quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O Pequeno Detetive


             Há umas décadas, era eu um jovem, li num matutino uma história que me ficou na memória, não me recordo qual o diário (talvez o Diário Popular que era o que eu costumava ler), nem tão pouco o seu autor. O título por certo não seria este, mas tentarei descrever a história à minha maneira.
 
            Zezinho, um garoto dos seus 10 ou 11 anos, tinha como companheira de carteira uma garota de longas tranças loiras e uns grandes olhos de um azul fascinante. Escolhera-a como sua companheira desde que entrara para a primária. Com ela repartia os petiscos que sua mãe lhe preparava para o lanche e com ela passava o recreio nas suas brincadeiras. Moravam perto da escola de forma que, logo pela manhã, ia buscá-la a casa e regressava no final das aulas na sua companhia. Julieta, como se chamava, parecia gostar do Zezinho e sempre juntos, conviviam não só nas horas de estudo como nos momentos de lazer.
            Julieta tinha uma paixão por gizes, principalmente as cores pastel, as mais claras. Muitas vezes, quando a professora estava ausente, entretinha-se a fazer rabiscos no quadro da escola. Era banal riscar paredes, muros e muitas vezes, no seu caminho casa escola, baixava-se para mais uns rabiscos no chão.
            Uma certa manhã Zezinho viu-a a falar com um homem à porta da escola. Não o conhecia, mas não gostou dele, achou-o feio e gordo. Era um homem com uns braços muito compridos e uma grande cabeça e estava a falar com a sua amiguinha. Moído de ciúmes, nada lhe disse, até que, um dia, depois de muitas visitas daquela personagem, e Julieta lhe ter oferecido uns bombons, lhe perguntou se tinha sido o homem dos braços compridos quem lhos tinha dado. Não os aceitou e mostrou-se zangado por ela falar e aceitar bombons de um desconhecido.
            «Ele é muito simpático, tem muitos bombons e rebuçados em casa.» Ripostou Julieta.
 
            Cerca de 2 semanas após a primeira visita do homem dos bombons, Zezinho no final das aulas não encontra a Julieta. Corre a escola toda sem sucesso. Vai a casa dela e pergunta se Julieta já tinha chegado. Não, não tinha e a mãe preocupada sai em busca da sua menina.
            Zezinho chega a casa e conta à mãe o desaparecimento de Julieta. A mãe, também preocupada, corre a casa da vizinha. Pouco tempo depois a azáfama era grande naquela rua, com carros da Polícia, bombeiros e GNR. Quando batem à porta de Zezinho, este treme de medo, um polícia queria falar com ele. Amedrontado e a chorar, conta o mesmo que tinha contado à mãe, que só deixou de a ver quando saíram no final das aulas.
           
            A escola, bem como as casas térreas da localidade onde viviam, eram circundadas por um pinhal, numa aldeia pacata. Polícias e guardas-republicanos iriam começar as buscas. Entretanto tinha decorrido uma hora desde que as aulas terminaram. Ninguém assinalara a presença de qualquer automóvel estranho. Zezinho queria ir com os guardas em busca da sua querida Julieta, mas a mãe bem como os agentes da autoridade não o permitiram. Barafustou, esperneou, gritou, chorou e o resultado foi ficar fechado no quarto. Durante longo tempo chorou, pontapeou a porta até que se sentou na cama a pensar. Teria de agir rapidamente, em breve a sua mãe viria abrir a porta do quarto para lhe dar o jantar. A janela do quarto dava para as traseiras e abrindo-a poderia saltar para a rua e ir procurar a sua colega.
 
            Começava a escurecer quando parte dos agentes se embrenha pelo pinhal na peugada da garota. O luar era intenso, noite de lua cheia. Havia a possibilidade de a garota se ter perdido no meio do pinhal, já que, na aldeia ninguém a vira. Apuraram os ouvidos no intuito de perscrutar algum ruído de choros ou lamentos. Os cães que os acompanhavam pareciam despistados farejando de um lado para outro.
 
            Zezinho resolutamente resolve agir. Procura uma lanterna do meio dos seus brinquedos, salta pela janela e corre em direção à escola, ocultando-se dos agentes que por ali andavam. Era dali que começaria a sua investigação. Começa a analisar onde encontrar traços de giz onde não os havia antes. Provavelmente o homem dos braços compridos tê-la-ia levado para o pinhal. Pensou ele e sorrateiramente atravessa a estrada. Escondendo-se atrás deste e daquele pinheiro, ia sondando a existência de traços de giz. Naquela manhã tinha-lhe dado 3 pauzinhos, um amarelo, um rosa e um verde alface. Meia hora decorrera sem vestígios de traços que assinalassem a passagem da garota. Teria o homem mau lhe tirado os gizes? Pensava o pequenito muito preocupado e já prestes a abandonar a pesquisa. De repente olha um pinheiro com um risquinho amarelo. Encorajado procura um outro pinheiro mais no interior e agora sim, estava na pista certa. Mais um risco num outro pinheiro e um outro mais além. Meteu-se pelo pinhal adentro em busca de mais sinais. A noite caía e não fosse a lanterna e o luar, por certo que se perderia no meio do pinhal.
            Zezinho sabia o que estava a fazer. Se, por infeliz acaso, não encontrasse o paradeiro da sua amiguinha voltaria para trás, seguindo os riscos deixados por Julieta. Não sabia as horas, mas pela fome que tinha calculou que já passaria das nove da noite. Resolutamente continuou a perseguição.
            Não, não podia ser. Se até aquele momento tudo correra de feição, agora teria de ser mais cauteloso. A mochila cor-de-rosa com um gatinho branco estava no chão, mesmo no meio do caminho. Baixou-se, apanhou a mochila e vasculhou o interior, um caderno, lápis, o livro de leitura e pouco mais. Os gizes não estavam lá. Provavelmente tê-los-ia metido na algibeira da bata. Andou mais uns metros na busca de traços comprometedores na esperança de os encontrar. E encontrou, um risco mais forte que os outros. Dir-se-ia que o tinha feito com irritação. Apontou a lanterna para o chão junto à árvore. Lá estava o resto do giz amarelo, ainda com um tamanho demasiado grande para ser desperdiçado. Provavelmente teria sido obrigada a abandoná-lo. Percorreu mais alguns pinheiros, mas riscos nem sombra. Que fazer? Como iria continuar sem correr o risco de se perder no meio do pinhal?
            Sentou-se no chão, desligou a lanterna e chorou. A sua cabecita tentou imaginar o que faria ele no lugar da sua amada Julieta. Ela era inteligente e provavelmente faria tudo para que, se alguém a seguisse, encontrasse vestígios da sua passagem. Era isso mesmo. Ela teria de deixar algo. Levantou-se, acendeu a lanterna e perscrutou o chão. Um pouco adiante, um pedacinho de giz branco, mais uns metros e outro bocadinho. Seguiu em frente mais uns 20 ou 30 metros sem nada encontrar. Voltou para trás para o mesmo lugar onde encontrara o pedaço de giz. Teria seguido por outro caminho? Optou por virar à direita e procurar. Estava no caminho certo, era por aí que ela tinha seguido e deixado mais um fragmento de giz. Esperançado continuou. Mais um bocadinho de giz e outro mais além. Agora era o verde alface, o último que lhe restava. Tinha esperanças que o caminho a percorrer não fosse muito longo e o giz não chegasse até ao destino. Ela era na verdade inteligente, os pedacinhos agora deixados eram mais pequeninos. Tentava dar rendimento às pistas. Continuou por mais umas centenas de metros encontrando bocadinhos de giz cada vez mais pequenos, obrigando Zezinho a mais demorada pesquisa.
            O rasto tinha acabado. Não havia mais pistas. Que fazer agora? Voltar para trás não estava na sua ideia. Continuar era arriscado. Teria de arranjar um processo de marcar o caminho para retrocesso. Mas como? Mais uma vez desliga a lanterna e senta-se cansado no chão. Olha para todo o lado e só vê pinheiros altos e lá em cima a lua brilhante, escondendo-se por detrás das ramas dos pinheiros que baloiçavam ao sabor da brisa noturna, parecia querer brincar às escondidas.
 
            A Polícia e a GNR, agora duplamente preocupados com mais o desaparecimento do Zezinho, procuravam as pistas de ambos. A mãe do Zezinho tinha alertado os agentes da saída súbita de seu filho, provavelmente no encalço de Julieta. Iria ser uma longa noite. Eram quase 11 horas. Noite cerrada com um luar que mal passava através dos ramos e apenas iluminada pelas potentes lanternas, procurando os rastos das duas crianças.
 
            Entretanto Zezinho já cansado, choramingava. Não queria voltar para trás sem descobrir onde se encontrava Julieta. Levantou-se, acendeu a lanterna e pegou num ramo de pinheiro. No chão desenhou uma seta e à medida que ia progredindo no interior do pinhal, ia desenhando novas setas. Desliga a lanterna para poupar pilhas e avança guiando-se pelo luar. Apetecia-lhe gritar e chamar “JULIETA”, mas o receio de ser ouvido pelo seu raptor, travou-lhe o ímpeto. Tropeçou, caiu, levantou-se e sempre a choramingar e a chamar em voz sumida por Julieta, avançava, marcava a seta e prosseguia. Voltou a acender a lanterna. Sempre via melhor o chão que pisava. De repente estaca e olha ao fundo. Uma estrelinha no meio do pinhal parecia chamá-lo. Recorda-se do presépio e da estrela que guiou os Reis Magos até ao Menino Jesus. Corre naquela direção o mais que as suas pernitas e o luar lhe permitiam. A estrelinha estava mais próxima. Cerca de 200 metros mais além verifica não se tratar de uma estrelinha, mas sim um candeeiro a petróleo dentro de um casebre de madeira. Esperançado de que fosse naquele barracão que o homem mau tinha a sua amiguinha, apagou a lanterna e resolutamente avançou sem ruído. A porta não tinha fechadura e facilmente a empurrou com muito cuidado. Espreitou e deparou-se com uma grande sala, desprovida de móveis. Apenas uma tosca mesa e duas cadeiras. Abafou um grito quando viu a Julieta sentada numa delas, amarrada e a chorar.
 
            A GNR continuava na perseguição das crianças até que, ao longe, depara com uma luz que tão depressa era visível como desaparecia, como se fosse uma lanterna transportada por alguém que se deslocava no interior do pinhal. Aceleraram os passos e calcularam tratar-se de alguém portador de uma lanterna. Talvez o raptor ou o pequeno Zezinho.
 
            Zezinho abre os olhos. Olha em redor e vê homens vestidos de branco. Inocentemente pergunta: «Estou no céu?»
            «Não Zezinho. Estás no hospital. A tua mamã está lá fora. Vem já ver-te.» Disse o médico.
            «A Julieta?» Perguntou ansioso o rapazito.
            «Está bem. Está ali ao lado, mas vai daqui a pouco para casa.»
            A mãe de Zezinho aproxima-se do filho e abraça-o a chorar.
            «És um valente querido filho. Graças a ti, os senhores guardas encontraram a Julieta.»
            «Que me aconteceu para eu estar no hospital?»
            «O Homem que raptou a Julieta bateu-te com um pau e tu desmaiaste, mas agora está preso e quando sair vai ser deportado para a terra dele.»
            «Estou doente?»
            «Não querido, apenas tens um “galo” na cabeça. Já te fizeram exames e estás bem. Amanhã poderás ver a tua amiguinha Julieta.» Disse a mãe a sorrir e continuou: «sabes como os senhores da polícia te chamam? O pequeno detetive.»