No bairro do
Restelo vivia Isabel Teixeira, senhora de 45 anos. Enviuvara havia 2 anos. O
seu aspeto jovial e gracioso não aplanava a sua idade. A morte do marido, um
reputado banqueiro bastante mais velho, deixara-lhe como herança, para além de
uma confortável reforma, alguns negócios, mas principalmente a mansão onde viviam,
no Restelo e dois automóveis. Não tiveram filhos. A sua família limitava-se a
uma irmã, mais velha e divorciada, que vivia em França há alguns anos com a
filha, sua sobrinha. Da parte do marido não ficaram descendentes.
A vivenda, uma mansão de rés-do-chão e
1.º andar, é dotada de mobiliário moderno, mas com gosto. À entrada deparamos
com um enorme hall todo em mármore. Em frente, 2 largas janelas dão para o
jardim com piscina. Sobre elas, no 1.º andar, uma varanda interior a toda a largura
do hall, cujo acesso é a majestosa escadaria com os seus 24 degraus, toda em
pedra mármore, à esquerda, encrostada na parede que divide o hall do salão. Sob
a escadaria situa-se a porta para a garagem na cave. Ao lado da porta, uma
mesinha com candeeiro de pé alto e uma cadeira. Um enorme candeeiro pende do
teto. No primeiro andar, à esquerda, para além dos quartos com casas de banho,
duas pequenas salas de televisão e biblioteca e uma cozinha compõem o andar. O salão térreo dispõe de uma enorme cozinha
onde amiudadas vezes ofereciam banquetes.
Após a morte do marido, Isabel fazia
toda a sua vida no 1.º andar, de tal forma que mandara colocar um
intercomunicador nesse piso, evitando assim descer a escadaria quando tocavam à
porta. Dispensara todo o pessoal permanente. Gostava de estar só. As limpezas e
tratamento do jardim, uma vez por semana, eram assegurados por uma empresa
especializada. Para gerir os negócios do marido tinha pessoal competente. O
advogado a quem confiava tudo, era um jovem de 28 anos que desde que entrara
para a faculdade começara a trabalhar para o casal. Isabel gostava dele. Era
atencioso, dedicado, mas um pouco atrevido. Mesmo quando o marido era vivo, não
deixava de lhe atirar um piropo. Isabel achava graça e até gostava dos seus
ditos lisonjeiros, mas respeitadores. Chamava-se Carlos Sousa.
Dr. Carlos Sousa, advogado, trabalhava
em exclusivo para o banqueiro Teixeira, não só a nível profissional como
igualmente a nível particular. Desde a morte do seu empregador, havia 2 anos,
não deixou de continuar a trabalhar para a viúva, a pedido desta, gerindo os
poucos negócios pendentes com uma dedicação e esmero irrepreensíveis. Isabel
depositava a maior confiança naquele jovem.
«Isabel! Temos um problema demasiado
complexo na empresa “X”. Não é assunto para ser tratado por telefone.» Dizia
Carlos Sousa à sua patroa.
«É
grave?»
«Sim, e urgente.» Responde Carlos.
«Pode
ficar para amanhã de manhã?»
«Não é conveniente, Isabel.»
«Mas,
são quase sete… estava a preparar o jantar…»
«Permita-me que a convide para jantar e aproveitamos
para falar sobre assunto.»
Era a primeira vez que Carlos lhe fazia
tal convite. Isabel sem pensar aceitou. Marcaram o restaurante. Isabel ainda
pegou no telefone para desistir, invocando uma desculpa, mas acabou por afastar
a ideia.
«Que
mal tem um jantar? Já o tínhamos feito em companhia de meu marido. Um jantar de
negócios é tão normal… porque estou preocupada?» Pensava Isabel. Todavia
vestiu-se com esmero.
«Olá Isabel. Se soubesse que vinha tão
bonita teria vindo com um fato mais formal.» Disse Carlos que a aguardava à
entrada do restaurante.
«Você é sempre o mesmo galanteador,
Carlos.» Respondeu Isabel sorrindo.
Carlos deu-lhe o braço e dirigiram-se
para a mesa previamente reservada. Carlos não arredava os olhos de Isabel, ao
ponto dela corar um pouco.
«Então Carlos?»
«Perdoe-me Isabel. Há muito tempo que
não a via tão bela, tão cheia de charme. Deveria sair sempre assim. Parece uma
jovem estrela de cinema.»
«Jovem? Com 45 anos?»
«Minta. Diga a idade que aparenta. 28,
a minha idade.» Exclamou Carlos muito sério.
Isabel sentia-se pouco à vontade, mesmo
conhecendo Carlos há mais de oito anos.
«Já sou uma viúva, Carlos. Os meus 45
anos estão cá.»
«O importante não é a idade, mas o
aspeto e a mente. Não tenho retirado os olhos de si desde que chegou, tentando
encontrar-lhe os traços de uma mulher madura, mas apenas vejo uma jovem.»
«Lisonjeiro como sempre, Carlos.»
Retorquiu embevecida Isabel.
O jantar prolongou-se até tarde. As
lisonjas, galanteios continuaram, deixando para trás os problemas da empresa
que motivaram aquele encontro. Problema que à partida estava solucionado pelo
advogado Carlos. Tinha-se detetado uma tentativa de fraude por um dos administradores
que de imediato fora afastado.
Isabel
chegou a casa e a primeira coisa que fez foi olhar-se ao espelho durante longos
momentos. Aparento assim tão pouca idade?
O Carlos estaria a ser sincero ou estaria a fazer-lhe a corte? Que era um
cavalheiro, isso tenho a certeza. Seguiu-me no seu carro até eu entrar na
garagem. É um elegante cavalheiro. Que pena ter só 28 anos.
Com estes pensamentos Isabel foi-se deitar. Mal
dormiu. Imaginou-se com um jovem de 28 anos.
«Que
diriam as pessoas? Notariam a diferença de idades? Que absurdo.» Gritou Isabel sentando-se da cama.
«Que
disparates estão na minha cabeça? Não passou de um jantar de trabalho. O assunto
ficou resolvido. O Carlos sempre foi um galanteador… será que me vai voltar a
convidar para jantar? Se o fizer, arranjo uma desculpa.»
Houve sim, houve outros convites para
jantares. A princípio esporádicos, depois semanais e por fim quase diários.
Isabel não arranjou desculpas para nenhum dos convites.
Três meses depois os jantares passaram
a diários, mas destas vezes em casa de Isabel. Carlos apaparicava-a com os seus
dotes culinários, dotes desconhecidos até então por Isabel. Deixara o seu apartamento
de solteiro e passara a viver no Restelo. Ao fim de 6 meses estavam casados. Um
casamento discreto sem convidados.
Aproximava-se o mês de dezembro e Isabel
planeara passar o Natal com sua irmã e sobrinha, aproveitando para lhes
apresentar o seu ‘novo’ marido, mas como muitas vezes acontece, os imprevistos
surgem e os planos são alterados.
«Estiveste a chorar?» Surpreende-se
Carlos ao entrar no final da tarde em casa.
«Recebi um telefonema da minha
sobrinha. Minha irmã faleceu esta tarde. Um ataque cardíaco.» Responde Isabel
agarrando-se ao marido lavada em lágrimas e soluçando, continua. «Temos de ir
ao funeral. Ela queria ser sepultada em Paris.»
Partiram no dia seguinte. À sua chegada
uma jovem de 25 anos, morena de longos cabelos negros e olhos pretos, vestida
de luto, aguardava-os. Isabel corre para ela e abraça-a. Carlos olha-a durante
os longos segundos em que permanecem abraçadas, sem conseguir desviar os olhos
daquela deusa. Quando Isabel se volta, dirige-se ao marido apresentando-os.
«Elisabete, o meu marido Carlos.»
«Encantado.» Responde Carlos estendendo-lhe
a mão, mas em troca recebe três beijos nas faces.
Ao volante Elisabete olhava Carlos
através do retrovisor, reparando que este não tirava os olhos do pequeno
espelho sobre o para-brisas, abstraindo-se da conversa entre tia e sobrinha.
«Que dizes, Carlos?» Pergunta Isabel a
dada altura.
«Desculpa, estava tão absorto. Não ouvi
a pergunta.» Confessa Carlos.
«A Elisabete diz para ficarmos lá em
casa esta noite. Não vale a pena procurarmos hotel.»
«Por mim tudo bem. Decide tu.»
Jantaram lá em casa. Ficaram lá em
casa. À mesa de jantar Carlos ficou em frente à mulher e Elisabete à sua
esquerda. Fez um enorme esforço para olhar sempre em frente, limitando-se a
olhar à esquerda apenas quando era obrigado a responder a esta ou aquela
pergunta de Elisabete. Aquela garota tinha o condão de o enfeitiçar. Não se
sentia à vontade. Amava a sua mulher, mas Elisabete… queria vê-la bem longe de
si.
«Que pensas fazer, Elisabete?»
Perguntava a tia.
«Não sei, tia. Sem a minha mãe aqui,
não faço nada em Paris.»
«Então irias para onde?»
«Londres ou quem sabe para Lisboa.
Achas que conseguiria emprego em Lisboa?»
«Com o teu curso não seria difícil. Há
muita falta de informáticos…» e virando-se para Carlos «não achas, Carlos?»
«Não, não é difícil, todavia em Londres
as remunerações são bem mais vantajosas.»
«Em Londres não conheço ninguém, ao
passo que, em Lisboa, para além da minha tia, tenho amigas.» Respondeu sem
demora Elisabete.
Após o jantar seguiram para a igreja
onde a falecida jazia em câmara-ardente. Os presentes, na maioria portugueses,
acercaram-se de Elisabete a quem apresentaram condolências. Elisabete quis
permanecer até mais tarde, convidando a tia e Carlos a regressarem a casa. Não
aceitaram e permaneceram até esta se retirar.
O funeral decorreu como todos os
funerais, em silêncio
Nessa
mesma tarde tomaram o avião de regresso a Lisboa.
Três meses após a morte da irmã, Isabel
recebe um telefonema de Elisabete.
«Olá tia tenho tudo resolvido em Paris.
Vou passar uns dias a Lisboa, depois decido o que fazer. Que achas?»
«Filha. Vem quando quiseres. Como de
costume podes ficar cá em casa.»
«O Carlos não se importa?»
«Que disparate, por que razão se havia
de importar?»
Mas importava-se. Embora o não dissesse
quando Isabel lho anunciou, preocupava-o a presença de Elisabete, mais a mais
uns dias lá em casa. Não tinha medo dela. Tinha medo de si próprio. Aqueles
olhos negros que o devoravam eram demasiadamente convidativos ao pecado, coisa
que Carlos temia. Amava a sua mulher e não estava na sua mente uma perfídia.
Nos dias que se seguiram amou a sua
mulher com mais ternura, como que a pedir perdão antecipado por uma traição que
juraria a si próprio não acontecer. Era forte. Conhecera algumas mulheres e
repudiara outras tantas. Não era leviano. Para Carlos o sexo não era um ato de
prazer, mas sim de amor. Tentou convencer-se que Elisabete não passava de uma
cocote habituada a ser bajulada pelos homens que se rendiam à sua beleza.
Um mês após a notícia da vinda de
Elisabete, já Carlos esquecera por completo a sobrinha da sua amada Isabel, mas
a confirmação da sua chegada para dentro de 2 dias, deixou Carlos aterrado.
Mais aterrado ficou quando Isabel lhe pede para a ir buscar ao aeroporto. Tinha
uma reunião inadiável de direção para aquele dia.
Eram 3 da tarde naquele dia de abril. O
calor anunciada a chegada da primavera. Carlos aguarda no aeroporto a chegada
do voo proveniente de Paris. Tenta alhear-se da imagem de Elisabete, mas no
meio dos passageiros destacava-se uma mulher com um vestido negro cingido ao
corpo, curto, mostrando umas pernas bem torneadas sobre uns saltos muito altos
e finos. Um generoso decote mostrava como era perfeito o seu colo. Não estava
maquilhada. Também não era necessário. A sua beleza era demasiado evidente sem
necessidade de ser coberta.
«Olá Carlos, a minha tia?» Pergunta,
dando-lhe os três habituais beijos nas faces.
«Teve uma reunião. Pediu-me para te vir
buscar. Fizeste boa viagem?»
«Foi ótima, obrigada. Está calor em
Lisboa.» Respondeu Elisabete tirando o ligeiro casaco que trazia vestido.
«O resto da bagagem?» Pergunta Carlos
vendo-a com uma pequena mala.
«Chega amanhã, despachei-a para não
pagar excesso de bagagem. Depois peço à tia para me levar à empresa
transportadora.»
Dirigiram-se ao parque onde estacionara
o carro. Carlos abre-lhe a porta e espera que Elisabete se acomode. Elisabete
entra, senta-se mostrando as longas pernas sem qualquer pudor e sorri-lhe.
«Obrigado, cavalheiro.» Agradeceu
Elisabete.
«Para onde?
«Para onde quiser Carlos.»
«Não vens cansada da viagem?»
«Não, estou bem.»
«Vou-te deixar em casa, tenho ainda de
ir ao escritório.»
«Adoro que me trate por tu, Carlos. Não
o vou tratar por tio. Concorda? Além disso, se me permite, preferia tratá-lo
também por tu. Somos quase da mesma idade…»
«Trata-me como quiseres, desde que me
trates bem.» Interrompe Carlos.
Elisabete olha-o com uma ternura que
desconcerta Carlos e exclama:
«Trato-te como se fosses a coisa mais querida do
mundo.»
Durante longos segundos permaneceram
calados. Carlos pensava em uma droga, a cocaína, e comparou Elisabete a essa
droga. O mal era experimentar, depois viciava-se. O pensamento tornou-se voz e
sem querer disse muito baixo: «Coca.»
O silêncio prolonga-se por mais de um
minuto. Repentinamente Elisabete volta-se para Carlos. «Tens alguma amiga
Coca?»
«Não, porquê
«Chamaste-me Coca…»
«Eu?!»
Elisabete não responde. Ajeita-se no
banco e o seu vestido mais curto ficou. De soslaio e olha Carlos verificando a
sua indiferença. Então exclama.
«Gosto.»
Carlos pareceu despertar da sua
meditação e olha-a com um ar interrogativo e simultaneamente admirado.
«Gostas? Gostas de quê?
«Coca. Gosto do nome. Se quiseres podes
tratar-me por Coca.»
Carlos sorri, mas não responde.
Após um momento de silêncio, Elisabete
vira-se para Carlos e pergunta.
«Já provaste?»
Mais uma vez Carlos a olha admirado e
pergunta. «Já provei o quê?»
«Coca.»
Carlos sorri, aquela garota era fogo.
«Não, não provei.»
Estavam a chegar a casa e Elisabete
vira-se para Carlos aproxima-se o mais que pode e segreda-lhe: «Se quiseres
podes provar.»
Carlos finge não perceber. Para o carro
junto à porta, sai, abre a porta a Elisabete, retira a mala da bagageira e
acompanha-a até à entrada. Dá-lhe uma chave.
«Mudámos o código do alarme. Quando
entrares tens 60 segundos para o desativar. É: 1, 4, 7, 3, 2, 1, 4, 7, 8, 9,
0.»
«Não entras comigo?»
«Não. Disse-te que tinha de ir ao
escritório.»
«Escreve-me o código num papel, são
muitos algarismos.»
«Não é necessário. Repara.» Disse
Carlos mostrando o telemóvel. «1, 4, 7. É um “I” de Isabel. 3, 2, 1, 4, 7,8, 9.
É um “C” de Carlos. Finalmente 0.»
«Engenhoso, Carlos. Ah, já agora dá-me
o teu n.º do telemóvel.» Carlos entrega-lhe um cartão-de-visita.
«Qual é a operadora?»
«Vodafone.»
«Há aqui perto algum balcão?»
«Não sei.»
«Deixa lá. Eu vejo na Internet. Vou tomar
um banho e depois vou comprar um cartão.»
«Queres que te traga um quando chegar?»
«Não, obrigada. Aproveito para dar uma
volta.»
Despediram-se com os três beijos
habituais, mas desta vez os lábios de Elisabete ficaram bem patentes nas faces
de Carlos.
Três semanas decorreram e Elisabete
parecia tendo vindo para ficar. Levantava-se cedo, saía para tomar o
pequeno-almoço, voltava e passava o resto da manhã ao computador procurando
emprego. De tarde saía, umas vezes para entrevistas de emprego, outras para
passear.
Como os quartos eram dotados de casas
de banho, Carlos saia de casa por volta das 9 e Isabel levantava-se a essa
hora, arranjava-se, tomava o pequeno-almoço em casa e saía para o escritório.
Poucas vezes se cruzava com a sobrinha que tinha por hábito ir à pastelaria
desjejuar. Não almoçavam em casa. Só ao final da tarde se reuniam para jantar.
Carlos evitava entrar em casa sem a mulher. Tinha por hábito ir ao seu encontro
e regressavam juntos, sempre que Isabel saía mais tarde, embora cada um no seu
carro.
Já se habituara a que Elisabete, mesmo
em frente à tia, não deixava de o assediar. Houvera uma manhã que, ao sair do
quarto, deparara com Elisabete a sair, nesse preciso momento, do seu quarto em
combinação transparente e sem roupa interior. Com uma descontração tão natural,
e, sem qualquer recato, deu-lhe os bons-dias com um sorriso provocante,
dirigindo-se para a cozinha.
Nesse dia Carlos não conseguiu trabalhar.
Aquele corpo não lhe saia da cabeça. Não contou a Isabel a cena. Para quê
arranjar problemas entre as duas? Isabel conhecia bem a sobrinha. Nunca lhe
passaram despercebidos os olhares que ela lhe dirigia. Também nunca comentou
com ele qualquer palavra sobre o caso. Pelas duas vezes que Elisabete o
convidara para um lanche ao meio da tarde, Carlos recusara desculpando-se com
hipotéticas entrevistas. Não compreendia qual a ideia de Elisabete. Uma relação
amorosa furtuita? Roubar um marido à tia? Não constava que tivesse arranjado um
namorado, o que não seria difícil. Também não saía sozinha à noite. Não gostava
de cozinhar nem jeito tinha para isso. As duas ou três vezes que saíram à noite
para jantar fora, portara-se como uma senhora. Era divertida e com um grande
sentido de humor. Mesmo em casa, à mesa ou na sala de televisão, mostrava-se
uma companhia agradável e debatia os problemas com um conhecimento de causa
fora de vulgar.
Carlos admirava aquela garota sensual e
meiga. Houve momentos em que a desejou. Poderia, fora de casa, tê-la amado, mas
e as consequências que daí adviriam? Tinha a certeza que após o primeiro
devaneio viria o segundo e rapidamente sua mulher se aperceberia ou, mesmo que
se não apercebesse, a sobrinha encarregar-se-ia de o demonstrar com o seu olhar.
Se, não tendo havido nada entre ambos, Elisabete já tinha demonstrado ciúmes em
momentos de mais ternura entre a tia e Carlos desviando-se para um canto da
sala agarrando-se a um livro, que faria se tivesse havido?
Carlos desejava ter uma conversa com
Isabel, mas seria sensato? Não seria Isabel que, presenciando os olhares da
sobrinha, as suas piadinhas por vezes atrevidas e a sua conduta um pouco
arrojada, falar com ela? Ou com ele? Carlos não tinha culpa, aos olhos da
mulher sempre se portara como um marido fiel, desviando a conversa da sobrinha ou
ignorando aqueles olhos carregados de desejo. Não trocaria o amor à sua mulher
por uma vampe. Gostaria de a ver longe. Era-lhe mais fácil. Estaria Isabel a
testá-lo? Não, não via a esposa fazer tamanha crueldade. Admirava-se por não
ter assistido a nenhuma discussão entre tia e sobrinha. Aparentavam um
relacionamento normal, sem discussões, sem azedumes. À noite, quando se
deitavam, amavam-se com fervor, sem demostração de ciúmes ou desconfianças.
Outubro chegou e Elisabete continuava
sem emprego. Carlos poderia tentar arranjar-lhe uma colocação, mas Elisabete
parecia não se importar com tal situação, não devia ter falta de dinheiro pelo
que, Carlos nada lhe disse. Nessa noite Elisabete saiu sem jantar.
«Que aconteceu à tua sobrinha? Saiu e
nem se despediu.» Observa Carlos já a mesa de jantar.
«Estou farta. Aquela rapariga está cada
vez pior.»
«Mas, o que fez desta vez?» Admira-se
Carlos.
«Não reparas nas conversas e nos olhares
que ela te deita?
«Claro que reparo. Que posso fazer?»
«Hoje enchi-me. Tive de lhe dizer duas
coisas. Teve o atrevimento de me dizer que eu merecia um homem mais maduro, que
tu não passavas de um menino mimado, um manequim de montra. Não a deixei continuar
e disse-lhe que estava cansada de a ter cá em casa, que procurasse emprego e
arranja-se uma casa, que queria viver em paz, que a minha paciência tinha
atingido os limites.»
«Fizeste bem. Eu também estou cansado
de tanto assédio.»
Elisabete regressou cedo, ainda estavam
a conversar na sala quando a ouviram abrir a porta, subir as escadas e
dirigir-se para o quarto sem dar as boas noites. Ouviram-na chorar.
Uma semana depois, Elisabete voltara ao
ritmo normal. Continuava com o assédio a Carlos e entre tia e sobrinha poucas
eram as conversas, limitando-se ao trivial.
Na manhã do dia seguinte Elisabete sai
cedo, ainda Carlos se arranjava na casa de banho.
Cerca das dez da manhã Carlos no escritório recebe um
telefonema de Elisabete.
«CARLOS! ACONTECEU UMA DESGRAÇA.» Grita
Elisabete, meio chorosa.
«Que aconteceu.» Pergunta Carlos
alarmado.
«A tia. A tia caiu pela escada abaixo.»
«O QUÊ? Magoou-se
«Não sei. Está inconsciente.» Responde
alarmada.
«Já ligaste para o 112?»
«Não, não liguei.»
«Eu ligo daqui. Sigo já para casa.»
Como louco, Carlos guia a toda a
velocidade para casa, depois de ligar para o 112. Entra espavorido em casa,
deixando a porta escancarada. A ambulância acabava de chegar. Depara coma
Isabel, envolta em uma poça de sangue. Tinha vestido o roupão de banho, dando a
impressão de ter saído do duche. Aproxima-se e toca-lhe na jugular. Não sente
pulsações. Com os olhos esbugalhados olha Elisabete que, num pranto, se agarra
ele. Nesse mesmo instante entram a Polícia e o pessoal da ambulância.
Nada havia a fazer. Isabel jazia morta.
Um dos agentes da Polícia anota todas as informações tanto de Carlos como de
Elisabete. Um outro agente, tendo reparado num fio de náilon cuja ponta
sobressaía da algibeira do casaco de Carlos, aproxima-se deste e, pousando-lhe
o braço sobre o ombro direito, com a mão esquerda tira-lho sem qualquer
dificuldade, guardando-o. A Polícia Judiciária fora chamada ao local. Muitas
horas depois de analisarem tudo em pormenor, pediram a ambos os contactos
telefónicos e pediram que não se ausentassem do país sem autorização. Tinha
havido uma morte que teria de ser investigada. O Corpo de Isabel iria ser
autopsiado.
Carlos estava destroçado e todos os
dias pedia informações a Elisabete de como tinha acontecido aquilo. Elisabete não
queria falar no assunto.
«Que queres que te diga? Cheguei a casa
e vi o mesmo que tu.» E não passava disso. Pelo menos teve o bom senso de
evitar olhar Carlos da sua maneira habitual, respeitando a sua dor. Carlos
deixou de jantar em casa, jantando sozinho. Chegava a casa tarde dirigindo-se
para o seu quarto e fechava a porta por dentro.
No gabinete da Polícia analisavam-se
todos os detalhes da investigação e os depoimentos dos seus moradores. A
autópsia confirmava que a vítima tinha sofrido um traumatismo craniano tendo-lhe
causado morte imediata. Aparentava um golpe profundo no pé esquerdo,
admitindo-se a hipótese de ter sido amarrada com um fio de aço ou de náilon que
lhe teria provocado a queda.
«Descobri no 4.º degrau a contar do
topo um prego na parede, sem qualquer utilidade. As impressões digitais estão
lá bem patentes. São as do marido da vítima. Este fio de náilon que retirei do
bolso do Dr. Carlos tinha sido colocado na escada fazendo a vítima, ao descer,
tropeçar nele e galgar escadaria abaixo.» Expõe um agente.
«Qual o móbil de Carlos? Que auferiria
com a morte da mulher? Casados com comunhão de bens adquiridos…» Interroga um
colega.
«Vê-se livre da mulher e junta-se
àquela “brasa”, que é a herdeira. Provavelmente estão os dois envolvidos neste
crime.»
«Custa-me a crer. O Dr. Carlos está
demasiado combalido com a morte da esposa…»
«Teatro, meu caro.»
«Vamos chamá-los, um de cada vez, e
confrontá-los-emos com este caso.»
Nessa mesma manhã Elisabete é convidada
a apresentar-se na Judiciária.
Depois de lhe ter sido exposta a
conjetura dos factos, Elisabete declara.
«Não sabia do prego na parede.»
«Quando chegou a casa e deparou com a
sua tia prostrada no chão, o que fez?»
«Telefonei ao Carlos.»
«Porque não telefonou primeiro para o
112.»
«Não sei, fiquei desorientada.»
«Quando o senhor doutor chegou que se
passou a seguir?»
«Aproximou-se da minha tia e viu-lhe a
pulsação.»
«E depois disso? Reparou se ele subiu
ao primeiro andar?»
«Eu sentei-me no chão com as mãos na
cara a chorar, não reparei.»
«Quando entrámos a senhora estava
agarrada a ele. Quanto tempo calcula que decorreu após a verificação da
pulsação e o abraço que lhe dava?»
«Não reparei.»
«Um minuto? Mais?»
«Talvez um minuto.»
«Tudo bem, Elisabete. Por agora é
tudo.»
Agora era a vez de Carlos ser
confrontado com o interrogatório Judicial.
«A que horas foi informado da queda da
sua esposa?»
«Cerca das 10 horas.»
«Que fez em seguida?»
«Telefonei para o 112 e segui para
casa.»
«Que fez quando chegou a e viu sua
esposa caída?»
«Verifiquei as pulsações de minha
mulher e logo de seguida chega a ambulância e a Polícia.»
«Subiu ao andar de cima?»
«Não compreendo a pergunta.» Esclarece
Carlos.
«Pergunto se após a verificação das
pulsações de sua esposa, subiu ao 1.º andar.»
«Não, não subi. Que iria fazer lá
cima?»
«No cimo da escadaria, mais
precisamente no 4.º degrau a contar de cima, está pregado um prego na parede.
Pode informar-nos se tem conhecimento disso?»
«Claro que sim, foi a pedido da
sobrinha de minha mulher que o preguei. Tem um quadro a emoldurar e queria
pendurá-lo naquele lugar.»
«Um quadro? Debaixo da escada?»
«Coisas de mulheres. Para quê perder
tempo com perguntas? As mulheres sabem sempre o querem…»
«E isto? Sabe o que é?» Pergunta o
agente exibindo um fio de náilon na ponta dos dedos.
«Parece-me um fio de náilon.» Responde
Carlos com a maior das franquezas.
«Como foi parar ao seu bolso?»
«Como?» Admira-se Carlos com um ar
perplexo.
«Retirei-o do bolso esquerdo do seu
casaco na manhã do acidente.» Informa o agente com um ar de chacota.
«Não deve estar a falar a sério.
«Este pedaço de fio foi colocado
naquele degrau provocando a queda de sua esposa. Na autópsia, a vítima
apresenta um profundo golpe no peito do pé, provavelmente causado por este
fio.»
«Não acredito que a minha mulher tenha
sofrido uma tentativa de assassínio. Não, não pode ser. Todavia tenho
perguntado a mim mesmo o que levaria Isabel a sair do banho e descer a escada.»
«Talvez tenham tocado à campainha da
porta.» Alvitra um dos agentes.
«Temos um intercomunicador com vídeo no
primeiro andar. Não precisava de descer. Além disso ela nunca iria abrir a
porta em robe.»
«Provavelmente veio ao intercomunicador
do piso térreo. O do primeiro andar poderá estar avariado.»
«Não, não está. Ainda há bem pouco
tempo o utilizei.»
«Analisámo-lo naquela fatídica manhã.
Foi inutilizado. Cortaram os fios.» Expõe o agente tentando ver a reação de
Carlos.
«Como? Quem teria entrado em nossa casa?
Já verificaram o vídeo de segurança na “PSG – Segurança Privada”?» Alvitra
verdadeiramente alarmado Carlos.
«É exatamente isso que lhe viemos
propor, a sua autorização para analisar o vídeo das entradas e saídas de sua
casa nos últimos dias.»
«Vou de imediato falar com a “PSG”,
nesse sentido.» Responde Carlos.
Depois
de se despedirem de Carlos os dois agentes olham-se interrogativos.
«Ainda acreditas na cumplicidade de
Carlos?»
«Não sei… todavia Elisabete ou Carlos
mentem. As declarações não condizem.»
«Vamos aguardar o visionamento das
cassetes.»
Nesse mesmo dia deslocam-se ao Monte
Estoril, sede da “PSG”. As entradas e saídas tanto da garagem como a da entrada
principal foram analisadas ao pormenor, horas minutos e segundos anotados e
estudados. Na véspera do acidente alguém entrara em casa às dez da manhã saindo
dez minutos depois. A porta só poderia ter sido aberta por Elisabete, única
pessoa no interior. Deslocaram-se igualmente à “Vodafone” para investigarem as
chamadas telefónicas efetuadas pelos dois intervenientes nos últimos dias.
De posse da gravação cedida pela “PSG”
e dos contactos efetuados pelos, agora três, intervenientes, nesta altura já
sob escutas, tiram uma fotografia ao intruso. Tratava-se de um tal Ricardo,
vendedor de automóveis, outrora vendedor de intercomunicadores. Através do
número de telefone fora fácil a sua localização.
«Conhece este cavalheiro?» Pergunta o
agente a Elisabete, mostrando-lhe a foto de Ricardo.
«Não, não conheço.» Responde de
imediato.
«Curioso. Esteve na casa da sua tia
entre as dez e as dez e dez na véspera do acidente.»
«Ah, é verdade, não o reconheci nesta
foto. É um amigo meu, a quem pedi para reparar o intercomunicador do primeiro
andar que estava avariado.»
«Ficou arranjado?»
«Não. Não conseguiu repará-lo.»
«Por agora é tudo. Tenha uma boa tarde
Elisabete. Voltaremos a contactá-la em breve.»
De imediato Elisabete telefona ao
amigo: «Ricardo, a Judiciária têm a tua fotografia, não sei como a conseguiram.
Sabem a hora que entraste e saíste da minha casa. Disse-lhes que tinhas ido lá
arranjar o intercomunicador, mas não conseguiste. Agora não te descaias.»
«É tarde para me avisares. Acabaram
agora mesmo de sair.»
«Que lhes disseste?» Pergunta apavorada
Elisabete.
«O que combinámos, que tinha ido
repará-lo, mas que não conseguira.»
«Que alívio. Eles desconfiaram de
alguma coisa?»
«Penso que não.»
«Tens videovigilância em casa?»
Perguntou Ricardo.
«Não sei, penso que não.»
«Estás em casa?»
«Não, mas vou a caminho. Porquê?»
«Quando chegares repara se tens um
dístico perto da porta, com uma câmara de filmar e com a seguinte inscrição:
“Para sua proteção, este local é objeto de videovigilância” ou qualquer coisa
parecida. Agora me lembro, conseguiste meter o fio no bolso de Carlos e
depois?»
«Não sei o que fez ao fio. À noite
procurei-o, mas não estava lá.»
Depois de desligar Elisabete fica
bastante preocupada. Pelo caminho na sua cabeça formam-se imensas perguntas.
«Será
por isso que eles souberam que Ricardo lá esteve? Então também devem saber as
vezes que entrei e saí daquela casa. Por que não reparei nisso? Que
inconsciência.»
Havia sim, bem perto da porta o
malfadado dístico. Teria de agir rapidamente e arranjar desculpas para aquelas
entradas e saídas naquela manhã.
«RICARDO! Está lá o dístico. E agora?»
Grita espavorida Elisabete para o
telefone.
«Temos de arranjar umas boas razões que
justifiquem as tuas entradas e saídas. Passa por cá logo para conversarmos.»
Nesse dia Elisabete andou como uma ébria.
Não conseguia raciocinar. Por mais que tentasse só conseguira desculpas sem
nexo. Tinha esperanças que Ricardo solucionasse o problema.
No gabinete da Judiciária os agentes
organizavam cronologicamente as entradas, saídas e telefonemas de Elisabete e
Ricardo. Não restavam dúvidas quanto à cumplicidade de ambos. Os últimos
telefonemas tinham esclarecido muito. Finalmente a dúvida do fio de náilon
ficara esclarecida.
«Vamos confrontá-los de imediato e
duvido que se safem.»
«Quero ver quais os argumentos de que
dispõem.» Finaliza o outro agente.
Bastaram quinze dias para que a
Judiciária dispusesse de provas cabais contra os dois suspeitos. Esperavam obter
uma confissão dos factos.
«Elisabete. A senhora saiu de casa às oito
e meia. Às nove e dez regressa e volta a sair às nove e quinze. Às nove e vinte
toca à campainha várias vezes, aguarda cerca de um minuto. De repente foge e
regressa novamente às nove e quarenta…
«Esqueci-me da chave no café…»
Interrompe Elisabete.
«Cale-se e oiça até ao fim. Depois
responda às questões que lhe forem colocadas. Como estava a dizer, regressa às
nove e quarenta, abre a porta e entra. Que fez a seguir?»
Elisabete um pouco embaraçada informa.
«Vi a minha tia estendida no chão e aproximei-me para ver se estava bem.»
«E a seguir o que fez?»
«Telefonei ao Carlos…»
Desta vez foi o agente que a
interrompeu. «Telefonou ao Dr. Carlos às nove e cinquenta e oito. Que fez
nesses dezoito minutos?»
«Não fiz nada, fiquei desorientada…»
«Enviou uma mensagem a Ricardo às nove
e quarenta e dois “RESULTOU”. Que significava essa mensagem?» Indagou o agente,
interrompendo-a.
Isabel ficou perplexa. O telefone fora
investigado também. O seu nervosismo era evidente.
«Foi, foi uma confirmação de um problema
que lhe tinha colocado.»
«Elisabete. Oiça uma coisa. Poderíamos
ficar horas com perguntas e as suas respostas não teriam sentido. As perguntas
que lhe fizermos serão colocadas ao seu amigo, que está ali ao lado, e por
certo não serão condizentes. Permita--me que lhe conte aquilo que pensamos que
tenha acontecido. Se houver alguma alteração à nossa história informar-nos-á,
mas apenas no final. Concorda?»
Elisabete mostrava-se demasiado
nervosa. Tremia e dos seus olhos parecia que as lágrimas estariam prestes a
brotar. Com um ligeiro soluço concordou.
«Na véspera do acidente, Elisabete
telefona a Ricardo para vir a sua casa desativar o intercomunicador do primeiro
andar. Este, por não saber ou por lhe parecer mais fácil, corta os fios. No dia
seguinte sai de casa cedo e aguarda a partida do doutor. Volta a casa e
verifica que a sua tia está no banho. Coloca um fio de náilon a todo o
comprimento do degrau. Sai e regressa pouco depois. Toca à campainha e aguarda.
Ouve a queda de sua tia e foge. Volta vinte minutos depois. Abre a porta, vê
que sua tia está morta e envia a mensagem a Ricardo. Sobe as escadas retira o
fio de náilon causador da queda. Aguarda mais uns minutos e telefona ao doutor
Carlos. Quando este chega e após verificar que sua tia já não respirava,
agarra-se a ele e introduz-lhe o fio de náilon na algibeira. As chamadas
telefónicas posteriores a Ricardo estão registadas. Agora a questão é saber de
quem foi a ideia do fio de náilon na escada e qual o objetivo da matar a sua
tia.»
Elisabete ouviu toda a história
soluçando com as mãos na cara. Sabia que correspondia ao sucedido. Não valia a
pena arranjar desculpas que, provavelmente a comprometeriam ainda mais.
«Não era minha intenção matar a minha
tia. Apenas a queria uns dias no hospital. Queria ter oportunidade de estar a
sós com Carlos. Ele gosta de mim, mas a tia impedia a nossa aproximação.»
«Lembre-se de que qualquer mentira que
diga poderá ser usada contra si e piorar ainda mais a sua situação. Por isso
responda com verdade e só com a verdade.
1.º O doutor Carlos está a par de tudo
isto?
2.º Todo o esquema foi elaborado por si
ou pelo Ricardo? Ou por mais alguém?
3.º Qual o papel de Ricardo nesta
história, uma vez que gosta do doutor Carlos?»
Elisabete agora chorava copiosamente.
Queria falar e não conseguia. Um dos agentes levantou-se e saiu. Em sua
substituição entra uma agente que lhe oferece um copo de água e tenta
acalmá-la. Dez minutos depois Elisabete resolve falar.
«Eu não queria a morte de minha tia.
Pedi ao Ricardo que me ajudasse a elaborar um plano que colocasse minha tia uns
dias no hospital para que ele pudesse dormir comigo em minha casa na sua
ausência, mas o que eu queria realmente era ficar sozinha com o Carlos. O
Ricardo elaborou tudo nunca pensando que a casa estivesse sob vigilância.
Disse-me que o plano era seguro. Não esperava este desfecho. A culpada de tudo
sou eu e só eu. O Ricardo foi coagido por mim. O Carlos nada tem a ver com
isto. Agora vai odiar-me.
Elisabete em desespero chora copiosamente e apena diz: QUERO
MORRER.