. Os construtores civis deveriam ter isto em atenção e pagar condignamente a esse pessoal.

O ditado “não faças aos outros, aquilo que não queres que te façam” deveria ser levado mais à letra.

Em busca de comida, procura de melhor ambiente, fuga aos Invernos rigorosos ou procura de acasalamento, os animais migram. O homem, por estes ou outros motivos, mas principalmente por procura de melhor salário, migram e cada vez mais. As migrações desenvolveram-se e aumentaram em todo o mundo nos últimos anos. A livre circulação de povos na zona euro, a evolução tecnológica dos transportes, a facilidade e rapidez com que nos deslocamos para qualquer parte do mundo, são a causa desse aumento desmesurado de migrações.

Na época, com regime ditatorial em que vivíamos, todos queriam viver condignamente e tentaram “a salto” um emprego e melhor salário num outro país. Sem saberem foram para o inferno.
Carlos Soares

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ILHA VERDE


Depois de muitas viagens optei pela visita aos Açores. Nunca lá tinha ido. A ilha eleita foi a de São Miguel, talvez por ser a principal. Duma maneira geral sempre que viajo gosto de apreciar em pormenor o que visito. Percorri os 65 por 16 km da ilha, indo de vila em vila, aldeia em aldeia, destacando principalmente:










  • A LAGOA DAS SETE CIDADES, a ocidente da ilha.

  • A LAGOA DO FOGO, ao centro.

  • AS FURNAS, com a sua lagoa rasgada entre jardins e florestas carregada de flores, águas minerais e termais. O fervilhar das nascentes onde, por tradição se cozinha o famoso cozido.

  • O NORDESTE, a oriente da ilha, pelo Pico da Vara, com os seus 1080 mt. de altitude, onde o verde é mais verde e a mais florida vegetação deu o nome à "ILHA VERDE"






  • O ILHÉU DE VILA FRANCA, próximo da Vila Franca do Campo, uma Reserva Natural que dista cerca de 1km da costa.

    A sua gastronomia como a caldeirada de peixe, o cozido das Furnas, os mariscos, ananases, queijos, licores, chás, o famoso "Bolo Lêvedo", etc; a simpatia dos micaelenses, o ameno clima, os seus cinco séculos de história com as inúmeras igrejas centenárias dum interior riquíssimo, o asseio e limpeza das cidades, vilas e aldeias... e até o nevoeiro no cume das montanhas oferece uma beleza, um bem estar e um desejo de voltar rapidamente a esta ilha.









Lisboa, 28 de Julho de 2009




Carlos Soares

terça-feira, 28 de julho de 2009

PORTUGAL NO ORIENTE

Há pouco tempo, tendo reparado a existência do Museu do Oriente, em Alcântara, não resisti à tentação duma visita.
Eram 2 da tarde. Havia uma pequena fila para entrar. Aguardei pouco tempo e comecei pelo piso 0. “Máscaras da Ásia” – A visita não era guiada, mas as suas mensagens eram elucidativas.
Estas máscaras outrora ligadas a rituais religiosos, davam a conhecer o aspecto visível de seres sobrenaturais, ou divindades mitológicas. Hoje são utilizadas em danças, espectáculos, festas ou teatros.
Da mitologia hindu, os deuses “Brahma”, “Vishnu”, Shiva”, entre outros, estão representados nesta exposição. Foram as que mais me despertaram a atenção pela sua riqueza e policromia. Máscaras grandes vermelhas com adornos dourados. Havia-as também representando animais, como o crocodilo, o macaco ou o demónio. Mais adiante vejo outra máscara de “Shiva” sob a forma de caçador. Uma enorme cauda de pavão, em leque, contorna-a; missanga prateada brilhante e penas vermelhas enfeitam toda a máscara. Um trabalho de artista e de paciência.
Sri Lanka, Coreia, Indonésia, Tailândia, Japão, etc., estão representados nesta exposição com as suas não menos interessantes e diversificadas máscaras. Do Tibete chegam-nos as máscaras das filhas da Rainha dos Demónios… as coisas que aprendemos nestas exposições.
Subo ao primeiro piso por uma larga escadaria iluminada sob os degraus. É a exposição de Macau.
Máscara do teatro Wayan Wong (Indonésia)
As salas são escuras. As vitrinas expõem biombos, pinturas, sedas, marionetas, com uma iluminação muito ténue. As inscrições quase não se lêem. Fiz reparo disso a uma empregada. Foi-me informado que irão reparar essa falta. No entanto a luz de fraca iluminação é propositada, em virtude da preservação dos tecidos e desenhos que não devem estar expostos à claridade. De três em três meses são trocados por outros.
Nas paredes negras estão inscritos a branco os feitos, datas e nomes dos portugueses que aportaram a esses países do oriente no século XVI. As porcelanas, sedas e outros objectos de materiais raros e desconhecidos no ocidente, eram trazidos para a Europa.
Sendo os portugueses, o primeiro povo ocidental a chegar à China, as dezenas de crucifixos expostos são uma prova irrefutável dessa estada num mundo longínquo oriental de crenças pagãs.
Um dicionário datado de 1881 “Portuguez-China”, exposto numa vitrina confirma este feito.
Numa outra vitrina aprecio demoradamente uma maqueta de um pagode e de cada lado deste, dois altíssimos pagodes, com cerca de 14 andares cada. Pareceu-me feita de marfim e com tais pormenores que será um crime chamar-lhes de maquetas. O rendilhado, o trabalho minuciosamente recortado e pormenorizado, torna-a uma importante obra de arte.
No segundo piso o mesmo aspecto sombrio, paredes pintadas de preto, inscrições a branco. Sedas pintadas a negro e branco, marionetas, centenas de frascos de rapé estão expostos fazendo lembrar os actuais frascos de perfume. Porcelanas da Companhia das Índias, trajes de guerreiros japoneses, marionetas, estátuas, dragões, máscaras, poderão ser apreciadas neste piso. O Tibete, Japão, Índia, Timor, mostram-nos as culturas exuberantes, exóticas e milenares daqueles países.


Três horas depois saio da exposição. Medito e recordo Camões:

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto de alevanta.

Canto Primeiro – estância 3
São 17 horas. A fila para entrar é de uma extensão de umas centenas de metros.
É gratificante verificar o interesse que o povo português nutre pela cultura. Ou seria porque a entrada era gratuita?
Lisboa, 27 de Julho de 2009
Carlos Soares