Há pouco tempo fui ver uma exposição de fotografia a preto e banco.
Gérald Bloncourt, um Haitiano, exilado do seu país, expõe no CCB. Nessas fotos está retratado o período da emigração portuguesa para França, nos anos 60.
Uma enorme armação de ferro galvanizado com altura entre os 8 a 10 metros, sustenta em toda a sua volta e até ao topo umas centenas de garrafas vazias de vidro verde, todas elas com o gargalo para o interior como se encaixadas numa garrafeira. É uma escultura curiosa, aparentemente sem sentido de arte, mas a sua grandiosidade é espectacular. Autora desta escultura, a jovem Joana de Vasconcelos nascida em Paris em 1971, que tem esculturas espalhadas por todo o País e estrangeiro. Talvez por esse motivo o mérito de a expor no CCB. É o que deparamos à entrada dessa sala de exposições.
A exposição localizada no piso -1 é composta por 5 salas, 3 com fotos e 2 com curtas-metragens, ladeadas à direita por um longo corredor, também este expondo fotos. Salas amplas e desprovidas de quaisquer móveis mostram as cerca de 50 fotografias a preto e banco, como convém neste caso, iluminadas por projectores. Do tecto não é enviada qualquer iluminação. Os projectores asseguram a iluminação suficiente à exposição.
São fotos confrangedoras da emigração portuguesa para França, mostrando desde a sua passagem clandestina a pé pelos Pirinéus, ao desembarque na gare de Austerlitz. Famílias carregadas de malas, sacos e filhos ao colo; os acampamentos em Noisy-le-Grand; os bairros de lata onde viviam velhos novos e crianças no meio dum lamaçal imundo; as barracas de lata onde estes viviam com as fotos dos entes queridos, que se assemelhavam às que têm sido demolidas em Lisboa; as longas filas nos chafarizes para obtenção de água; o trabalho árduo na construção civil; etc. As últimas fotos mostram um cartaz da CGT (Confederação Geral de Trabalhadores) de 1964 e o Piquete dos Sindicalistas da CGT, que dava ajuda e orientava os recém-chegados e lhes expunha os seus direitos (da forma como viviam seria que tinham direitos? Mais pareciam escravos do que trabalhadores com direitos). As curtas-metragens, uma em francês e outra em português, das quais vi algumas passagens, relatavam em pormenor todos estes casos. Portugueses emigrantes contam os momentos vividos na época. Os camiões que os transportavam como animais e os largavam na fronteira francesa a mais de 30 horas de caminho a pé para o destino. Os mais novos lá se iam aguentando, mas os mais velhos, ficando para trás, por vezes desmaiavam. Seguiam aos 200 de cada vez e diariamente. A sede era o inimigo principal. Bebiam das poças.
O filme de José Vieira, ele próprio emigrante em França, editado em Março de 2001, relatando muitas destas passagens tem como música de fundo as baladas de “Zeca Afonso”.
Vim transtornado com o que vi. É chocante relembrar tudo aquilo que os nossos conterrâneos passaram em busca de um mundo melhor.
Recordei antigos amigos que também partiram para França mas, sem todavia se queixaram das condições em que viviam. Por vergonha ou teriam tido mais sorte? Nunca o saberei.
Hoje, recebemos imigrantes de leste e vingamo-nos do que passámos. Não é justo. Conheço alguns imigrantes, principalmente de leste, pessoas trabalhadoras, cultas, uma delas era empregada de limpeza na firma onde trabalhei, uma senhora com curso de enfermagem. No meu condomínio que andava em obras de limpeza exterior, trabalhava um moldavo, pessoa correctíssima, electricista de profissão. Estava empregado exercendo a sua profissão mas saiu porque não o puseram na Segurança Social e não lhe passavam recibos. Teve de vir para as obras.
Milhares de portugueses emigraram para países longínquos, os açorianos para a América, os nortenhos para França, muitos para fugir à vida militar, outros por causa da ditadura salazarista, a repressão, a PIDE, a miséria, a falta de emprego e os baixos salários tudo isto contribuiu para este êxodo. O trabalho lá fora era duro, mas os emigrantes sujeitavam-se. Trabalhavam na construção civil, ou como empregados de mesa ou cozinha.
Pela comunicação social temos conhecimento de nova vaga de emigração. A vida sócio-económica actual, os sucessivos aumentos de bens de primeira necessidade, a falta de emprego e os baixos salários assim a proporciona. Hoje são os imigrantes do Brasil que vêm servir ao balcão, empregados nas lojas, bares ou mesmo serventes de pedreiro.
Os provenientes dos chamados países de leste, tal como os nossos emigrantes, vieram em busca de trabalho que não tinham, num País acolhedor e hospitaleiro sem antecedentes racistas. Sujeitam-se aos trabalhos que os portugueses “agora” não querem fazer, preferindo fazê-lo longe do seu País e dos olhares dos seus conterrâneos.
Temos a construção civil cheia desses povos, muitos deles com cursos superiores, educados e trabalhadores.
Em contrapartida recebemos outros, principalmente do Brasil, pessoal feminino que não conseguindo emprego, ou não aceitando o que se lhe oferece, dedicarem-se à venda do seu corpo.
A maioria dos imigrantes ao entrarem em Portugal tentam aprender a nossa língua e vemos muitos destes, em particular os de leste, com uma facilidade espantosa muito rapidamente dominam o português.
Na realidade é fundamental a aprendizagem da língua do país em que nos inserimos. Uma forma de comunicação e maior facilidade na integração nesse país. Não é por acaso que estes emigrantes são bem aceites em Portugal.
Qualquer português que emigre para França, por exemplo, se falar perfeitamente o francês depressa conseguirá uma colocação estável e bem remunerada. Caso contrário espera-o um emprego na construção civil onde a língua pouco importa.
Verdade seja dita: mercê dessa imigração a construção civil em Portugal vai laborando. Os construtores civis deveriam ter isto em atenção e pagar condignamente a esse pessoal.
O ditado “não faças aos outros, aquilo que não queres que te façam” deveria ser levado mais à letra.
Em busca de comida, procura de melhor ambiente, fuga aos Invernos rigorosos ou procura de acasalamento, os animais migram. O homem, por estes ou outros motivos, mas principalmente por procura de melhor salário, migram e cada vez mais. As migrações desenvolveram-se e aumentaram em todo o mundo nos últimos anos. A livre circulação de povos na zona euro, a evolução tecnológica dos transportes, a facilidade e rapidez com que nos deslocamos para qualquer parte do mundo, são a causa desse aumento desmesurado de migrações.
Na época, com regime ditatorial em que vivíamos, todos queriam viver condignamente e tentaram “a salto” um emprego e melhor salário num outro país. Sem saberem foram para o inferno.
Uma enorme armação de ferro galvanizado com altura entre os 8 a 10 metros, sustenta em toda a sua volta e até ao topo umas centenas de garrafas vazias de vidro verde, todas elas com o gargalo para o interior como se encaixadas numa garrafeira. É uma escultura curiosa, aparentemente sem sentido de arte, mas a sua grandiosidade é espectacular. Autora desta escultura, a jovem Joana de Vasconcelos nascida em Paris em 1971, que tem esculturas espalhadas por todo o País e estrangeiro. Talvez por esse motivo o mérito de a expor no CCB. É o que deparamos à entrada dessa sala de exposições.
A exposição localizada no piso -1 é composta por 5 salas, 3 com fotos e 2 com curtas-metragens, ladeadas à direita por um longo corredor, também este expondo fotos. Salas amplas e desprovidas de quaisquer móveis mostram as cerca de 50 fotografias a preto e banco, como convém neste caso, iluminadas por projectores. Do tecto não é enviada qualquer iluminação. Os projectores asseguram a iluminação suficiente à exposição.
São fotos confrangedoras da emigração portuguesa para França, mostrando desde a sua passagem clandestina a pé pelos Pirinéus, ao desembarque na gare de Austerlitz. Famílias carregadas de malas, sacos e filhos ao colo; os acampamentos em Noisy-le-Grand; os bairros de lata onde viviam velhos novos e crianças no meio dum lamaçal imundo; as barracas de lata onde estes viviam com as fotos dos entes queridos, que se assemelhavam às que têm sido demolidas em Lisboa; as longas filas nos chafarizes para obtenção de água; o trabalho árduo na construção civil; etc. As últimas fotos mostram um cartaz da CGT (Confederação Geral de Trabalhadores) de 1964 e o Piquete dos Sindicalistas da CGT, que dava ajuda e orientava os recém-chegados e lhes expunha os seus direitos (da forma como viviam seria que tinham direitos? Mais pareciam escravos do que trabalhadores com direitos). As curtas-metragens, uma em francês e outra em português, das quais vi algumas passagens, relatavam em pormenor todos estes casos. Portugueses emigrantes contam os momentos vividos na época. Os camiões que os transportavam como animais e os largavam na fronteira francesa a mais de 30 horas de caminho a pé para o destino. Os mais novos lá se iam aguentando, mas os mais velhos, ficando para trás, por vezes desmaiavam. Seguiam aos 200 de cada vez e diariamente. A sede era o inimigo principal. Bebiam das poças.
O filme de José Vieira, ele próprio emigrante em França, editado em Março de 2001, relatando muitas destas passagens tem como música de fundo as baladas de “Zeca Afonso”.
Vim transtornado com o que vi. É chocante relembrar tudo aquilo que os nossos conterrâneos passaram em busca de um mundo melhor.
Recordei antigos amigos que também partiram para França mas, sem todavia se queixaram das condições em que viviam. Por vergonha ou teriam tido mais sorte? Nunca o saberei.
Hoje, recebemos imigrantes de leste e vingamo-nos do que passámos. Não é justo. Conheço alguns imigrantes, principalmente de leste, pessoas trabalhadoras, cultas, uma delas era empregada de limpeza na firma onde trabalhei, uma senhora com curso de enfermagem. No meu condomínio que andava em obras de limpeza exterior, trabalhava um moldavo, pessoa correctíssima, electricista de profissão. Estava empregado exercendo a sua profissão mas saiu porque não o puseram na Segurança Social e não lhe passavam recibos. Teve de vir para as obras.
Milhares de portugueses emigraram para países longínquos, os açorianos para a América, os nortenhos para França, muitos para fugir à vida militar, outros por causa da ditadura salazarista, a repressão, a PIDE, a miséria, a falta de emprego e os baixos salários tudo isto contribuiu para este êxodo. O trabalho lá fora era duro, mas os emigrantes sujeitavam-se. Trabalhavam na construção civil, ou como empregados de mesa ou cozinha.
Pela comunicação social temos conhecimento de nova vaga de emigração. A vida sócio-económica actual, os sucessivos aumentos de bens de primeira necessidade, a falta de emprego e os baixos salários assim a proporciona. Hoje são os imigrantes do Brasil que vêm servir ao balcão, empregados nas lojas, bares ou mesmo serventes de pedreiro.
Os provenientes dos chamados países de leste, tal como os nossos emigrantes, vieram em busca de trabalho que não tinham, num País acolhedor e hospitaleiro sem antecedentes racistas. Sujeitam-se aos trabalhos que os portugueses “agora” não querem fazer, preferindo fazê-lo longe do seu País e dos olhares dos seus conterrâneos.
Temos a construção civil cheia desses povos, muitos deles com cursos superiores, educados e trabalhadores.
Em contrapartida recebemos outros, principalmente do Brasil, pessoal feminino que não conseguindo emprego, ou não aceitando o que se lhe oferece, dedicarem-se à venda do seu corpo.
A maioria dos imigrantes ao entrarem em Portugal tentam aprender a nossa língua e vemos muitos destes, em particular os de leste, com uma facilidade espantosa muito rapidamente dominam o português.
Na realidade é fundamental a aprendizagem da língua do país em que nos inserimos. Uma forma de comunicação e maior facilidade na integração nesse país. Não é por acaso que estes emigrantes são bem aceites em Portugal.
Qualquer português que emigre para França, por exemplo, se falar perfeitamente o francês depressa conseguirá uma colocação estável e bem remunerada. Caso contrário espera-o um emprego na construção civil onde a língua pouco importa.
Verdade seja dita: mercê dessa imigração a construção civil em Portugal vai laborando. Os construtores civis deveriam ter isto em atenção e pagar condignamente a esse pessoal.
O ditado “não faças aos outros, aquilo que não queres que te façam” deveria ser levado mais à letra.
Em busca de comida, procura de melhor ambiente, fuga aos Invernos rigorosos ou procura de acasalamento, os animais migram. O homem, por estes ou outros motivos, mas principalmente por procura de melhor salário, migram e cada vez mais. As migrações desenvolveram-se e aumentaram em todo o mundo nos últimos anos. A livre circulação de povos na zona euro, a evolução tecnológica dos transportes, a facilidade e rapidez com que nos deslocamos para qualquer parte do mundo, são a causa desse aumento desmesurado de migrações.
Na época, com regime ditatorial em que vivíamos, todos queriam viver condignamente e tentaram “a salto” um emprego e melhor salário num outro país. Sem saberem foram para o inferno.
Carlos Soares

