Na
freguesia da lapa, em Lisboa, existe um restaurante que, por norma, apenas
serve jantares. O seu proprietário, Armando Fonseca, tem como clientes algumas
personalidades mediáticas e embaixadores das muitas embaixadas ali instaladas. Mercê
da sua experiência como dirigente hoteleiro prima pela qualidade em detrimento
da quantidade. A sua mulher Deolinda Fonseca, empregada bancária, costuma
dar-lhe uma ajuda atrás do balcão aos sábados de maior afluência.
Vítor
Abrantes, em vésperas de completar 30 anos, vivia sozinho. Solteiro ainda, não
pensava em casar nos próximos anos. Não aparecera ainda a mulher que o
enfeitiçasse para esse fim. Os seus principais amigos, o casal Fonseca, viviam
próximo de sua casa e eram os proprietários daquele requintado restaurante. Ali
jantava amiudadas vezes.
Numa dessas noites de
pouco movimento, o Armando senta-se à mesa de Vítor, aliás como era habitual, e
ali ficavam em amena cavaqueira.
«Ainda
não te vi como seguidor do meu blogue» afirmou Armando dirigindo-se ao amigo
Vítor e continuou «não tens lido as minhas últimas receitas?»
«Confesso
que só uma vez dei uma olhada ao teu blogue. Não tenho muito tempo, além disso
prefiro comer sem ter de confecionar o que como. Passo o dia agarrado a
computadores de forma que em casa raramente ligo o meu.»
«É
uma forma de divulgares o meu restaurante. Todos os meus seguidores comentam e
elogiam os meus pratos.»
«Prometo
fazê-lo brevemente.»
Vítor
Abrantes chegou cedo a casa e preparou uma ligeira refeição. Ligou a televisão,
ouviu o noticiário e, ao ouvir a história de um famoso restaurante nos Estados
Unidos, cujo proprietário era um emigrante português, lembrou-se do seu amigo
Armando. Ligou o seu PC. Buscou o blogue do amigo, a fim de também ele fazer
uma alusão às iguarias ali confecionadas. Reparou que na realidade tinha numa
grande quantidade de seguidores, mas uma fotografia de uma seguidora despertou-lhe
a atenção. Clicou nessa imagem a fim de melhor a visualizar. Era uma mulher
ainda jovem, loura com uns enormes olhos azuis, mas de um azul tão claro, que
lhe fez lembrar um husky siberiano. Todavia era bonita. Havia algo naquele
olhar que o fazia recordar alguém.
«Já
escrevi no teu blogue.» Disse Vítor ao amigo numa noite ao jantar.
«Já
vi. Exageraste um pouco mas agradeço-te.»
«Olha
uma coisa. Quem é a tua seguidora Julieta?» Perguntou Vítor.
«Julieta…?»
«Sim.
Uma tal Julieta, tua seguidora, loura com olhos azuis-claros.»
«Ah.
É uma colega da Deolinda, lá no banco. Porque perguntas?»
«Por
nada em especial, apenas por curiosidade. Os seus olhos tão claros são
fascinantes…»
«Queres
que ta apresente»
«Oh,
não. Nem sei se é casada ou solteira. Esquece.»
«Vítor.
No próximo domingo fazes 30 anos. Onde vais jantar?»
«Não
sei. Não ligo muito a esses dias.»
«Então
não te comprometas com ninguém. Aos domingos, como o restaurante está fechado,
é o único dia que jantamos em casa. Ficas desde já convidado.»
«Agradeço-te,
embora não seja minha intenção dar-vos trabalho. Já bem basta os teus dias de
semana, aqui fechado…»
«Aparece
às oito e caluda.»
Deolinda
olhou o relógio. Eram oito da noite. Nesse preciso momento soou a campainha da
porta.
«Deve
ser o Vítor.» Diz Deolinda para o marido enquanto se dirigia para a porta.
«Olá
Vítor.» Cumprimenta Deolinda. «Entra.»
Vítor
cumprimenta a sua amiga, entregando-lhe um ramo de flores e uma garrafa de
vinho.
«Olá
Armando.» Saúda o Vítor, dando-lhe um abraço.
«Queres
um porto seco?»
«Não
obrigado, prefiro um gim, gim tónico.»
«Anda
aqui para a sala enquanto a Deolinda prepara o jantar. Cá em casa é ela quem cozinha
e não me fica atrás.»
«Eu
sei. Não é a primeira vez que janto em vossa casa. Dos dois será difícil dizer
qual é o melhor.»
Armando
sorriu e agradeceu.
Nisto
o Vítor aguça o ouvido e pergunta: «Tens visitas?, pareceu-me ouvir vozes.»
«Oh,
é uma amiga da Deolinda, não te preocupes.»
«Meninos
venham para a mesa.» Grita da cozinha a Deolinda.
«Apresento-te
a minha amiga e colega Julieta.» Diz Deolinda apresentando a amiga ao Vítor.
Vítor
Estende a mão à apresentada e durante um longo tempo, sem largar a sua mão nem
tirar os olhos de Julieta, fica como que hipnotizado.
«Desculpe»,
diz Vítor largando a mão de Julieta «sou o Vítor. Foi uma agradável surpresa.
Tinha-a visto em fotografia no blogue do Armando. Não a esperava tão bela.»
«O
prazer foi meu, Vítor.»
«Vá,
vamos comer antes que arrefeça.» Disse Armando.
Durante
o jantar os olhos de Vítor não se despegavam dos da Julieta, sem que ela mostrasse
embaraço, muito pelo contrário, dir-se-ia que também ela retribuía o olhar. Os
donos da casa entreolhavam-se e sorriam disfarçadamente.
Depois
do jantar e após o inevitável cantar de parabéns a Vítor, este ofereceu-se para
acompanhar Julieta a casa.
«É
curioso Julieta» dizia Vítor já a caminho de casa «tenho a impressão de te ter
já visto em qualquer lado. Logo que te vi no blogue algo me dizia que já te
conhecia.»
«Na
realidade também tu me fazes recordar alguém, mas não consigo associar.»
«Com
o tempo recordaremos se nos encontrámos já e em que lugar. Espero que nos continuemos
a encontrar. Sim?»
«Dá-me
o teu número que eu contacto-te.» Disse Julieta.
E
telefonou. Os encontros começaram. As saídas a jantar aconteceram. Uma paixão
até então desconhecida para ambos, nasceu.
Numa
noite ao jantar, poucas semanas após o primeiro encontro, Vítor declarou-se.
«Julieta.
Não compreendo o que se passa comigo. Desde que te conheci só anseio que chegue
a noite para te ver. Creio que me enfeitiçaste.»
«Não,
não. Foste tu que me drogaste. Tu és cocaína. Se te não vir um dia, como aconteceu
há dias, eu enlouqueço. Estou viciada em ti.»
«Eu
não acreditava no amor à primeira vista, mas parece que existe.» Disse Vítor
segurando-lhe ambas as mãos» e continuou. «Fiz trinta anos, sempre vivi só,
hoje sinto falta de uma companhia e essa companhia só pode ser a tua.»
As
frases românticas, os olhares apaixonados, as promessas de amor continuaram
pela noite dentro. Mas, ela resistiu e não foi nessa noite ainda que consumaram
o amor.
Vítor
foi para casa sozinho pensando no seu amor. Reconheceu que estava apaixonado.
Aparecera a mulher que o levaria ao altar. Deitou-se e adormeceu feliz.
Vitinho,
rapazito de dez anos, vivia em Coimbra. Na escola primária que frequentava desde
os seis, tinha como colega de carteira um amiguinho que no quarto ano não
apareceu. Provavelmente mudara-se. Em sua substituição puseram-lhe uma loirinha
de longos caracóis e uns olhos azuis cor do céu. Desde esse momento a sua
atenção, a sua companhia de brincadeiras, o lanche que levava para a escola era
tudo repartido pela sua nova amiguinha companheira de carteira. Ela, igualmente
se dedicara a ele com grande carinho. A amizade entre ambos era tal que os trabalhos
escolares, o recreio, a companhia para casa era sempre em conjunto. Os colegas
diziam que eles se namoravam, mas eles não se importavam. Sentiam-se bem sempre
juntos. Apesar de tudo isso, eram os melhores alunos da turma.
Aproximava-se
o fim do ano letivo e o Vitinho disse à sua amiguinha:
«Betinha,
vamos estar muito tempo sem nos vermos agora nas férias, mas quando as aulas
começarem, ou vou a tua casa para saber para que liceu vais e peço aos meus
pais para me inscreverem no mesmo.»
«Prometes
Vitinho?»
«Prometo.»
Em
vésperas do fecho das aulas, vitinho disfarçadamente para que a professora não
desse por isso, empurra com a sua mãozinha uma folha de caderno dobrada ao meio
para a sua companheira. Quando for grande
quero casar contigo. Era a mensagem. Ela, sem ler, com a mesma subtileza,
mete-a no meio do caderno. No dia seguinte a ação repete-se, mas desta vez é a
Betinha que empurra uma folhinha de caderno ao seu companheiro. Nessa folhinha
estavam desenhados com lápis, de cor vermelha, dois corações. Um com o nome
Vitinho e outro com Betinha. Por baixo uma fase a azul: gosto muito de ti.
Chegaram
as férias. Os pais do Vítor (Vitinho) preparam-se para uma mudança de Coimbra para
Lisboa. Vitinho quando soube fez uma fita, chorou, disse que não queria ir, mas
em vão. Não teve coragem de falar das saudades que iria ter da sua amiguinha. A
mudança deu-se e Vitinho nunca mais soube da sua querida Betinha.
Vítor,
a estudar em Lisboa, tinha agora dezasseis anos. A sua amiguinha teria a mesma
idade. Que seria feito dela? Resolveu procurá-la. Arranjaria uma forma de os
pais o deixarem fazer um fim de semana em campismo e iria a Coimbra saber dela.
Assim fez. Com as suas economias nos transportes e nos lanches, comprou bilhete
de comboio ida e volta para Coimbra. Viagem em vão. A sua querida amiga já não
morava lá, nem tão pouco sabiam para onde se tinha mudado. Os anos passaram,
mas a sua amiguinha não mais esquecera.
Vítor
Abrantes acordou. O seu sonho tinha-o transportado ao passado, ao tempo da primária.
Seria possível que Betinha e Julieta fossem a mesma pessoa? Vinte anos tinham
decorrido.
Seis
da tarde. Vítor não tinha conseguido fazer nada durante todo o dia. O seu pensamento
estava absorvido na ligação entre a Betinha e a Julieta. Não seria possível
depois de tantos anos ter encontrado o seu primeiro amor de criança numa mulher
que conhecera há poucos dias, por sinal uma mulher que também o enlouquecera. E
se não fosse a mesma? Se por ventura essa Betinha não fosse Julieta, seria
imprudente falar dessa menina que outrora amara. Teria de agir com prudência.
«Olá
Julieta. Estava ansioso por te ver. As saudades fazem doer.»
«És
um tonto. Ainda ontem jantámos juntos…»
«És
uma ingrata. Não sabes o que sofro quando não te tenho perto de mim.»
«Exagerado.»
«Passei
a tarde a pensar na “Ruth Handler”…»
«Quem?»
Interrompeu Julieta.
«Ruth
Handler, a criadora da barbie.»
«Porquê?»
«Serias
tu o paradigma que ela utilizou para criar a barbie?»
«Estou
em vésperas dos 30. Velha demais para parecer uma barbie.»
«Aparentas
20.»
«Adulador.»
«É
verdade. Quando te vi pela primeira vez, pensei: a tua cara não me é estranha.
Já te tinha visto em qualquer lado, em todas as lojas de bonecas, claro.»
«Não
sou assim tão anorética.»
«Claro
que não. És muito mais elegante e mais bonita, mas para as crianças ela
criou-te mais flausina de acordo com a juventude.»
«Lisonjeiro,
pateta. Olha que eu chamo-te “Ken”.»
«Se
és a barbie eu sou o ken, teu namorado.»
«Ainda
não me pediste namoro.»
«Tinha
intensões de o fazer hoje.»
«Mas
não o fizeste ainda.»
«Queres
ser minha namorada?»
«Depende.»
«Depende?
Depende de quê?»
«Se
me prometeres amar-me para o resto da vida…»
«Se
eu prometer, aceitas?»
«Primeiro
promete, depois digo-te.»
«Prometo.
Prometo que te vou amar até morrer.»
«Tem
de ser por escrito.»
«Fazes-me
lembrar uma colega minha do quarto ano. A propósito: Onde estudaste na
primária?»
«Em
Coimbra, tal como tu.»
«O
quê???»
«Sim,
andei na quarta classe na escola primária, na praça Velha em Coimbra, naquele
primeiro andar, junto à igreja de São Bartolomeu.»
«Minha
marota. Reconheceste-me e não me dizias nada?»
«Reconheci-te
logo no primeiro dia. Pensei que me tinhas reconhecido e aguardei para ver se
te lembravas da tua Betinha» e continuou «lembras-te dos papelinhos que trocávamos?»
«Oh.
Sim. Tenho ideia de um, com dois corações, onde me dizias que gostava muito de
mim.»
«Coisas
de crianças.»
«Ah
sim? Hoje não gostas?»
«Só
te dou a resposta depois de uma declaração tua, por escrito.» Disse Julieta
sorrindo.
«És
cruel. Não te levo a jantar hoje.»
«Eu
também não ia…»
«Não?
Porquê.»
«Por
que hoje sou eu que te convido. Vamos jantar a minha casa.» Disse Julieta
dando-lhe um beijo na face.
Sentado
no sofá, Vítor aguardava que Julieta lhe trouxesse a sua bebida preferida antes
de se enfiar na cozinha para a confeção do jantar.
«Toma!
É assim que gostas do gim tónico?» Perguntou Julieta entregando-lhe um copo com
gim e uma rodela de limão.
«Obrigado,
minha deusa.»
Julieta
sorriu e afastou-se, não por muito tempo, pois, logo de seguida voltou. Trazia
na mão um papel amarrotado, amarelado pelo tempo. Com muito jeito desdobrou-o e
entregou-o a Vítor dizendo:
«Tens
de cumprir o que prometeste.»
Vítor
olhou o papel, uma folhinha manuscrita por ele próprio há vinte anos atrás. “Quando for grande quero casar contigo”.
«O
que prometo cumpro.» Disse Vítor levantando-se e enlaçando a sua amada beijando-a
ternamente.
«Ainda
queres que me declare por escrito?» Perguntou Vítor sem deixar de a apertar de
encontro a si.
«Não. Já o fizeste há 20
anos atrás.»