segunda-feira, 13 de junho de 2016

MATA-MOSCAS - O VIOLADOR


                Era o início das aulas e Isabel tal como outros alunos, dirigiu-se para a escola a fim de se informar dos horários das aulas.       
            Professores e encarregados de educação deambulavam pelos corredores verificando as disciplinas e horários das mesmas. Um cavalheiro de aspeto nada digno de um docente, com uma barba negra mal aparada e cabelo rapado, abordou Isabel:
            «Qual a tua turma?»
            «É a B, senhor professor.» Respondeu um pouco amedrontada.
            «És do 10.º?»
            «Não senhor. Sou do 11.º»
            Um amigo e colega de Isabel que assistiu à conversa, não pode deixar de a questionar.
            «Quem era aquele Belita? Que aspeto asqueroso.»
            «Deve ser um professor, espero que não seja meu.» Respondeu.
            Na realidade não era um professor. 
            Isabel, Belita para os amigos, era uma jovem morena de grandes olhos castanhos. Tinha 16 anos já com corpo de mulher. A sua postura e aplicação aos estudos, faziam inveja a muitas colegas. Nos seus tempos livres dedicava-os a nadar na piscina da escola ou na praia. Praticava natação e adorava o mergulho, permanecendo muito tempo debaixo de água em competição com os colegas.  
            Em finais de setembro Isabel, como habitualmente, seguia a pé para casa, não muito longe da escola. Vivia numa vila pacata onde o perigo não parecia existir. Todavia, nessa tarde, algo de inesperado aconteceu. Seguia no seu caminho. Encostado a um carro velho estacionado junto ao passeio, de posta aberta, um cavalheiro fumava um cigarro. Estava de costas para a estrada. Isabel seguia por aquele passeio sem reparar naquele personagem. Tarde demais. Um trapo embebido num líquido que lhe fez lembrar o cheiro dos hospitais foi-lhe aplicado junto ao rosto. Ainda teve tempo de olhar a cara do homem. Era o personagem que a tinha abordado no início das aulas. O professor asqueroso que não voltou a ver. Debateu-se violentamente, mas sem resultado. Depressa compreendeu que aquele homem a queria raptar. Suspendeu a respiração por longos segundos, até que se fingiu desmaiada caindo desamparada. De imediato foi atirada para o banco traseiro.
             Mata-moscas o violador, era a alcunha na prisão, de um homem com um cadastro tão grande, que os próprios companheiros de cela temiam. Fora preso por várias vezes por sequestro e tráfico de jovens, morte de uma delas e ouros crimes de roubo com armas de fogo. Tinha fugido da cadeia dentro de um contentor de roupa suja. Andava a monte há cerca de três meses. A Polícia divulgara a imagem de um homem, mas sem barba, através da comunicação social.
            Mata-moscas, após a fuga da prisão, refugiara-se naquela vila pacata, longe da cidade e onde provavelmente a Polícia o não procuraria. Deixara crescer a barba e rapara o cabelo.
            Em vésperas de abertura de aulas introduziu-se na escola da vila, misturando-se com professores e pais de alunos. Escolheu a sua próxima vítima. Isabel pareceu-lhe que valeria um bom capital.
            No banco de trás Isabel mal se mexia com medo que o raptor descobrisse que não desmaiara. O carro seguia a pouca velocidade por ser velho ou para não despertar suspeitas. Naquela cabecinha de Isabel conjeturava-se tudo menos pânico. Sabia que teria de ser prudente e agir com a cabeça fria. Muito lentamente, tira os atacadores dos ténis. Amarra um ao outro. Pareciam resistentes. Deu um nó de maneira a formar um laço. Teria de ser rápida e certeira. De repente um solavanco e o carro sai da estrada. Agora rodavam por uma estrada de terra batida, entre pinhais e a uma velocidade ainda mais lenta. Talvez fosse o momento apropriado.
            Enche o peito de ar. Sempre com movimentos muito lentos, procura dentro da sua mochila qualquer coisa, mas apenas lápis, esferográficas e livros existiam. Agarrou um lápis. Com uma destreza anormal, enfia o laço no pescoço do homem e amarra-o contra o encosto do banco. Apanhado de surpresa e quase a sufocar, tenta com a mão direita agarrar a jovem pelos cabelos. Com toda a força ela espeta-lhe o lápis no pulso de tal forma que parte o lápis, ficando metade espetado e a outra metade na sua mão. O homem grita de dor. Com a mão esquerda tenta libertar o pescoço. Ela ameaça-o que lhe espeta o resto do lápis na cara. Com o lápis na mão esquerda encostado ao pescoço do homem, abre o porta-luvas. Uma pistola. A medo pega nela e mete-a dentro da sua mochila. Tira a chave da ignição e guarda-a também. Rapidamente sai do carro e rebusca a bagageira. Apena lixo, roupa e uma corda.
            «Vinha preparado o nojento.» Pensou.
            Não largava os olhos do homem que entretanto retirara o lápis do pulso, com os dentes e com a mão esquerda tentava libertar-se. Isabel abriu as portas do carro e com a corda a custo amarrou o homem ao banco do carro.
            Correu no sentido que lhe pareceu ser o da estrada principal. Deviam ter percorrido naquela estrada de terra batida uns bons quilómetros. Os ténis sem atacadores e a mochila não a deixavam correr mais depressa. Sempre a correr e a chorar pegou no telemóvel e ligou o 112. Com a voz sufocada pela corrida e pelo choro, lá conseguiu informar a Polícia que não parava de lhe pedir pormenores do caminho percorrido, do aspeto do homem, se estava ferida, etc.
            Quando desligou sentiu-se mais reanimada. A Polícia iria de imediato ao seu encontro. Tinha de chegar rapidamente à estrada principal na expectativa de encontrar alguém.
            Sem parar de correr, ouve o telefone tocar. Era a mãe. Atendeu. Com a preocupação tinha-se esquecido de telefonar para casa.
            «Mãezinha, não te preocupes, estou a caminho de casa.»
            «Está a chorar, filha. Que te aconteceu?»
            «Eu depois conto-te.»
            Não quis alarmar a mãe. Ela, nada poderia fazer, mas a mãe insistia e ela desculpou-se que depois lhe contaria, que tinha de desligar. Correria melhor com o telefone no bolso.
            Enquanto corria ia olhando para trás.
            Quase sufocou quando viu que o homem se tinha libertado e corria atrás dela. Trazia qualquer coisa na mão esquerda que brilhava. A mão direita estava envolta num lenço. Seria Uma faca? Atirou para longe a mochila para correr melhor embora os ténis sem os atacadores lhe dificultassem a corrida. De imediato se arrependeu. A chave do carro e arma estavam dentro da mochila. Que imprudência. Por que não pensara nisso? Agora era tarde. Não iria perder tempo a voltar atrás. Teria de fugir o mais depressa possível. Se se descalçasse correia melhor, mas naquele chão irregular seria capaz de se magoar. As lágrimas corriam-lhe pela cara, dificultando-lhe a visão. Limpou os olhos e tentou concentrar-se na corrida.
            «A Polícia deve estar a chegar.» Pensava.
            O Pânico apoderou dela quando ouviu um tiro. O homem tinha-se apoderado da arma.
            Ziguezagueando por estre os pinheiros, corria e chorava copiosamente. Um segundo tiro alarmou-a ainda mais. Iria morrer. Não valia a pena correr mais. O homem estava cada vez mais perto.
            «Não lhe acertara porque com a mão esquerda não tinha pontaria ou porque não a queria morta? Não seria melhor parar? Em poucos minutos ele a alcançaria. Talvez a não quisesse matar.» Pensava.
            Não aguentou a corrida. Caiu, chorou e gritou: «Não me mate por favor.»
            O homem alcançou-a e agarrou-a pelos cabelos.
            «Vais pagar pelo que me fizeste.»
            «Desculpe, senhor. Tive medo.» Lamentou-se.
            «Eu não te quero fazer mal, mas vais ter de te portares bem, se não levas um tiro.»
            «Faço o que quiser, senhor.»
            «Segue à minha frente.» Ordenou.
            Caminham em direção ao carro. Isabel chora com os olhos postos no chão. Parecia procurar algo. De repente contorce-se e cai. O homem agarra-a pelos cabelos e levanta-a. Isabel com ambas as mãos agarradas à barriga levanta-se. Trazia uma pedra escondida.
            «Que se passa?» Pergunta o homem um pouco perplexo.
            Isabel com os olhos alagados em lágrimas, olha o homem. Na mão esquerda a arma parecia pronta a disparar. Estava desvairada. Preferia morrer a ter de subjugar-se àquele energúmeno. Com um golpe inesperado atira a pedra com uma força louca contra a mão armada do homem. O homem grita de dor deixando cair a arma. Isabel arremessa a pedra com força contra a cara do homem e pontapeia a arma para longe. Corre desvairada o mais que podia, escudando-se por entre as árvores.
              A Polícia logo que recebeu a chamada de Isabel, enviou carros patrulha e ambulâncias na direção presumível à indicada por Isabel. Conheciam bem aquela zona e não seria difícil a sua localização. Só esperavam não chegar tarde de mais. Um dos agentes foi enviado para a escola, investigando pormenores sobre o suspeito que rondara semanas antes os alunos. A suspeita foi confirmada de imediato. As fotografias de cadastrados apresentadas a professores e alunos que ainda permaneciam na escola, confirmaram que o fulano em questão, era aquele foragido procurado. De imediato se contactaram entre si. Teriam de ter cuidado.
             Mais um tiro. Isabel pensou que o próximo seria fatal. Olhou para trás e reparou que o homem, a uns duzentos metros, empunhava a arma com ambas as mãos. A cara e as mãos ensanguentadas, davam-lhe um aspeto medonho. Iria morrer.
            O silvo de carros da Polícia ecoou naquele momento. Chegariam a tempo? Atirou-se para o chão exausta. As suas forças chegaram ao fim. Iria morrer. Só teve tempo de gritar:
            «Mata-me porco.»
            Ouviu 3 ou 4 tiros e desmaiou.
           O raptor ouvindo os carros da Polícia abandonou a sua presa e correu para o carro na esperança de se por em fuga. Junto ao mesmo, um agente aguarda-o. Aponta-lhe a pistola e ordena que se entregue. Como resposta recebeu um tiro num braço, mas logo um seu colega dispara contra o foragido que cai por terra.
 
            Isabel acordou no hospital. Pais, um agente da Polícia e um médico estavam junto dela.
           «Não te preocupes Isabel. Agora estás a salvo. A alma do teu raptor a esta hora deve estar a arder no inferno. Foste muito corajosa.» Comentou o agente.
            «Doí-te alguma coisa querida? Segundo me informou o senhor doutor, não tens nada.» Conformou-a a mãe.
            Isabel agarrou-se à mãe a chorar. Não tinha nada, mas não mais esqueceria o que passou.