terça-feira, 18 de dezembro de 2012

LIVROS

Tal como vos prometi no meu anterior blogue, venho falar de Haruki Murakami, o escritor japonês sério candidato ao Prémio Nobel da Literatura e de um dos seus últimos livros “1Q84”, publicado recentemente.
Romance carregado de enigmas, amor, mortes e suspense. São 3 volumes que nos deixam excitados, desejosos de acabar este ou aquele capítulo para sabermos o desenlace no seguinte.
Tengo e Aomame são dois personagens que desde o tempo da escola primária não se veem e tudo fazem para um reencontro. Ele, professor de matemática, ela professora de artes marciais. A vida de ambos é-nos relatada com pormenores tão minuciosos e carregada de ficção que nos excita. As peripécias e fugas de ambos só terminam quando saem do ano de ‘1Q84’ e regressam ao ano de 1984. Uma escrita agradável e uma história apaixonante.
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Os Pilares da Terra é um outro livro composto de 2 volumes, mas este de Ken Follett, do qual fizeram um filme. Um épico passado no século XII na cidade de Kingsbridge em Inglaterra. A vida dos senhores do reino, do clero, dos artesãos e povo em geral é dissecada nos mais ínfimos pormenores.
O Romance inicia-se com a vida de um pedreiro que pretende edificar uma catedral gótica. Os pormenores da construção, as peripécias, amores e desamores do pedreiro são-nos relatados com pormenores ricos em ação, onde o poder, vinganças e traições naquele período da Idade Média são constantes.
À medida que ia lendo, uma revolta apoderava-se de mim pela maneira cruel, ardilosa e requintes de malvadez, com que os senhores do poderio resolviam os seus interesses, mais ainda pela forma pormenorizada que o escritor dava na sua descrição.
Valeu a pena as semanas que levei a concluir estes dois volumes.
Mais de 3 anos demorou Ken Follett a escrevê-lo.
Mais de 90 milhões foram vendidos em todo o mundo.
Se o lerem e for do vosso agrado, aconselho “Um Mundo Sem Fim” do mesmo autor, que as cerca de 1000 páginas que compõem a obra obrigou a uma publicação em dois volumes. História passada na mesma cidade de Inglaterra, dois séculos após as narrativas do primeiro. Uma continuação dos Pilares da Terra, onde muitas das personagens são descendentes das do primeiro livro. História igualmente cheia de acontecimentos, onde o ódio, a vingança, a ambição estão igualmente patentes. A peste negra que assolou a Europa no século XIV é-nos relatada com a mestria de Ken Follett. A teia comea quando quatro crianças assistem à morte de um homem e, uma delas, vê um dos assassinos esconder uma carta na floresta. A vida destas quatro crianças será assombrada pelos anos que iremos acompanhando ao longo da história.
 …ooo…
Não posso deixar por relatar mais uma obra que me fascinou. Um livro oferecido por um grande amigo: Bala Santa, de Luís Miguel Rocha, autor do bestseller O Último Papa, cuja venda ultrapassou os 500 mil exemplares.
Bala Santa é um tríler político, relatando a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II, por todos nós conhecida.
Os acontecimentos que estiveram por detrás desta tentativa em 1981; as forças ocultas que conjeturaram e planearam este ataque; as personagens envolvidas neste trama, os jornalistas que, na tentativa da resolução do caso, acabam mortos.
Que meandros do Vaticano envolvem este mistério?
Agentes do Serviço Secreto americano, um ex-militar português, uma jornalista portuguesa em Inglaterra, um padre muçulmano, o conhecido autor dos disparos ‘o turco Alia Agca’ e vários agentes de todo o mundo, uns cúmplices, outros na investigação, são apontados neste trama de uma forma soberba.          
Dos recentes romances lidos, estes foram os que mais apreço me despertaram e aconselho.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

DA MINHA JANELA


São nove da manhã, uma manhã de outono do passado mês de novembro. Espreito através da janela e avalio o frio que deve estar lá fora. Muitas pessoas deslocam-se para o emprego agasalhadas com o guarda-chuva no braço adivinhando um dia chuvoso. Uma senhora amparada pelo guarda-chuva, já na quarta idade, caminha pela rua, fora do passeio, junto aos automóveis estacionados. É a minha vizinha do prédio fronteiriço, esposa do falecido vidraceiro, meu antigo fornecedor de vidros e espelhos de pequena dimensão. Dias antes, de dentro do meu carro, tinha-a aconselhado a seguir pelo passeio. «O passeio é para quem pode». Limitou-se a responder. Pretendia dizer-me que o passeio, mal calcetado, não era para os seus pés já trôpegos. A rua asfaltada era mais plana e de melhor piso. Várias vezes a tinha visto a caminhar pelo alcatroado sem saber o motivo.
Um homem de certa idade passava apressado com um saco de compras. Pelo seu aspeto sisudo e pelo tamanho do saco, devia ter sido obrigado pela mulher a sair em busca de pão para o pequeno-almoço. Um outro, igualmente vindo das compras, este com um ar alegre e pelo tamanho do saco, devia ter ido à mercearia comprar arroz, batatas e couves para a sopa do almoço. Pressinto que tenha dito à mulher: «querida fica um pouco mais na cama enquanto eu vou às compras».
Aquela, com o pequenito pela mão, por certo o vai pôr no infantário e depois segue para o escritório. Pelo seu aspeto deve ser funcionária da Junta de Freguesia ou, o mais provável, empregada num escritório privado das imediações de minha casa, dado que já passa das 9 e a Junta não permite uma entrada tardia. Um cavalheiro para o carro em segunda fila e dirige-se para o café. Veste bem; vem de fato e gravata. Deve ser diretor daquela empresa mais acima, na minha rua.
Para um bocado. Deixa de bisbilhotar a vida de cada um. Disse para comigo próprio.
Olhei em frente e vi o Cristo Rei de braços abertos, do lado esquerdo da ponte Salazar, mais tarde rebatizada por Ponte 25 de Abril. Parecia dizer-me: «vai fazer qualquer coisa, deixa-te de apreciações patetas».
«Está bem, tens razão. Deixa-me olhar um pouco o céu e o tempo e vou já ler um pouco».
Olhei o céu. As nuvens corriam devagar para Leste. Pareciam não ter pressa. Iam mascaradas de coelhos, outras pareciam monstros marinhos trazendo atrás de si pequenos monstros, provavelmente filhos; aquela grande, vinha em forma de girafa com uma cauda enorme.
As nuvens seguem para Leste e dão a volta à Terra? Com sua lentidão quanto tempo durará a circunvalação? Ou haverá uma fábrica de nuvens a Oeste? E, se assim for, quando derem a volta à Terra juntar-se-ão às já fabricadas? Pensei nisso durante bastante tempo, mas o Cristo Rei não me deu resposta. Tenho a impressão que me olhou e repreendeu.
Fique irritado com o seu silêncio e sentei-me à mesa, de costas para a janela ou seja, de costas para Ele e abri um livro: o 3.º e último volume do “1Q84” de Haruki Murakami (romance interessante do qual vos falarei mais tarde).

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PRINCÍPIO DE PETER

Há gentes com fome, sem abrigo, vivendo numa solidão tamanha que dá revolta. Na sua maioria são os sem-abrigo, despojados dos seus bens, casa ou emprego. Sim, não há ninguém que não lamente e não se condoa. Uns ajudam diretamente, outros através de instituições governamentais ou privadas. Isto a propósito daqueles que duma forma ou de outra foram marginalizados. Por culpa própria?, por falta de meios?, por incapacidades física ou moral? Ou por relaxação, desprezo pela vida, vagabundagem ou incompetência?
Não nos cabe julgar as causas dessa miséria nem tão pouco criticar ou menosprezar alguém que, seja quais forem as razões, caíram em desgraça. Moralmente, temos obrigação de acolher, ajudar, dar de comer ou empregar aqueles que desejem ser ajudados ou necessitem de uma palavra amiga, um conselho, um carinho. Sim, não há vivalma que não lamente e não se apiede.
Todavia, há outros: os Zé-ninguém, os pobres de espírito, os falhados, pobre-diabo que atingiram a incompetência, muitos deles ao iniciar o ensino secundário. Mesmo esses, não devem ser achincalhados nem marginalizados. No entanto, quando por incompetência, desleixo ou preguiça, optando pela “boa-vida” desprezando os estudos ou o trabalho e, querendo enganar meio mundo, alardeiam aos sete-ventos uma falsa personalidade, a insolência de doutorar-se a si próprios. Atingiram a incompetência e, por complexo de inferioridade, autopromovem-se. São estes pobres que devemos desprezar e não nos comovamos com a sua fraqueza espiritual.
Atingiram muito cedo o Princípio de Peter.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Diálogo no CCB

O polémico Centro Cultural de Belém admirado por uns, contestado por outros, é o lugar ideal para umas horas de prazer, onde a arte impera, a cultura predomina e o tempo passa tão depressa que são necessárias horas infinitas para percorrer as dezenas de salões onde centenas de artistas expõem a sua arte.
 
  À entrada do CCB dois amigos discutiam arte: «Repara o contraste do Mosteiro dos Jerónimos com este “caixote” do CCB.» Dizia o Manuel para o seu amigo Pedro.
«A arte e a vida são feitas de contrastes. A arte é tudo aquilo que o homem faz; quer pintura, escultura ou uma ideia apresentada em papel ou mesmo em filme. Podes gostar ou desgostar.» Retorquiu Carlos.
«Mas já não há artistas como aqueles do século XVI que construíram aquele Mosteiro.»
«Não digas isso. O Mosteiro dos Jerónimos foi construído no século XVI, com o seu estilo Manuelino de facto, mas depois das guerras napoleónicas no início do século XIX, que devastaram uma boa parte dos Jerónimos, quem foi que tomou a cargo as obras de restauro? Foram os artistas da época, não é verdade?» E continuou «o edifício do CCB é de uma arquitetura moderna, linhas direitas, verticais e horizontais. Tudo tem a sua época, não por falta de artistas ou de gosto, mas por falta de tempo ou dinheiro. Como classificarias a Sé de Lisboa? Não é igualmente uma obra de arte? Todavia o estilo românico é também composto de linhas direitas.» Concluiu Pedro. 
A discussão prolongou-se até que, depois de ambos concordarem que o motivo da sua ida ali era a exposição no interior do CCB e não a sua arquitetura. Entraram. Percorreram demoradamente as longas salas, parando aqui ou ali para melhor apreciação de um quadro ou uma escultura. Olharam demoradamente para um quadro de Picasso. Pararam numa sala para apreciarem “Os Núcleos”, obras suspensas no espaço, algumas delas compostas de várias peças, um novo conceito de arte; um telefone, escultura de Salvador Dali.
O Manuel questionava-se sobre o tipo de arte que as centenas de artistas lhes queriam mostrar; olhava uma sequência de um filme sem o compreender, via dezenas de tijolos sobrepostos ou umas pedras colocadas no chão aparentemente ao acaso; uma escultura de ferro em forma circular ocupava toda uma sala. Por fim desabafou:
«Nunca pensei que uma exposição fosse para além de umas pinturas, uns quadros pendurados e pouco mais. Sem entender de arte, tenho de reconhecer que admiro a versatilidade desta exposição. Não há dúvida que a arte é muito para além de uma pintura ou escultura.» Confessou.
«Imagina que te dão uma tela e uma lata com tinta branca e te pedem para pintares um quadro, que responderias ou fazias?» Indagou Pedro.
«Sei lá? Por certo que pensaria que estavam a galhofar comigo.» Respondeu Manuel.
Pedro pegou-lhe num braço e dirigiu-se para o fundo da sala pespegando Manuel defronte de um quadro, uma tela branca pintada de branco.
«Repara neste quadro. Piero Manzoni pintou a branco sobre uma tela branca. Parece um paradoxo, mas na realidade só a um génio isto lembraria.»
Pedro, olhando a cara de Manuel que parecia extasiado, continuou:
«E se te pedissem para expor uma construção?»
«Para te ser franco, a partir de agora, tudo o que me possas mostrar nada me irá surpreender.» Informou Manuel.
Percorreram mais umas salas. Esculturas, quadros tridimensionais, películas de filmes, iluminação a néon ou lâmpadas fluorescentes, iluminação a gás, etc. etc., patenteavam arte e deliciavam quem os olhasse.
Pedro, satisfeito com a apreciação demonstrada pelo seu amigo, parou defronte de um amontoado de gravilha de pedra, tijolos, tábuas de madeira e disse para o seu amigo. «Eis, uma escultura de uma construção.»
Manuel não pode esconder a sua admiração.
«Na realidade a arte é tudo aquilo que possamos imaginar. Não faria ideia de como apresentar esta escultura. É fascinante.» Confessou.
«Mas há mais» informou Pedro e continuou «tudo o que viste é demasiado valioso, não lhes podes tocar e em alguns casos nem te aproximar demasiado, existindo os separadores para não os ultrapassar.»
«Que mais poderá haver?» Pergunta espantado Manuel.
«Se um artista te pedisse para tocar nos objetos expostos, pisasses o seu trabalho, te deitasses em cima dele, entrasses no seu espaço, acreditarias?»
«Não é possível!» Exclamou Manuel.
«Anda daí e verás como é possível.» Finalizou Pedro.
Não, não era possível, Pedro estava agora a ensandecer. Pensou Manuel.
Entraram numa sala e percorreram alguns metros com quadros de ambos os lados. Ao fundo, um amontoado de seixos, arreia, plantas. Uma gaiola enorme alojava um casal de papagaios. Algumas alcovas envoltas em tule ou outro tecido translúcido mostravam um colchão de flocos de esponja, palha, folhas secas, areia e até de livros. À entrada podia-se ler: ÉDEN, 1969.
Entrávamos na “Tropicália”, obra do artista Hélio Oiticica, que nos aconselhava a entrarmos descalços para sentir a textura do chão de seixos e areia, a saltar para cima dos colchões e pisarmos a palha, os flocos de esponja, areia, livros velhos e se pretendêssemos, deitarmo-nos nesses espaços para meditar ou sentir a natureza sob os nossos corpos.
Pedro e Manuel não resistiram em entrar no paraíso de “Hélio Oiticica”. Descalços, pisaram aqueles chãos entrando nas cabinas envoltas em tecidos translúcidos. Pisaram livros, flocos de esponja, areia, palha e sentiram uma sensação de prazer que há muito não sentiam.
Não resistiram e entraram na tenda de campismo. Sentaram-se no chão e colocaram os auscultadores que ali se encontravam e ouviram música. O tempo parou. Deram poi isso quando saíram e chegaram à rua. Começava a entardecer. Tinham entrado no CCB pelas 3 da tarde.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Incompreendido


Tinha 6 anos quando começou a cantar no coro da igreja. Andava no 1.º ano e era um exemplar aluno. O Zezinho como lhe chamavam, adorava cantar. Em casa, no banho, cantarolava e sua mãe admirava-o com a habitual ternura de uma mãe. Incitava-o a cantar:
«Cantas muito bem meu filho» dizia-lhe muitas vezes.
Zezinho, frequentador assíduo da missa dominical, andava na catequese. O pároco da igreja gostava muito dele e, numa festa natalícia, convida-o a cantar a solo.
Pais, amigos e colegas da escola estão presentes no salão de festas da igreja. Zezinho no palco, munido de um gravador e de um microfone, inicia a sua canção acompanhada pela música do seu gravador. Às primeiras baladas repara que uma senhora acompanhada pelo seu filho, muito lentamente e sem ruído, levanta-se e sai. Segundos depois duas senhoras fazem o mesmo e mais umas e outros seguem o mesmo caminho. Ainda não tinha acabado a sua cantoria e já a sala estava vazia ou melhor: um único espectador restava, sentado ao fundo da sala. Destemido conclui o canto. Desliga o gravador, pousa o microfone e dirige-se para a única pessoa presente na sala, a fim de lhe agradecer. Com espanto repara que era o pároco e este dormitava a sono profundo.
Anos mais tarde, já no liceu, Zezinho que nunca mais tinha cantado a solo, foi convidado pelo diretor para uma festa de fim de ano letivo. Uns declamavam, outros contavam anedotas ou faziam palhaçadas. Ninguém se oferecera para cantar e o diretor incitou Zezinho a fazê-lo. Este pensou: teria uma segunda oportunidade.
Tal como da primeira vez, a sala estava cheia, mas a sua maioria eram colegas do liceu. Zezinho foi o último a atuar.
Cantou a primeira canção e ouve um burburinho pela sala. Quando acabou, uma salva de palmas ruidosas ecoou pela sala. Entusiasmado canta uma segunda, novos aplausos de pé. Canta a terceira e gritos de “BIS!” BIS!”. Cantou mais uma e, ouvindo um novo pedido de bis, pede uns minutos para descansar.
Ouvem-se gritos em uníssono:
«CONTINUA A CANTAR ATÉ APRENDERES».
Vermelho como um pimento, cabisbaixo, retira-se lentamente do palco não deixando de ouvir atrás de si as risadas de todos os colegas. Jurou para si não voltar mais a cantar.
Zezinho, já homem, passara a José e mais tarde na tropa a “35”, o soldado 35.
Estava na recruta e como habitualmente foram para campanha em treino militar. Uma semana de treino, carregados de mochilas, armas, tenda de campismo, etc. No final da campanha, um sábado, o comandante do pelotão encarrega o sargento e um cabo miliciano de organizar juntamente com os mancebos, uma festa de fim de campanha.
É improvisado um palco, luzes, som e tudo o mais necessário para o festim. Uns tocam guitarra, outros ensaiam ilusionismo, há quem se mascare e brinque aos palhaços. Zezinho apenas sabe cantar e não vê outro remédio se não atuar. Agora iria fazê-lo para adultos. Talvez o compreendessem melhor, tal como sua mãe.
Zezinho queria brilhar e propôs-se para último. Desta vez empregaria toda a sua voz e com a ajuda daquelas potentes colunas de som faria um brilharete.
Não chegou a um minuto de atuação, já todos gritavam:
«OH 35! VAI CANTAR PRÁ TUA RUA» ou
«EXPERIMENTA CANTAR BAIXINHO COM A BOCA FECHADA»
«CANTA DE COSTAS 35, PARA NÃO TE VERMOS»
Risadas, gritaria, barulho ensurdecedor de tal forma que o comandante se levantou e olhou para trás. Todos se calaram. Então, muito sério e com a calma que lhe era habitual, virou-se para o palco e bateu pausadamente 4 ou 5 palmas. O José, o 35, curvou-se e agradeceu:
«Obrigado meu comandante, vejo que é o único que aprecia a minha voz.»
«Não te estou a aplaudir. Estou a aplaudir a opinião dos teus camaradas.
Hoje o Senhor José, já avô, se lhe pedem para cantar fica de tal forma irado que quem não o conheça estremece de medo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Férias

Rio Minho. Ao fundo Monte de Santa Tecla. Espanha.
É tempo de férias. Este ano ponderei e, em virtude do subsídio das mesmas ter ido de férias, fi-las cá dentro. Provavelmente teria gasto menos indo para o sul de Espanha ou mesmo para as Baleares, mas há que ajudar o País a minorar a crise, ajudando a indústria hoteleira e restauração portuguesas. Escolhi o Norte.
 
Passadeiras em madeira para as praias
Caminha
Há mais de dez anos que não visitava Caminha no Alto Minho. Tudo na mesma, felizmente, comparando com a evolução algarvia, onde o cimento e betão armado têm progredido de tal forma que qualquer dia o Algarve com o peso afunda no Atlântico; mas, como dizia, tudo na mesma, felizmente, sim tudo na mesma. Não há cimento novo nem caixotes habitacionais implantados à beira rio ou no interior. O hotel é o mesmo ligeiramente remodelado; na praia fluvial ou marítima, não há barracas nem novos restaurantes. As melhorias destas praias da foz do rio Minho foram apenas as passadeiras em madeira, que nos levam às praias fluvial ou márírima, evitando assim a travessia pelo maravilhoso pinhal que separa a marginal das praias; em vez de hotéis no areal foi criado um parque de campismo; os novos restaurantes, bares, discotecas, tavernas típicas, hotéis e outras infraestruturas turísticas foram criados nas casas existentes, muitas delas do século XVI ou XVII. 
 
O Alto Minho não é só Caminha. Num raio de vinte e poucos quilómetros as atividades diurnas e noturnas para os mais jovens cresceram. Para os mais velhos, turistas e emigrantes, as festas, romarias, artesanato, feiras, música, teatro, restaurante onde a gastronomia nos faz engordar, abundam. De Valença até Vila Praia de Âncora, passando por Vila Nova de Cerveira famosa pela sua bienal, Lanhelas, Seixas, Vilar de Mouros conhecido internacionalmente pelos seus festivais de música, Moledo, as suas praias fluviais límpidas, como por exemplo a Azenha no rio Coura, em Vilar de Mouros, encantam-nos. As montanhas, a Mata Nacional do Camarido, dezenas de miradouros com destaque para a harmoniosa Serra d’Arga nos seus 770 metros de altitude, miradouro da Senhora das Neves ou miradouro do Calvário, o monte de Faro perto de Valença, de onde poderá avistar toda a vila e, na margem direita do Minho, a vila fronteiriça de Tui em Espanha. Os visitantes mais radicais poderão usufruir de passeios pelos rios em caiaques ou canoas, participar nos trilhos pedestres ou percorrer as ecovias, a pé ou de bicicleta.
 

No concelho de Caminha com as suas 20 freguesias, poderão ainda apreciar as suas muralhas do século XVII, a torre do relógio do século XV, o chafariz no centro da vila do século XVI; o seu artesanato de rendas, bordados, cestaria em vime ou arte em cobre. O turismo rural abunda nesta região.
Em resumo: umas férias higiénicas, apelativas, longe da azáfama cosmopolita e onde poderá degustar as especiarias da região a preços atrativos. Finalmente um conselho: faça férias cá dentro, conheça o nosso País.