Aproximava-se um longo fim-de-semana de Páscoa. Era uma sexta-feira santa, as ruas estavam desertas. Muitos dos habitantes daquele condomínio tinham-se ausentado. O porteiro de um desses condomínios, na Alta de Lisboa, via a televisão; desde as 8 horas da manhã, hora a que iniciara o serviço, não saía nem entrava vivalma naquele prédio. Um edifício de 40 apartamentos, onde o movimento dos dois elevadores para baixo e para cima era constante numa lufa-lufa de saída dos seus habitantes para o seu trabalho, as dezenas de bons dias proferidas, estava agora reduzido ao silêncio e à pacatez. Deveriam estar 4 ou 5 pessoas naquele prédio, entre elas uma senhora, a D. Amélia, que vivia sozinha no 4.º-D., e a sua vizinha da frente. Por vezes um parente visitava-a, um rapaz jovem alto, com cerca de 28 anos, com um bigodinho muito fino e preto. Há já muito que não aparecia lá pelo prédio.
O Sr. Vítor, o porteiro, preparava-se para almoçar, como habitualmente na secretária do hall de entrada, quando um rapaz alto de bigode fino e preto toca à porta.
Nesse mesmo dia na linda cidade de Tomar, junto ao rio Nabão, no restaurante do Hotel dos Templários decorria-se um almoço de aniversário de uma ilustre figura local. Era uma sexta-feira santa. Um dos convidados, um rapaz alto de fino e negro bigode, animava o banquete com as suas larachas.
Como habitualmente no princípio de cada mês, a D. Amélia do 4.º-D dirigia-se ao banco acompanhada da sua amiga e vizinha D. Fernanda. Era uma quinta-feira, véspera da sexta-feira santa. Para as despesas mensais a D. Amélia que gostava de pagar tudo a dinheiro, levantava normalmente 5.000,00 euros. Nesse dia porém, levantou 10.000.
No prédio da Alta de Lisboa, onde tudo parecia calmo, o senhor Vítor porteiro, é surpreendido pelos gritos aflitivos vindos de um dos andares. Tinha acabado de almoçar, seriam cerca das 2 horas da tarde. Subiu a correr escadas acima e depara com a D. Fernanda do 4.º andar, na escada, aos gritos. A porta da D. Amélia escancarada. Sem conseguir articular palavra, com os olhos muito arregalados, a D. Fernanda apontava para a casa da sua amiga Amélia. O porteiro entra e segundos depois recua lívido. A D. Amélia estendida no chão da cozinha, jorrava sangue sob o seu corpo.
Naquela rua onde até agora vivera a D. Amélia, calma e sem tráfego, transformou-se numa aparatosa confusão de carros da polícia, ambulâncias, carros particulares e um multidão assustadora que rodeava a entrada do prédio. A D. Fernanda, num estado de histeria, foi de imediato transportada numa ambulância para o hospital. A polícia à porta do prédio não deixava entrar ou sair ninguém. Os restantes dois únicos inquilinos que tinham permanecido no prédio, comentavam no hall. O porteiro falava com alguém, provavelmente pessoal forense.
Nos jornais do dia seguinte era manchete a seguinte notícia: ASSASSÍNIO NA ALTA DE LISBOA - Cerca das 13 horas de ontem, uma senhora de 60 anos, viúva, foi encontrada sem vida no seu apartamento, vítima de assassínio por esfaqueamento. Presume-se que a causa tenha sido roubo, dado a casa estar numa desarrumação total. É procurado um indivíduo alto e magro, de bigode preto e fino. O referido indivíduo foi visto a entrar no edifício cerca do meio-dia, não tendo sido registada a sua saída.
Num restaurante em Tomar, o senhor Manuel Pinheiro, acabara o almoço em companhia de amigos e dirigindo-se para casa repara num escaparate duma tabacaria a manchete desse dia. Alisa o seu fino bigode negro, entra e compra o jornal. Depois de ler a notícia e verdadeiramente preocupado agarra no telefone.
Na esquadra o senhor Vítor prestava declarações. A D. Fernanda, ainda combalida, continuava no hospital. A polícia judiciária analisava a cassete de vídeo daquele prédio. Não havia dúvida de que entrara às 12h10, um indivíduo alto, não sendo possível verificar se usava ou não bigode, dado ter entrado de cabeça baixa. Curiosamente esse indivíduo entrara de gabardina escura. Não voltou a sair, pelo menos com essa roupa. Na realidade alguém saiu às 13h10, com a mesma estatura, mas sem gabardina e com a mão na cara e um cigarro aceso, não sendo possível verificar a existência de um bigode. Trazia uma pequena pasta, que podia muito bem conter uma gabardina.
O senhor Manuel Pinheiro aguarda alguns momentos até que do outro lado da linha alguém lhe responde. Discute veemente com o seu interlocutor, mostrando-se verdadeiramente zangado. Desliga e de imediato faz nova ligação, desta vez para a P.J.
Afagando o seu fino bigode Manuel Pinheiro entra na P.J. Diz conhecer a falecida D. Amélia de quem é parente e da qual é muito amigo, embora não a tenha visitado havia alguns meses. Deslocou-se a Lisboa mal vira a notícia nos jornais. O seu álibi é mais tarde confirmado pela Polícia Judiciária, embora a versão do porteiro seja concludente, que viu aquele cavalheiro no edifício à hora do crime.
Algo estava errado. Teria sido o porteiro o assassino da senhora D. Amélia? Ou seria a sua vizinha D. Fernanda? Não sabia esta da existência de tão avultado valor em sua casa? Mas, a D.Fernanda que sofria do coração, encontra-se em observação nos cuidados intensivos há dois dias. Era necessário aguardar pelo seu depoimento.
No apartamento 4.º-D nada de suspeito foi encontrado. Impressões digitais: apenas as da proprietária e da sua amiga D. Fernanda. A arma do crime, uma tesoura de cozinha, mas esta sem impressões digitais e deixada no chão ao acaso. Decididamente tinha sido meticulosamente limpa. Quem seria o estranho visitante que entrou e saiu daquele prédio?
A Polícia Judiciária lidava com um crime de muito difícil resolução. A causa da morte era estranha, uma vez que o assaltante poderia ter roubado sem recorrer a tal violência. A D. Fernanda seria de vital importância o seu depoimento, mas era necessário aguardar a autorização dos médicos. As buscas e os interrogatórios continuaram sábado e domingo, sem que se fizesse luz sobre o assunto. Um agente da P.J. ficou incumbido de vigiar os passos do senhor Manuel Pinheiro, em Tomar, onde residia.
Na segunda-feira seguinte a D. Fernanda melhora e pôde finalmente ser ouvida pela P.J. Não era necessário ser muito perspicaz para confirmar a sua inocência, além de que os golpes deferidos na vítima tinham sido executados por uma pessoa destra e a D. Fernanda era esquerdina. Souberam do levantamento dos 10.000,00€ e confirmaram o seu desaparecimento. Apenas ela e a vítima sabiam do levantamento do dinheiro, a não ser que a D. Amélia ou o empregado bancário tivessem falado com alguém. Mais um a interrogar, mais um suspeito.
No dia seguinte, terça-feira, a D. Fernanda sai do hospital. Um automóvel da P.J. vai buscá-la e leva-a a casa. Pelo caminho são-lhe mostradas fotos tiradas do personagem misterioso que entrara e saíra do prédio no dia do crime. De imediato reconhece o indivíduo apesar das fotos não mostrarem devidamente o seu rosto. Apenas vacila a qual dos dois pertence, pois a figura em questão tem um irmão gémeo e a foto tanto pode ser de um como do outro. Ambos moravam em Tomar. Finalmente estava tudo esclarecido. As personagens em questão podiam ter estado em dois lugares simultâneamente. Não foi difícil encontrar ambos. A maior dificuldade era distingui-los, de tão parecidos serem, ou mesmo impossível.
As investigações restringiram-se agora apenas aos gémeos e curiosamente ambos declaravam o mesmo com se de um apenas se tratasse. Ambos informavam ter almoçado no hotel dos Templários. No hotel todos os conheciam mas não os distinguiam. Não podiam confirmar qual dos dois estivera no almoço. Apenas puderam afirmar que só um deles esteve presente. Um deles mentia, sem dúvida, mas qual?
São presos preventivamente. Os dois advogados oficiosos que lhe são destinados, têm dificuldade em saber se estão a defender o Manuel Pinheiro ou seu irmão Pedro Pinheiro. Os guardas prisionais nunca os distinguem; embora em celas separadas nunca sabem se cada um entra na sua ou se trocam de cela. Os advogados conferenciam entre si e chegam à conclusão que, ou falam sempre com o mesmo, ou então a sintonia nas conversas é de tal forma idêntica que se torna impossível saber qual deles fala verdade. Cogitam e propõe ao director da prisão que um deles seja portador duma pulseira electrónica para se distinguirem. O director informa os causídicos que terá de apresentar o caso superiormente e o mais certo é demorar umas boas semanas até conseguir o pretendido.
Trinta dias passaram sem que o director da prisão tivesse solucionado o problema da pulseira e, curiosamente, entretanto um dos gémeos, o Manuel, engordou. Chega a altura do julgamento. São três horas da tarde. Está aberta a audiência. O Juiz chama os jurisconsultos perguntando se chegaram a um veredicto. «Sim senhor Dr. juiz. Quem cometeu o crime foi o Pedro Pinheiro».
«Pode este tribunal saber como chegaram a essa conclusão?» Perguntou o juiz.
«Sim, senhor Dr. juiz, "o que não mata, engorda."