Esta história passa-se em Paris,
cidade luz, onde o romance é obrigatório e o amor acontece. Cidade onde a noite
é destinada a amar, onde é proibido dormir.
Junto
ao rio Sena que, sem pressa, se encaminha para o Canal da Mancha parecendo
atrasar o passo no centro da cidade para apreciar os seus majestosos monumentos
e parando mesmo ao atravessar, sob as magníficas pontes, vivia a personagem
deste romance, Emmanuelle (a partir de aqui o seu nome passará a “Ema” Caret.
Da sua janela no último andar daquele prédio na Rue de Rivoli, margem direita do rio, via o famoso Jardin des Tuileries. Muitos dos seus
quadros tinham sido pintados nesse jardim. Ema, para além de pintora, era uma
conceituada restauradora de obras de arte, profissão que vinha desenvolvendo
desde há longos anos. Vivia só. Divorciara-se há algum tempo. A sua filha
dera-lhe um neto que era o seu maior tesouro e a sua companhia quando os pais
se ausentavam de Paris. Embora reformada continuava a trabalhar no restauro de
quadros como sempre fizera e com a mesma dedicação. Ema, uma mulher meiga e
carinhosa, dedicava a sua vida ao trabalho, à filha e neto, mas faltava-lhe
algo mais; um abraço, um carinho uma palavra doce de alguém como aquele que
conhecera um ano após o divórcio.
Era uma tarde de
junho, Ema restaurava o famoso quadro de Velasquez (O Triunfo de Baco), do Museu Nacional Do Prado. Aquele rosto à
esquerda, visto à lupa, fez-lhe lembrar alguém que conhecera havia uns anos,
Claude Croze. Já não trabalhava na mesma empresa, como pudera constatar. Não
tinha nenhum contacto de Claude. Estivera apaixonada por ele. Amara-o
profundamente. Porquê lembrar-se dele? Decorrera tanto tempo… esta personagem não
lhe saía da cabeça. Que seria feito dele? Seria que o encontraria nas redes
sociais? Não resistiu. Ligou o
computador e procurou-o. Encontrou. Peço-lhe
amizade? Não, não peço. É um homem
casado… seria ainda? Todos os dias consultava a sua página, bisbilhotava o
passado e presente de Claude, até que se decidiu. Pediu-lhe amizade.
Cerca de três anos
antes, Emmanuelle num dos seus passeios pelos Campos Elísios observando as vitrinas,
não resiste a uma montra que expunha uma coleção de vestidos, uma coleção de
verão. Demora algum tempo a contemplá-la. Ao seu lado um cavalheiro olha-a e,
balbucia como se falasse para si próprio «ficava-lhe bem, o azul.»
Ema não resiste a
um sorriso mal disfarçado.
«Como?»
«Oh… desculpe,
falava comigo próprio.» Responde o cavalheiro olhando-a fixamente nos olhos e
não resistindo conclui. «Mas o azul ficava-lhe bem.»
Emmanuelle desafia-o igualmente com o mesmo
olhar, sem pestanejar.
«Obrigado, mas
gosto mais daquele.» Contrapõe, apontando para um outro que tanto poderia ser o
verde como outro qualquer.
«Permita-me que me
apresente…» Diz o homem fazendo uma vénia, «Croze, Claude Croze.»
Ela sorri.
Estende-lhe a mão que ele beija. «Emmanuelle Caret, Ema pour les amis.»
Emmanuelle
despede-se depois de aceitar o seu cartão-de-visita. Era um vendedor de
material para pintura. Talvez seja útil,
pensou.
Já em casa Ema
criticava-se a si própria. Mas que
imprudente que fui. Porque lhe dei conversa? Devo estar maluca. Pegou no
cartão e atirou-o para o cesto dos papéis. À noite, já na cama, pensou nele.
Levantou-se e foi recolher o cartão-de-visita. Voltou a lê-lo. Preciso de pincéis. Vou guardá-lo.
Ema tentava
esquecer aquele homem, mas havia qualquer coisa no seu olhar que Ema não conseguia
resistir. Resistiu 8 dias. Telefonou-lhe. Precisava de uns pincéis com pelo de
marta e pediu-lhos.
Claude recebe um
pedido de amizade através das redes sociais. Era da sua ex-namorada Ema, que
não via há algum tempo. Tinham-se zangado por um capricho sem fundamento.
Foi o início de
uma troca de correspondência que, a partir daí, começou a ser diária.
Reavivaram os bons momentos passados uns anos antes. Recordaram como se
conheceram, como se apaixonaram nos primeiros encontros, as tardes passadas
sobre as magníficas pontes que cruzam o rio Sena e que eram palco dos abraços e
beijos a que não resistiam, dos passeios noturnos após o jantar em restaurantes
junto ao rio, nas noites loucas de amor que jamais esqueceriam.
Renasceu
assim o mesmo amor que nutriam e, sem se aperceberem, viram-se envolvidos
novamente numa noite de outubro numa cama de hotel.
«Oh, querida, como
foi bom teres-me encontrado.» Disse-lhe ele abraçando-a com carinho e beijando-a
com ternura.
Ema nada disse,
limitando-se a olhá-lo com o mesmo olhar com que o cativara, envolvendo-o com
os seus braços e beijando-o apaixonadamente.
Nos meses
seguintes, os telefonemas e mensagens tornaram-se constantes. Pela manhã ao
acordarem havia sempre um carinho no telemóvel. As mensagens de hora a hora apareciam nos Smartphones de ambos. Amavam-se
pela madrugada dentro em mensagens. Escreviam loucuras de amor um ao outro.
«Querido, é tão
bom ter-te aqui agarradinho a mim.» Escrevia Ema nas suas mensagens.
«Tens os pés tão
frios, amor… vou aquecê-los,» respondia Claude e continuava… «vou aquecê-los
com os meus beijos.»
Muitas noites eram
passadas a amarem-se platonicamente.
Claude insistia
num novo encontro, mas Ema esquivava-se.
«Amor, eu queria,
mas não posso, não devo. És casado.» Dizia Ema.
«Vamos tomar um
café apenas.» Insistia Claude.
Passavam os meses
e Ema rejeitava sempre quaisquer encontros. Amava-o, mas não queria voltar a
vê-lo. Era um homem casado e não queria sofrer como sofrera outrora quando
soube que Claude era casado. Debatia-se constantemente contra a sua consciência.
Chegou mesmo a dizer-lhe que se arrependera daquele fortuito encontro. Agora já
não lhe dizia “eu queria, mas não posso, não devo”. Agora era: NÃO QUERO, NÃO
POSSO, NÃO DEVO. As zangas começavam novamente. Ainda houve uma tentativa de se
tronarem apenas amigos, mas não resultou. Cada vez se tornavam mais agressivos.
Por duas vezes o cortou do Facebook e
por duas vezes lhe reenviou o pedido de amizade. Ela sofria e fazia sofrer
aquele que amava. À noite pensava nele, virava e revirava-se na cama pensando
tê-lo junto a si. Acariciava o seu corpo pensando que as suas mãos eram as
dele. Doía, doía muito amar aquele homem que não era seu.
Ema não queria
gostar dele, mas não conseguia esquecê-lo. Implicava com tudo o que ele
escrevia ou dizia. Começou a tratá-lo com rudeza, chegando mesmo a tratá-lo
mal. Claude tentava apaziguar e esquecer, não gostava da reviravolta daquela
que também amava. Emmanuelle já não era a Ema de há uns pares meses, a
apaixonada, a romântica, a carinhosa. Tornara-se arrogante, menos feminina e
até revoltada.
Uma certa tarde
Emannuelle recebe uma chamada de uma mulher que de imediato reconhece ter-se
enganado no número. Ema não acreditou tratar-se de um engano, pensou em tudo
menos num engano. Furiosa telefona a Claude.
«Deste este meu
número a alguém?»
«Não, Ema. Que
disparate…»
«Telefonaram-me,
uma mulher.»
«Que queria?»
«Disse-me que foi
por engano.»
«É natural, porquê
essa indignação?»
«Dá-me o telefone
da tua mulher. Não confio em ti. Deixas o telefone por aí…»
Claude deu-lhe o
número. Não era o mesmo da chamada recebida.
Estas cenas
começaram a ser diárias e Claude, sempre que Ema lhe vinha com estas conversas,
ficava furioso e deixava de escrever por uns dias até que um cedia e voltavam
às conversas, agora mais espaçadas.
Um dia, Claude
cansado daquelas atitudes, da forma como ela falava, dos ataques e falta de
confiança, convenceu-se que Ema se cansara, que queria que tudo acabasse. Deixa
de lhe escrever.
«Ema já não me ama. Penso que queira acabar
definitivamente. Vou fazer-lhe a vontade. Não suporto mais as suas mensagens
cheias rancor.» Pensava Claude desesperado. Um dia tinha-lhe dito: prefiro o teu silêncio, dói menos que menos
que as tuas amargas palavras.
Ema, furiosa,
elimina o número guardado no seu telefone e corta-o do Facebook. Mais de um mês passou sem que soubessem um do outro.
Finalmente tudo
tinha acabado, pensava Ema. Ou melhor, pensava a sua consciência, porque Emmanuele
não dormia, não suportava aquele fim. Não tinha o seu amor nas redes sociais,
não sabia o seu número de telefone por o ter eliminado e não queria voltar a
pedir-lhe novamente amizade. Que seria feito dele? Olhava o telefone repetidamente
na esperança de uma mensagem. Não, Claude
não fugiu. Vai voltar. Amanhã receberei um telefonema ou uma mensagem. Estes
pensamentos eram diários e a preocupação começava a tornar-se extenuante e
preocupante. Acontecera alguma coisa?
Claude, Claude, telefona-me. Telefona-me amor. Há 63 dias que não falava
com ele e nunca mais recebera notícias. Por sua vez Claude deixara de abrir,
escrever ou colocar fotos no Facebook.
As noites tornaram-se atrozes e cruéis. Não dormia, queria saber do seu Claude,
mas não queria pedir-lhe mais uma vez amizade. Se Claude gostava dela, devia
contactá-la. Ele era orgulhoso, mas ela também o era. Foi ele que me deixou de contactar, se gostasse de mim escrevia,
mandava uma mensagem. Gostava apenas de saber se está bem. Teria acontecido
alguma coisa? Eram estes os pensamentos constantes de Ema, mas principalmente
à noite quando se deitava. Durante o dia ia-se entretendo com o restauro do
quadro. Não o odiava, mas tinha-lhe raiva.
Três meses
decorreram e nada de notícias de Claude. Começou a preocupar-se e pensou no
pior. Não lhe iria pedir amizade, mas ia mandar-lhe uma mensagem. Mas como?
Não resistiu e
pediu-lhe amizade. Oito dias passaram sem receber resposta. Mais preocupada
ficou.
«Estaria doente? Num hospital? Terá arranjado
outra? Ó meu querido Deus…» não
decorara o número do seu telefone. Procurou na papelada das suas anotações, mas
o telefone não aparecia. Tinha anotado alguns números, mas nenhum de Claude.
Havia um número que lhe ocorreu ser o da sua mulher. Mas como iria contactá-la?
Que lhe diria? Pediria a um amigo que o fizesse? Não tinha amigos tão íntimos
como isso. Não iria expor-se a explicações do seu íntimo. Teria de ser ela a
resolver o assunto.
«Madame Croze?
Fala do BNP Paribas, o seu marido
está?»
«O meu marido morreu…» de imediato Ema
ficou lívida deixando cair o telefone
e quando o apanhou, já a chamada se tinha desligado, por isso não ouviu o resto
da frase «… pelo menos para mim.»
«Ó meu Deus, porque me castigas. Não merecia
isto. Por favor… traz-mo de volta. Não acredito que tenha morrido.» Chorava
Ema copiosamente.
Três meses
aproximadamente decorreram após aquele telefonema. O trabalho de Emmanuelle
parara e limitava-se a deambular pelas ruas, ver vitrinas. Não podia desabafar
com as amigas, doía-lhe o coração. Emagrecera.
Numa
tarde de verão descendo os Campos Elísios, Ema parando nesta ou naquela montra
recordava os passeios que tinham dado por aquela avenida, ficava-lhe bem o azul. Recordou as primeiras palavras proferidas
por Claude. De repente tem uma visão.
Seria possível?
Nessa mesma tarde,
mas em sentido contrário, Claude subia os Campos Elísios em passo lento, também
ele olhando as montras alheio a quem passava olhando os transeuntes, mas não
vendo ninguém.
«CLAUDE!» Grita
uma voz.
Claude olha para o
local de onde vem a voz. Fica paralisado.
«Ó, ó, ó. Ema,
amor, tu… tu aqui?»
«Ó querido.»
Exclama Ema atirando-se para os braços de Claude e beijando-o com fervor. E,
junto ao ouvido, segreda-lhe: «tua mulher disse-me que… que tinhas
morrido…»
«Morri, mas
renasci para ti.» Disse abraçando-a com ternura colando a sua à boca dela.
As pessoas
olhavam, sorriam e seguiam. Não era normal verem um casal de idosos abraçados
aos beijos no meio da rua como dois adolescentes.