Pedro Ming "o chinês" como era conhecido, não por ser chinês mas pela sua descendência, filho de pai português e neto paterno de chinês, na sua última visita a Pequim onde vivia um tio, deparou-se com um problema que o marcou para toda a vida.
Após e-mail enviado a seu tio Xavier Ming a residir em Pequim há já bastantes anos, marcaram-se datas de estada naquela cidade chinesa a fim de passarem uns dias de férias em conjunto. O tio Xavier tinha uma casa razoavelmente grande que lhe servia de habitação e escritório. Vivia só. O seu sobrinho visitava-o amiudadas vezes e lá se hospedava.
Naquele dia amaldiçoado chega a Pequim manhã muito cedo. Toma um táxi que o leva a casa do seu tio a cerca de 30 km do aeroporto. Não sabia uma palavra em chinês, ao contrário de seu tio que dominava a língua na perfeição. O Taxista, chinês, não falava inglês mas com gestos e indicações do Pedro lá chegou ao destino. O taxista não aceitou receber o valor da corrida e em contra partida entregou uma folha de papel ao Pedro.
Já fora do táxi, olhou o papel mas os caracteres chineses nada lhe diziam. Guardou o papel.
A habitual recepção à chegada, a conversa e o cansaço da viagem fizeram-no esquecer a carta recebida do taxista. Só no dia seguinte se lembrou e contou ao tio o episódio da carta.
"Mostra lá a carta Pedro", pediu o tio.
O Pedro apresentou-lha mas reparou que este enquanto lia, a sua cara ia-se transtornando e quanto mais lia mais transtornado se mostrava. Chegou a temer a sua reacção e com razão.
Mais vermelho que um pimento, e com um tom de voz nunca ouvido pelo sobrinho, vociferou:
"Fora daqui meu traste."
"Mas..." tentou o Pedro dizer.
"Rua, rua. Não és digno do teu nome."
"Tio..." mais uma vez tentou falar.
"Não me trates por tio. Nem mais um segundo aqui te quero. Leva essa carta e rua, rua, rua." E arrastou-o pelo braço com força porta fora gritando-lhe. "NÃO ME APAREÇAS MAIS", batendo com a porta com enorme estrondo.
Que fazer? Que culpa tinha Pedro de tudo aquilo? Rasgava a carta? Não, não podia sair da China sem uma resposta. Mas iria aonde? Pediria ajuda a quem? Não conhecia ninguém.
Alugou um hotel. Meditou durante horas no sucedido. Que diria a carta assim de tão grave? Quem seria o taxista e porquê a carta? Nada fazia sentido. Telefonar para Portugal para o pai não seria aconselhável. Não sabia se o tio já o tinha feito e o que teria dito. Aguardaria para o fazer no regresso quando estivesse cara a cara com ele.
Tentou ainda um telefonema ao tio. Melhor fora que o não tivesse feito. Sem ter tempo de dizer uma palavra ouviu uma enxurrada de palavrões não habituais no tio e a chamada foi cortada.
Horas mais tarde, mais recomposto saiu e jantou. Olhou para todo o lado, para toda a gente como que a pedir: "por favor, o que diz esta carta?" Mas não encontrou quem o salvasse. Durante três dias matutou. Pedir ajuda a um estranho? Tentar cativar a amizade do empregado da recepção do hotel e mostrar-lhe a carta? Pareceu-lhe o mais razoável e começou a agir.
Todos os dias e a toda a hora conversava com o empregado, convidava-o para beber um copo nas suas horas de folga. O empregado era bastante cortês e educado. Parecia uma pessoa culta e de princípios.
O dia da partida aproximava-se e da carta nada. Encheu-se de coragem e falou com o Tuan Ly, o recepcionista.
"Tuan Ly. Aconteceu-me algo de estranho à minha chegada", e contou-lhe o que se passara com o taxista e com o tio.
"Mostre-me a carta, por favor."
"Tuan Ly, terás de me prometer que não te zangas. Lembra-te que nada sei de chinês".
Depois das promessas feitas o Pedro mostra-lhe a carta, mesmo assim com certas reservas e a medo.
Quando Ly, começa a ler o seu rosto transfigura-se. Arremessa com a carta, corre e poucos segundos depois aparece o gerente que após uma série de gritos e com os punhos cerrados quase lhe batia. Chega a polícia. O Pedro não consegue fazer-se ouvir. Decididamente a carta deveria conter algo muito preocupante e insultuoso. Levam-no para a esquadra. Meia hora depois um aparentemente chefe da polícia, muito atencioso e dum inglês perfeito, pede-lhe para lhe contar o seu caso. Mais uma vez e amedrontado relata todo o episódio da carta.
"Mostre-me a carta", pede o polícia.
"Não, não mostro."
"Assim nada posso fazer por si. Ficará preso e será julgado."
"Eu, julgado porquê?" indagou, mas sem resposta.
Mais uma vez a preocupação de Pedro aumenta e sem saber que fazer à sua vida, amaldiçoando a sua vinda, resolve mostrar a carta com uma condição. Na presença do Cônsul Português e só a ele. É levado numa carrinha celular ao consulado. Não demorou a ser ouvido. Após ter relatado toda a sua façanha desde a chegada declarou:
"Senhor cônsul. Acredite que não sei o que fazer. Se lhe mostro a carta e mais uma vez lhe recordo que nada dela sei, não conheço a língua deste povo, não sei o que me acontecerá. Pensei mesmo em rasgá-la antes de aqui chegar, mas receei que os polícias me vissem fazê-lo."
"Homem", disse o cônsul. "Somos ambos portugueses e aqui dentro é Portugal, esteja à vontade."
Depois dos diversos pedidos de promessas, das ressalvas, das antecipadas desculpas e mostrados todos os receios, o cônsul pô-lo à vontade.
Decidiu mostrar a carta. À Medida que o cônsul ia lendo o seu rosto espumava e tornava-se rubicundo de tal forma que Pedro apavorado titubeou a medo: "que diz a carta?" Sem lhe dar resposta pediu-lhe o passaporte. Voltou-lhe as costa e saiu para regressar momentos depois com dois seguranças e um carimbo no passaporte "Persona non grata".
Os seguranças meteram-no num carro e perguntaram-lhe em que hotel se hospedava. Para lá se dirigiram.
"Damos-lhe dez minutos para fazer a sua mala. Seguiremos para o aeroporto de imediato."
Argumentar para quê? Fez as malas e desceu. Felizmente não viu nem o Tuan Ly nem o gerente.
Já no avião de regresso matutava nos acontecimentos. Que fazer com a carta? Tinha-a no bolso mas temia abri-la mesmo não percebendo nada do que ela dizia. E quando chegasse a sua casa que diria aos pais? Mostraria a carta? Oh! Não.
Chegou a casa mais cedo do que esperava mas os pais nem se referiram ao caso. Teriam falado com o tio?
Os dias passavam e a carta continuava no seu bolso. O pai conhecia o mandarim, mas a mãe não. Ele preferiria falar com a mãe sobre o assunto mas tinha receio do que pudesse vir a acontecer. Não podia continuar com este segredo só para si. Necessitava de desabafar, de mostrar a carta a alguém. Só pretendia saber o conteúdo da malfadada carta. E se o soubesse? Revoltar-se-ia contra si próprio?
Aguentou sozinho durante mais de um mês. Não resistiu e falou com a mãe contando-lhe tudo. A mãe aconselhou-o a falar com o pai.
"Mas mãe... tenho receio das consequências."
"Logo mesmo eu preparo o pai e conto-lhe o teu problema. Amanhã acerca-te dele e verás que tudo fica resolvido."
Nessa noite dormiu em sobressaltos. Os pesadelos afluíram ao seu subconsciente e de manhã não foi capaz de encarar o pai. Por sorte (ou por azar?) o pai chamou-o.
"Pedro, tenho notado que andas preocupado ultimamente. A tua mãe falou ontem comigo. Porque não me disseste o que aconteceu?"
"Depois que tudo me aconteceu, tive medo."
"Com franqueza filho, mostra lá a carta."
"Pai..."
"Deixa-te de pieguices. Já não és nenhuma criança. Mostra-me a carta."
"Pai. Jura-me que não fazes como os outros, jura."
"Está bem, mostra a carta."
"Mostro, mas vais lê-la lá para dentro. Está bem?"
"Está bem."
Pedro entregou-lhe a carta tremendo de medo e correu para a cozinha, para junto da mãe. De repente um barulho de pontapés, gritos, palavrões e objectos atirados ao chão, algo vindo do escritório, obrigou a mãe a correr naquela direcção. Vinha lívida com a carta na mão. Entregou-a ao filho e disse-lhe baixinho: "vai-te embora e aguarda um telefonema meu. Rápido e não me faças perguntas. Vai, vai antes que o teu pai volte."
Durante dois dias Pedro vagueou pelas ruas sem comer e sem dormir, até que o seu telemóvel soou. Era sua mãe.
Chorou, chorou com tal pranto que nem conseguia ouvir o que a mãe dizia.
"Filho", disse a mãe "há dois dias que não durmo mas não consigo arrancar uma palavra do teu pai. Estou mesmo proibida de falar sobre o assunto sob pena do teu pai abandonar a casa. Nem tão pouco posso falar contigo. Não telefones cá para casa. Eu telefono-te. Sabes uma coisa? Tenho pensado muito no teu assunto. Estive hoje a falar com o padre Miguel, recordas-te dele?"
"Sim mãe."
"Contei-lhe o que se passou e o padre Miguel prometeu ajudar-te. Como sabes ele esteve muitos anos em Pequim e conhece bem a língua."
"Mas mãe, vai-me excomungar."
"Não filho. Ele é um santo homem e vai-te traduzir a carta."
"Oh, mãe. Não me tinha lembrado disso. Amanhã de manhã vou falar com ele. Muito obrigado e beijinhos. Telefona-me mãezinha."
"Adeus filho até amanhã."
Era manhã cedo quando o Pedro Ming chegou à igreja. O padre Miguel, um velhinho já na casa dos 70 anos, era amigo da família. Tinha casado os pais, e baptizado o Pedro que desde criança frequentara a catequese, fizera a comunhão. Frequentemente visitava aquele velhinho amoroso.
"Olá padre Miguel" disse Pedro beijando-lhe a mão.
"A tua mãe esteve aqui ontem. Estou a par de tudo o que passaste. Podes mostrar-me a carta e confia neste teu velho amigo."
"Padre, perdoe-me mas terá de jurar sobre a bíblia que me contará o que diz a carta e que não se zangará comigo."
"Filho, sei que não tens culpa de nada; sei que não conheces uma palavra de chinês; sei o que passaste e o que estás a passar; conheço-te desde que nasceste, mas, mesmo assim, juro sobre esta Bíblia Sagrada que tudo o que estiver escrito nesse papel ser-te-á divulgado. Juro perante Deus que não me zangarei contigo. Juro solenemente que tentarei resolver o problema junto do teu pai e tio."
Pedro respirou de alívio pela primeira vez desde partiu para a China. O padre Miguel, em quem confiava e que conhecia muito bem, iria dar-lhe paz de espírito e devolver-lhe a família. Estava radiante e tão feliz que se agarrou ao padre e chorou copiosamente.
"Dá-me essa carta filho", disse-lhe o padre.
"Padre, como me sinto feliz." E em pranto agarrou-se ao padre de tal forma que até o magoou.
"Pronto, pronto Pedro. Acabou-se tudo. Dá-me essa carta."
"Sim padre".
Ainda a soluçar e com as lágrimas a correrem-lhe copiosamente, Pedro meteu a mão ao bolso, rebuscou mas a carta, tinha-a perdido.
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