sábado, 29 de agosto de 2009

A carta

Pedro Ming "o chinês" como era conhecido, não por ser chinês mas pela sua descendência, filho de pai português e neto paterno de chinês, na sua última visita a Pequim onde vivia um tio, deparou-se com um problema que o marcou para toda a vida.

Após e-mail enviado a seu tio Xavier Ming a residir em Pequim há já bastantes anos, marcaram-se datas de estada naquela cidade chinesa a fim de passarem uns dias de férias em conjunto. O tio Xavier tinha uma casa razoavelmente grande que lhe servia de habitação e escritório. Vivia só. O seu sobrinho visitava-o amiudadas vezes e lá se hospedava.

Naquele dia amaldiçoado chega a Pequim manhã muito cedo. Toma um táxi que o leva a casa do seu tio a cerca de 30 km do aeroporto. Não sabia uma palavra em chinês, ao contrário de seu tio que dominava a língua na perfeição. O Taxista, chinês, não falava inglês mas com gestos e indicações do Pedro lá chegou ao destino. O taxista não aceitou receber o valor da corrida e em contra partida entregou uma folha de papel ao Pedro.
Já fora do táxi, olhou o papel mas os caracteres chineses nada lhe diziam. Guardou o papel.

A habitual recepção à chegada, a conversa e o cansaço da viagem fizeram-no esquecer a carta recebida do taxista. Só no dia seguinte se lembrou e contou ao tio o episódio da carta.
"Mostra lá a carta Pedro", pediu o tio.
O Pedro apresentou-lha mas reparou que este enquanto lia, a sua cara ia-se transtornando e quanto mais lia mais transtornado se mostrava. Chegou a temer a sua reacção e com razão.
Mais vermelho que um pimento, e com um tom de voz nunca ouvido pelo sobrinho, vociferou:
"Fora daqui meu traste."
"Mas..." tentou o Pedro dizer.
"Rua, rua. Não és digno do teu nome."
"Tio..." mais uma vez tentou falar.
"Não me trates por tio. Nem mais um segundo aqui te quero. Leva essa carta e rua, rua, rua." E arrastou-o pelo braço com força porta fora gritando-lhe. "NÃO ME APAREÇAS MAIS", batendo com a porta com enorme estrondo.

Que fazer? Que culpa tinha Pedro de tudo aquilo? Rasgava a carta? Não, não podia sair da China sem uma resposta. Mas iria aonde? Pediria ajuda a quem? Não conhecia ninguém.

Alugou um hotel. Meditou durante horas no sucedido. Que diria a carta assim de tão grave? Quem seria o taxista e porquê a carta? Nada fazia sentido. Telefonar para Portugal para o pai não seria aconselhável. Não sabia se o tio já o tinha feito e o que teria dito. Aguardaria para o fazer no regresso quando estivesse cara a cara com ele.

Tentou ainda um telefonema ao tio. Melhor fora que o não tivesse feito. Sem ter tempo de dizer uma palavra ouviu uma enxurrada de palavrões não habituais no tio e a chamada foi cortada.

Horas mais tarde, mais recomposto saiu e jantou. Olhou para todo o lado, para toda a gente como que a pedir: "por favor, o que diz esta carta?" Mas não encontrou quem o salvasse. Durante três dias matutou. Pedir ajuda a um estranho? Tentar cativar a amizade do empregado da recepção do hotel e mostrar-lhe a carta? Pareceu-lhe o mais razoável e começou a agir.

Todos os dias e a toda a hora conversava com o empregado, convidava-o para beber um copo nas suas horas de folga. O empregado era bastante cortês e educado. Parecia uma pessoa culta e de princípios.

O dia da partida aproximava-se e da carta nada. Encheu-se de coragem e falou com o Tuan Ly, o recepcionista.
"Tuan Ly. Aconteceu-me algo de estranho à minha chegada", e contou-lhe o que se passara com o taxista e com o tio.
"Mostre-me a carta, por favor."
"Tuan Ly, terás de me prometer que não te zangas. Lembra-te que nada sei de chinês".
Depois das promessas feitas o Pedro mostra-lhe a carta, mesmo assim com certas reservas e a medo.
Quando Ly, começa a ler o seu rosto transfigura-se. Arremessa com a carta, corre e poucos segundos depois aparece o gerente que após uma série de gritos e com os punhos cerrados quase lhe batia. Chega a polícia. O Pedro não consegue fazer-se ouvir. Decididamente a carta deveria conter algo muito preocupante e insultuoso. Levam-no para a esquadra. Meia hora depois um aparentemente chefe da polícia, muito atencioso e dum inglês perfeito, pede-lhe para lhe contar o seu caso. Mais uma vez e amedrontado relata todo o episódio da carta.
"Mostre-me a carta", pede o polícia.
"Não, não mostro."
"Assim nada posso fazer por si. Ficará preso e será julgado."
"Eu, julgado porquê?" indagou, mas sem resposta.
Mais uma vez a preocupação de Pedro aumenta e sem saber que fazer à sua vida, amaldiçoando a sua vinda, resolve mostrar a carta com uma condição. Na presença do Cônsul Português e só a ele. É levado numa carrinha celular ao consulado. Não demorou a ser ouvido. Após ter relatado toda a sua façanha desde a chegada declarou:
"Senhor cônsul. Acredite que não sei o que fazer. Se lhe mostro a carta e mais uma vez lhe recordo que nada dela sei, não conheço a língua deste povo, não sei o que me acontecerá. Pensei mesmo em rasgá-la antes de aqui chegar, mas receei que os polícias me vissem fazê-lo."
"Homem", disse o cônsul. "Somos ambos portugueses e aqui dentro é Portugal, esteja à vontade."
Depois dos diversos pedidos de promessas, das ressalvas, das antecipadas desculpas e mostrados todos os receios, o cônsul pô-lo à vontade.
Decidiu mostrar a carta. À Medida que o cônsul ia lendo o seu rosto espumava e tornava-se rubicundo de tal forma que Pedro apavorado titubeou a medo: "que diz a carta?" Sem lhe dar resposta pediu-lhe o passaporte. Voltou-lhe as costa e saiu para regressar momentos depois com dois seguranças e um carimbo no passaporte "Persona non grata".

Os seguranças meteram-no num carro e perguntaram-lhe em que hotel se hospedava. Para lá se dirigiram.

"Damos-lhe dez minutos para fazer a sua mala. Seguiremos para o aeroporto de imediato."

Argumentar para quê? Fez as malas e desceu. Felizmente não viu nem o Tuan Ly nem o gerente.

Já no avião de regresso matutava nos acontecimentos. Que fazer com a carta? Tinha-a no bolso mas temia abri-la mesmo não percebendo nada do que ela dizia. E quando chegasse a sua casa que diria aos pais? Mostraria a carta? Oh! Não.

Chegou a casa mais cedo do que esperava mas os pais nem se referiram ao caso. Teriam falado com o tio?

Os dias passavam e a carta continuava no seu bolso. O pai conhecia o mandarim, mas a mãe não. Ele preferiria falar com a mãe sobre o assunto mas tinha receio do que pudesse vir a acontecer. Não podia continuar com este segredo só para si. Necessitava de desabafar, de mostrar a carta a alguém. Só pretendia saber o conteúdo da malfadada carta. E se o soubesse? Revoltar-se-ia contra si próprio?

Aguentou sozinho durante mais de um mês. Não resistiu e falou com a mãe contando-lhe tudo. A mãe aconselhou-o a falar com o pai.
"Mas mãe... tenho receio das consequências."
"Logo mesmo eu preparo o pai e conto-lhe o teu problema. Amanhã acerca-te dele e verás que tudo fica resolvido."

Nessa noite dormiu em sobressaltos. Os pesadelos afluíram ao seu subconsciente e de manhã não foi capaz de encarar o pai. Por sorte (ou por azar?) o pai chamou-o.
"Pedro, tenho notado que andas preocupado ultimamente. A tua mãe falou ontem comigo. Porque não me disseste o que aconteceu?"
"Depois que tudo me aconteceu, tive medo."
"Com franqueza filho, mostra lá a carta."
"Pai..."
"Deixa-te de pieguices. Já não és nenhuma criança. Mostra-me a carta."
"Pai. Jura-me que não fazes como os outros, jura."
"Está bem, mostra a carta."
"Mostro, mas vais lê-la lá para dentro. Está bem?"
"Está bem."
Pedro entregou-lhe a carta tremendo de medo e correu para a cozinha, para junto da mãe. De repente um barulho de pontapés, gritos, palavrões e objectos atirados ao chão, algo vindo do escritório, obrigou a mãe a correr naquela direcção. Vinha lívida com a carta na mão. Entregou-a ao filho e disse-lhe baixinho: "vai-te embora e aguarda um telefonema meu. Rápido e não me faças perguntas. Vai, vai antes que o teu pai volte."

Durante dois dias Pedro vagueou pelas ruas sem comer e sem dormir, até que o seu telemóvel soou. Era sua mãe.
Chorou, chorou com tal pranto que nem conseguia ouvir o que a mãe dizia.
"Filho", disse a mãe "há dois dias que não durmo mas não consigo arrancar uma palavra do teu pai. Estou mesmo proibida de falar sobre o assunto sob pena do teu pai abandonar a casa. Nem tão pouco posso falar contigo. Não telefones cá para casa. Eu telefono-te. Sabes uma coisa? Tenho pensado muito no teu assunto. Estive hoje a falar com o padre Miguel, recordas-te dele?"
"Sim mãe."
"Contei-lhe o que se passou e o padre Miguel prometeu ajudar-te. Como sabes ele esteve muitos anos em Pequim e conhece bem a língua."
"Mas mãe, vai-me excomungar."
"Não filho. Ele é um santo homem e vai-te traduzir a carta."
"Oh, mãe. Não me tinha lembrado disso. Amanhã de manhã vou falar com ele. Muito obrigado e beijinhos. Telefona-me mãezinha."
"Adeus filho até amanhã."

Era manhã cedo quando o Pedro Ming chegou à igreja. O padre Miguel, um velhinho já na casa dos 70 anos, era amigo da família. Tinha casado os pais, e baptizado o Pedro que desde criança frequentara a catequese, fizera a comunhão. Frequentemente visitava aquele velhinho amoroso.

"Olá padre Miguel" disse Pedro beijando-lhe a mão.
"A tua mãe esteve aqui ontem. Estou a par de tudo o que passaste. Podes mostrar-me a carta e confia neste teu velho amigo."
"Padre, perdoe-me mas terá de jurar sobre a bíblia que me contará o que diz a carta e que não se zangará comigo."
"Filho, sei que não tens culpa de nada; sei que não conheces uma palavra de chinês; sei o que passaste e o que estás a passar; conheço-te desde que nasceste, mas, mesmo assim, juro sobre esta Bíblia Sagrada que tudo o que estiver escrito nesse papel ser-te-á divulgado. Juro perante Deus que não me zangarei contigo. Juro solenemente que tentarei resolver o problema junto do teu pai e tio."

Pedro respirou de alívio pela primeira vez desde partiu para a China. O padre Miguel, em quem confiava e que conhecia muito bem, iria dar-lhe paz de espírito e devolver-lhe a família. Estava radiante e tão feliz que se agarrou ao padre e chorou copiosamente.

"Dá-me essa carta filho", disse-lhe o padre.
"Padre, como me sinto feliz." E em pranto agarrou-se ao padre de tal forma que até o magoou.
"Pronto, pronto Pedro. Acabou-se tudo. Dá-me essa carta."
"Sim padre".
Ainda a soluçar e com as lágrimas a correrem-lhe copiosamente, Pedro meteu a mão ao bolso, rebuscou mas a carta, tinha-a perdido.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O paradoxo e a inepta descoberta do Brasil

O guarda-mor do Infante D. Henrique, Fernão Álvares Cabral, era pai de Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte e avô do Pedrinho, menino muito traquina e irrequieto mas inteligente. Este menino gostava de aventuras e viagens. O seu maior prazer era o mar. Quem quisesse vê-lo feliz bastaria ir à praia de Belém e apreciar as suas façanhas com o barco à vela do avô Cabral, quando vinham de férias à capital.

Decorria o ano do Senhor de 1500. O Pedrinho tornou-se Pedro Cabral, mais conhecido por Pedro Álvares Cabral. Tinha sido nomeado capitão-mor da armada. Teria então cerca de trinta e três anos de idade.
Dez naus e três caravelas, (consta-se que possuía também um submarino, cinco séculos mais tarde vendido a um Ministro da Defesa), constituíam a sua frota.
Cerca de 1500 homens, entre funcionários públicos, soldados, padres, cozinheiros, repórteres fotográficos, jornalistas entre eles o Pedro Vaz de Caminha e três equipas de televisão, faziam parte da expedição a que se propôs fazer junto do então presidente da monarquia, D. Manuel I. Essa expedição destinava-se à Índia, mas pelo Ocidente, já que, pelo Oriente tinha sido feita anos anteriores, pelo senhor Vasco da Gama e constava-se que o Cabo das Tormentas estava amaldiçoado pelo gigante adamastor.

Após uma missa solene na ermida do Restelo, à qual compareceram todas as entidades eclesiásticas, o senhor D. Manuel I e sua corte, a televisão, rádio e imprensa, partiu a frota de Pedro Álvares Cabral rumo à Índia. Estávamos do ano de 1500, num Domingo dia 9 de Março.

Nota do autor: A data da partida tinha sido agendada para um mês antes e o atraso deveu-se à chegada dum astrolábio electrónico, encomendado à China por ser mais económico, em virtude do Vasco da Gama não poder ceder o seu pois iria necessitar dele para a sua viagem de férias a Cancún.

Alguns dias depois aportaram nos Açores. Ilha de São Miguel ou Ilha Verde como lhe chamaram. Foram recebidos com pompa pelo Governo Regional. Em Vila Franca do Campo organizaram-se festejos onde não faltou a presença de D. Amália Rodrigues que os presenteou com o fado da Mouraria. Aí permaneceram dois dias, mataram umas vacas e cozeram-nas nas Furnas, fizeram passeios a pé pelos caminhos turísticos, alugaram jipes e percorreram a ilha quase toda, visitaram os lugares recomendados pelas agências de viagens e banharam-se nas bonitas praias da ilha, etc.
Finalmente regressaram às naus para continuarem sua viagem, não sem deixarem a promessa de, no regresso, voltarem à ilha e presentear o Governo Regional com artesanato trazido da Índia.
Não havia trânsito nem desvios. Era sempre em frente. O vento ciclónico dos Açores ajudou-os na velocidade (na época não havia limite de velocidade no oceano Atlântico), mas infelizmente o excesso de velocidade provocou alguns despistes e algumas naus naufragaram.
Algumas semanas depois, já cansados de tanto mar, eis que o gajeiro do alto do mastro grita: Terra à vista! O Pedro que não ia em cantigas nem em gritos de gajeiros, ele próprio sobe ao mastro real e certifica-se. Com os seus binóculos de longo alcance avista umas ilhas dispersas. Desce. Consulta os seus canhenhos e mapas. Com o astrolábio, o sextante, a bússola e o GPS verifica que se encontram próximo do triângulo das Bermudas.

Mandou reunir os almirantes, capitães, tenentes e o motorista do barco. Informou: estamos a chegar ao triângulo das Bermudas. Sabeis o que isso significa? Antes de embarcar fui a consultar a Maya e ela contou-me que o Titanic irá afundar-se nestas águas. Este local é mais conhecido pelo triângulo do diabo. Além do mais estamos muito a norte. Temos que descer para sul e contornar o sul da Argentina.

Apavorados entram em depressão e stress. Chamam os médicos de família (os que descontavam para caixa claro). Os outros vão tomando uns calmantes mesmo sem receita médica, e lá se vão aguentando.

Um mês depois, após tantas voltas perdem-se e atracaram naquilo que julgavam se uma ilha. Era 22 de Abril de 1500. Avistou-se uma extensa terra chã cheia de arvoredo. Ao longe um grande monte a que Cabral chamou de Monte Pascal. Àquela terra baptizou de Ilha de Vera Cruz, convencido de se tratar de uma ilha. Mais tarde e após reconhecer tratar-se de um continente, passou a chamar-se de Terra de Vera Cruz. (Hoje Porto Seguro no estado brasileiro da Baía).

Foi com grande espanto que se aperceberam de que entendiam a língua dos indígenas e lhe perguntaram que língua falavam. Portugês, responderam.
Era um povo acolhedor e simpático. A recepção foi extraordinária. Beberam caipirinhas, dançaram o samba e aí ficaram uma semana. Mas tinham de partir, até à Índia ainda faltavam umas boas milhas. Perguntaram se havia naquela terra pimenta, canela, noz moscada, porcelanas, sedas, etc.
Um simpático brasileiro informou o Pedro de que estava enganado. Essas especiarias só se vendiam nos centros comerciais da Índia e não no Brasil. Teria de contornar para sul todo o continente e depois atravessar o oceano Pacífico e quando avistasse homens com os olhos em bico estaria no oriente. Aí não valeria a pena perguntar nada porque ninguém os compreenderia, mas era fácil: atravessaria todas aquelas ilhas e logo que avistasse a ilha de Ceilão e Maldivas, olharia para o norte e logo veria um país em forma de triângulo invertido. Estaria na Índia. Além do mais poderia confirmá-lo pela existência e visão dos enormes paquidermes a que chamavam elefantes e pelas lindas damas bem vestidas e pintadas com uma pinta colorida na testa.
Antes de partirem e como prova da boa recepção da parte do povo brasileiro e também para não darem por infrutífera a viagem, foram-lhes oferecidas madeiras exóticas, papagaios e vídeos do carnaval carioca.

O Pedro agradeceu as informações e oferendas e meteram-se ao caminho com destino ao destino.

Um ano depois, mais propriamente a 31 de Julho de 1501, estava de regresso a Portugal, tendo sido recebido como herói, apesar de ter perdido 9 barcos da sua frota.

sábado, 15 de agosto de 2009

O paradoxo e o incongruente Bolo-Rei

Era uma vez um rei que tinha 2 amigos. Por mera casualidade esses dois amigos eram igualmente reis. Eram reis porque cada um reinava em seu país. Mesmo em pequeninos nunca reinaram juntos. Tinham algo em particular, o seu aspecto físico: eram magros. Eram magros não por passarem fome, pois ganhavam muito bem e até recebiam subsídio de férias e de Natal, mas sim por praticarem o desporto da anorexia. Eram conhecidos por “os três reis magros”.

Em finais do século XIV, numa manhã de nevoeiro, reúnem-se para uma viagem à Europa. Pretendiam comprar oferendas para uma amiga comum que vivia em Aljubarrota, a Brites de Almeida. Admiravam-na pela sua valentia. Constava-se que tinha electrocutado uns castelhanos com o ferro eléctrico de engomar.

Rumaram aos Açores. Pretendiam comprar queijo, leite e ananases.
Dirigiram-se às vacas gordas, brancas de tanto leite e pretas da terra vulcânica. Eram tão idênticas que com dificuldade distinguiram as que davam leite e as que davam queijo, já que, sem dificuldade descobriram as que davam ananases, pois estas, além de serem acastanhadas, viviam em estufas.
Carregados das suas oferendas, perguntaram a um polícia o melhor caminho para Belém. Foi-lhes informado que era longe, que ficava entre o Castelo de S. Jorge e Algés.
Tinham pressa, queriam chegar antes do dia seis de Janeiro a fim de comprarem pastéis de belém, e só depois prosseguiriam a sua viagem para Aljubarrota. Por sorte deles passava na altura o eléctrico da estrela com destino Belém. Tomaram-no. Por azar deles chegaram no dia sete e encontraram a pastelaria fechada.
Ao mesmo polícia, que por sinal tinha vindo dois dias antes, de avião, perguntaram a que horas abria a pastelaria. - Oh, reis magros, a pastelaria só abre daqui a aproximadamente 624 anos, três meses e 8 dias, às oito horas da manhã. Desiludidos indagam-se: esperamos? Não vale a pena, diz o Baltazar. Até lá morreríamos de fome, diz o Gaspar. Que fazer então? Pergunta novamente o Belchior. Nestas indagações, hesitações, incertezas e outros sinónimos, não chegariam a quaisquer conclusões, não fora a sorte de por perto passar um anjo que lhes disse: não sois vós portadores de oferendas trazidas dessa maravilhosa ilha donde viestes? Porque não as levais para a Brites de Aljubarrota para que ela vos faça um bolo na sua padaria? (Não há dúvida que os anjos, não só os da guarda, nacional, mas também os outros, são uns óptimos conselheiros).

Assim fizeram. Perto do Palácio de Belém verificaram a existência duma casa que anunciava: “RENT-A-COCHE COM OU SEM CONDUTOR”. Depois das formalidades normais, do pedido da carta de condução, BI, NIF, etc. alugaram um de 4 cavalos e com GPS.

Imagens gentilmente cedidas pelo dono da Internet

Era já noite cerrada quando bateram à porta da padaria. A Brites veio abrir com a pá em punho, pensando tratar-se de castelhanos, (dias antes tinha dado cabo de seis). - Olá amigos reis, que magros estais, tendes fome? Quereis pão acabado de cozer? É oferta da casa. Uma vez que não tinham que pagar aceitaram e saciaram-se.
Depois de amena cavaqueira de muita conversa fiada, falando-se da crise, do preço da gasolina e do carvão, de que o pão teria de aumentar, mas não em tamanho, etc. lá adormeceram.

A Brites era uma interessante mulher, bonita, jovem cheia de graça, com um narizinho perfeito e um corpo escultural, uma boca de lábios carnudos e vermelhos. O lenço na cabeça dava-lhe um ar sensual, conforme podem verificar na foto abaixo, tirada na época. Tinha bigode e tudo.

Mais uma oferta da Internet. (fotografia tirada Em 1390, com uma máquina fotográfica digital)

Já o Sol ia alto quando os reis acordaram. Levantaram-se e depois de dejejuar foram dar uma volta pela cidade (na altura era a capital de Santo Condestável). Foi então que se lembraram da conversa com o anjo, no dia anterior em Belém. Dirigiram-se para a padaria e falaram com a Brites. - Ó Brites; podias fazer-nos um bolo. Temos leite, queijo e ananases, tu apenas dás o açúcar. A proposta era vantajosa para ambas as duas partes, ou melhor, para ambas as quatro partes, uma vez que eles eram três mais ela que era uma, os empregados não entravam na divisão do bolo, dava um total de quatro.

De imediato a cabeça da linda padeira começou a computar. Precisava de um molde, duma forma ou algo que servisse para a confecção do bolo que mais tarde se tornaria famoso. Após um clic no “enter” apareceu a palavra coroa. Era isso mesmo e a do rei Belchior era a mais indicada. - Ó Belchior, tens aí uma coroa que me emprestes?
Foi aquela colocada à disposição da padeira que, com a sua habilidade e destreza com a pá, confeccionou um lindo bolo.
Duas horas e dezoito minutos depois estava pronto. Foi provado, foi comido acompanhado com gasosas e pirolitos (estes mais tarde retirados do mercado pela ASAE) e foi aprovado. Discutiu-se o nome a atribuir ao bolo, de forma a não ferir susceptibilidades, nem ao bolo nem aos presentes. Alvitrou-se bolo Belchior, bolo da padeira, bolo dos magros, bolo da Brites, até que uma vez mais um clic da padeira e zás: Bolo-rei.

Ficou aprovado aquele nome. Bolo-rei ou o da Brites.
Para comemorar fez-se uma festa e deitaram-se foguetes. Convidaram-se o rei de Portugal D. João I, o de Castela D. Juan de Castella, D. Nuno Álvares Pereira e outras figuras públicas e políticas de ambos os países. Os partidos políticos de todos os quadrantes enviaram os seus representantes. Até veio Martim Moniz, mais conhecido pelo “portas”. O Afonso Henriques enviou a sua comitiva. A Brites pediu desculpa ao rei de Castella pela morte dos soldados castelhanos, desculpa essa aceite. Foi o fim da guerra entre Portugal e Castela. Houve abraços, beijos, choros, lágrimas e cravos vermelhos na ponta das espadas.

Assim nasceu a história do bolo-rei. Ainda hoje onde se come o melhor bolo-rei da Nacional é na bonita vila de Aljubarrota. A sua fama já vem de longe e atravessou todos os oceanos pacíficos ou não.

Agradecimentos
A todos os historiadores que me ajudaram na pesquisa destes feitos. Ao Senhor da Internet, aos meus amigos que durante quatro anos me incentivaram nestas pesquisas à minha família que me acompanhou pelos cinco cantos do mundo, (ou foram seis?) desde o Pólo à Polónia e do Árctico ao outro lado da ilha. Por tudo isto quero dizer duas palavras: Obri e gado.