segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Valiosa Ajuda de uma Coscuvilheira


             Era um final de mês, dia de pagamento de ordenados e pensões. O banco estava de posse de umas dezenas de milhares de euros para esse fim. Nada fazia prever o assalto àquela hora da manhã, mas aconteceu. Dois homens encapuzados e armados perpetraram o feito. Um terceiro aguardava dentro do carro à porta do banco. Poucos minutos bastaram para consumarem o ato. Quando a polícia chegou já o carro iria longe. A matrícula anotada por alguém de nada servira. Tratava-se de um automóvel preto, provavelmente um Mercedes, com matrícula falsa. Os dois clientes que presenciaram o sucedido e os dois empregados do banco, bem como as imagens das câmaras de vigilância apenas podiam mostrar as estaturas dos assaltantes, já que os capuzes não deixavam reconhecer as suas fisionomias. 

 
            Um telefonema para a polícia às duas da madrugada denuncia um assassinato. O sobrinho da vítima, jovem na casa dos vinte, está em histeria. Vivia com o tio deste a morte de sua mãe. Fernando, o assassinado, rondava os quarenta e poucos anos. A arma do crime, uma pistola propriedade do senhor Fernando, estava em cima de uma mesa.
            «Cheguei há minutos senhor inspetor. Vi a arma em cima desta mesa e peguei nela para a arrumar na gaveta quando deparei com tudo isto. Telefonei-vos de imediato.» Disse Augusto, sobrinho do assassinado.
            A casa estava numa desarrumação total, como se alguém procurasse algo. O cão, um pastor alemão, uivava junto ao corpo inanimado. Tudo apontava ter havido luta antes do tiro de morte.
            «O cão é seu?»
            «É sim-»
            «Estava cá quando chegou?»
            «Sim, ia agora levá-lo à rua.»
            «Tocou em alguma coisa quando chegou, senhor Augusto?» Indagou o inspetor.
            «Apenas na arma que coloquei aí, em cima dessa mesa» e continuou «a arma parece ser a do meu tio.»
           «Tem onde dormir hoje?» Indagou o inspetor e continuou. «Necessitamos de ficar aqui pela noite adentro. Quantas chaves há desta casa? Não há sinal de arrombamento. Quem cá esteve tinha chave ou abriram-lhe a porta.
            «Apenas as minhas e as do meu tio.»
            O rapaz não pareceu muito convencido, alegando o passeio com o cão, a roupa para o dia seguinte, etc.
            «Pode alugar por esta noite um hotel ou uma pensão. Leve a roupa que quiser para amanhã e compareça na esquadra a fim de prestar declarações. Entretanto se quiser pode ir dar um passeio com o cão e volte cá para levar a sua roupa.»
            Augusto varreu a casa com o olhar como de desejasse levar tudo com ele. O inspetor tinha pressa e apressou Augusto a sair, colocando-se de costas para a cómoda junto à entrada da casa até Augusto recolher a trela do cão e levá-lo quase a reboque. Mal o inspetor se viu só com o seu pessoal disse para o seu ajudante: «repara nestas duas chaves aqui na cómoda. Parecem novas. Serão do Augusto ou do tio?»
            «Aguardemos a sua chegada e logo verificaremos.»             «Entretanto guardo-as para as analisar caso não sejam reclamadas pelo senhor Augusto.
            Cinco minutos depois, chega Augusto com o seu cão. Estava nervoso e deu mostras de não ter pressa em se retirar. Foi preciso o inspetor dizer para o seu ajudante: «acompanha o senhor Augusto ao quarto para ele recolher a roupa que necessitar e sair.» E dirigindo-se a Augusto informou: «Fica cá um agente o resto da noite, por favor não volte cá a casa sem a minha autorização.» Disse isto entregando-lhe um cartão-de-visita e completando, «amanhã de manhã passe pela P.J.»
            As declarações de Augusto pouco adiantaram ao que já tinha dito. Não conhecia inimigos do tio nem fazia ideia do que o assaltante procurava lá em casa. Viviam há uns anos naquela vivenda alugada, desde a morte da mãe. A senhoria vivia num anexo da vivenda.
            «Conhece estas chaves?»
            «Provavelmente serão do meu tio.» Respondeu Augusto.
            «As do seu tio estão lá em sua casa. Quem mais tem destas chaves?»
            «Não faço ideia, será a senhoria?» Retorquiu Augusto parecendo seguro do que dizia.
            «A arma que matou o seu tio tem as suas impressões digitais. Porque pegou nela?»
            «Pareceu ser a arma de meu tio e este se tivesse esquecido de a arrumar. Nunca pensei ter havido um crime.»
            «Costuma deixar a porta das traseiras fechada apenas no trinco?» Indagou o inspetor.
            «Aquela porta só abre por dentro… não há necessidade de a fechar à chave.»
            «O assassino entrou e saiu de casa provavelmente com estas chaves ou outras iguais. Não há sinais de arrobamento.»
           «É estranho, tanto que eu saiba, apenas havia dois pares de chaves.»
           «Emprestou as suas chaves a alguém?»
           «Não senhor inspetor. E penso que o meu tio também o não faria.»
           «Onde esteve ontem entre as 11 e as 2 da manhã?»
           «Estive com um amigo num bar, posso confirmar.»
          «Ok, por agora é tudo, mas não se ausente do país sem nossa autorização.»
           «Sou suspeito?»
           «Todos o são.» Respondeu secamente o inspetor.
            O assassinato tinha ocorrido dois dias após o assalto ao banco. Havia a possibilidade de estarem interligados, as investigações assim o apontavam.
            «Falaste com a velhota que mora defronte?» Interrogou o inspetor ao seu colega.
           «Sim. Ela passa o dia espreitando o que se passa na vizinhança e confirma que, no dia do assalto ao banco, o Mercedes preto da senhoria do senhor Fernando, saiu muito cedo, mais cedo do que o habitual e cerca das 10 horas da manhã voltou.
           «Estranhei vir um homem a conduzi-lo em vez da senhora Francelina, como era hábito. Vinha um outro homem ao seu lado, provavelmente o filho de dona Francelina, filho esse que, raramente lá vai a casa e quando lá vai é para discutir com a mãe, coitada. Não consegui vê-los porque meteram o carro na garagem e a garagem tem ligação com o interior da casa. Pouco tempo depois apercebi-me que mais uma vez mãe e filho discutiam.»
            «Palavras dela, e disse mais» continuou o 2.º inspetor. «Tenho a impressão que o falecido senhor Fernando andava de amores com a dona Francelina. Calcule senhor inspetor, que quando um saía, logo o outro o seguia, para não darem nas vistas. Aquela mulher nunca me enganou, sabe fazê-lo pela calada, a única coisa de bom que ela tinha era a condução, conseguia meter o carro na garagem à primeira, de marcha atrás, sem qualquer dificuldade, etc., etc.»
            «Vamos interpelar o sobrinho sobre essa possível ligação.» Esclareceu o 1.º inspetor Olavo.
           «Olavo, já me esquecia de um pormenor que me parece importante» lembrou o 2.º inspetor João e continuou «o tal homem que ia a conduzir o Mercedes não voltou a sair. Apenas saiu o filho e a pé, segundo a vizinha apurou.»
           «É muito estranho. Temos de descobrir o paradeiro desse filho. É curioso a dona Francelina não me ter falado dele, esta manhã quando a interroguei.»
    
          As conclusões tiradas pelos dois inspetores após inspecionada toda a casa do assassinado, foram de que as impressões digitais em toda a casa eram do tio e sobrinho e as impressões digitais das chaves eram de uma terceira pessoa, talvez do assassino caso este não fosse o Augusto. Igualmente as impressões digitais na maçaneta da porta das traseiras, que coincidiam com as das chaves, eram da mesma terceira pessoa. O móbil do crime não parecera ser roubo, segundo informação de Augusto que não dera por falta de nada.
            «A dona Francelina conhece este homem?» Perguntou o agente Olavo mostrando uma foto de corpo inteiro.
            «Não. Não sei quem é.» Retorquiu Francelina devolvendo a fotografia ao mesmo tempo que perguntava «quer tomar um café, senhor Olavo?»
            «Agradeço dona Francelina.»
            Enquanto Francelina se deslocava à cozinha o inspetor levantou-se, deu uns passos pela sala e aproximando-se de uma mesa onde várias molduras com fotografias, provavelmente familiares, estavam expostas. Discretamente fotografou uma. Quando Francelina regressou com 2 cafés numa bandeja estava Olavo com a moldura onde se via Francelina ao lado de um rapaz na casa dos 20 anos. 
            «É o seu filho?» Perguntou apresentando-lhe a moldura.
            «É sim senhor inspetor. É o meu Rogério.»
            «Não vive consigo?»
            «Não. Sabe como são os jovens, gostam da sua independência…»
            «Ele esteve cá recentemente, não esteve?»
            «Sim, veio visitar-me há dias.»
            Inesperadamente o inspetor pergunta. «A senhora tem carro?»
            «Tenho um Mercedes, já um pouco velho, mas ainda em bom estado.»
            «Posso vê-lo?»
            «Pode, mas por quê?» 
            «Ossos do ofício.»
           Sem saber o que dizer Francelina pediu para que o acompanhasse. Desceu à garagem, abriu a porta, acendeu a luz e com o olhar apontou o carro. Olavo deu a volta ao carro olhou o interior.
            «Está em muito bom estado de facto.» Concordou o agente.
            Pelo caminho de regresso à sala agradeceu o café e pediu: «Pode dar-me o contacto do seu filho?»
            Francelina empalideceu, gaguejou e por fim exclamou. «Sabe… a morada não sei bem, sei lá ir… não é longe daqui.»
            «Basta o telefone.»
            «Não o sei de cor, tenho-o no telemóvel.» Disse sentando-se no sofá e tentando mudar de assunto.
            «Já sabem quem matou o meu inquilino?»
            «Ainda não, andamos a investigar» e continuou «dava-se bem com o senhor Fernando?»
            «Oh, sim, era cumpridor com as rendas e muito atencioso.»
            «Conhecia os seus amigos?»
            «Não. Apenas o sobrinho.»
            «O seu filho conhecia-o?»
            «Sim, conheceram-se cá em casa.»
            «É por isso que eu preciso de falar com ele. Dê-me o número do seu telemóvel, por favor.»
            Francelina levantou-se, pegou no telemóvel e procurou o número.
            «É este.» Disse mostrando o telemóvel.
           Olavo anotou o número e agradeceu. «Voltaremos a falar dona Francelina.» Disse como despedida.
            Já à porta, e depois desta fechada, pegou num cigarro, acendeu-o muito próximo da porta e constatou que Francelina telefonava para alguém.
            Rogério, filho de Francelina, atendeu o telefone. Ficou surpreendido ao saber que era da polícia. Tinha aquele número como privado, poucas pessoas conheciam aquele número. Não podia esquivar-se ao convite de se apresentar na P.J. conforme lhe fora pedido, seria muito mais grave não o fazer.
            «Boa tarde,» saudou Rogério ao entrar na P.J. «venho falar com o inspetor Olavo.»
           «Faça o favor de entrar» disse o agente que o atendeu conduzindo-o para um gabinete concluindo «aguarde só uns minutos por favor.»
            Olavo entra no gabinete e cumprimenta Rogério. A figura de recém-chegado espanta o inspetor. Vestia com muito requinte, parecia uma estrela de cinema.
            «Senhor Rogério. Pedi-lhe para aqui vir a fim de esclarecer algumas questões relacionadas com a morte do inquilino de sua mãe.» Começou o inspetor.
            «Já calculava. Uma morte trágica.»
            «Como soube do caso?» Indaga o inspetor.
            «Falei ontem com a minha mãe. Ela contou-me o caso.»
            «Esteve recentemente em casa de sua mãe?»
            «Estive sim, salvo erro anteontem.»
            «Visita sua mãe com assiduidade?»
            «Nem por isso, senhor inspetor.»
            «O que fez nessa noite em que se deu o crime?»
            Rogério olha o inspetor com ar interrogativo, mas responde «passei o dia com a minha namorada e fomos jantar ao restaurante LX. Era dia do seu aniversário.» Concluiu.
            «Conhecia bem o falecido senhor Fernando?»
           «Vagamente. Creio que minha mãe andava envolvida num caso amoroso com ele.»
            O inspetor agradece a visita e, ao despedir-se, informa: «por favor deixe os seus elementos de identificação à saída, provavelmente terei de incomodar outra vez. Deve compreender que estes casos causam sempre problemas às pessoas. Já agora mais uma informação» diz o agente e retirando de um envelope uma foto. «Conhece este homem?»
            Rogério pega na foto, olha-a com atenção e devolve-a. «Não faço a mais pequena ideia de quem seja.»
            «Obrigado.»
            O inspetor João, assistindo a tudo através de uma câmara oculta, corre ao gabinete do colega e informa: «Olavo este Rogério não me é estranho. Tenho a impressão de que já o vi.»
            «Investiga tudo acerca desse “manequim”, o que faz, onde trabalha e principalmente confirma no restaurante LX, a hora a que chegaram e saíram.» Disse Olavo.
  
            As investigações prosseguiam. A velhota bisbilhoteira, uma senhora reformada, forneceu pormenores dos vizinhos com horas e dias, o que faziam, quem visitavam, etc. Recordava-se da manhã em que se deu o assalto ao banco o Mercedes da D. Francelina ter chegado conduzido por um homem de bigode com chapéu de motorista e óculos escuros. Facto este comprovado por testemunhas que presenciaram a fuga do carro escuro naquela manhã. O estranho era: quem seria o homem de bigode que tinha entrado na casa de Francelina e não ter saído? O filho de Francelina, Rogério, era suspeito de um desfalque na empresa onde trabalhara, não tendo havido provas suficientes para condenação. A D. Francelina, na noite do crime, entrara em casa do senhor Fernando com uma caixa, aparentemente caixa de bolos, mas a vizinha não a viu sair. Pouco tempo depois viu alguém entrar, mas não conseguiu distinguir quem. Poucos minutos depois ouviu um silvo que lhe fez lembrar um tiro e correu à janela. Poucos segundos após o silvo a mesma personagem sai da casa.
   Os inspetores debatiam-se com as dúvidas_
           - Estaria o assalto ao banco relacionado com o assassínio?
           - Quem seria o misterioso condutor do Mercedes?
           - Que fora fazer a dona Francelina na noite do crime a casa do senhor Fernando com uma caixa de bolos?
           - Quem mais entrara em casa antes da chegada do sobrinho Augusto?
           - Qual o papel do filho de Francelina no meio de tudo isto?
           - Estaria o sobrinho de Fernando inocente como parecia?
           Havia muitas questões que precisavam de ser esclarecidas. Teriam de recomeçar tudo de novo, voltar a convocar todos os intervenientes e principalmente rebuscar todos os cantinhos das casas de Francelina e seu filho, e a do falecido Fernando. As imagens das câmaras de vigilância do banco foram dissecadas com minúcia. As horas de entradas e saídas eram analisadas ao pormenor. As distâncias entre as casas dos suspeitos e do restaurante XL foram cronometradas.
           Foram conseguidos mandados de buscas às casas, mas os inspetores preferiam fazê-lo na ausência dos seus proprietários. Por isso foram convocadas as presenças dos suspeitos na P.J. e enquanto isso os agentes aproveitaram esse período para rebuscarem tudo em pormenor.       
 
Resultaram bastantes frutíferas as buscas, principalmente na casa de Fernando, o assassinado. O facto da dona Francelina ter entrado na casa de Fernando com uma caixa, aparentemente de bolos, conforme descrição da vizinha, deu muito que pensar ao agente. As buscas em casa de Rogério foram igualmente valiosas, o filho de Francelina provavelmente estaria implicado no assalto ao banco, por essa razão convocou uma nova reunião nas instalações da P.J. com mãe e filho.
         «Dona Francelina. Pode dizer-me o que foi fazer a casa do senhor Fernando na noite do crime com uma caixa cheia de não sei o quê?» Francelina corou, gaguejou, mas acabou por confessar.
           «Tinha uns dinheiros em casa e como o meu filho bisbilhotava tudo, tive receio que me levasse as minhas economias e, por esse motivo, resolvi escondê-las em casa do senhor Fernando. Há lá um lugar secreto que só eu conhecia. Sabia que Fernando não estava em casa e aproveitei a sua ausência para o fazer.»
           Enquanto decorria esta conversa com o inspetor Olavo, o 2.º inspetor João, numa outra sala da P.J., interrogava o filho de Francelina.
          «Senhor Fernando. Confirmámos que o senhor e sua namorada jantaram juntos no restaurante LX na noite da morte do senhor Fernando, no entanto o senhor ausentou-se por cerca de vinte minutos. Pode informar-nos aonde foi?» 
           Rogério com um à vontade surpreendente informou:
           «Fui a casa buscar a carteira que me tinha esquecido.»
          «Obrigado senhor Rogério, por agora é tudo. Tenha uma boa tarde.»         
            Os dois inspetores encarregados do caso conferenciavam e estudavam todos os depoimentos e resultados das buscas. As impressões digitais deixadas nas chaves e na maçaneta da porta das traseiras pertenciam a Francelina. Ela tinha entrado em casa de Fernando pela porta da frente e saído pelas traseiras, deixando as chaves em cima da mesa do Hall de entrada.
            «Repara Olavo, uma senhora não tem bolsos e como tal, ao sair de casa com uma caixa mão e umas chaves na outra com a ideia de ir a uma casa ao lado, não leva carteira, não tendo onde guardar as chaves. Abre a porta, pousa as chaves em cima da mesa, faz o que tem a fazer e volta para a saída, pega nas chaves e sai. Provavelmente, depois de esconder o dinheiro, alguém entra em casa. Fica com receio que a vejam lá dentro e corre para as traseiras e sai. A vizinha não a vê sair, pois esperava vê-la sair pela porta da frente.»
            «É nessa altura que entra o senhor Fernando e pouco depois o filho da dona Francelina com as chaves que tinha mando copiar na casa das chaves, conforme investigação, dando-se então o assassinato» alvitra o inspetor Olavo.
            «Vamos recapitular tudo, e reunir os culpados. Contaremos a história como nos parecer mais verosímil e aguardaremos as suas versões.»
             Na P.J. os Inspetores aguardam a chegada de todos os intervenientes do caso assalto ao banco e do posterior assassinato. A primeira a chegar foi Francelina acompanhada pelo filho. Fernando chegou logo a seguir. Pareciam demasiado nervosos.
            «Sentem-se por favor.» Convidou o inspetor Olavo. O inspetor João pede autorização para que a conversa na reunião seja gravada. Entreolham-se os três mas nenhum se opôs.
            «Dona Fernanda. Vou começar por contar a nossa versão sobre o que se passou desde a manhã do assalto ao banco e a noite em que o senhor Fernando foi assassinado. No final, agradeço que me corrijam se não estiver de acordo com a verdade.» Olavo olhou demoradamente para cada um dos três e concluiu. «Estão de acordo?» Mais uma vez o silêncio foi total.
            O inspetor começa: Cerca das 9 da manhã, dona Francelina coloca um falso bigode, uns óculos de sol, esconde o cabelo sob um boné de motorista e sai. Um pouco adiante apanha o senhor Fernando e sobrinho e dirigem-se para o banco. Enquanto o senhor Fernando e seu sobrinho Augusto assaltam o banco, aguarda à porta. Consumado o feito arranca em alta velocidade já com os assaltantes dentro do carro. Uns quilómetros mais adiante para o carro, substitui a matrícula falsa, deixa o senhor Augusto perto do café e regressa a casa com o senhor Fernando. Enquanto guardam o dinheiro juntamente com a pistola de Augusto, dentro de uma caixa, chega o seu filho. Discutem, provavelmente para saber quanto rendeu o assalto. Entretanto seu filho sai sozinho.
           Neste momento o inspetor faz uma pausa o observa o semblante de todos. Apenas Francelina mostra um ar preocupado.
            «Continuando.» Diz o inspetor. A dona Francelina teme o regresso do seu filho e que este a apanhe sozinha em casa podendo extorquir-lhe a sua quota-parte do dinheiro roubado, já que o planeamento do assalto era de sua autoria. Por isso resolve esconder o dinheiro em casa de Fernando numa gaveta disfarçada num degrau da escada que separa a sala dos quartos no primeiro andar. Quando está pronta para sair, ouve alguém a entrar. Temendo ser vista, corre para a porta das traseiras e sai deixando as chaves daquela casa em cima da cómoda.
           Nesta altura Francelina remexe-se inquieta. Fernando e Rogério sorriem, embora mostrando uma ligeira preocupação que não passou despercebida aos inspetores.
            «Querem tomar um café ou preferem que eu continue?» Perguntou o inspetor.
            «Continue senhor inspetor. Estamos a gostar da história. O senhor tem uma imaginação prodigiosa.» Disse Augusto com um sorriso forçado.
            «Muito bem. Continuando.» São 11 horas da noite. O senhor Rogério sai do restaurante XL, dirige-se a casa do senhor Fernando, abre a porta com as chaves que mandara copiar no dia anterior, procura o dinheiro remexendo tudo e eis que chega o senhor Fernando. Discutem. O senhor Fernando pega na arma e aponta ao senhor Rogério. Lutam. O senhor Rogério domina o senhor Fernando e dispara contra ele. Limpa as impressões digitais e pousa a arma em cima da mesa. Sai. «Fim.» Disse o inspetor.
            «A história foi muito bem contada senhor inspetor, mas recorde-se que eu tenho testemunhas que abonam o que lhe tinha já dito. Estive a jantar sempre acompanhado. Além disso o que leva a pensar que eu estive envolvido no assalto?» Indagou Rogério.
            «Claro, claro senhor Rogério. Não se esqueça que se ausentou por cerca de 20 minutos para ir a casa buscar a carteira, tempo suficiente para ir e a casa do senhor Fernando e voltar enquanto a sua namorada o esperava no restaurante.» Retorquiu o inspetor e, retirando de um envelope algumas fotografias, apresentou-as a Rogério. A sua cara transfigurou-se. As fotos apresentadas mostravam plantas do banco, horas, setas, e outros elementos próprios de um esquema de entrada e saída daquele estabelecimento bancário.
           «Como conseguiu estas fotografias? Esteve em minha casa na minha ausência?» O inspetor não respondeu.
            «O que o leva a acusar-me de homicídio quando acabou de dizer que a arma tinha sido limpa das impressões digitais?»
            «Sim, foi limpa e as impressões digitais visíveis são as do senhor Augusto, por ter pegado nela para a arrumar, mas o senhor quando a limpou esqueceu-se do gatilho, onde o seu dedo indicador deixou bem marcada a sua impressão digital.»
            «Como sabe que é a minha impressão digital?»
            «Pela fotografia que lhe apresentei de um homem, perguntando-lhe se conhecia o cavalheiro.»
            «Senhor inspetor, que tenho eu a ver com tudo isto?» Interrompe Augusto.
            Uma vez mais o inspetor rebusca outra fotografia, uma foto de uma arma onde está bem visível uma gravação a pantógrafo com a letra ‘A’. «Esta arma é sua, não é verdade?»
            «Sim, mas continuo a perguntar, que tenho eu a ver com isto?»
            Novamente o inspetor apresenta outra fotografia. «Como pode verificar senhor Augusto, esta fotografia ampliada foi obtida através do vídeo do banco. É bem visível a sua mão enluvada apontar esta arma.»
            «D. Francelina. Há alguma alteração que queira introduzir à minha história?» Indaga o inspetor.
            «Eu não assaltei o banco.»
            «Mas ficou à porta para recolher os assaltantes, colaborando desta forma no assalto.»
            Os restantes arguidos ficaram em silêncio. Reconheciam que a história estava muito próxima da realidade.
            «Por agora é tudo. Ficam desde já em prisão preventiva até julgamento. Aconselho a que arranjem um bom advogado, pois vão bem precisar dele.»