Naquele
liceu lisboeta todos ou quase todos os alunos desfrutavam de uma conta no Facebook. A Rita, uma linda garota de 17
anos, mas com corpo de mulher, não era exceção. Uma aluna exemplar e estudiosa
que era respeitada pelos colegas, uma vez que namorar não estava nos seus
planos, achando-se ainda muita nova e o apego aos livros era a sua prioridade.
Queria acabar o liceu e seguir para a Universidade. Todos ambicionavam a sua
companhia, a sua amizade e apenas isso lhes era oferecido.
Num sábado
de maio Rita abriu o seu computador ligando-se ao facebook. Um pedido de amizade aparece naquela rede social. Não era
seu hábito aceitar estranhos no seu círculo de amigos, mas a curiosidade
levou-a a investigar quem lhe pedia para a adicionar. Não havia amigos comuns
nem frequentava já o liceu. Era um universitário em direito, com 21 anos.
Rafael, assim se dizia chamar, tinha um charme que não passou despercebido à
Rita. A sua fotografia era a de uma rapaz já homem e reconheceu que era um
rapaz muito diferente dos seu colegas de liceu e dos amigos. Hesitou, mas logo
de seguida o adicionou. De momento não estava em linha e Rita, já agora,
gostaria de saber o que pretendia aquele encantador rapaz. No seu “currículo”
meia dúzia de fotografias, duas delas em capa e batina. Estudava na Faculdade
de Direito. Não tinha fotografia de amigos nem de familiares. Tão pouco dizia o
local onde vivia. Provavelmente seria daqueles rapazes discretos que não gostam
de contar a sua vida a estranhos, pensava Rita. Durante o resto da tarde não
lhe saia do pensamento aquele Rafael. Jantou à pressa e correu para o
computador. Rafael continuava a não se ligar à rede; que andaria ele a fazer? A
ansiedade tornou-se tão obsessiva que Rita, se admoestou a si própria.
Tentou esquecê-lo
entretendo-se a comentar esta ou aquela fotografia inserida pelas amigas.
Já tinha
esquecido o Rafael se não lhe aparecesse no canto inferior do seu monitor a
informação de que este estava em linha. Gostaria de entrar em contacto com ele
de imediato, mas achou contraproducente. Aguardaria o seu contato.
«Olá Rita!» Apareceu no computador.
«Boa Noite
Rafael, quem és tu?»
«Desculpa ter-te pedido para me adicionares,
mas, ao procurar uma amiga minha, Rita Xavier, vi a tua foto e não resisti.
Parecias uma barbie.»
«Está a
gozar comigo?»
«Rita! Não te conheço e mesmo se te
conhecesse, não é meu hábito gozar com alguém. Apenas te quis dizer que te
achei muito bonita, por isso te pedi para seres minha amiga.»
«Está bem,
aceito. Andas a estudar direito?»
«Ando no 2-º ano, e tu?»
«Ainda ando
no liceu, no 11.º»
«Chumbaste?»
«Eu,
porquê?»
«Ainda andas no 11.º…»
«Tenho 17
anos, querias que andasse já na Universidade?» Disse Rita, arrependendo-se de
imediato de ter divulgado a sua idade.
«Pensei que tinhas 19 ou 20 anos. No Facebook
não tens o ano do teu nascimento…»
«E agora,
achas-me uma criança?»
«Nem por isso. A tua fotografia e a maneira
com escreves, sem as infelizes abreviaturas, mostram que és uma mulherzinha
muito mais velha.»
«Agora chamas-me velha?»
«Tontinha… referia-me à tua avançada adolescência, quase uma senhora.»
«Quase?»
«Ritinha! É uma força de expressão. Claro que
és uma senhora, uma senhora muito jovem, muito bonita e que não gosta de
brincadeiras.»
«Que sabes
a meu respeito?»
«Por enquanto nada ou quase nada, mas espero
vir a saber muito, se me deres oportunidade.»
«Olha, a minha mãe está a
chamar-me. São hora de me deitar. Amanhã estás em casa?»
«Sim, tenho muito que estudar, mas para ti
arranjo um bocadinho.»
«Ok, uma boa noite.» Respondeu
Rita, mas sem desligar.
«Boa noite Ritinha. Vou sonhar contigo.»
Ainda aguardou uns segundos antes de desligar na expectativa de mais uma
mensagem da sua Barbie
Rita e
Rafael comunicavam-se agora em vídeo, por Skype.
Tinha decorrido um mês desde a primeira conversa no Facebook. As conversas começaram a ser constantes e amorosas.
Rafael era simpático, amável e terno e pretendia um encontro, mas sabia
comportar-se como um verdadeiro cavalheiro e isso agradava sobremaneira à Rita
que estava igualmente desejosa de um encontro. Curiosamente Rafael não lhe
tinha pedido o número do telefone e Rita também não viu necessidade de lho dar,
uma vez que se contactavam diariamente.
«Gostava de te ver pessoalmente, tomar uma
bebida contigo, sentir o teu cheiro, olhar-te nos olhos e dizer-te que és linda
e como gosto de ti, Barbie.»
«Estava a
ver que não mo pedias, Rafael.» Disse entusiasmada Rita.
«Receava que me interpretasses mal…»
«Hoje é
quinta-feira. Pode ser no sábado Rafael.»
«Este próximo?» Perguntou embevecido
Rafael.
«Sim.
Onde?»
«Escolhe o sítio. Para mim qualquer um está
bem.»
«Moras em
Sintra. Podes vir a Lisboa?»
«Claro, não pretendo que venhas que venhas
para aqui em transportes públicos.»
«Conheces a
Mexicana na Praça de Londres?»
«Perfeitamente.»
«Que tal às
4?»
«Ótimo.»
Rita, à
entrada da Mexicana, não tirava os olhos da porta e do relógio, eram 4 horas e
10 minutos e ele não aparecia. Parecia impossível, num primeiro encontro e ele
não aparecer. Começava a enfurecer-se e com uma vontade de abandonar aquele
local. Não admitia aquela falta de educação. Olhou mais uma vez para o relógio
e pediu a conta.
«Perdoe-me.»
Disse um cavalheiro bem vestido e correto, dirigindo-se a Rita. «É a Rita, a
Barbie como lhe chama o Rafael, não é?»
«Quem é o
senhor?» Perguntou Rita admirada.
O cavalheiro
mete a mão ao bolso e tira a carteira mostrando a fotografia de Rafael.
«Sou a pai
de Rafael. Infelizmente não pôde vir, teve um pequeno acidente…»
«Que lhe
aconteceu?» Interrompe Rita com preocupação.
«Nada de
grave. Esta manhã tropeçou e torceu um pé. Levei-o ao hospital e deixei-o em
casa agora mesmo, com o pé ligado. Ele estava preocupado consigo e pediu-me
para cá vir, como não tinha o seu número…»
«Oh, que
pena. Era o nosso primeiro encontro pessoal.» Exclamou Rita pesarosa.
«A Rita não
gostaria de lhe fazer uma surpresa?» Indagou o cavalheiro bem vestido.
«Sim, mas
como?»
«Posso
levá-la lá a casa e fazemos-lhe uma surpresa. Depois trago-a novamente aqui ou levo-a
a sua casa.»
«É uma
ideia.»
Saíram da
pastelaria e dirigiram-se para um faustoso Mercedes preto. O cavalheiro abriu a
porta e ajudou Rita a entrar, deu a volta e sentou-se ao volante. Rita sorria e
parecia feliz enquanto passava os dedos pelo tablier do carro.
«É um
bonito automóvel. É novo?» Perguntou inocentemente.
«Comprei-o
o mês passado. Gosta de automóveis?»
«Hum… nem
por isso. O meu pai também tem um Mercedes.»
«Que faz o
seu pai?
«É gestor
de empresas.»
«Quer que
ligue o rádio?»
«Sim.»
O diálogo
manteve-se durante alguns minutos e Rita ia baloiçando o corpo com moderação ao
ritmo da música enquanto o cavalheiro falava, mas Rita parecia não o escutar.
Iam a meio
de IC 19 em direção a Sintra e a Rita parecia preocupada.
«Mas que estupidez a minha, não conheço o
homem de lado nenhum e meti-me dentro do carro. Estamos quase em Sintra e eu
aqui sozinha. Agora é tarde, vou tentar mostrar-me calma…»
O seu
pensamento foi interrompido pelo grito do condutor.
«RITA!
RITA! Estava a dormir?» Perguntou baixando o tom.
«Oh, não,
desculpe, estava tão longe daqui…»
«Será
melhor eu telefonar lá para casa, não vá o Rafael estar a dormir.» Disse o
cavalheiro pegando no telemóvel e, logo de seguida «só me faltava isto. Estou
sem bateria. Empresta-me o seu?»
«Não o
trouxe, ficou também a carregar…» mentiu Rita com espontaneidade.
«Não tem
importância. Eu bato à porta antes de entrarmos.»
Chegaram a
Sintra e Rita cada vez mais nervosa, tentava sorrir disfarçando o receio,
enquanto o carro saía da vila e metia por uma estrada que Rita conhecia como
caminho para Colares.
«Vocês não
moram em Sintra?» Perguntou com um ligeiro tremor de voz.
«O Rafael
não lhe disse que morava em Galamares? É praticamente Sintra.»
«Pensei que
fosse mesmo na vila.»
Depois de
várias voltas dentro de Galamares, o Mercedes mete por uma estrada particular e
poucos metros à frente deparam com um portão que dava acesso a uma vivenda. O
portão abre-se à chegada do Mercedes e o cavalheiro bem vestido, com um sorriso
exclama:
«Já deram
pela nossa chegada.»
Aproximam-se
da entrada principal da vivenda e o cavalheiro diz para a Rita.
«Espere
aqui um pouco que eu vou tocar à porta e saber se Rafael está a pé.» Disse
saindo do carro e dirigir-se para a porta.
Rita viu o
homem tocar à porta e pareceu-lhe que falava para o intercomunicador. Olhou
para trás e verificou que o portão se fechara após a entrada do carro. A
vivenda era bonita, rés-do-chão e primeiro andar e tinha aspeto de estar
habitada, duas das janelas estavam abertas e a brisa abanava os cortinados.
Acalmou um pouco, sem contudo deixar de ter medo.
«Estanho, abriram-lhe o portão e agora toca à
porta. Teria ele um comando? E se eu agora fugisse? Ele iria atrás de mim? E se
é verdade que moram aqui? Faria figura de parva.» Pensava Rita que só
“acordou” quando a porta do carro se abre e o cavalheiro lhe diz:
«Está
acordado, está ao computador, venha.» Disse-lhe estendendo-lhe a mão.
As pernas
tremiam-lhe e ela disfarçou dizendo ter as pernas dormentes. Recompôs-se e lá
saiu do carro. Entraram e seguiram por um pequeno corredor deserto, sem
molduras ou quadros. O cavalheiro, sempre sorridente, convidou-a a entrar numa
pequena salinha, acendendo a luz.
«Espere
aqui um pouco que vou chamar o Rafael.»
A sala era
pequena, uma secretária, uma cadeira, um armário com livros e um sofá
enchiam-na por completo. Não tinha janelas para o exterior. Ficou de pé durante
alguns minutos, olhou os livros através das vidraças e constatou tratar-se de
livros de literatura estrangeira. Quem seria o pai de Rafael? Que faria? Que
estaria ela própria ali a fazer? Sentou-se no sofá. Olhou o relógio eram quase
cinco horas. Levantou-se, deu a volta à secretária e sentou-se na cadeira. Com
cuidado abriu uma gaveta. Nada, estava vazia. Outra. Igualmente vazia.
Levantou-se, apagou a luz e mergulhou na escuridão. Acendeu-a de novo. Voltou a
espreitar para a vitrina dos livros e tentou descobrir a que diziam respeito.
Tinham decorrido dez minutos e o Rafael sem aparecer. Voltou a sentar-se.
Levantou-se de imediato e de mansinho foi abrir a porta e, qual o seu espanto,
estava fechada à chave. Entrou em pânico. Bateu ligeiramente à porta e colocou
o ouvido à escuta. Silêncio absoluto. Bateu com mais foça. Aguardou uns
segundos. Nada. Pontapeou a porta, gritou, mas nada. Qualquer coisa estava
errada.
«Fui raptada.» Pensou.
«Nada de pânico, pensa.» Disse para consigo
própria.
Meio minuto
bastou e elaborou um plano. Começou por esconder o seu telemóvel debaixo do
sofá. Fingiu telefonar para a mãe. Com a mão na orelha, como se falasse ao
telefone, gritou junto à porta.
«Mãezinha!
Estou fechada num quarto em Galamares. ESTÁS A OUVIR?» Calou-se por segundos e
encostou o ouvido na porta. Silêncio absoluto. Tentou novamente, mas desta vez
aos gritos, saídos com vontade. Não, não estava ninguém em casa, por certo que
se houvesse alguém já lhe tinham vindo tirar o telemóvel. Aguardou uns longos
segundos e voltou ao sofá, pegou no telemóvel e acocorou-se atrás da
secretária. Escreveu uma mensagem ao pai.
«Paizinho, envio esta mensagem para ti para
não assustar a mãe. Fui raptada. Estou em Galamares, perto de Sintra, numa
vivenda, dentro de uma sala sem janelas para a rua. Vai à polícia e tentem
localizar-me por favor. Tenho de desligar antes que saibam que tenho comigo um
telemóvel. Vou deixá-lo ligado, mas em silêncio. Estou cheia de medo. Adoro-te
pai. Salva-me por favor.»
De seguida
liga para o pai e muito baixinho diz:
«Paizinho
vê a mensagem que te enviei. Adeus.» Desliga de imediato o telemóvel sem
esperar resposta e atira-o para debaixo do sofá. Tem esperanças que o pai e a
polícia a localizem por GPS
Alguns meses antes
Na rua da
Sofia, a dois passos do Mondego em Coimbra, vivia Feliciano num quarto alugado.
Era estudante na Faculdade de Direito. Uma certa manhã alguém bate à sua porta.
Não estando presente, a sua senhoria abre a porta e recebe uma encomenda
destinada ao seu inquilino, Dr. Feliciano. Recebeu-a e colocou-a em cima da
secretária, no quarto do seu inquilino.
«Boa tarde
doutor Feliciano. Esta manhã chegou uma encomenda para si, deixei-a no seu
quarto.» Disse a dona da casa ao ver entrar o seu inquilino.
«Quem a
trouxe?» Perguntou Feliciano ao ver o embrulho na sua secretária.
«Não sei,
era um rapazito, mas parece que vem junto uma carta dirigida a si.»
A embalagem
era a de um computador, Toshiba, e na
realidade, uma carta sem remetente acompanhava a encomenda. Abriu e leu:
«Caro Dr. Feliciano. Pretendemos fazer um
estudo sobre o relacionamento dos jovens nas “Redes Sociais” via Internet e foi
por nós o escolhido. Por razões óbvias o nosso nome não será divulgado e
aconselhamo-lo a fazer o mesmo, utilizando um pseudónimo, por exemplo Rafael.
Tão pouco deverá dar a sua verdadeira localização. O computador é nossa oferta
e para o ligar deverá introduzir a palavra passe 20Rafael14. Tem todos os
programas de acesso às redes sociais instaladas, tais como Facebook, Twitter e outras. Também foi instalado o Skype.
A sua colaboração será recompensada e
quinzenalmente receberá, a título de prestador de serviço, uma quantia que
poderá ser aumentada dependendo da evolução do seu trabalho. Entraremos brevemente
em contacto via Skype, para o seu
novo computador. Bons êxitos. “Secretário”.
Feliciano
era um estudante de fracos recursos financeiros. Os seus pais viviam da lavoura,
numa aldeia próximo de Leiria, mas dado o bom rendimento escolar de seu filho e
a vontade que mostrara num curso superior, não hesitaram em fazer um esforço e
enviar o seu filho único para a Universidade de Coimbra.
Feliciano
estava delirante com a oferta do PC de
elevado valor que lhe era oferecido. Desconhecia qual o trabalho que iria ter
de prestar, mas aguardaria o contacto.
Jantou à pressa
e dedicou a noite a inspecionar o computador. Tentou mudar a palavra passe sem
sucesso. Não se preocupou muito. Era fácil de decorar: um “Rafael” no meio de
2014, ano em curso. Utilizaria esse nome para os seus futuros contactos.
Já passava
da uma da manhã quando reparou num contacto via Skype, aparecer em linha. O “Secretário”.
«Boa noite Feliciano.»
«Boa noite
senhor…»
«Secretário, trate-me por Secretário.» Respondeu
uma imagem contra luz que não deixava reconhecer o seu interlocutor e continuou:
«gosta do seu computador?»
«É Ótimo.
Por que mo oferecem?»
«Para trabalhar para nós, precisa de um bom
computador.»
«Que
pretendem que eu faça?
«É simples. Vamos enviar-lhe contactos de
jovens que aderiram ao Facebook. Só
terá de as cativar e conseguir um encontro com elas no local que elas quiserem.
Depois falaremos com os seus pais e serão eles a comparecer no local. Assim,
alertaremos não só as próprias como
também as suas amigas e família do perigo desses encontros com desconhecidos.»
«Mas se eu
contactar essas jovens não posso mostrar a minha fotografia nem falar via Skype, pode haver jovens de Coimbra que
me conheçam.»
«Não lhe enviaremos contactos de Coimbra, apenas
de Lisboa e Porto. Por cada entrevista pessoal que consiga receberá, para além do
que receber, um bónus extra. Por agora é tudo, muito boa noite.» O contacto
de imediato foi cortado.
Feliciano
não podia acreditar no que lhe estava a acontecer “engatar miúdas” e receber
dinheiro. Parecia-lhe fácil.
Dois dias
após este contacto, Feliciano recebe por correio eletrónico um nome e uma foto
de uma jovem que deveria contactar via Facebook,
“Rosa Inocêncio”. Três semanas depois um novo contacto. Ainda não conseguira
encontro com a primeira e já lhe estavam a mandar uma segunda.
Em três
meses já tinha contactado seis jovens e conseguira encontro com três, 2 no
Porto e 1 em Lisboa.
Certa
manhã, no restaurante onde almoçava, uma notícia na televisão aterrorizou-o. A
fotografia de uma jovem que tinha desaparecido era exatamente aquela que ele
contactara, havia um mês e com quem marcara um encontro, a Nela Ferreira, de
Lisboa. Correu para casa e ligou o computador. O contacto dessa jovem tinha
desaparecido. Temeu o pior, andaria ele a colaborar com alguém sem escrúpulos?
Iria a Polícia descobrir que ele marcara um encontro com essa jovem? Algo de
muito grave se estava a passar e certamente com a sua inocente colaboração.
Aguardou pela noite para contactar o “Secretário”.
De repente
lembrou-se da Rita, a Barbie, com quem tinha marcado um encontro na Mexicana,
em Lisboa, para o dia seguinte. Tentou contactá-la, mas sem sucesso. Nem no Skype nem no Facebook estava presente. Deixou-lhe uma mensagem para entrar em
contacto urgente. Lamentou o facto de não lhe ter pedido o número do telemóvel.
Cerca das
onze da noite, o “Secretário” liga-se, como habitualmente, através do Skype.
«Olá Feliciano, tudo bem?»
«Boa noite
Secretário. Ouviu a notícia na televisão do desaparecimento de Nela Ferreira?»
«Ouvi, sim. Já a tinha ouvido alguns dias atrás
e por isso a cortámos dos seus contactos a fim de não o incriminar. Nada receie, estamos a colaborar com a
Polícia Judiciária. Ela não chegou a compareceu ao encontro que lhe marcou.
Desapareceu nesse dia.»
«Estou
bastante apreensivo com tudo isto. Provavelmente vou desistir desta minha
colaboração convosco.»
«O Feliciano pode desistir quando quiser.
Deixará de receber o dinheiro, mas pode ficar com o computador. Já o mereceu.»
«Obrigado,
vou pensar no assunto, mas confesso estou cheio de medo.»
«Durma descansado e lembre-se que somos um
departamento da P.J. que trabalha na sombra. Até amanhã.» Disse desligando
de imediato.
Feliciano
não conseguiu dormir nessa noite, agarrado ao computador na esperança de falar
com a sua Barbie, a quem começava a amar. Adormeceu agarrado ao computador.
Acordou de madrugada e olhou o relógio, cinco da manhã. Foi deitar-se.
Sábado, 11
horas e 30 minutos da manhã. Feliciano acorda com um pesadelo. Olha o relógio.
Corre para o computador, mas a sua Barbie continuava desligada. Procura os
contactos anteriores das jovens recomendadas pelo “Secretário”, mas não as
encontra. Tinham sido apagadas. Apenas lhe restavam as 3 recentes com quem iniciara
contacto. Volta a tentar o contacto com Rita e, com grande espanto, o seu já
nome não aparece nos seus contactos. Tinha igualmente sido apagado. Entra em
pânico. O que fazer? Tem uma ideia. Lava a cara, veste qualquer coisa decente e
corre para a estação dos comboios. Desilusão. Não havia comboios a essa hora
para Lisboa. Olha o relógio. São 3 da tarde, nem de táxi chagaria a Lisboa
antes das 4. Volta para casa e abre o computador. Rita, nem sombra. O
“Secretário” não estava ligado e mesmo que estivesse o que lhe diria?
Desesperado, sem saber o que fazer, dá passos pelo quarto dando palmadas na
cabeça.
«Em que sarilhos me meti.» Pensa.
Mais uma
vez olha o relógio. São 4 horas. De repente lembra-se: «vou à Polícia.» Corre
direito à esquadra.
Atabalhoadamente
conta tudo, desde a receção do computador, o desaparecimento de Nela Ferreira,
o encontro em Lisboa com Rita para essa tarde. Enquanto falava, o agente ia
anotando todos os pormenores.
«Isto é um
assunto muito grave. Enquanto contactamos com a Judiciária vá a casa e traga-me
o seu portátil, teremos de o investigar. São quase 5 horas. Se a sua amiga foi
inteligente, a esta hora estará em casa, caso contrário… não sei.» Diz o
agente.
Na vivenda
isolada de Galamares Rita chorava, de minuto a minuto consultava o seu relógio
amaldiçoando a sua ingenuidade. Como fora tão parva e se deixara raptar daquela
mameira? Sim, tinha sido raptada, estava fechada há quase meia hora. Não tinha
janelas para a rua e já gritara o suficiente para que, se houvesse alguém por
perto, já a teriam ouvido. Tinha esperanças que a Polícia e o seu pai
aparecessem rapidamente. Quem seria aquele Rafael de quem começava a gostar?
Estaria ele a colaborar com os raptores? Lembrou os bons momentos que passara
naqueles últimos trinta dias, falando com o jovem universitário. Recordou-se
que tentara tirar-lhe uma foto sem o conseguir. Nada lhe dissera, não pretendendo
passar por inexperiente em computadores e também para que ele não pensasse que
queria a sua fotografia. Tinha sim, a sua fotografia, tirada com o seu
telemóvel. Desligara o seu vídeo para ele não se aperceber disso. Tinha-a ali
mesmo no seu telemóvel, mas temia ir busca-lo aonde o escondera. Muitas vezes o
olhava e beijava-o. Lembrou-se do malfadado Mercedes que tinha a matrícula com
um 45, idade de seu pai. Lembrou-se do pai que faria aquela idade dentro de
dias e prometera-lhe um jantar num luxuoso restaurante.
Um barulho
ao longe despertou-a dos seus pensamentos. De imediato colocou-se atrás da
porta com uma cadeira pronta a rachar a cabeça ao primeiro que entrasse.
Agora o barulho
era mais audível, pareciam carros da Polícia e ambulâncias. Pôs-se à escuta.
Ouviu tocar à campainha da porta e momentos depois uma voz através de um megafone,
anunciava que iriam arrombar a porta se esta não fosse aberta. Correu a
recolher o seu telemóvel. O pai tinha conseguido localizá-la. Telefonou-lhe.
«PAIZINHO.»
Gritou
«Sim filha,
estás bem?»
«Sim
paizinho. Está aqui à porta?»
«Sim, estou
com a Polícia.»
«Oh que
bom, não deve haver ninguém em casa, estou farta de gritar e o silêncio é total.
Estou num quarto interior, sem janelas.»
«Só mais
uns minutos e já te cubro de beijos querida.»
Já na
Polícia Judiciária, Rita conta toda a história desde o conhecimento de Rafael
até àquele momento. A Polícia pede ao pai de Rita que vá a casa recolher o
computador da filha a fim de o examinar.
«Não, não
sei o nome do homem, apenas reparei que tinha aspeto de um cavalheiro, muito
educado, com pouco mais de 40 anos.» Declarou Rita ao seu interlocutor. E
continuou. «Reparei no Mercedes que parecia novo e ele disse-me que o comprara
o mês passado. Também reparei que a matrícula terminava em 45, idade do meu
pai.»
Os
inspetores sorriram e deram instruções aos colegas.
«É muito
útil essa informação, Rita. Se o carro não é roubado, em breve o encontraremos.»
Entretanto
chega o Pai de Rita com o seu computador.
O inspetor
pede a Rita para o ligar e procurar esse “amigo” Rafael.
«É
estranho. Não aparece o seu contacto.» Admira-se Rita.
«Já
calculava, devem tê-lo apagado.» Respondeu um dos inspetores.»
«Não tens
uma fotografia do Rafael?» Indagou outro inspetor.
«Tentei
tirar-lhe uma fotografia, mas não consegui, tive de recorrer a uma foto ao
monitor. Está aqui no meu telemóvel.» Disse Rita mostrando-a ao agente.
«Antunes.
Digitaliza esta fotografia.» Disse o inspetor para o colega, entregando-lhe o
telemóvel da Rita.
«Que sabes
desse Rafael?» Pergunta um outro inspetor.
«É um
estudante de direito. Anda no 2.º ano da faculdade, segundo ele disse.»
«O nome
deve ser falso, mas se a fotografia tiver um mínimo de qualidade e se de facto
frequenta a Universidade, chegaremos lá.»
Dois dias
após as declarações de Rita na Judiciária, seu pai recebe um telefonema da Polícia.
Pede a sua comparência com a filha na esquadra a fim de identificarem o presumível
autor do rapto.
«É o número
4.» Declarou Rita que através do vidro o reconheceu entre os 5 homens de número
ao peito.
«Tens a
certeza?»
«Absoluta.»
Declara Rita bastante convicta.
No dia
seguinte toda a comunicação social falava do desmantelamento de uma rede de
tráfico humano, operando em Lisboa e Porto, num total de 9 elementos, 4
portugueses e 5 estrangeiros.
O método
utlizado era angariar jovens estudantes de fracos recursos financeiros, incentivando-os
a contactar garotas dos liceus através das redes sociais, seduzindo-as e
marcando encontro com elas. Os seus serviços eram remunerados com a oferta de
um computador, controlado por uma central, e um valor periódico que dependia
dos encontros conseguidos. Os jovens estudantes eram convencidos de que estavam
a colaborar com a Polícia no intuito de, nesses encontros, serem prevenidas as
garotas, pela Polícia ou os próprios familiares que compareciam no local
escolhido, do perigo a que ficariam sujeitas.
Posteriormente
a jovem era seduzida por um cavalheiro atraente e educado que comparecia ao
encontro, intitulando-se pai do rapaz, a uma visita ao seu amigo que sofrera um
pequeno acidente e não pudera comparecer.
O grupo de
sequestradores atuava há poucos meses, mas tinham já conseguido dois raptos,
uma jovem de 16 anos, da qual descobriram o paradeiro e uma outra, uma garota
de 17 anos que conseguira iludir o seu raptor, escondendo o seu telemóvel e
contactando o pai que de imediato pôs a Polícia em busca da filha.
Os
contactos dos jovens eram apagados do computador logo que o encontro fosse
marcado ou gorado.
O
“secretário” era o cabecilha desta rede. Tinha sido apanhado na sua casa em
Lisboa. No seu escritório foi encontrado o servidor e através dele foi fácil
identificar todos os computadores a ele ligados, as jovens contactadas, os
estudantes que as seduziam e apanhar todos os implicados. Feliciano, após 2
dias de interrogatórios, foi considerado inocente.
«Podes crer
Rita, se não me recebesses eu dormiria à tua porta até o conseguir.» Declarou
Feliciano muito ternurento.
«És um
tonto. Pensavas que te deixaria dormir ao relento? Trazia-te um cobertor.»
Disse rindo Rita.
«Agora
nunca mais falo com ninguém desconhecido via Internet.»
«E eu que
saiba Feliciano. Ou Rafael? Brincou Rita.
«Oh!
Barbie, nunca mais me fale desse malfadado Rafael. Morreu. Agora sou eu quem te
ama, minha querida.» Declarou Feliciano com afeto.
Feliciano
vive agora em Lisboa, num quarto alugado, bem perto da sua amada. Continua na
Faculdade.