quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Concerto

No número 20 da rua da Sofia, em Coimbra, num 2.º andar, viviam quatro estudantes. Era ali que funcionava uma das muitas repúblicas estudantis. A "República dos Monarcas". O Carlos Alves, estudante na faculdade de medicina, filho dum famoso médico trasmontano, liderava esta república. Por ser um dos mais endinheirados do grupo, organizava variadíssimas festas, não só em Coimbra como também fora da cidade.

O Dr. Fernando Alves cirurgião em Vila Real, vivia desafogadamente, mas gostava de controlar os gastos dos seus dois filhos. O mais velho estudava medicina em Coimbra e o mais novo ainda andava na secundária em Vila Real. Carlos Alves, o mais velho, bom estudante, mas um contador de histórias que conseguia do pai sempre os seus intentos. O pai sabia e intimamente apreciava. Todas as vezes que o Carlos lhe pedia dinheiro extra, algo de invulgar iria acontecer.

Numa tarde de junho, reunidos na República dos Monarcas, um dos elementos do grupo comenta para os colegas:
«Vocês sabem do concerto que vão dar em Lisboa os "Excélios" este fim de semana?» (Excélios, era um grupo rock inglês,  muito em voga naquela altura). 
«É no estádio do Sporting, não é?» Pergunta o Samuel.
«Serão caros os bilhetes?» Indaga outro.
«Não sei, mas da minha parte arranjo pelos menos 250,00 euros, é só falar o meu pai,» prontificou-se de imediato o Carlos «vejam quanto conseguem angariar mais e veremos com as passagens e entradas em quanto fica.»

Não foi difícil convencer o papá que de imediato lhe transferiu aquela quantia.

«Para que a tua mãe fique descansada filho, depois do espetáculo mal regresses a Coimbra, envia-nos um e-mail a dizer que chegaste bem e se gostaste dos Excélios.» Pede-lhe o pai.
«Está bem papá, prometo. Dê beijinhos à mãe.»

O preço de ingresso no Sporting para assistir ao concerto dos Excélios era bastante acessível, o problema era conseguir entradas. Há mais de três meses que estavam esgotadas. Não iria devolver o dinheiro ao pai claro está, fariam uma festança na Figueira da Foz inaugurara recentemente uma discoteca, jantariam na Figueira e acabariam a noite na discoteca. Apanhariam o comboio de regresso às seis.

Domingo sete da manhã, estavam os estudantes a chegar a casa perdidos de sono e bem bebidos, mas Carlos Alves, como filho exemplar, teria de escrever ao pai como prometera.

Bebeu um café bem forte e tomou uma aspirina,  sentou-se ao computador e, que diria ao pai?

Papá, conforme prometido aqui estou a escrever-vos. Chegámos bem, graças a Deus. O espetáculo foi um êxito. Aqueles Excélios são o máximo. Valeu a pena. O John Wels saltou do palco esteve no meio da multidão e voltou ao palco em ombros. O público delirou.
Três raparigas espetadoras, subiram ao palco e acompanharam o John com uma afinação surpreendente. Uma delas agarrou-se ao John de tal maneira que foram precisos  dois seguranças para a retirarem do palco. Entrou em histeria. Foi levada par o hospital pelos bombeiros.
Aquele John tem uma voz que mesmo sem micro conseguia ser ouvido no meio do relvado. Olhe pai, estou convencido que se o pai lá estivesse teria delirado com aquele grupo e teria gritado como todos: "JOHN, TU ÉS O MÁXIMO".
Bem pai, já cumpri o prometido agora vou dormir. Beijinhos para vós e até logo.

São dez da manhã de domingo,  o dr. Fernando Alves sai para comprar o jornal e tomar café. Lê a manchete dum diário sobre os Excélios e sorri. Volta para casa e liga o computador. 
Conhecia o filho e sabia que teria um e-mail dele. Nunca até à presente data tinha faltado a uma promessa. Estava desejoso de saber o que o filho lhe contaria. Quando acabou disse para consigo próprio: Vê-se mesmo que és meu filho, sacana.

O cirurgião atira para cima do computador o diário que acabara de comprar e que mostrava um acidente na autoestrada envolvendo a caravana em que John Wels viajava na sua viagem para Lisboa e por pouco não sucumbira, encontrando-se hospitalizado, mas sem gravidade. O Espectáculo que iam dar no estádio do Sporting ficara anulado.  

domingo, 12 de dezembro de 2010

Aos meus 2.600 Leitores deste Blogue

Caros familiares, amigos e leitores. Quando escrevo faço-o para ocupar os momentos de ócio, que de uma maneira geral ocorrem à noite depois do jantar enquanto a minha mulher se entretém a ver a TV. Quando não tenho assunto penso nos meus familiares e amigos e dedico-lhes um blogue sem que disso se apercebam. Quase todos eles estão direcionados a um familiar ou a um amigo. Faço-o de uma forma a não ferir afetividades e de maneira a que o seu conteúdo possa ser abarcado a outras personagens, como conselho.  Os leitores que me não conhecem não se apercebem disso, mas os meus familiares ou amigos mais atentos perceberão que as mensagens lhe tocam. Felizmente que até hoje apenas um amigo reconheceu que era o atingido e se acusou; terei de ter mais cuidado com os próximos blogues.

Este blogue não é direcionado a ninguém em particular, mas sim a todos.

Primeiro: quero agradecer aos dois mil seiscentos e tal leitores que até hoje me têm acompanhado, quer em comentários escritos ou verbais, quer na simples leitura; àqueles que nada comentam e àqueles que me incentivam a continuar; à minha mulher; à minha grande amiga que, do outro lado do Atlântico me obriga a escrever mais e mais.  É graças a vós que o meu hobby continua.
Segundo: aproxima-se o final do ano e com ele as festas natalícias. Não sabendo se até ao final do ano voltarei a escrever, não posso deixar que esta época passe sem vos desejar um Bom Natal, um Ano Novo com 'carradas' de felicidade e principalmente que o ano de 2011 não seja tão amargo como se prevê. 
Sempre ao vosso serviço,
o amigo Carlos Soares.   

     

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Herança

Pouco passava da meia-noite. Um pachorrento burro puxava uma carroça em direção ao cemitério. Transportava um caixão. Conduzia a carroça o velho coveiro da aldeia. Atrás, duas mulheres e um homem, todos na casa dos cinquenta, acompanhavam cabisbaixos a carroça. O morgado Fernando da Ribeira tinha falecido.
Tinha sido um cavalheiro que, apesar da sua riqueza era um tanto avaro e não muito amigo do seu vizinho. Poucas amizades angariava embora oferecesse amiudadas vezes suculentos almoços na sua quinta, não só ao presidente da Junta de Freguesia e ao pároco da aldeia, como também a meia dúzia de compadres. 

«Eu sei que não tenho amigos» dizia Fernando da Ribeira numa das suas faustosas almoçaradas, «mas tenho este feitio, não gosto de dar aquilo que me custou a ganhar; porque não fazem como eu que toda a vida trabalhei no duro para ter o que tenho?»
O pároco que recebia chorudas oferendas em gado, trigo ou produtos hortícolas, dava-lhe razão. «Estes jovens não querem trabalhar, têm os terrenos e nada fazem e depois querem que os outros repartam os seus bens.»
Os amigos bebiam, comiam, davam palmadinhas nas costas do morgado e retorquiam: «vão trabalhar como nós fazemos.»

No norte do País, perto do Porto, numa das aldeias do concelho desenrolava esta história. O morgado Fernando da Ribeira, senhor de uma grande propriedade, viúvo, vivia com uma senhora muito mais jovem do que ele, a D. Amélia Brandão, solteira, não aparentando mais de 30 anos, cerca de metade da idade do seu companheiro. Era criticada por toda a vizinhança, mal vista pelos empregados da quinta, pelo pároco que a via como uma meretriz e eventual herdeira do senhor Fernando da Ribeira.

Num cartório da cidade do Porto, o senhor Fernando da Ribeira acompanhado por dois amigos, elaborava a seu testamento. Estava doente e o seu médico não lhe dava muitos anos de vida. Custava-lhe deixar os seus bens ao deus-dará e a sua companheira não era merecedora da sua herança. Os dois amigos, testemunhas do ato, convencidos de que seriam herdeiros pelo menos em parte, desiludiram-se quando a descrição da herança foi introduzida num envelope e selado a fim de ser aberto dois dias após a sua morte. Deixou um outro subscrito em envelope selado que deveria ser aberto logo após a sua morte.
Esse dia chegou e com ele a abertura do primeiro envelope. 
«O meu desejo é ser enterrado entre a meia-noite e a uma da manhã.» Rezava assim o conteúdo daquele envelope. 

A Maria Miquelina cozinheira, o João Madeira e sua mulher, caseiros da quinta do morgado, foram os únicos a acompanhar o enterro.

Quarenta e oito horas após a morte do morgado, todos os amigos, primos, tias, tios, pároco, Amélia Brandão a mulher com quem vivia e empregados, reuniram-se para a leitura do testamento constante do segundo envelope.

Nele constava: «todos os meus bens deverão ser distribuídos equitativamente por todos aqueles que me acompanharam na derradeira viagem ao cemitério.» 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os Quatro em Três Camas

Esta é a história verídica da minha amiga família Ribeiro, mas que certamente será comum a muitas outras famílias. Por motivos de privacidade não mencionarei os seus nomes. Serão conhecidos nesta narração por Pai, Mãe, Filho e Filha. O Pai, importante defensor da paz, a Mãe, conceituada defensora das leis, o Filho, estudante no 8.º ano e a Filha, estudante do 4.º ano, constituem o núcleo desta família. 

Como em qualquer família pai e mãe chegam à noite a casa; o pai conversa ou brinca com os filhos enquanto a mãe prepara o jantar. Depois do jantar reúnem-se na sala, assistem a um programa da TV. A mãe, como sempre, depois de arrumar a cozinha junta-se aos filhos e ao marido. A mais pequenita já sonolenta encosta a cabecita no regaço da mãe e poucos minutos depois adormece. A mãe pega no seu tesouro ao colo e levo-a para o quarto, deita-a e tenta sair sem ruído, mas a garotita tibubeia: 
«Mamã, fica aqui um bocadinho comigo.»
A mãe fica e acaba por adormecer também, fatigada do trabalho. O pai, se o programa da TV lhe não agrada, adormece no sofá. O filho julgando-se preterido, vai para o seu quarto e deita-se. O pai, acordando pouco depois e vendo-se sozinho, desliga a televisão e vai-se deitar.

Meia hora depois a mãe acorda, deixa o quarto da filha, prepara-se e vai juntar-se na cama com o marido. 

Tic tic, tic tic, os passitos da filhota conduzem-na ao quarto dos pais, com uma mão esfregando os olhitos e a outra segurando acima da cabeça a sua almofada.
«Mamã...» e sem esperar resposta deita-se entre a mãe e o pai. 

Como qualquer criança dorme agitando os braços e as pernas, pontapeando a mãe e bofeteando o pai. A mãe, com o sono mais leve, acorda e sorrateiramente vai deitar-se no quarto da filha. Entretanto o filho levanta-se, vai à casa de banho e os seus passos levam-no para o quarto do pais. Com o sono nem repara que é a irmã e o pai que estão na cama. 

O pai, com um filho de cada lado, acaba por acordar com os pontapés de um e palmadas de outro. Sorrateiramente esgueira-se e vai para o quarto da filha juntar-se à mulher. Entretanto a miúda acorda, sente a falta dos pais e vai procurá-los no seu quarto, deitando-se com eles. 

O filho acorda. Vê-se no quarto dos pais sozinho. Levanta-se choramingando e vai procurá-los. Deita-se conforme pode no meio de todos.

De manhã pai e mãe levantam-se, arranjam-se, preparam o pequeno-almoço, acordam as crianças e mais um dia decorre. 

A noite seguinte chega. A garota adormece enroscada à mãe. A mãe com cuidado pega nela ao colo e leva-a para o quarto...

«mamã, fica aqui um bocadinho comigo...»
...e começa mais uma noite de passeios entre camas.

«Sei onde me deito, mas não sei onde acordo», costuma dizer a mãe.