Fernando
saiu do escritório por volta da cinco. Estava uma tarde escaldante. Era cedo
para se recolher em casa, além disso tinha planeado dar um salto à sapataria e
a um alfarrabista. Do seu escritório à rua do Carmo era um pulinho por isso
resolveu percorrer aquele trajeto a pé. Entrou na sapataria, escolheu os
sapatos e pediu que lhos enviassem para o escritório. Subiu a rua Garrett e
entrou num alfarrabista. Já há algum tempo que procurava um livro de poemas de
Carlos Queiroz. Talvez ali o encontrasse, embora sabendo não ser fácil. Sem
sucesso. A dois passos estava o café “A Brasileira”. Olhou em volta e reparou
na “troikapoética” Camões, o poeta
alentejano Chiado e Fernando Pessoa, que recentemente o famoso escultor Lagoa
Henriques o imortalizara, sentando-o na esplanada daquele centenário café. Destes
poetas os livros abundavam, mas do Carlos Queiroz, nada.
Fernando, o cavalheiro por excelência, trajava um fato de alpaca azul claro, de
corte impecável como se de um certo ministro se tratasse. A sua camisa de uma
brancura imaculada sob uma gravada azul escura, dava-lhe um ar de manequim. Não
aparentava os 33 anos que tinha.
Entra
no majestoso café repleto de espelhos e de clientes. Olha em volta, mas mesas
vagas nem uma. A um canto, sentada sozinha, uma garota toma um chá. Repara nela
que o olha superficialmente. Era uma interessante jovem na casa dos vinte e
poucos anos. Vestia um elegante fato de executiva cinza claro e uma camisa de
cambraia branca que lhe dava um aspeto imponente.
«Esta
cadeira está vaga?» Perguntou Fernando que entretanto se tinha dirigido à mesa
da jovem.
«Sim,
está.»
Fernando
olha mais uma vez em redor e exclama: «Só não tenho onde a colocar. Não se
importaria se eu tomasse um café na sua mesa? Saio de seguida.»
A
jovem deu um ligeiro sorriso e exclamou «não, não me importo.» Pensou: Que lata.
Segundos
após o empregado lhe ter trazido o café e uma garrafa de água, Fernando olhando
a sua companheira de mesa, exclama.
«Camomila?»
«Como?»
«O
seu chá… é de camomila.»
«Sim,
sim. Percebe de chás?»
«Oh,
não. Conheço pelo cheiro. A minha mãe tomava imenso. Sofria do estômago. Desde
pequeno que esse cheiro não mais saiu da memória.»
«Já
faleceu?»
«Despediu-se
de mim ainda era eu muito jovem.»
«E
agora já não é?»
«Tenho
33.»
«Julgava-o
mais novo.»
«Agora
me lembro, não me apresentei. Fernando.» Disse ele fazendo uma ligeira vénia.
«Elisabete.»
Apresentou-se estendendo-lhe a mão.
«Sou
um malcriado. Nem lhe perguntei se esperava alguém.»
«Por
acaso esperava uma amiga, mas não combinei nada. Ela costuma vir aqui. Não sei
se virá.»
«Se
ela vir que está acompanhada, provavelmente não se aproximará.» Retorqui Fernando.
«Oh!
Não. É uma miúda descarada, no bom sentido, claro. Tem apenas 23 anos.»
«Miúda?
23 anos? Perdoe-me, mas ela será da sua idade, não?»
«Já
fiz 28. Vou a caminho dos 29.» Contrapôs Elisabete.
«Pensei
que ainda andasse a estudar…»
«Trabalho
há três anos numa Instituição Financeira, uma associada de um banco. Sou
secretária administrativa» interrompeu Elisabete e continuou. «E o Fernando que
faz.»
«Trabalho
num escritório.»
«Hum!
Duvido.»
«Por
quê?»
«Não
tem aspeto disso. Um empregado de escritório não veste dessa maneira.»
«É
boa observadora, Elisabete.»
«Recordo-lhe
que lido com banqueiros e pessoas de negócios.»
«Na
verdade eu trabalho num escritório, tenho uma fábrica de montagem de computadores
perto de Santarém e o meu escritório está sedeado em Lisboa, na rua do Ouro.»
«É
fabril?»
«Tenho
um diretor competente na fábrica. Eu apenas lido, tal com a Elisabete, com finanças.»
«Não
comprou o livro?»
«Que
livro?!» Admirou-se Fernando.
«Entrou
há pouco na livraria…»
«Viu-me?»
«Vinha
a chegar quando o vi entrar na livraria.»
«Anda
a espiar-me?» Brincou Fernando.
«Quase
me deu um encontrão quanto recuou para ver a montra.»
«Oh,
desculpe-me, não reparei. Procurava um livro do poeta Carlos Queiroz, mas não
havia.»
«Não
conheço.»
«É
um contemporâneo de Fernando Pessoa. Nunca li nada dele…»
«Gosta
de poesia?»
«Hum,
nem por isso.»
«Então…»
«Um
livro de Fernando Pessoa fala dele. Li parte de um dos seus poemas.» Confessou
e declamou:
Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!
Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!
Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!
«É tudo o que me recordo do poema.»
«É romântico?»
«Quem, eu?»
«Não. O Carlos Queiroz.»
«Confesso que não sei. É tudo que li dele.»
«Costuma comprar livros de autores que não conhece?»
«Sim. Só depois de ler as suas obras é que passo a
conhecê-los.»
«E tem por hábito falar com pessoas que não
conhece?»
«Para lhe ser franco não é meu hábito.
«Mas fê-lo agora.»
«Apetecia-me tomar um café e, não havendo mesas…»
«Recorda-se de mim?» Perguntou Elisabete.
«Para lhe ser franco, tenho a impressão de a ter
visto, mas não recordo onde.»
«Há já uns meses, quando foi ao meu escritório, olhou-me
tão intensamente que corei.»
«Agora estou recordado Elisabete. Fui pedir um
financiamento para a fábrica. Não me avalie mal, não esperava ver uma ninfa
naquele escritório.»
«Nunca mais lá voltou. Já lá vão… uns três meses
talvez.»
«Primeiro, o assunto ficou resolvido com o seu
diretor, segundo tive medo.»
«Medo de quê?»
«De mim, de si, não sei...»
«Meto medo, Fernando?»
«A Elisabete é uma mulher deslumbrante que empolga
qualquer homem, além de tudo nem sei se tem noivo…»
«Sou livre. E você?» Indagou sorrindo Elisabete.
«Nunca soube o que era o amor. A arte de amar não é
comigo.»
«Leu esse livro!?» Admirou-se Elisabete.
«Que livro?»
«”A arte de amar”, de Ovídio.»
«Nunca ouvi falar do livro nem conheço o autor.
Falei disso por brincadeira.»
«Eu também não o li nem penso lê-lo, se é que
existe atualmente. Trata-se de um escritor e poeta romano, nascido um ou dois
anos aC. Pitigrilli, fazia referência a ele no seu livro “A virgem de 18
quilates”...»
«Leu Pitigrilli? Curioso, também li alguns dos seus
livros há muitos anos atrás, mas esse não. Tenho uma vaga ideia de “A cocaína”
e “A decadência do paradoxo» interrompeu Fernando e continuou «não é um
escritor que agrade muito ao sexo feminino. Era um escritor contestatário
recordo uma frase num dos seus livros, “todas
as mulheres são prostitutas, menos a minha mãe”.»
«Também não o apreciei muito, li-o na minha
adolescência pensando tratar-se de um romance de amor.» Disse Elisabete.
«Tudo isto veio a propósito de…»
«A arte de amar, de Ovídio.» Lembrou Elisabete.
«Ah, sim. A verdade é que o amor não é uma arte,
não se aprende. O amor é um sentimento que predispõe a desejar o bem de alguém.
Nasce e perdura muitas vezes até o amador morrer. Um afeto tal, que por vezes
dói e que, logo à despedida do ser amado, mesmo que por pouco tempo, as
saudades começam, e o desejo da sua presença é muito forte ou como dizia
Camões, amor é um fogo que
arde sem se ver…»
Elisabete olhou-o embevecida e suspirou «que romântico.»
«A Elisabete é a minha musa.»
«Tolo.»
Fernando encarou-a com doçura. Parecia uma colegial
brincando com um pacotinho de açúcar enquanto falava.
Disfarçadamente tocou-lhe num dedo. Ela sorriu.
Pegou-lhe na mão. Ela deixou. Segurou-lhe as duas mãos e declarou: «a Elisabete
é uma mulher maravilhosa. Ficaria aqui a tarde toda a contempla-la.»
Inesperadamente Elisabete olhou o relógio e disse:
«Quase oito horas.»
«O tempo passou tão depressa,» declarou Fernando e
continuou «são quase horas de jantar. Tem alguém à espera?»
«Hum, não.»
«Dê-me o prazer da sua companhia. Ia jantar
sozinho…»
«Agora sou eu que tenho medo Fernando»
«De mim.»
«Não. De mim.»
Jantaram num restaurante da avenida da Liberdade.
Um jantar que durou mais de duas horas, entre risos, olhares meigos e declarações
ternurentas como dois adolescentes enamorados.
«Não me convidas a subir para tomar um café?»
Afoitou-se Fernando.
«Com uma condição.» Impôs Elisabete.
«Qual?»
«A de te portares bem.»
«Prometo.»
Sete horas da manhã. Elisabete levanta-se,
arranja-se, coloca um avental e dirigisse-se para a cozinha. Prepara ovos
mexidos com bacon, sumo de laranja, bolachas, leite e café. Põe tudo numa
bandeja e dirige-se ao quarto.
«Fernando, acorda! Serviço de quartos. São horas de
ir trabalhar.»
Fernando olha espantado e pergunta: «estou no céu? O
meu anjo já está pronto?»
«São oito e meia, eu não sou patroa como tu. Arranja-te,
sai e fecha a porta, eu entro às nove.»
Elisabete deu-lhe um beijo de despedida com um até logo.
Fernando ainda teve tempo de perguntar: «portei-me bem?»
«Sim e quero que te portes sempre assim.»
Seis meses depois.
Fernando sai do escritório, compra um ramo de rosas
e vai buscar a sua amada Elisabete.
«Para quem são aquelas rosas ali no banco de trás?»
Pergunta Elisabete já dentro do automóvel de Fernando.
«São para comemorar o nascimento.»
«!? Que nascimento!?» Pergunta Elisabete muito espantada.
«O nascimento do amor. Faz hoje seis meses que ele nasceu,
no café A Brasileira.»