Numa manhã fria, uma
segunda-feira de dezembro, o Francisco Oliveira dirige-se ao seu
estabelecimento de ourivesaria como habitualmente às 8 e 30. Era um estabelecimento
modesto na Póvoa de Varzim, onde a vida decorria numa pacatez própria daquele
lugar. Estava situada na principal avenida, onde modernos edifícios ladeavam
aquela vivenda de rés-do-chão e primeiro andar onde vivia há longos anos a
proprietária, uma senhora na casa do 50 a quem o senhor Francisco pagava a
renda. O seu estabelecimento embora modesto, estava recheado de preciosidades
de valores bem avultados. Aquele espaço, outrora a garagem da vivenda, tornara-se
um estabelecimento modesto, mas requintado, com uma decoração impecável. O portão
de ferro que cobria a porta e vitrina estava fechado e para o abrir era
necessária uma chave especial. Há muitos anos que ele e sua mulher tinham o
estabelecimento sem até à data terem sofrido quaisquer dissabores. Havia uma
câmara de vídeo instalada no exterior do estabelecimento que registava todo o
movimento junto à entrada do estabelecimento. Estava ligado à central de
segurança.
Francisco Oliveira olhou incrédulo. Tinham despojado as
vitrinas de todo o material exposto sem todavia vandalizarem fosse o que fosse.
De imediato telefonou à Polícia, empresa de segurança e companhia seguradora.
Alguns meses antes um cavalheiro de baixa estatura,
magro, de fino bigode e óculos, para o seu Opel à porta da vivenda e toca à
campainha da dona Perpétua.
«Boa tarde minha senhora. O rés-do-chão está para alugar?»
«Sim, está. Como soube?»
«Foi o senhor Francisco Oliveira, da ourivesaria, que me
informou.»
«Conhece-o?»
«Oh, não. Estive lá ontem a comprar um anel e calhou em
conversa. Necessitava duma habitação nesta zona, para servir de escritório e
ocasionalmente dormir quando venho para estes lados.»
«Não é daqui?»
«Não, sou do Porto, mas tenho negócios de malhas e muita
clientela nesta cidade. Chamo-me David Bernardes.»
«Perpétua.» Apresentou-se a dona da vivenda e continuou.
«Tenho lá um filho, trabalha numa oficina de automóveis na Batalha.»
«Muito prazer. Ontem toquei-lhe à porta, mas não estava
de forma que vim cá hoje.»
«Faça o favor de entrar e veja se a casa lhe convém.»
Após uma pequena inspeção à casa, o cavalheiro pareceu
satisfeito.
«A renda é de 300 euros mensais. Agrada-lhe?»
«Parece razoável.»
«Quando pensa instalar-se?»
«Já. Pode ser? Na próxima semana tenho de cá voltar e
trago algumas mudas de roupa.»
«Tenho de lhe preparar um contrato…» David interrompeu e
declarou.
«Não vale a pena para já. Deixe-me adaptar-me primeiro.
Pago-lhe a renda para os próximos 6 meses e mais tarde trata-se disso.»
«Como queira. Nesse caso dou-lhe já a chave, não vá o
senhor chegar e eu não estar.»
Depois das formalidades de contactos, números de
telefones, etc. David despediu-se.
«Senhor Francisco» saudou dona Perpétua entrando na
ourivesaria «já aluguei a casa àquele senhor de bigodinho que o senhor
Francisco me mandou.»
«Parece simpático, creio que é representante duma fábrica
de roupas, no Porto, mas não o conheço.»
«Foi o que me ele me disse. Pagou-me 6 meses adiantado e
nem discutiu o preço que lhe propus.»
«Do Porto só vem gente séria.» Comentou o senhor
Francisco.
A polícia chega à ourivesaria e depara com vitrinas
vazias, o senhor David sentado de braços cruzados com um ar desvairado.
«Olá senhor Francisco, como aconteceu isto?»
«Sei lá! Cheguei aqui e deparo-me com este espetáculo.»
«O alarme não tocou?»
«Não tenho alarme. O portão só abre com esta chave
especial.» Disse o dono do estabelecimento mostrando uma chave fora do comum.
«Estranho. Então como entraram e saíram?»
«Também eu gostava de saber.»
«Alguém tem outra chave?»
«Não senhor agente. A outra chave está em minha casa, no
cofre. Já telefonei à minha mulher e ela confirmou-me.»
«Mas… esta casa não tem mais nenhuma saída, pois não?»
«Não, não tem.»
O agente olhou o teto e as paredes em volta da casa como
se procurasse uma entrada.
«O que há ali dentro?» Perguntou apontando para uma porta
ao fundo da loja.
«Apenas a casa de banho e uma pequena arrecadação. Já
estive a ver, mas nada de anormal encontrei.»
«Isto só pode ser obra de alguém cá de dentro. Que
pessoas trabalham aqui?»
«Apenas eu e a minha mulher, que vem cá muitas vezes
dar-me uma ajuda. Aos sábados de manhã tenho a empregada de limpeza, entra às
nove e sai cerca do meio-dia. É uma mulher séria e muito asseada. Como as
vitrinas são de vidro e espelhos tem sempre o cuidado de as limpar cuidadosamente.»
«As joias não podem ter voado, nem tão pouco se
evaporaram.» Disse o inspetor olhando para o teto em buscar de possíveis
buracos.
A casa de banho do lado esquerdo tinha uma janela
gradeada e envidraçada que dava para o quintal. À direita, a arrecadação, não
tinha mais de 4 metros quadrados. Ali apenas havia 2 pequenas caixas de cartão,
artigos de limpeza e um pequeno armário.
«Já viu aqui na arrecadação dentro destas caixas? O ouro
deve estar cá dentro. Não vejo por onde possam ter saído.»
«Não senhor inspetor. Ainda não mexi em nada. Não vejo
quem fosse esconder o ouro aí dentro. O último a sair sou sempre eu.»
«Esta parede dá para onde?» Indagou o inspetor batendo
com os nós dos dedos na parede.
«Para casa da dona Perpétua, dona da vivenda.»
«Estas paredes são maciças, não parece haver porta
secreta para a casa, nem me parece ter sido arrombada. Teremos de fazer uma
análise aprofundada a todo o estabelecimento.»
A azáfama naquela rua com carros da polícia, pessoal
forense e curiosos era significativa. Enquanto um agente pesquisava o interior
da ourivesaria, outro investigava as redondezas e traseiras da vivenda onde havia
um alpendre que provavelmente serviria para o eventual estacionamento de um ou
dois carros. Naquele momento estava deserto.
A polícia dispensou a presença do proprietário e após uma
longa pesquisa, resolveu bater à porta da dona Perpétua. Ninguém atendeu. Era
muito estranho aquele desaparecimento das joias. Iriam recolher informações do
vídeo na empresa de segurança, talvez lhes desse algumas pistas.
Era sexta-feira, dia que antecedeu o desaparecimento das
joias. Dona Perpétua mete-se no seu carro e ruma ao Porto para casa do seu
filho Manuel onde passava muitos fins de semana, para além disso, no domingo a
seguir, era o aniversário da sua nora que aguardava a chegada do seu primeiro
filho. Permaneceu lá todo o fim de semana e regressou na segunda-feira. Qual o
seu espanto ao ver a ourivesaria aberta e montes de polícias, uns dentro outros
à porta. Indaga o que se passava.
«Quem é a senhora?» Perguntou um dos guardas.
«Sou a proprietária desta vivenda.»
«O meu colega já lá foi bater à porta para falar
consigo.»
«Cheguei agora do Porto, de casa do meu filho.»
«Podemos entrar? Gostaríamos de lhe fazer umas
perguntas.»
A dona Perpétua era uma anafada senhora, simpática e muito
conversadora. Informou do aluguer do rés-do-chão havia cerca de 5 meses, a um
senhor apresentável, negociante de malhas, o senhor David Bernardes.
«Tem o seu contacto?»
A dona Perpétua acenou-lhe o número de telefone. O
inspetor percorreu o rés-do-chão, uma sala-quarto com um sofá, aparentemente
sofá-cama, casa de banho e uma pequena cozinha.
«Gostaríamos de ficar com a chave deste apertamento para
uma investigação mais profunda.»
«Com certeza.» Prontificou-se a senhora.
«Conhece bem o senhor Francisco Oliveira.»
«Oh, sim. Já o conhecia antes de lhe ter alugado a loja
há mais de 10 anos.»
«E a sua esposa?»
«Também a conheço há bastante tempo.»
«A empregada da limpeza da loja é sua conhecida?»
«É uma senhora com perto de 60 anos. Já trabalha para mim
vai fazer 40 anos, ainda eu era solteira e vivia com a minha falecida mãe, aqui
perto. Depois de me casar e vir para esta casa, ela acompanhou-me. Sou viúva há
8 anos e ela parece ter uma saúde de ferro...»
«Muito bem» interrompeu o inspetor antes que ela contasse
a sua vida desde que nascera.
«Disse-me que regressou agora do Porto. Quando saiu
daqui?»
«Na sexta-feira passada. Fui a casa do meu filho. A minha
nora fez anos ontem…» mais uma vez o inspetor interrompe a faladora senhora e
pergunta.
«Quem esteve em casa do seu filho para além da senhora?»
«A minha nora e sua irmã, o meu filho e eu.»
«Teria a gentileza de me dar o contacto do seu filho?»
«Mais uma pergunta. Esse seu inquilino, o senhor David
esteve cá este fim de semana?»
«Não sei senhor inspetor. Raramente o vejo e para além
disso não estive cá, como lhe disse.»
«Vai ficar aqui um agente. Não entre neste apartamento
até novas ordens. Temos de trabalhar nesta investigação até descobrirmos o
mistério das joias.»
«Olhe senhor inspetor, o senhor Francisco é uma pessoa
séria. Era incapaz…»
«Está bem dona Perpétua. Tomo isso em consideração.»
«Bolas, que tagarela.» Comentou para o colega depois de a
senhora virar as costas.
Na esquadra, depois de analisadas todas as fotografias
tiradas no local e o vídeo da empresa de segurança, comentam como fora possível
as joias terem-se evaporado. O roubo só podia ser perpetrado por alguém no
interior da loja. Mas quem? O senhor David? A sua mulher? A empregada da
limpeza não tinha chaves, a dona Perpétua parecia também não as ter, além de
que estivera no Porto, conforme dissera. Quem será esse David Bernardes?
O vídeo mostrava um Opel branco estacionado à porta, cuja
matrícula era visível, mas isso acontecera 3 dias antes do suposto assalto.
Via-se muita gente e automóveis que circulavam pela rua nesse fim de semana,
mas nem sequer paravam. A figura do senhor Francisco que abria e fechava a
porta parecia bem normal, em nenhuma delas aparecia o proprietário com uma
caixa ou um saco cheio de joias. A sua esposa saia sempre antes do marido. As
fotos não ajudavam em nada. Apenas umas marcas de pneus nas traseiras da
vivenda davam que pensar. Não eram do carro da dona Perpétua, já o tinham
analisado. Tinha chovido esse fim de semana e as marcas deixadas no chão
enlameado eram bem visíveis.
«Mesmo que alguém estacionasse nas traseiras da vivenda,
como entraria para saquear o estabelecimento?» Questionou um agente.
«Temos de voltar à loja e ao rés-do-chão. Tem de haver
uma entrada secreta.»
«Entretanto tu investigas o paradeiro desse David
Bernardes e vais falar com o filho da dona Perpétua. Tem de haver qualquer
coisa mal contada.» Disse um dos inspetores e continuou. «Enquanto tu tratas
desses cavalheiros eu vou bisbilhotar o local do crime.»
A parede da esquerda, que dava para o quintal, parecia
resistente e sem qualquer laivo de arrombamento. A da direita, igualmente de
tijolo ou pedra, estava em ótimo estado. Havia uns quadros publicitários dependurados.
O agente levantou-os na esperança de ver um buraco. Nada. A casa de banho
revestida a azulejo, possuía uma janela que dava para o quintal, mas por fora
uma grade de ferro forjado evitava a entrada de intrusos. Os chãos da loja e
casa de banho, de pedra, pareciam limpos. Do teto nada havia a temer. Restava a
arrecadação. As paredes e chão pareciam igualmente sólidos. O inspetor coçou a
cabeça. Saiu para a rua e acendeu um cigarro enquanto pensava na possibilidade
do proprietário ter ele próprio cometido o crime.
De repente dá uma palmada na testa e exclama: “O
ARMÁRIO”. Corre para o interior do estabelecimento. Abre mais uma vez o armário
e examina o interior. Tratava-se de um armário metálico, onde normalmente se
guarda a roupa de trabalho. Despeja-o e repara que a traseira apresenta
amolgadelas bem visíveis. Pensou: andaram
à martelada no armário. O chão do armário aparentava ser uma caixa de ar. Resolve
arrastá-la. “HEURECA” exclama. Um enorme buraco, junto ao chão, parecia ser uma
saída para o outro lado. Baixa-se e empurra qualquer coisa do outro lado da
parede. Tratava-se de um sofá. De gatas consegue atravessar a parede. Encontrava-se
agora na sala alugada ao Sr. David Bernardes. O mistério estava desvendado.
O inspetor Frasquinho, dirige-se à garagem onde
trabalhava o Manuel, filho de Perpétua. Este confirma a visita da mãe a sua
casa. Tinham passado todos em sua casa esse fim de semana. Telefonou a David
Bernardes e este informou que estava em Espanha, numa feira Internacional, apresentando
as suas malhas fabricadas no Porto. Entretanto recebe uma chamada do colega.
«Frasquinho, está desvendado o mistério. As joias saíram
através de um buraco feito na parede junto ao chão. Antigamente havia uma porta
que dava acesso da vivenda para a garagem que entretanto foi tapada com
tabique.»
«Como descobriste?»
«Recordas-te do armário na casa de arrumações? Foi por detrás
dele que abriram o buraco, mas pelo lado da vivenda. Tenho a impressão de que o
trabalho foi arquitetado por um desses cavalheiros que andas a investigar.»
«Olha Rodolfo, consegui finalmente telefonar ao David.
Disse-me que estava em Espanha, numa feira. O Manuel confirma que a mãe esteve
em sua casa.»
«Preciso das impressões digitais desses cavalheiros muito
rapidamente. Vai a casa do Manuel fala com a mulher e vê a sua versão. Mais
tarde trataremos de confirmar a viagem a Espanha, do David.»
Enquanto o inspetor Rodolfo investigava a casa alugada a
David, o seu colega Frasquinho falava com a mulher do Manuel.
«A minha sogra chegou na sexta-feira à hora de jantar.
Passou cá todo o fim de semana. Saiu daqui na segunda.»
«O seu marido trabalhou no sábado?»
«Só de manhã. Passou cá a tarde connosco. Saiu um pouco à
noite com os amigos. Voltou um bocado tarde, não reparei nas horas, já estava a
dormir.»
Enquanto decorria esta conversa, o Manuel chega e, ao
deparar com o inspetor, indaga: «algum problema?»
«Não. Há pouco esqueci-me de lhe perguntar se conhecia
este cavalheiro.» Disse o inspetor apresentando-lhe uma foto que tirara na
carteira e continuou. «Foi visto nas redondezas da ourivesaria.» O Manuel pega
na foto, olha com atenção e devolve-a.
«Não conheço.»
«A sua esposa disse-me que passou a noite de sábado com
amigos. Recorda-se das horas a que voltou?»
Manuel olhou a mulher como que a reprová-la.
«Não reparei nas horas, mas que interessa isso?
«Tenho que anotar todos os pormenores, a fim de apresentar
um relatório.»
Com um sorriso Rodolfo despede-se. Aguarda dentro do seu
carro alguns minutos olhando a janela do primeiro andar, de onde acabara de
sair. Poucos minutos depois o Manuel sai e entra no seu automóvel, um Volvo. O
inspetor aguarda que o carro vire a esquina. Sai do seu automóvel e olha o chão
enlameado de onde acabara de sair o Volvo. Fotografa as marcas deixadas pelos
pneus.
O inspetor Rodolfo acompanhado de peritos forenses e
fotógrafos, dá por concluída a investigação. Sobe ao primeiro andar. A D.
Perpétua abre-lhe a porta e convida-o a um café.
«Obrigado, D. Perpétua, aceito. Há quanto tempo taparam a
porta que dava acesso à ourivesaria?»
«Foi logo que aluguei a garagem. As obras foram feitas
pelo senhor Francisco.»
«Quem conhecia a existência dessa porta?»
«Creio que ninguém. Há anos que foi tapada… por quê?»
«Quem tem chaves do rés-do-chão?»
«Para além do Sr. David, tem a empregada da limpeza e eu,
ali no armário.»
«Pode confirmar se está lá?» A D. Perpétua levanta-se e
dirige-se a um armário à entrada da porta.
«Sim, está lá.»
«E daqui, de sua casa?»
«Além de mim, a empregada da limpeza.»
«E o seu filho?»
«Ah, sim, mas esse raramente cá vem.»
«O Sr. Francisco não?»
«Claro que não, por que havia de as ter?»
«Importa-se de descer lá baixo?»
A D. Perpétua desce acompanhada pelo inspetor e entram no
aposento alugado.
«Em que dia a empregada faz a limpeza a este
apartamento?»
«Aos sábados da parte da tarde. Vem mudar os lençóis,
toalhas, etc.»
«Há quanto tempo tem este sofá-cama?» Indagou o inspetor
apontando para o sofá defronte da televisão.
«Há uns anitos. Estava a pensar mudá-lo em breve. Está em
tão mau estado. Tenho estado à espera de ver o Sr. David para lhe perguntar se
quer que o mude.»
«A porta de acesso à ourivesaria era aqui, por detrás
deste sofá, não era?»
«Creio que sim. Era mais ou menos aqui.»
«Importa-se de arredar o sofá?»
A D. Perpétua sem esforço arredou o sofá.
«CREDO! O que é isto?» Espantou-se a D. Perpétua olhando
o local onde tinha sido deitada a parede abaixo.
«Foi por aqui que as joias desapareceram.»
«Como é possível? Quem teria feito isto? Provavelmente o
meu hóspede, o Sr. David. Eu devia ter calculado. Nem regateou o preço do
aluguer e pagou-me seis meses de renda.»
«É o que vamos investigar. Por agora é tudo D. Perpétua.
Não volte aqui sem nossa ordem.»
Os inspetores Frasquinho e Rodolfo encontram-se no
laboratório da Polícia Judiciária. As análises periciais estavam concluídas.
Tanto as impressões digitais como as marcas dos pneus correspondiam à mesma
pessoa.
Já na esquadra, o Manuel defendia-se alegando que ia
muitas vezes a casa da mãe e simultaneamente ao rés-do-chão. Havia sempre
pequenos arranjos a fazer e era ele que mantinha tudo em ordem. Confessou ter
lá ido nesse sábado dar uma espreitadela e ver se estava tudo bem. Naturalmente
as suas impressões digitais estariam por todo o lado. Desconhecia que alguém
abrira uma entrada para a ourivesaria. Provavelmente já estaria aberto há muito
tempo e o hóspede teria aproveitado para saquear a ourivesaria.
«Senhor Manuel, o Sr. Costuma aspirar a casa?» O Manuel
olhou incrédulo o inspetor Rodolfo. Um pouco atabalhoadamente respondeu.
«Não, sim. Se for necessário…»
«Recorda-se se o fez no sábado no rés-do-chão da sua mãe?»
O semblante do Manuel toldou-se. Recordou-se do que fizera. Não previra a
situação.
«É natural que tenha aspirado. Agora me recordo. Havia
uma poeira de terra, junto ao sofá.»
«Uma poeira que encheu o saco de areias, pequenas pedras,
pedaços de caliça e bocados de madeira, provenientes de uma parede de tabique.»
Explanou o inspetor.
«Sim aspirei. Estava muito sujo, aquele chão.»
«Não desviou o sofá para aspirar?
«Não senhor, não foi necessário.»
«Mas as suas impressões digitais estão espalhadas pela
parede, por detrás do sofá.»
«Podia tê-lo feito em qualquer altura.»
«Falámos com a empregada de limpeza que nos garantiu ter
mudado o saco do aspirador. Colocou um novo no sábado à tarde, o que significa
que o chão foi aspirado depois disso.»
«Mas, eu já confirmei que aspirei o chão, no sábado
quando cá estive.»
«O entulho dentro do saco não é apenas umas simples
areias, trata-se de um montão de lixo.
«Não quantifiquei o volume.»
«O senhor mente muito mal. Quer explicar-se melhor ou
prefere que seja eu a contar-se como tudo se passou?»
O Manuel, apesar do seu nervosismo, tentava mostrar um
falso à vontade mordendo o lábio inferior.
«Nada tenho nada a declarar, nem sei porque fui aqui
chamado.»
«O senhor chegou a casa da sua mãe às 11 horas e trinta e
cinco da noite. Saiu de lá às 4 e 25 da manhã, conforme consta do vídeo da
central de segurança. Não lhe parece muito tempo para aspirar uma casa?»
«ADORMECI» gritou o Manuel e continuou «não têm provas
nenhumas contra mim.»
«Continua a mentir, senhor Manuel.»
«JÁ DISSE TUDO O QUE TINHA A DIZER. Quero ir embora.»
Vociferou colérico o Manuel.
«Primeiro vou-lhe contar uma pequena história, senhor
Manuel e depois conversamos.» Disse o inspetor muito seguro de si.
«A sua mãe estava em sua casa, o seu inquilino no
estrangeiro, o senhor Francisco Oliveira estaria a dormir aquela hora. A
vizinhança da vivenda não pode ouvir o eventual barulho que tenha havido, desde
que não use um martelo. Bastava um pé de cabra contra o estuque e com um mínimo
de barulho seria fácil abrir um buraco… «que tenho eu a ver com isso?»
Interrompeu o Manuel exaltado.
«Ainda não acabei, oiça até ao fim… continuando a
história. Depois de aberto o buraco, metem-se os bocados da parede num saco,
aspira-se o chão e bastou empurrar o armário que, todo amassado na traseira,
não era pesado. Agora, de gatas, uma pessoa passa para o outro lado. Uma vez
dentro da ourivesaria levanta-se, calça umas luvas, mete as joias num saco e
passa-as para dentro de casa. O resto está à vista.»
«Muito bem pensada essa história. Continuo a perguntar:
que tenho eu a ver com isso?» Indagou o Manuel encolerizado.
O inspetor sorriu e comentou. «Que imprudente que o
senhor foi e que ingenuidade está a demonstrar. Acabei de lhe contar a
história.»
«Sim, percebi, mas volto a perguntar: que, tenho, eu, a,
ver, com, isso?»
«O senhor preocupou-se com as impressões digitais dentro
da ourivesaria. Dentro da vivenda não havia problema, vem cá tantas vezes aspirar a casa, mas esqueceu-se de que,
para empurrar o armário, necessitou de ambas as mãos onde estão bem visíveis os
seus dez dedos e os seus 4 dedos da não esquerda estão bem patentes no lado da
estante que, só poderiam aparecer se o armário tivesse sido arredado. Para
entrar no buraco teve de gatinhar e assim, as suas 10 impressões digitais estão
espalhadas pelo chão da arrecadação. À saída já não aparecem, uma vez que vinha
de luvas.»
«Não me interessam as vossas deduções. Vou para casa e
falem com o meu advogado.»
«O senhor não vai a lado nenhum. Fica já aqui detido.
Telefone ao seu advogado e ele que venha cá. Tenha uma boa estada.»