terça-feira, 6 de setembro de 2016

AMOR QUE MATA


         No bairro do Restelo vivia Isabel Teixeira, senhora de 45 anos. Enviuvara havia 2 anos. O seu aspeto jovial e gracioso não aplanava a sua idade. A morte do marido, um reputado banqueiro bastante mais velho, deixara-lhe como herança, para além de uma confortável reforma, alguns negócios, mas principalmente a mansão onde viviam, no Restelo e dois automóveis. Não tiveram filhos. A sua família limitava-se a uma irmã, mais velha e divorciada, que vivia em França há alguns anos com a filha, sua sobrinha. Da parte do marido não ficaram descendentes. 
 
         A vivenda, uma mansão de rés-do-chão e 1.º andar, é dotada de mobiliário moderno, mas com gosto. À entrada deparamos com um enorme hall todo em mármore. Em frente, 2 largas janelas dão para o jardim com piscina. Sobre elas, no 1.º andar, uma varanda interior a toda a largura do hall, cujo acesso é a majestosa escadaria com os seus 24 degraus, toda em pedra mármore, à esquerda, encrostada na parede que divide o hall do salão. Sob a escadaria situa-se a porta para a garagem na cave. Ao lado da porta, uma mesinha com candeeiro de pé alto e uma cadeira. Um enorme candeeiro pende do teto. No primeiro andar, à esquerda, para além dos quartos com casas de banho, duas pequenas salas de televisão e biblioteca e uma cozinha compõem o andar. O salão térreo dispõe de uma enorme cozinha onde amiudadas vezes ofereciam banquetes.
         Após a morte do marido, Isabel fazia toda a sua vida no 1.º andar, de tal forma que mandara colocar um intercomunicador nesse piso, evitando assim descer a escadaria quando tocavam à porta. Dispensara todo o pessoal permanente. Gostava de estar só. As limpezas e tratamento do jardim, uma vez por semana, eram assegurados por uma empresa especializada. Para gerir os negócios do marido tinha pessoal competente. O advogado a quem confiava tudo, era um jovem de 28 anos que desde que entrara para a faculdade começara a trabalhar para o casal. Isabel gostava dele. Era atencioso, dedicado, mas um pouco atrevido. Mesmo quando o marido era vivo, não deixava de lhe atirar um piropo. Isabel achava graça e até gostava dos seus ditos lisonjeiros, mas respeitadores. Chamava-se Carlos Sousa.
         Dr. Carlos Sousa, advogado, trabalhava em exclusivo para o banqueiro Teixeira, não só a nível profissional como igualmente a nível particular. Desde a morte do seu empregador, havia 2 anos, não deixou de continuar a trabalhar para a viúva, a pedido desta, gerindo os poucos negócios pendentes com uma dedicação e esmero irrepreensíveis. Isabel depositava a maior confiança naquele jovem.
         «Isabel! Temos um problema demasiado complexo na empresa “X”. Não é assunto para ser tratado por telefone.» Dizia Carlos Sousa à sua patroa.
         «É grave?»
         «Sim, e urgente.» Responde Carlos.
         «Pode ficar para amanhã de manhã?»
         «Não é conveniente, Isabel.»
         «Mas, são quase sete… estava a preparar o jantar…»
           «Permita-me que a convide para jantar e aproveitamos para falar sobre assunto.»
         Era a primeira vez que Carlos lhe fazia tal convite. Isabel sem pensar aceitou. Marcaram o restaurante. Isabel ainda pegou no telefone para desistir, invocando uma desculpa, mas acabou por afastar a ideia.
         «Que mal tem um jantar? Já o tínhamos feito em companhia de meu marido. Um jantar de negócios é tão normal… porque estou preocupada?» Pensava Isabel. Todavia vestiu-se com esmero.
         «Olá Isabel. Se soubesse que vinha tão bonita teria vindo com um fato mais formal.» Disse Carlos que a aguardava à entrada do restaurante.
         «Você é sempre o mesmo galanteador, Carlos.» Respondeu Isabel sorrindo.
         Carlos deu-lhe o braço e dirigiram-se para a mesa previamente reservada. Carlos não arredava os olhos de Isabel, ao ponto dela corar um pouco.
         «Então Carlos?»
         «Perdoe-me Isabel. Há muito tempo que não a via tão bela, tão cheia de charme. Deveria sair sempre assim. Parece uma jovem estrela de cinema.»
         «Jovem? Com 45 anos?»
         «Minta. Diga a idade que aparenta. 28, a minha idade.» Exclamou Carlos muito sério.
         Isabel sentia-se pouco à vontade, mesmo conhecendo Carlos há mais de oito anos.
         «Já sou uma viúva, Carlos. Os meus 45 anos estão cá.»
         «O importante não é a idade, mas o aspeto e a mente. Não tenho retirado os olhos de si desde que chegou, tentando encontrar-lhe os traços de uma mulher madura, mas apenas vejo uma jovem.»
         «Lisonjeiro como sempre, Carlos.» Retorquiu embevecida Isabel.
         O jantar prolongou-se até tarde. As lisonjas, galanteios continuaram, deixando para trás os problemas da empresa que motivaram aquele encontro. Problema que à partida estava solucionado pelo advogado Carlos. Tinha-se detetado uma tentativa de fraude por um dos administradores que de imediato fora afastado.  
Isabel chegou a casa e a primeira coisa que fez foi olhar-se ao espelho durante longos momentos. Aparento assim tão pouca idade? O Carlos estaria a ser sincero ou estaria a fazer-lhe a corte? Que era um cavalheiro, isso tenho a certeza. Seguiu-me no seu carro até eu entrar na garagem. É um elegante cavalheiro. Que pena ter só 28 anos.
         Com estes pensamentos Isabel foi-se deitar. Mal dormiu. Imaginou-se com um jovem de 28 anos.
         «Que diriam as pessoas? Notariam a diferença de idades? Que absurdo.» Gritou Isabel sentando-se da cama.
         «Que disparates estão na minha cabeça? Não passou de um jantar de trabalho. O assunto ficou resolvido. O Carlos sempre foi um galanteador… será que me vai voltar a convidar para jantar? Se o fizer, arranjo uma desculpa.»
         Houve sim, houve outros convites para jantares. A princípio esporádicos, depois semanais e por fim quase diários. Isabel não arranjou desculpas para nenhum dos convites.
         Três meses depois os jantares passaram a diários, mas destas vezes em casa de Isabel. Carlos apaparicava-a com os seus dotes culinários, dotes desconhecidos até então por Isabel. Deixara o seu apartamento de solteiro e passara a viver no Restelo. Ao fim de 6 meses estavam casados. Um casamento discreto sem convidados.
         Aproximava-se o mês de dezembro e Isabel planeara passar o Natal com sua irmã e sobrinha, aproveitando para lhes apresentar o seu ‘novo’ marido, mas como muitas vezes acontece, os imprevistos surgem e os planos são alterados.  
         «Estiveste a chorar?» Surpreende-se Carlos ao entrar no final da tarde em casa.
         «Recebi um telefonema da minha sobrinha. Minha irmã faleceu esta tarde. Um ataque cardíaco.» Responde Isabel agarrando-se ao marido lavada em lágrimas e soluçando, continua. «Temos de ir ao funeral. Ela queria ser sepultada em Paris.»
         Partiram no dia seguinte. À sua chegada uma jovem de 25 anos, morena de longos cabelos negros e olhos pretos, vestida de luto, aguardava-os. Isabel corre para ela e abraça-a. Carlos olha-a durante os longos segundos em que permanecem abraçadas, sem conseguir desviar os olhos daquela deusa. Quando Isabel se volta, dirige-se ao marido apresentando-os.
         «Elisabete, o meu marido Carlos.»
         «Encantado.» Responde Carlos estendendo-lhe a mão, mas em troca recebe três beijos nas faces.
         Ao volante Elisabete olhava Carlos através do retrovisor, reparando que este não tirava os olhos do pequeno espelho sobre o para-brisas, abstraindo-se da conversa entre tia e sobrinha.
         «Que dizes, Carlos?» Pergunta Isabel a dada altura.
         «Desculpa, estava tão absorto. Não ouvi a pergunta.» Confessa Carlos.
         «A Elisabete diz para ficarmos lá em casa esta noite. Não vale a pena procurarmos hotel.»
         «Por mim tudo bem. Decide tu.»
         Jantaram lá em casa. Ficaram lá em casa. À mesa de jantar Carlos ficou em frente à mulher e Elisabete à sua esquerda. Fez um enorme esforço para olhar sempre em frente, limitando-se a olhar à esquerda apenas quando era obrigado a responder a esta ou aquela pergunta de Elisabete. Aquela garota tinha o condão de o enfeitiçar. Não se sentia à vontade. Amava a sua mulher, mas Elisabete… queria vê-la bem longe de si.
         «Que pensas fazer, Elisabete?» Perguntava a tia.
         «Não sei, tia. Sem a minha mãe aqui, não faço nada em Paris.»
         «Então irias para onde?»
         «Londres ou quem sabe para Lisboa. Achas que conseguiria emprego em Lisboa?»
         «Com o teu curso não seria difícil. Há muita falta de informáticos…» e virando-se para Carlos «não achas, Carlos?»
         «Não, não é difícil, todavia em Londres as remunerações são bem mais vantajosas.»
         «Em Londres não conheço ninguém, ao passo que, em Lisboa, para além da minha tia, tenho amigas.» Respondeu sem demora Elisabete.
         Após o jantar seguiram para a igreja onde a falecida jazia em câmara-ardente. Os presentes, na maioria portugueses, acercaram-se de Elisabete a quem apresentaram condolências. Elisabete quis permanecer até mais tarde, convidando a tia e Carlos a regressarem a casa. Não aceitaram e permaneceram até esta se retirar.
         O funeral decorreu como todos os funerais, em silêncio
         Nessa mesma tarde tomaram o avião de regresso a Lisboa.
        Três meses após a morte da irmã, Isabel recebe um telefonema de Elisabete.
         «Olá tia tenho tudo resolvido em Paris. Vou passar uns dias a Lisboa, depois decido o que fazer. Que achas?»
         «Filha. Vem quando quiseres. Como de costume podes ficar cá em casa.» 
         «O Carlos não se importa?»
         «Que disparate, por que razão se havia de importar?»
         Mas importava-se. Embora o não dissesse quando Isabel lho anunciou, preocupava-o a presença de Elisabete, mais a mais uns dias lá em casa. Não tinha medo dela. Tinha medo de si próprio. Aqueles olhos negros que o devoravam eram demasiadamente convidativos ao pecado, coisa que Carlos temia. Amava a sua mulher e não estava na sua mente uma perfídia.
         Nos dias que se seguiram amou a sua mulher com mais ternura, como que a pedir perdão antecipado por uma traição que juraria a si próprio não acontecer. Era forte. Conhecera algumas mulheres e repudiara outras tantas. Não era leviano. Para Carlos o sexo não era um ato de prazer, mas sim de amor. Tentou convencer-se que Elisabete não passava de uma cocote habituada a ser bajulada pelos homens que se rendiam à sua beleza.
 
         Um mês após a notícia da vinda de Elisabete, já Carlos esquecera por completo a sobrinha da sua amada Isabel, mas a confirmação da sua chegada para dentro de 2 dias, deixou Carlos aterrado. Mais aterrado ficou quando Isabel lhe pede para a ir buscar ao aeroporto. Tinha uma reunião inadiável de direção para aquele dia.
         Eram 3 da tarde naquele dia de abril. O calor anunciada a chegada da primavera. Carlos aguarda no aeroporto a chegada do voo proveniente de Paris. Tenta alhear-se da imagem de Elisabete, mas no meio dos passageiros destacava-se uma mulher com um vestido negro cingido ao corpo, curto, mostrando umas pernas bem torneadas sobre uns saltos muito altos e finos. Um generoso decote mostrava como era perfeito o seu colo. Não estava maquilhada. Também não era necessário. A sua beleza era demasiado evidente sem necessidade de ser coberta.
         «Olá Carlos, a minha tia?» Pergunta, dando-lhe os três habituais beijos nas faces.
         «Teve uma reunião. Pediu-me para te vir buscar. Fizeste boa viagem?»
         «Foi ótima, obrigada. Está calor em Lisboa.» Respondeu Elisabete tirando o ligeiro casaco que trazia vestido.
         «O resto da bagagem?» Pergunta Carlos vendo-a com uma pequena mala.
         «Chega amanhã, despachei-a para não pagar excesso de bagagem. Depois peço à tia para me levar à empresa transportadora.»
         Dirigiram-se ao parque onde estacionara o carro. Carlos abre-lhe a porta e espera que Elisabete se acomode. Elisabete entra, senta-se mostrando as longas pernas sem qualquer pudor e sorri-lhe.
         «Obrigado, cavalheiro.» Agradeceu Elisabete.
         «Para onde?
         «Para onde quiser Carlos.»
         «Não vens cansada da viagem?»
         «Não, estou bem.»
         «Vou-te deixar em casa, tenho ainda de ir ao escritório.»
         «Adoro que me trate por tu, Carlos. Não o vou tratar por tio. Concorda? Além disso, se me permite, preferia tratá-lo também por tu. Somos quase da mesma idade…»
         «Trata-me como quiseres, desde que me trates bem.» Interrompe Carlos.
         Elisabete olha-o com uma ternura que desconcerta Carlos e exclama:        
         «Trato-te como se fosses a coisa mais querida do mundo.»
         Durante longos segundos permaneceram calados. Carlos pensava em uma droga, a cocaína, e comparou Elisabete a essa droga. O mal era experimentar, depois viciava-se. O pensamento tornou-se voz e sem querer disse muito baixo: «Coca.»
         O silêncio prolonga-se por mais de um minuto. Repentinamente Elisabete volta-se para Carlos. «Tens alguma amiga Coca?»
         «Não, porquê
         «Chamaste-me Coca…»
         «Eu?!»
         Elisabete não responde. Ajeita-se no banco e o seu vestido mais curto ficou. De soslaio e olha Carlos verificando a sua indiferença. Então exclama.
         «Gosto.»
         Carlos pareceu despertar da sua meditação e olha-a com um ar interrogativo e simultaneamente admirado.
         «Gostas? Gostas de quê?
         «Coca. Gosto do nome. Se quiseres podes tratar-me por Coca.»
         Carlos sorri, mas não responde.
         Após um momento de silêncio, Elisabete vira-se para Carlos e pergunta.
         «Já provaste?»
         Mais uma vez Carlos a olha admirado e pergunta. «Já provei o quê?»
         «Coca.»
         Carlos sorri, aquela garota era fogo.
         «Não, não provei.»
         Estavam a chegar a casa e Elisabete vira-se para Carlos aproxima-se o mais que pode e segreda-lhe: «Se quiseres podes provar.»
         Carlos finge não perceber. Para o carro junto à porta, sai, abre a porta a Elisabete, retira a mala da bagageira e acompanha-a até à entrada. Dá-lhe uma chave.
         «Mudámos o código do alarme. Quando entrares tens 60 segundos para o desativar. É: 1, 4, 7, 3, 2, 1, 4, 7, 8, 9, 0.»
         «Não entras comigo?»
         «Não. Disse-te que tinha de ir ao escritório.»
         «Escreve-me o código num papel, são muitos algarismos.»
         «Não é necessário. Repara.» Disse Carlos mostrando o telemóvel. «1, 4, 7. É um “I” de Isabel. 3, 2, 1, 4, 7,8, 9. É um “C” de Carlos. Finalmente 0.»
         «Engenhoso, Carlos. Ah, já agora dá-me o teu n.º do telemóvel.» Carlos entrega-lhe um cartão-de-visita.
         «Qual é a operadora?»
         «Vodafone.»
         «Há aqui perto algum balcão?»
         «Não sei.»
         «Deixa lá. Eu vejo na Internet. Vou tomar um banho e depois vou comprar um cartão.»
         «Queres que te traga um quando chegar?»
         «Não, obrigada. Aproveito para dar uma volta.»
         Despediram-se com os três beijos habituais, mas desta vez os lábios de Elisabete ficaram bem patentes nas faces de Carlos.
         Três semanas decorreram e Elisabete parecia tendo vindo para ficar. Levantava-se cedo, saía para tomar o pequeno-almoço, voltava e passava o resto da manhã ao computador procurando emprego. De tarde saía, umas vezes para entrevistas de emprego, outras para passear.
         Como os quartos eram dotados de casas de banho, Carlos saia de casa por volta das 9 e Isabel levantava-se a essa hora, arranjava-se, tomava o pequeno-almoço em casa e saía para o escritório. Poucas vezes se cruzava com a sobrinha que tinha por hábito ir à pastelaria desjejuar. Não almoçavam em casa. Só ao final da tarde se reuniam para jantar. Carlos evitava entrar em casa sem a mulher. Tinha por hábito ir ao seu encontro e regressavam juntos, sempre que Isabel saía mais tarde, embora cada um no seu carro.
         Já se habituara a que Elisabete, mesmo em frente à tia, não deixava de o assediar. Houvera uma manhã que, ao sair do quarto, deparara com Elisabete a sair, nesse preciso momento, do seu quarto em combinação transparente e sem roupa interior. Com uma descontração tão natural, e, sem qualquer recato, deu-lhe os bons-dias com um sorriso provocante, dirigindo-se para a cozinha.
         Nesse dia Carlos não conseguiu trabalhar. Aquele corpo não lhe saia da cabeça. Não contou a Isabel a cena. Para quê arranjar problemas entre as duas? Isabel conhecia bem a sobrinha. Nunca lhe passaram despercebidos os olhares que ela lhe dirigia. Também nunca comentou com ele qualquer palavra sobre o caso. Pelas duas vezes que Elisabete o convidara para um lanche ao meio da tarde, Carlos recusara desculpando-se com hipotéticas entrevistas. Não compreendia qual a ideia de Elisabete. Uma relação amorosa furtuita? Roubar um marido à tia? Não constava que tivesse arranjado um namorado, o que não seria difícil. Também não saía sozinha à noite. Não gostava de cozinhar nem jeito tinha para isso. As duas ou três vezes que saíram à noite para jantar fora, portara-se como uma senhora. Era divertida e com um grande sentido de humor. Mesmo em casa, à mesa ou na sala de televisão, mostrava-se uma companhia agradável e debatia os problemas com um conhecimento de causa fora de vulgar.
         Carlos admirava aquela garota sensual e meiga. Houve momentos em que a desejou. Poderia, fora de casa, tê-la amado, mas e as consequências que daí adviriam? Tinha a certeza que após o primeiro devaneio viria o segundo e rapidamente sua mulher se aperceberia ou, mesmo que se não apercebesse, a sobrinha encarregar-se-ia de o demonstrar com o seu olhar. Se, não tendo havido nada entre ambos, Elisabete já tinha demonstrado ciúmes em momentos de mais ternura entre a tia e Carlos desviando-se para um canto da sala agarrando-se a um livro, que faria se tivesse havido?
         Carlos desejava ter uma conversa com Isabel, mas seria sensato? Não seria Isabel que, presenciando os olhares da sobrinha, as suas piadinhas por vezes atrevidas e a sua conduta um pouco arrojada, falar com ela? Ou com ele? Carlos não tinha culpa, aos olhos da mulher sempre se portara como um marido fiel, desviando a conversa da sobrinha ou ignorando aqueles olhos carregados de desejo. Não trocaria o amor à sua mulher por uma vampe. Gostaria de a ver longe. Era-lhe mais fácil. Estaria Isabel a testá-lo? Não, não via a esposa fazer tamanha crueldade. Admirava-se por não ter assistido a nenhuma discussão entre tia e sobrinha. Aparentavam um relacionamento normal, sem discussões, sem azedumes. À noite, quando se deitavam, amavam-se com fervor, sem demostração de ciúmes ou desconfianças.       
         Outubro chegou e Elisabete continuava sem emprego. Carlos poderia tentar arranjar-lhe uma colocação, mas Elisabete parecia não se importar com tal situação, não devia ter falta de dinheiro pelo que, Carlos nada lhe disse. Nessa noite Elisabete saiu sem jantar.             
         «Que aconteceu à tua sobrinha? Saiu e nem se despediu.» Observa Carlos já a mesa de jantar.
         «Estou farta. Aquela rapariga está cada vez pior.»
         «Mas, o que fez desta vez?» Admira-se Carlos.
         «Não reparas nas conversas e nos olhares que ela te deita?
         «Claro que reparo. Que posso fazer?»
         «Hoje enchi-me. Tive de lhe dizer duas coisas. Teve o atrevimento de me dizer que eu merecia um homem mais maduro, que tu não passavas de um menino mimado, um manequim de montra. Não a deixei continuar e disse-lhe que estava cansada de a ter cá em casa, que procurasse emprego e arranja-se uma casa, que queria viver em paz, que a minha paciência tinha atingido os limites.»
         «Fizeste bem. Eu também estou cansado de tanto assédio.»
         Elisabete regressou cedo, ainda estavam a conversar na sala quando a ouviram abrir a porta, subir as escadas e dirigir-se para o quarto sem dar as boas noites. Ouviram-na chorar.
         Uma semana depois, Elisabete voltara ao ritmo normal. Continuava com o assédio a Carlos e entre tia e sobrinha poucas eram as conversas, limitando-se ao trivial.
         Na manhã do dia seguinte Elisabete sai cedo, ainda Carlos se arranjava na casa de banho.         
         Cerca das dez da manhã Carlos no escritório recebe um telefonema de Elisabete.
         «CARLOS! ACONTECEU UMA DESGRAÇA.» Grita Elisabete, meio chorosa.
         «Que aconteceu.» Pergunta Carlos alarmado.
         «A tia. A tia caiu pela escada abaixo.»
         «O QUÊ? Magoou-se
         «Não sei. Está inconsciente.» Responde alarmada.
         «Já ligaste para o 112?»
         «Não, não liguei.»
         «Eu ligo daqui. Sigo já para casa.»
         Como louco, Carlos guia a toda a velocidade para casa, depois de ligar para o 112. Entra espavorido em casa, deixando a porta escancarada. A ambulância acabava de chegar. Depara coma Isabel, envolta em uma poça de sangue. Tinha vestido o roupão de banho, dando a impressão de ter saído do duche. Aproxima-se e toca-lhe na jugular. Não sente pulsações. Com os olhos esbugalhados olha Elisabete que, num pranto, se agarra ele. Nesse mesmo instante entram a Polícia e o pessoal da ambulância.
         Nada havia a fazer. Isabel jazia morta. Um dos agentes da Polícia anota todas as informações tanto de Carlos como de Elisabete. Um outro agente, tendo reparado num fio de náilon cuja ponta sobressaía da algibeira do casaco de Carlos, aproxima-se deste e, pousando-lhe o braço sobre o ombro direito, com a mão esquerda tira-lho sem qualquer dificuldade, guardando-o. A Polícia Judiciária fora chamada ao local. Muitas horas depois de analisarem tudo em pormenor, pediram a ambos os contactos telefónicos e pediram que não se ausentassem do país sem autorização. Tinha havido uma morte que teria de ser investigada. O Corpo de Isabel iria ser autopsiado.
 
         Carlos estava destroçado e todos os dias pedia informações a Elisabete de como tinha acontecido aquilo. Elisabete não queria falar no assunto.        
         «Que queres que te diga? Cheguei a casa e vi o mesmo que tu.» E não passava disso. Pelo menos teve o bom senso de evitar olhar Carlos da sua maneira habitual, respeitando a sua dor. Carlos deixou de jantar em casa, jantando sozinho. Chegava a casa tarde dirigindo-se para o seu quarto e fechava a porta por dentro.
         No gabinete da Polícia analisavam-se todos os detalhes da investigação e os depoimentos dos seus moradores. A autópsia confirmava que a vítima tinha sofrido um traumatismo craniano tendo-lhe causado morte imediata. Aparentava um golpe profundo no pé esquerdo, admitindo-se a hipótese de ter sido amarrada com um fio de aço ou de náilon que lhe teria provocado a queda.
         «Descobri no 4.º degrau a contar do topo um prego na parede, sem qualquer utilidade. As impressões digitais estão lá bem patentes. São as do marido da vítima. Este fio de náilon que retirei do bolso do Dr. Carlos tinha sido colocado na escada fazendo a vítima, ao descer, tropeçar nele e galgar escadaria abaixo.» Expõe um agente.
         «Qual o móbil de Carlos? Que auferiria com a morte da mulher? Casados com comunhão de bens adquiridos…» Interroga um colega.
         «Vê-se livre da mulher e junta-se àquela “brasa”, que é a herdeira. Provavelmente estão os dois envolvidos neste crime.»
         «Custa-me a crer. O Dr. Carlos está demasiado combalido com a morte da esposa…»
         «Teatro, meu caro.»
         «Vamos chamá-los, um de cada vez, e confrontá-los-emos com este caso.»
         Nessa mesma manhã Elisabete é convidada a apresentar-se na Judiciária.
         Depois de lhe ter sido exposta a conjetura dos factos, Elisabete declara.
         «Não sabia do prego na parede.»
         «Quando chegou a casa e deparou com a sua tia prostrada no chão, o que fez?»
         «Telefonei ao Carlos.»
         «Porque não telefonou primeiro para o 112.»
         «Não sei, fiquei desorientada.»
         «Quando o senhor doutor chegou que se passou a seguir?»
         «Aproximou-se da minha tia e viu-lhe a pulsação.»
         «E depois disso? Reparou se ele subiu ao primeiro andar?»
         «Eu sentei-me no chão com as mãos na cara a chorar, não reparei.»
         «Quando entrámos a senhora estava agarrada a ele. Quanto tempo calcula que decorreu após a verificação da pulsação e o abraço que lhe dava?»
         «Não reparei.»
         «Um minuto? Mais?»
         «Talvez um minuto.»
         «Tudo bem, Elisabete. Por agora é tudo.»
         Agora era a vez de Carlos ser confrontado com o interrogatório Judicial.
         «A que horas foi informado da queda da sua esposa?»
         «Cerca das 10 horas.»
         «Que fez em seguida?»
         «Telefonei para o 112 e segui para casa.»
         «Que fez quando chegou a e viu sua esposa caída?»
         «Verifiquei as pulsações de minha mulher e logo de seguida chega a ambulância e a Polícia.»
         «Subiu ao andar de cima?»
         «Não compreendo a pergunta.» Esclarece Carlos.
         «Pergunto se após a verificação das pulsações de sua esposa, subiu ao 1.º andar.»
         «Não, não subi. Que iria fazer lá cima?»
         «No cimo da escadaria, mais precisamente no 4.º degrau a contar de cima, está pregado um prego na parede. Pode informar-nos se tem conhecimento disso?»
         «Claro que sim, foi a pedido da sobrinha de minha mulher que o preguei. Tem um quadro a emoldurar e queria pendurá-lo naquele lugar.»
         «Um quadro? Debaixo da escada?»
         «Coisas de mulheres. Para quê perder tempo com perguntas? As mulheres sabem sempre o querem…»
         «E isto? Sabe o que é?» Pergunta o agente exibindo um fio de náilon na ponta dos dedos.
         «Parece-me um fio de náilon.» Responde Carlos com a maior das franquezas.
         «Como foi parar ao seu bolso?»
         «Como?» Admira-se Carlos com um ar perplexo.
         «Retirei-o do bolso esquerdo do seu casaco na manhã do acidente.» Informa o agente com um ar de chacota.
         «Não deve estar a falar a sério.
         «Este pedaço de fio foi colocado naquele degrau provocando a queda de sua esposa. Na autópsia, a vítima apresenta um profundo golpe no peito do pé, provavelmente causado por este fio.»
         «Não acredito que a minha mulher tenha sofrido uma tentativa de assassínio. Não, não pode ser. Todavia tenho perguntado a mim mesmo o que levaria Isabel a sair do banho e descer a escada.»
         «Talvez tenham tocado à campainha da porta.» Alvitra um dos agentes.
         «Temos um intercomunicador com vídeo no primeiro andar. Não precisava de descer. Além disso ela nunca iria abrir a porta em robe.»
         «Provavelmente veio ao intercomunicador do piso térreo. O do primeiro andar poderá estar avariado.»
         «Não, não está. Ainda há bem pouco tempo o utilizei.»
         «Analisámo-lo naquela fatídica manhã. Foi inutilizado. Cortaram os fios.» Expõe o agente tentando ver a reação de Carlos.
         «Como? Quem teria entrado em nossa casa? Já verificaram o vídeo de segurança na “PSG – Segurança Privada”?» Alvitra verdadeiramente alarmado Carlos.  
         «É exatamente isso que lhe viemos propor, a sua autorização para analisar o vídeo das entradas e saídas de sua casa nos últimos dias.»
         «Vou de imediato falar com a “PSG”, nesse sentido.» Responde Carlos.
Depois de se despedirem de Carlos os dois agentes olham-se interrogativos.
         «Ainda acreditas na cumplicidade de Carlos?»
         «Não sei… todavia Elisabete ou Carlos mentem. As declarações não condizem.»
         «Vamos aguardar o visionamento das cassetes.»
         Nesse mesmo dia deslocam-se ao Monte Estoril, sede da “PSG”. As entradas e saídas tanto da garagem como a da entrada principal foram analisadas ao pormenor, horas minutos e segundos anotados e estudados. Na véspera do acidente alguém entrara em casa às dez da manhã saindo dez minutos depois. A porta só poderia ter sido aberta por Elisabete, única pessoa no interior. Deslocaram-se igualmente à “Vodafone” para investigarem as chamadas telefónicas efetuadas pelos dois intervenientes nos últimos dias.
         De posse da gravação cedida pela “PSG” e dos contactos efetuados pelos, agora três, intervenientes, nesta altura já sob escutas, tiram uma fotografia ao intruso. Tratava-se de um tal Ricardo, vendedor de automóveis, outrora vendedor de intercomunicadores. Através do número de telefone fora fácil a sua localização. 
         «Conhece este cavalheiro?» Pergunta o agente a Elisabete, mostrando-lhe a foto de Ricardo.
         «Não, não conheço.» Responde de imediato.
         «Curioso. Esteve na casa da sua tia entre as dez e as dez e dez na véspera do acidente.»
         «Ah, é verdade, não o reconheci nesta foto. É um amigo meu, a quem pedi para reparar o intercomunicador do primeiro andar que estava avariado.»
         «Ficou arranjado?»
         «Não. Não conseguiu repará-lo.»
         «Por agora é tudo. Tenha uma boa tarde Elisabete. Voltaremos a contactá-la em breve.»
         De imediato Elisabete telefona ao amigo: «Ricardo, a Judiciária têm a tua fotografia, não sei como a conseguiram. Sabem a hora que entraste e saíste da minha casa. Disse-lhes que tinhas ido lá arranjar o intercomunicador, mas não conseguiste. Agora não te descaias.»
         «É tarde para me avisares. Acabaram agora mesmo de sair.»
         «Que lhes disseste?» Pergunta apavorada Elisabete.     
         «O que combinámos, que tinha ido repará-lo, mas que não conseguira.»
         «Que alívio. Eles desconfiaram de alguma coisa?»
         «Penso que não.»
         «Tens videovigilância em casa?» Perguntou Ricardo.
         «Não sei, penso que não.»
         «Estás em casa?»
         «Não, mas vou a caminho. Porquê?»
         «Quando chegares repara se tens um dístico perto da porta, com uma câmara de filmar e com a seguinte inscrição: “Para sua proteção, este local é objeto de videovigilância” ou qualquer coisa parecida. Agora me lembro, conseguiste meter o fio no bolso de Carlos e depois?»
         «Não sei o que fez ao fio. À noite procurei-o, mas não estava lá.»   
         Depois de desligar Elisabete fica bastante preocupada. Pelo caminho na sua cabeça formam-se imensas perguntas.
         «Será por isso que eles souberam que Ricardo lá esteve? Então também devem saber as vezes que entrei e saí daquela casa. Por que não reparei nisso? Que inconsciência.»
         Havia sim, bem perto da porta o malfadado dístico. Teria de agir rapidamente e arranjar desculpas para aquelas entradas e saídas naquela manhã.
         «RICARDO! Está lá o dístico. E agora?» Grita espavorida Elisabete para o telefone.
         «Temos de arranjar umas boas razões que justifiquem as tuas entradas e saídas. Passa por cá logo para conversarmos.»
         Nesse dia Elisabete andou como uma ébria. Não conseguia raciocinar. Por mais que tentasse só conseguira desculpas sem nexo. Tinha esperanças que Ricardo solucionasse o problema.
 
         No gabinete da Judiciária os agentes organizavam cronologicamente as entradas, saídas e telefonemas de Elisabete e Ricardo. Não restavam dúvidas quanto à cumplicidade de ambos. Os últimos telefonemas tinham esclarecido muito. Finalmente a dúvida do fio de náilon ficara esclarecida.
         «Vamos confrontá-los de imediato e duvido que se safem.»
         «Quero ver quais os argumentos de que dispõem.» Finaliza o outro agente.
 
         Bastaram quinze dias para que a Judiciária dispusesse de provas cabais contra os dois suspeitos. Esperavam obter uma confissão dos factos.
         «Elisabete. A senhora saiu de casa às oito e meia. Às nove e dez regressa e volta a sair às nove e quinze. Às nove e vinte toca à campainha várias vezes, aguarda cerca de um minuto. De repente foge e regressa novamente às nove e quarenta…
         «Esqueci-me da chave no café…» Interrompe Elisabete.
         «Cale-se e oiça até ao fim. Depois responda às questões que lhe forem colocadas. Como estava a dizer, regressa às nove e quarenta, abre a porta e entra. Que fez a seguir?»
         Elisabete um pouco embaraçada informa. «Vi a minha tia estendida no chão e aproximei-me para ver se estava bem.»
         «E a seguir o que fez?»
         «Telefonei ao Carlos…»
         Desta vez foi o agente que a interrompeu. «Telefonou ao Dr. Carlos às nove e cinquenta e oito. Que fez nesses dezoito minutos?»
         «Não fiz nada, fiquei desorientada…»
         «Enviou uma mensagem a Ricardo às nove e quarenta e dois “RESULTOU”. Que significava essa mensagem?» Indagou o agente, interrompendo-a.
         Isabel ficou perplexa. O telefone fora investigado também. O seu nervosismo era evidente.
         «Foi, foi uma confirmação de um problema que lhe tinha colocado.»
         «Elisabete. Oiça uma coisa. Poderíamos ficar horas com perguntas e as suas respostas não teriam sentido. As perguntas que lhe fizermos serão colocadas ao seu amigo, que está ali ao lado, e por certo não serão condizentes. Permita--me que lhe conte aquilo que pensamos que tenha acontecido. Se houver alguma alteração à nossa história informar-nos-á, mas apenas no final. Concorda?»
         Elisabete mostrava-se demasiado nervosa. Tremia e dos seus olhos parecia que as lágrimas estariam prestes a brotar. Com um ligeiro soluço concordou.
         «Na véspera do acidente, Elisabete telefona a Ricardo para vir a sua casa desativar o intercomunicador do primeiro andar. Este, por não saber ou por lhe parecer mais fácil, corta os fios. No dia seguinte sai de casa cedo e aguarda a partida do doutor. Volta a casa e verifica que a sua tia está no banho. Coloca um fio de náilon a todo o comprimento do degrau. Sai e regressa pouco depois. Toca à campainha e aguarda. Ouve a queda de sua tia e foge. Volta vinte minutos depois. Abre a porta, vê que sua tia está morta e envia a mensagem a Ricardo. Sobe as escadas retira o fio de náilon causador da queda. Aguarda mais uns minutos e telefona ao doutor Carlos. Quando este chega e após verificar que sua tia já não respirava, agarra-se a ele e introduz-lhe o fio de náilon na algibeira. As chamadas telefónicas posteriores a Ricardo estão registadas. Agora a questão é saber de quem foi a ideia do fio de náilon na escada e qual o objetivo da matar a sua tia.»
         Elisabete ouviu toda a história soluçando com as mãos na cara. Sabia que correspondia ao sucedido. Não valia a pena arranjar desculpas que, provavelmente a comprometeriam ainda mais.
         «Não era minha intenção matar a minha tia. Apenas a queria uns dias no hospital. Queria ter oportunidade de estar a sós com Carlos. Ele gosta de mim, mas a tia impedia a nossa aproximação.»
         «Lembre-se de que qualquer mentira que diga poderá ser usada contra si e piorar ainda mais a sua situação. Por isso responda com verdade e só com a verdade.
         1.º O doutor Carlos está a par de tudo isto?
         2.º Todo o esquema foi elaborado por si ou pelo Ricardo? Ou por mais alguém?
         3.º Qual o papel de Ricardo nesta história, uma vez que gosta do doutor Carlos?»
         Elisabete agora chorava copiosamente. Queria falar e não conseguia. Um dos agentes levantou-se e saiu. Em sua substituição entra uma agente que lhe oferece um copo de água e tenta acalmá-la. Dez minutos depois Elisabete resolve falar.
         «Eu não queria a morte de minha tia. Pedi ao Ricardo que me ajudasse a elaborar um plano que colocasse minha tia uns dias no hospital para que ele pudesse dormir comigo em minha casa na sua ausência, mas o que eu queria realmente era ficar sozinha com o Carlos. O Ricardo elaborou tudo nunca pensando que a casa estivesse sob vigilância. Disse-me que o plano era seguro. Não esperava este desfecho. A culpada de tudo sou eu e só eu. O Ricardo foi coagido por mim. O Carlos nada tem a ver com isto. Agora vai odiar-me.
         Elisabete em desespero chora copiosamente e apena diz: QUERO MORRER.