sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

As Joias Evaporadas

             Numa manhã fria, uma segunda-feira de dezembro, o Francisco Oliveira dirige-se ao seu estabelecimento de ourivesaria como habitualmente às 8 e 30. Era um estabelecimento modesto na Póvoa de Varzim, onde a vida decorria numa pacatez própria daquele lugar. Estava situada na principal avenida, onde modernos edifícios ladeavam aquela vivenda de rés-do-chão e primeiro andar onde vivia há longos anos a proprietária, uma senhora na casa do 50 a quem o senhor Francisco pagava a renda. O seu estabelecimento embora modesto, estava recheado de preciosidades de valores bem avultados. Aquele espaço, outrora a garagem da vivenda, tornara-se um estabelecimento modesto, mas requintado, com uma decoração impecável. O portão de ferro que cobria a porta e vitrina estava fechado e para o abrir era necessária uma chave especial. Há muitos anos que ele e sua mulher tinham o estabelecimento sem até à data terem sofrido quaisquer dissabores. Havia uma câmara de vídeo instalada no exterior do estabelecimento que registava todo o movimento junto à entrada do estabelecimento. Estava ligado à central de segurança.
            Francisco Oliveira olhou incrédulo. Tinham despojado as vitrinas de todo o material exposto sem todavia vandalizarem fosse o que fosse. De imediato telefonou à Polícia, empresa de segurança e companhia seguradora.
            Alguns meses antes um cavalheiro de baixa estatura, magro, de fino bigode e óculos, para o seu Opel à porta da vivenda e toca à campainha da dona Perpétua.
            «Boa tarde minha senhora. O rés-do-chão está para alugar?»
            «Sim, está. Como soube?»
            «Foi o senhor Francisco Oliveira, da ourivesaria, que me informou.»
            «Conhece-o?»
            «Oh, não. Estive lá ontem a comprar um anel e calhou em conversa. Necessitava duma habitação nesta zona, para servir de escritório e ocasionalmente dormir quando venho para estes lados.»
            «Não é daqui?»
            «Não, sou do Porto, mas tenho negócios de malhas e muita clientela nesta cidade. Chamo-me David Bernardes.»
            «Perpétua.» Apresentou-se a dona da vivenda e continuou. «Tenho lá um filho, trabalha numa oficina de automóveis na Batalha.» 
            «Muito prazer. Ontem toquei-lhe à porta, mas não estava de forma que vim cá hoje.»           
            «Faça o favor de entrar e veja se a casa lhe convém.»
            Após uma pequena inspeção à casa, o cavalheiro pareceu satisfeito.
            «A renda é de 300 euros mensais. Agrada-lhe?»
            «Parece razoável.»
            «Quando pensa instalar-se?»
            «Já. Pode ser? Na próxima semana tenho de cá voltar e trago algumas mudas de roupa.»
            «Tenho de lhe preparar um contrato…» David interrompeu e declarou.
            «Não vale a pena para já. Deixe-me adaptar-me primeiro. Pago-lhe a renda para os próximos 6 meses e mais tarde trata-se disso.»
            «Como queira. Nesse caso dou-lhe já a chave, não vá o senhor chegar e eu não estar.»
            Depois das formalidades de contactos, números de telefones, etc. David despediu-se.
            «Senhor Francisco» saudou dona Perpétua entrando na ourivesaria «já aluguei a casa àquele senhor de bigodinho que o senhor Francisco me mandou.»
            «Parece simpático, creio que é representante duma fábrica de roupas, no Porto, mas não o conheço.»
            «Foi o que me ele me disse. Pagou-me 6 meses adiantado e nem discutiu o preço que lhe propus.»
            «Do Porto só vem gente séria.» Comentou o senhor Francisco.
 
            A polícia chega à ourivesaria e depara com vitrinas vazias, o senhor David sentado de braços cruzados com um ar desvairado.
            «Olá senhor Francisco, como aconteceu isto?»
            «Sei lá! Cheguei aqui e deparo-me com este espetáculo.»
            «O alarme não tocou?»
            «Não tenho alarme. O portão só abre com esta chave especial.» Disse o dono do estabelecimento mostrando uma chave fora do comum.
            «Estranho. Então como entraram e saíram?»
            «Também eu gostava de saber.»
            «Alguém tem outra chave?»
            «Não senhor agente. A outra chave está em minha casa, no cofre. Já telefonei à minha mulher e ela confirmou-me.»
            «Mas… esta casa não tem mais nenhuma saída, pois não?»
            «Não, não tem.»
            O agente olhou o teto e as paredes em volta da casa como se procurasse uma entrada.
            «O que há ali dentro?» Perguntou apontando para uma porta ao fundo da loja.
            «Apenas a casa de banho e uma pequena arrecadação. Já estive a ver, mas nada de anormal encontrei.»
            «Isto só pode ser obra de alguém cá de dentro. Que pessoas trabalham aqui?»
            «Apenas eu e a minha mulher, que vem cá muitas vezes dar-me uma ajuda. Aos sábados de manhã tenho a empregada de limpeza, entra às nove e sai cerca do meio-dia. É uma mulher séria e muito asseada. Como as vitrinas são de vidro e espelhos tem sempre o cuidado de as limpar cuidadosamente.»
            «As joias não podem ter voado, nem tão pouco se evaporaram.» Disse o inspetor olhando para o teto em buscar de possíveis buracos.
            A casa de banho do lado esquerdo tinha uma janela gradeada e envidraçada que dava para o quintal. À direita, a arrecadação, não tinha mais de 4 metros quadrados. Ali apenas havia 2 pequenas caixas de cartão, artigos de limpeza e um pequeno armário.
            «Já viu aqui na arrecadação dentro destas caixas? O ouro deve estar cá dentro. Não vejo por onde possam ter saído.»
            «Não senhor inspetor. Ainda não mexi em nada. Não vejo quem fosse esconder o ouro aí dentro. O último a sair sou sempre eu.»
            «Esta parede dá para onde?» Indagou o inspetor batendo com os nós dos dedos na parede.
            «Para casa da dona Perpétua, dona da vivenda.»
            «Estas paredes são maciças, não parece haver porta secreta para a casa, nem me parece ter sido arrombada. Teremos de fazer uma análise aprofundada a todo o estabelecimento.»
            A azáfama naquela rua com carros da polícia, pessoal forense e curiosos era significativa. Enquanto um agente pesquisava o interior da ourivesaria, outro investigava as redondezas e traseiras da vivenda onde havia um alpendre que provavelmente serviria para o eventual estacionamento de um ou dois carros. Naquele momento estava deserto.
            A polícia dispensou a presença do proprietário e após uma longa pesquisa, resolveu bater à porta da dona Perpétua. Ninguém atendeu. Era muito estranho aquele desaparecimento das joias. Iriam recolher informações do vídeo na empresa de segurança, talvez lhes desse algumas pistas.         
            Era sexta-feira, dia que antecedeu o desaparecimento das joias. Dona Perpétua mete-se no seu carro e ruma ao Porto para casa do seu filho Manuel onde passava muitos fins de semana, para além disso, no domingo a seguir, era o aniversário da sua nora que aguardava a chegada do seu primeiro filho. Permaneceu lá todo o fim de semana e regressou na segunda-feira. Qual o seu espanto ao ver a ourivesaria aberta e montes de polícias, uns dentro outros à porta. Indaga o que se passava.
            «Quem é a senhora?» Perguntou um dos guardas.
            «Sou a proprietária desta vivenda.»
            «O meu colega já lá foi bater à porta para falar consigo.»
            «Cheguei agora do Porto, de casa do meu filho.»
            «Podemos entrar? Gostaríamos de lhe fazer umas perguntas.»
            A dona Perpétua era uma anafada senhora, simpática e muito conversadora. Informou do aluguer do rés-do-chão havia cerca de 5 meses, a um senhor apresentável, negociante de malhas, o senhor David Bernardes.
            «Tem o seu contacto?»
           A dona Perpétua acenou-lhe o número de telefone. O inspetor percorreu o rés-do-chão, uma sala-quarto com um sofá, aparentemente sofá-cama, casa de banho e uma pequena cozinha.
            «Gostaríamos de ficar com a chave deste apertamento para uma investigação mais profunda.»
            «Com certeza.» Prontificou-se a senhora.
            «Conhece bem o senhor Francisco Oliveira.»
            «Oh, sim. Já o conhecia antes de lhe ter alugado a loja há mais de 10 anos.»
            «E a sua esposa?»
            «Também a conheço há bastante tempo.»
            «A empregada da limpeza da loja é sua conhecida?»
            «É uma senhora com perto de 60 anos. Já trabalha para mim vai fazer 40 anos, ainda eu era solteira e vivia com a minha falecida mãe, aqui perto. Depois de me casar e vir para esta casa, ela acompanhou-me. Sou viúva há 8 anos e ela parece ter uma saúde de ferro...»
            «Muito bem» interrompeu o inspetor antes que ela contasse a sua vida desde que nascera.
            «Disse-me que regressou agora do Porto. Quando saiu daqui?»
           «Na sexta-feira passada. Fui a casa do meu filho. A minha nora fez anos ontem…» mais uma vez o inspetor interrompe a faladora senhora e pergunta.
            «Quem esteve em casa do seu filho para além da senhora?»
           «A minha nora e sua irmã, o meu filho e eu.»
            «Teria a gentileza de me dar o contacto do seu filho?»
            «Mais uma pergunta. Esse seu inquilino, o senhor David esteve cá este fim de semana?»
            «Não sei senhor inspetor. Raramente o vejo e para além disso não estive cá, como lhe disse.»
            «Vai ficar aqui um agente. Não entre neste apartamento até novas ordens. Temos de trabalhar nesta investigação até descobrirmos o mistério das joias.»
            «Olhe senhor inspetor, o senhor Francisco é uma pessoa séria. Era incapaz…»
            «Está bem dona Perpétua. Tomo isso em consideração.»
            «Bolas, que tagarela.» Comentou para o colega depois de a senhora virar as costas.
            Na esquadra, depois de analisadas todas as fotografias tiradas no local e o vídeo da empresa de segurança, comentam como fora possível as joias terem-se evaporado. O roubo só podia ser perpetrado por alguém no interior da loja. Mas quem? O senhor David? A sua mulher? A empregada da limpeza não tinha chaves, a dona Perpétua parecia também não as ter, além de que estivera no Porto, conforme dissera. Quem será esse David Bernardes?
            O vídeo mostrava um Opel branco estacionado à porta, cuja matrícula era visível, mas isso acontecera 3 dias antes do suposto assalto. Via-se muita gente e automóveis que circulavam pela rua nesse fim de semana, mas nem sequer paravam. A figura do senhor Francisco que abria e fechava a porta parecia bem normal, em nenhuma delas aparecia o proprietário com uma caixa ou um saco cheio de joias. A sua esposa saia sempre antes do marido. As fotos não ajudavam em nada. Apenas umas marcas de pneus nas traseiras da vivenda davam que pensar. Não eram do carro da dona Perpétua, já o tinham analisado. Tinha chovido esse fim de semana e as marcas deixadas no chão enlameado eram bem visíveis.
            «Mesmo que alguém estacionasse nas traseiras da vivenda, como entraria para saquear o estabelecimento?» Questionou um agente.
            «Temos de voltar à loja e ao rés-do-chão. Tem de haver uma entrada secreta.»
            «Entretanto tu investigas o paradeiro desse David Bernardes e vais falar com o filho da dona Perpétua. Tem de haver qualquer coisa mal contada.» Disse um dos inspetores e continuou. «Enquanto tu tratas desses cavalheiros eu vou bisbilhotar o local do crime.»
 
            A parede da esquerda, que dava para o quintal, parecia resistente e sem qualquer laivo de arrombamento. A da direita, igualmente de tijolo ou pedra, estava em ótimo estado. Havia uns quadros publicitários dependurados. O agente levantou-os na esperança de ver um buraco. Nada. A casa de banho revestida a azulejo, possuía uma janela que dava para o quintal, mas por fora uma grade de ferro forjado evitava a entrada de intrusos. Os chãos da loja e casa de banho, de pedra, pareciam limpos. Do teto nada havia a temer. Restava a arrecadação. As paredes e chão pareciam igualmente sólidos. O inspetor coçou a cabeça. Saiu para a rua e acendeu um cigarro enquanto pensava na possibilidade do proprietário ter ele próprio cometido o crime.
            De repente dá uma palmada na testa e exclama: “O ARMÁRIO”. Corre para o interior do estabelecimento. Abre mais uma vez o armário e examina o interior. Tratava-se de um armário metálico, onde normalmente se guarda a roupa de trabalho. Despeja-o e repara que a traseira apresenta amolgadelas bem visíveis. Pensou: andaram à martelada no armário. O chão do armário aparentava ser uma caixa de ar. Resolve arrastá-la. “HEURECA” exclama. Um enorme buraco, junto ao chão, parecia ser uma saída para o outro lado. Baixa-se e empurra qualquer coisa do outro lado da parede. Tratava-se de um sofá. De gatas consegue atravessar a parede. Encontrava-se agora na sala alugada ao Sr. David Bernardes. O mistério estava desvendado.
             O inspetor Frasquinho, dirige-se à garagem onde trabalhava o Manuel, filho de Perpétua. Este confirma a visita da mãe a sua casa. Tinham passado todos em sua casa esse fim de semana. Telefonou a David Bernardes e este informou que estava em Espanha, numa feira Internacional, apresentando as suas malhas fabricadas no Porto. Entretanto recebe uma chamada do colega.
            «Frasquinho, está desvendado o mistério. As joias saíram através de um buraco feito na parede junto ao chão. Antigamente havia uma porta que dava acesso da vivenda para a garagem que entretanto foi tapada com tabique.»
            «Como descobriste?»
            «Recordas-te do armário na casa de arrumações? Foi por detrás dele que abriram o buraco, mas pelo lado da vivenda. Tenho a impressão de que o trabalho foi arquitetado por um desses cavalheiros que andas a investigar.»
            «Olha Rodolfo, consegui finalmente telefonar ao David. Disse-me que estava em Espanha, numa feira. O Manuel confirma que a mãe esteve em sua casa.»
            «Preciso das impressões digitais desses cavalheiros muito rapidamente. Vai a casa do Manuel fala com a mulher e vê a sua versão. Mais tarde trataremos de confirmar a viagem a Espanha, do David.»
            Enquanto o inspetor Rodolfo investigava a casa alugada a David, o seu colega Frasquinho falava com a mulher do Manuel.
            «A minha sogra chegou na sexta-feira à hora de jantar. Passou cá todo o fim de semana. Saiu daqui na segunda.»
            «O seu marido trabalhou no sábado?»
            «Só de manhã. Passou cá a tarde connosco. Saiu um pouco à noite com os amigos. Voltou um bocado tarde, não reparei nas horas, já estava a dormir.»
            Enquanto decorria esta conversa, o Manuel chega e, ao deparar com o inspetor, indaga: «algum problema?»
            «Não. Há pouco esqueci-me de lhe perguntar se conhecia este cavalheiro.» Disse o inspetor apresentando-lhe uma foto que tirara na carteira e continuou. «Foi visto nas redondezas da ourivesaria.» O Manuel pega na foto, olha com atenção e devolve-a.
            «Não conheço.»
            «A sua esposa disse-me que passou a noite de sábado com amigos. Recorda-se das horas a que voltou?»
            Manuel olhou a mulher como que a reprová-la.
            «Não reparei nas horas, mas que interessa isso?
            «Tenho que anotar todos os pormenores, a fim de apresentar um relatório.»
            Com um sorriso Rodolfo despede-se. Aguarda dentro do seu carro alguns minutos olhando a janela do primeiro andar, de onde acabara de sair. Poucos minutos depois o Manuel sai e entra no seu automóvel, um Volvo. O inspetor aguarda que o carro vire a esquina. Sai do seu automóvel e olha o chão enlameado de onde acabara de sair o Volvo. Fotografa as marcas deixadas pelos pneus. 
            O inspetor Rodolfo acompanhado de peritos forenses e fotógrafos, dá por concluída a investigação. Sobe ao primeiro andar. A D. Perpétua abre-lhe a porta e convida-o a um café.
            «Obrigado, D. Perpétua, aceito. Há quanto tempo taparam a porta que dava acesso à ourivesaria?»
            «Foi logo que aluguei a garagem. As obras foram feitas pelo senhor Francisco.»
            «Quem conhecia a existência dessa porta?»
            «Creio que ninguém. Há anos que foi tapada… por quê?»
            «Quem tem chaves do rés-do-chão?»
            «Para além do Sr. David, tem a empregada da limpeza e eu, ali no armário.»
            «Pode confirmar se está lá?» A D. Perpétua levanta-se e dirige-se a um armário à entrada da porta.
            «Sim, está lá.»
            «E daqui, de sua casa?»
            «Além de mim, a empregada da limpeza.»
            «E o seu filho?»
            «Ah, sim, mas esse raramente cá vem.»
            «O Sr. Francisco não?»
            «Claro que não, por que havia de as ter?»
            «Importa-se de descer lá baixo?»
            A D. Perpétua desce acompanhada pelo inspetor e entram no aposento alugado.
            «Em que dia a empregada faz a limpeza a este apartamento?»
            «Aos sábados da parte da tarde. Vem mudar os lençóis, toalhas, etc.»
            «Há quanto tempo tem este sofá-cama?» Indagou o inspetor apontando para o sofá defronte da televisão.
            «Há uns anitos. Estava a pensar mudá-lo em breve. Está em tão mau estado. Tenho estado à espera de ver o Sr. David para lhe perguntar se quer que o mude.»
            «A porta de acesso à ourivesaria era aqui, por detrás deste sofá, não era?»
            «Creio que sim. Era mais ou menos aqui.»
            «Importa-se de arredar o sofá?»
            A D. Perpétua sem esforço arredou o sofá.
            «CREDO! O que é isto?» Espantou-se a D. Perpétua olhando o local onde tinha sido deitada a parede abaixo.
            «Foi por aqui que as joias desapareceram.»
            «Como é possível? Quem teria feito isto? Provavelmente o meu hóspede, o Sr. David. Eu devia ter calculado. Nem regateou o preço do aluguer e pagou-me seis meses de renda.»
            «É o que vamos investigar. Por agora é tudo D. Perpétua. Não volte aqui sem nossa ordem.»
            Os inspetores Frasquinho e Rodolfo encontram-se no laboratório da Polícia Judiciária. As análises periciais estavam concluídas. Tanto as impressões digitais como as marcas dos pneus correspondiam à mesma pessoa.         
            Já na esquadra, o Manuel defendia-se alegando que ia muitas vezes a casa da mãe e simultaneamente ao rés-do-chão. Havia sempre pequenos arranjos a fazer e era ele que mantinha tudo em ordem. Confessou ter lá ido nesse sábado dar uma espreitadela e ver se estava tudo bem. Naturalmente as suas impressões digitais estariam por todo o lado. Desconhecia que alguém abrira uma entrada para a ourivesaria. Provavelmente já estaria aberto há muito tempo e o hóspede teria aproveitado para saquear a ourivesaria.
            «Senhor Manuel, o Sr. Costuma aspirar a casa?» O Manuel olhou incrédulo o inspetor Rodolfo. Um pouco atabalhoadamente respondeu.
            «Não, sim. Se for necessário…»
            «Recorda-se se o fez no sábado no rés-do-chão da sua mãe?» O semblante do Manuel toldou-se. Recordou-se do que fizera. Não previra a situação.
            «É natural que tenha aspirado. Agora me recordo. Havia uma poeira de terra, junto ao sofá.»
            «Uma poeira que encheu o saco de areias, pequenas pedras, pedaços de caliça e bocados de madeira, provenientes de uma parede de tabique.» Explanou o inspetor.
            «Sim aspirei. Estava muito sujo, aquele chão.»
            «Não desviou o sofá para aspirar?
            «Não senhor, não foi necessário.»
            «Mas as suas impressões digitais estão espalhadas pela parede, por detrás do sofá.»
            «Podia tê-lo feito em qualquer altura.»
            «Falámos com a empregada de limpeza que nos garantiu ter mudado o saco do aspirador. Colocou um novo no sábado à tarde, o que significa que o chão foi aspirado depois disso.»
            «Mas, eu já confirmei que aspirei o chão, no sábado quando cá estive.»
            «O entulho dentro do saco não é apenas umas simples areias, trata-se de um montão de lixo.
            «Não quantifiquei o volume.»
            «O senhor mente muito mal. Quer explicar-se melhor ou prefere que seja eu a contar-se como tudo se passou?»
            O Manuel, apesar do seu nervosismo, tentava mostrar um falso à vontade mordendo o lábio inferior.
            «Nada tenho nada a declarar, nem sei porque fui aqui chamado.»
            «O senhor chegou a casa da sua mãe às 11 horas e trinta e cinco da noite. Saiu de lá às 4 e 25 da manhã, conforme consta do vídeo da central de segurança. Não lhe parece muito tempo para aspirar uma casa?»
            «ADORMECI» gritou o Manuel e continuou «não têm provas nenhumas contra mim.»
            «Continua a mentir, senhor Manuel.»
            «JÁ DISSE TUDO O QUE TINHA A DIZER. Quero ir embora.» Vociferou colérico o Manuel.
            «Primeiro vou-lhe contar uma pequena história, senhor Manuel e depois conversamos.» Disse o inspetor muito seguro de si.
            «A sua mãe estava em sua casa, o seu inquilino no estrangeiro, o senhor Francisco Oliveira estaria a dormir aquela hora. A vizinhança da vivenda não pode ouvir o eventual barulho que tenha havido, desde que não use um martelo. Bastava um pé de cabra contra o estuque e com um mínimo de barulho seria fácil abrir um buraco… «que tenho eu a ver com isso?» Interrompeu o Manuel exaltado.
            «Ainda não acabei, oiça até ao fim… continuando a história. Depois de aberto o buraco, metem-se os bocados da parede num saco, aspira-se o chão e bastou empurrar o armário que, todo amassado na traseira, não era pesado. Agora, de gatas, uma pessoa passa para o outro lado. Uma vez dentro da ourivesaria levanta-se, calça umas luvas, mete as joias num saco e passa-as para dentro de casa. O resto está à vista.»
            «Muito bem pensada essa história. Continuo a perguntar: que tenho eu a ver com isso?» Indagou o Manuel encolerizado.
            O inspetor sorriu e comentou. «Que imprudente que o senhor foi e que ingenuidade está a demonstrar. Acabei de lhe contar a história.»
            «Sim, percebi, mas volto a perguntar: que, tenho, eu, a, ver, com, isso?»
            «O senhor preocupou-se com as impressões digitais dentro da ourivesaria. Dentro da vivenda não havia problema, vem cá tantas vezes aspirar a casa, mas esqueceu-se de que, para empurrar o armário, necessitou de ambas as mãos onde estão bem visíveis os seus dez dedos e os seus 4 dedos da não esquerda estão bem patentes no lado da estante que, só poderiam aparecer se o armário tivesse sido arredado. Para entrar no buraco teve de gatinhar e assim, as suas 10 impressões digitais estão espalhadas pelo chão da arrecadação. À saída já não aparecem, uma vez que vinha de luvas.»
            «Não me interessam as vossas deduções. Vou para casa e falem com o meu advogado.»
            «O senhor não vai a lado nenhum. Fica já aqui detido. Telefone ao seu advogado e ele que venha cá. Tenha uma boa estada.»

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A Atribulada Viagem a Sevilha


            Decorriam os anos 60, trabalhava eu na Sanvik. Dois colegas meus, casados, planearam um fim de semana em Sevilha. Iriam de carro e, tendo um lugar vago (eles levavam as respetivas mulheres), convidaram-me. Na altura eu namorava com aquela que viria a ser minha mulher. O carro apenas leva 5 pessoas e não a podia levar, primeiro porque não havia lugar, segundo os tempos eram outros e as mentalidades também.
            Quinta-feira após o almoço partimos. Os cerca de 500 km, embora sem autoestradas, seriam feitos em 5 ou 6 horas, contando com as paragens para os cafés. Não marcámos hotel. Quando lá chegássemos trataríamos disso.
            A Lurdes, mulher dum já falecido colega, algumas horas após a partida perguntou: «quanto tempo falta?»
            «Daqui a uma hora estamos lá.» Respondi sem sequer saber a quantos quilómetros estávamos.
            Pouco tempo depois a mesma pergunta surgiu.
           «Quanto tempo falta?» A minha resposta foi a mesma. Mais uns quilómetros e a pergunta repete-se, e a resposta «daqui a uma hora estamos lá» foi dada mais uma vez. Cerca das 9 da noite avistei uma tabuleta com a indicação SEVILHA 7 KM quando a minha amiga Lurdes voltou à mesma questão. A resposta desta vez veio em coro. DAQUI A UMA HORA ESTAMOS LÁ. Risota geral.
            O condutor para à porta de um hotel de 3 estrelas. Como eu sabia dizer buenas noches e tienes habitacion, fui encarregado de falar com o rececionista.
            «Não, não, está esgotado.» Foi a pronta resposta e continuou «talvez aqui atrás, há um outro hotel.» Também estava esgotado. E o outro também e mais outro esgotado. Tentámos os de 4 estrelas, os de 5, mas em vão. Recorremos a pensões, hostales, mas parecia que todo o mundo tinha ido passar a semana Santa a Sevilha.
            Já desesperados pensámos ir para a estrada e procurar um motel ou regressar a Lisboa, quando num primeiro andar duma ruela estreita deparamos com um letreiro luminoso “Hostal Estrella”. Subi ao primeiro andar por uma escada estreita e suja. Numa receção que mais parecia um balcão de uma tasca, um sorridente empregado atendeu-me. Também estava cheio.
            «Nesta altura do ano Sevilha fica repleta de turistas, dificilmente conseguirão alojamento» disse-me o sorridente empregado continuando «cuántas noches se quedarán en sevilla
            «Apenas 3, partimos no domingo.»
            «Cuántas habitaciones necesitas
            «Dois casais e um solo. Três quartos chegam.»
           «À saída de Sevilha, na estrada para Madrid, a cerca de 15 km, há uma aldeia que não tem saída. Aí existe uma pensão onde se hospedam uns mineiros. Nesta altura do ano vão para casa. Se usted quiser posso telefonar». Agradeci. Que mais podia desejar?
            Enquanto o empregado telefonava olhei à minha volta repugnado. Quem dormiria em tal hostal? Olhei as paredes que escorriam uma humidade castanha. *Pareceu-me ver passar uma barata, mas provavelmente era impressão minha.
            «Sim o Pablo cede-lhe os 3 quartos. Terão de dormir nos quartos de mineiros, mas as gavetas e armários contêm a sua roupa.»
            Agradeci e depois das explicações do caminho a percorrer, saí.
            «Então? Também está esgotado?» Perguntaram-me assim que cheguei ao carro.
            «Está, mas mesmo que não estivesse por certo que ninguém lá quereria dormir. No entanto há uma possibilidade a cerca de 15 km.»
            Depois das explicações transmitidas pelo simpático empregado, lá seguimos para a pensão dos mineiros. Começava a chover. Tínhamos fome, eram quase 11 da noite, podia ser que na pensão nos servissem qualquer coisa.
            Para chegarmos à aldeola, tivemos de passar por um túnel com um declive acentuado, sob a estrada principal. Segundo a informação a pensão situava-se na rua principal, a meio, à esquerda. Não foi difícil encontrá-la. Era uma modesta pensão e o dono gentilmente cedeu-nos os 3 quartos com lençóis lavados. Não serviam refeições, mas ele próprio preparou-nos umas couves salteadas, uns ovos com salsichas, pão, vinho e café. A fome era tanta que elogiámos o petisco e comemos tudo. Subimos aos quartos, tomámos banho, perfumámo-nos, vestimos fato e gravata (na altura era essa a moda) e as duas senhoras vestidas com vestidos de noite e com casacos de pele, preparávamo-nos para uma noite de farra. Descemos ao hall e a chuva continuava a cair desta vez com mais intensidade. O Pablo olhou-nos espantado. Deve ter pensado: onde vão a esta hora, todos janotas?
            Despedimo-nos agradecendo mais uma vez o suculento jantar.
           «Divirtam-se, venham à hora que quiserem, estou a pé.»
            Corremos para o carro. A chuva não vinha nada a calhar. Descemos a rua e quando nos aproximámos do túnel tivemos uma surpresa. Havia um enorme poça de água não nos permitindo sair da aldeola.
            «Só nos faltava isto. Que fazemos agora? Não há outra saída…»
            «Voltamos para trás, vamos comprar uma garrafa de whisky e entretemo-nos a jogar às cartas ou a conversar.»
            E voltámos. Parámos à porta de um café e mais uma vez sou eu que vou falar com o dono do café para nos ceder uma garrafa de whisky.
           «Solo tengo esto, está quasi llena.»
            «Quanto Vale.»
            «30 Pesetas.
              Era mais cara que uma garrafa cheia, disse que não queria.
            «Aquele palerma queria 30 Pesetas por meia garrafa de whisky.» Disse eu ao chegar ao carro.
           «Vamos dar uma volta e procurar noutro café.» Disse um deles
           Demos duas voltas à aldeia, mas cafés nem cheiro. Estava tudo fechado. Voltámos ao mesmo.
            «Ahora non te la vendo.» Disse-me o dono do café.
            Não restavam dúvidas. A viagem tinha começado mal. Só havia uma solução. Voltar para a pensão. O simpático Pablo cedeu-nos uma garrafa de brande espanhol e emprestou-nos umas cartas.
            «Como se sai daqui quando chove?» Perguntei a Pablo.
            «Só os jeeps é que conseguem sair. O Manolo, o dono do café, tem uns barrotes para um caso de emergência e com a ajuda dos clientes colocam-nos no túnel.»
            «Estamos feitos.» Comentou um dos meus amigos.
            «Vocês tinham alguma festa planeada para hoje?» Perguntou Pablo.
            «Não. Íamos apenas dar um passeio pela cidade.»
            «Hoje está tudo fechado. E a chover como está…»
            «Nem nos lembrámos disso.» Comentou um do grupo.
            Despedimo-nos de Pablo e subimos ao primeiro andar. Havia uma pequena sala onde nos sentámos a comentar a viagem.
           «Se amanhã chover passamos aqui o dia?» Perguntou uma das senhoras.
            «Vamos ter de recorrer ao Manolo para nos emprestar os barrotes.» Comentou alguém.
            «Estou mesmo a ver. Amanhã Vou falar com o Manolo e digo-lhe. «Manolo, empresta-me os teus barrotes?» E ele responde. «Estão ali, leva-os.» Ou então, pede ajuda aos seus clientes, colocam os barrotes e ficam de longe a apreciar a manobra do nosso carro passar por cima de dois barrotes apodrecidos e ver o carro mergulhar na poça.» Todos riram, embora sem vontade.
            «Amanhã vamos lá tomar o pequeno-almoço e fazemos as pazes com o Manolo.» Disse um outro.
            Por volta das oito acordei. Olhei à janela. O tempo estava ótimo, sem chuva e o sol parecia convidar-nos a um passeio. A partir dessa hora já ninguém dormiu devido aos meus gritos de “DESPERTAR”.
            Fomos ao Manolo tomar o pequeno-almoço. À cautela fui o último a entrar. Acolheu-nos muito simpaticamente e serviu-nos principescamente.
            «Se for necessário já temos barrotes não apodrecidos para passarmos o túnel.» Disse eu num português rápido para que o Manolo ou os outros clientes não percebessem. Felizmente o caminho estava livre e saímos sem problemas.
            Sexta-feira Santa, tudo fechado. Apenas restaurantes e cafés abertos. Aproveitámos para uma visita à cidade. Era a primeira vez que íamos a Sevilha. À noite, encontrámos um recinto onde o “Tablao Flamenco” atuava para turistas. Como o tempo estava sem chuva e o perigo de regresso à pensão parecia não problemático, assistimos ao bailado. Regressámos bastante tarde, mas o Pablo lá estava sorridente à nossa espera. No dia seguinte o tempo continuava ameno e dedicámos o dia em compras, caramelos, garrafas de whisky e brande, bolachas e outras bugigangas. Um dos nossos amigos comprou um sobretudo em pele de camelo e não mais o despiu. As adversidades da viagem pareciam ter passado, pensava eu.
         Domingo, cedo nos levantámos. O tempo estava bom, sem chuva. Despedimo-nos do Pablo trocando cartões-de-visita. Tomámos o pequeno-almoço no Manolo e prometemos voltar. Tínhamos conquistado um amigo.     O nosso companheiro que comprara o sobretudo continuava com ele vestido, provavelmente teria dormido com ele, nem mesmo no carro o despiu.
            Seria próximo do meio-dia quando chegámos à fronteira espanhola. O guarda da fronteira olhou para dentro do carro e perguntou: “Tienes algo a declarar?»
            «Não, não temos.»
            «Por favor abra el maletero del coche
            Abrimos. Sacos com caramelos, garrafas e outras bugigangas foram inspecionadas.
            «Quantas garrafas levam?» Perguntou o guarda.
            «Eu levo duas.» Disse eu.
            «E ustedes?» Tínhamos seis garradas ao todo. Por lei, apenas era permitido transportar uma por pessoa. Pelo menos assim nos foi informado pelo guarda-fiscal. Resultado: ou pagava direitos alfandegários pela garrafa extra (o que era uma exorbitância) ou ficaria uma retida na alfândega para uma hipotética viagem breve a Sevilha.
            Enquanto isto, já todos nós estávamos fora do carro para desentorpecer as pernas. O do sobretudo sempre vestido, observava a cena calado, olhando ora para nós ora para o guarda.
           O guarda não satisfeito com apenas uma garrafa, olhou mais uma vez o interior do carro.
            «Qué es eso?» Disse ele apontando para a traseira do carro onde se amontoavam volumes e sobre eles um casaco de peles da minha amiga Lurdes.
            «É o casaco da minha amiga.»
            «Me muestra.»
            A Lurdes entrou no carro e tirou o casaco apresentando-lho.
            «Comprou-o em Sevilha?» Perguntou o guarda.
            «Já o tenho há 2 ou 3 anos. Comprei-o em Lisboa.» Respondeu a Lurdes com muita convicção.
            «Parece novo, têm a fatura dele?» Perguntou o guarda mirando e remirando o casaco.
            «Ó senhor, não ando com as faturas das roupas que uso.»
            Entretanto o amigo do sobretudo novo acercou-se muito afoito e ajudou o guarda a investigar o interior do casaco na busca de uma etiqueta.
          «Vê-se bem que não é novo, senhor guarda» disse o meu amigo, continuando na procura de uma etiqueta. Felizmente lá encontraram uma da loja lisboeta onde tinha sido adquirido. Parecendo satisfeito com a garrafa de whisky, lá nos deixou em paz desejando-nos buena viaje.
            Já em terras portuguesas os comentários foram alvo de chacota, não só pela estupidez do guarda como pela coragem do meu companheiro que de sobretudo novo se arriscou a participar naquela fantochada.
            «Vocês não conhecem a história do contrabandista que diariamente atravessava a fronteira de bicicleta com um saco de areia? Muitas vezes a areia foi espiolhada, remexida e não passava de simples areia. Não há nada como a descontração. O que é óbvio passa despercebido. O contrabandista contrabandeava bicicletas. Todos rimos.