domingo, 26 de maio de 2013

Água Mole em Pedra Dura...

 
          Muitas vezes indagamos como é possível um casal, sem motivo aparente, acabar com um casamento ao fim de 18 anos de felicidade conjugal. Há sempre um motivo, tudo dependendo desse motivo ser forte ou insignificante. Para um dos cônjuges é insignificante, mas para o outro é deveras grave, sem perdão. Foi o que aconteceu entre Ezequiel e Alzira, ele com 40, ela com 38, casados há 18 anos com um filho de 14.
          Ezequiel trabalhava num escritório de representações. A sua secretária, uma jovem de 25 anos, assediava Ezequiel de uma forma descarada e persistente. Era uma interessante mulher e Ezequiel ia conseguindo disfarçar o seu desejo de a possuir. Amava a sua mulher e não pretendia pôr em causa um casamento feliz por uma aventura momentânea. Pensou mesmo em despedi-la, mas Julieta, a sua secretária, fazia-lhe falta. Era uma empregada muito competente.
          Numa noite de muito trabalho, tendo necessidade de ficar até mais tarde no escritório, Julieta prontificou-se a ajudá-lo.
         Seriam cerca das 8 da noite e Ezequiel telefonou à mulher para não esperar por ele para jantar, iria comer qualquer coisa e voltaria para o escritório. Era verdade, só não esperava que naquela noite aquilo que ele tanto temia iria acontecer. Nessa noite não resistiu e, mesmo no escritório, entregou-se nos braços da sua empregada.
          Alzira preparou o jantar para si e para o seu filho Pedro. Depois de tudo arrumado deitou o filho e disse-lhe: «a mãe vai levar um petisco ao escritório do pai, mas não se demora.» Deu-lhe um beijo e saiu. Chegou ao escritório do marido seriam perto das 11 horas. Tocou, mas ninguém atendeu. Estranhou, voltou a tocar. Nada. Pegou no telemóvel e ligou-lhe.
          «Onde estás?»
          «No escritório-» Respondeu o marido.
          «Porque não abres a porta?»
          «Ah, eras tu que estavas a tocar?» Perguntou o marido com perturbação mal contida. «Abro já.»
          À Alzira pareceu-lhe uma eternidade o tempo que demorou a concretizar o “abro já”. Finalmente o ruído elétrico do trinco da porta fez-se ouvir. Subiu quase a correr a escadaria que a levava ao primeiro andar do escritório. A porta do escritório estava entreaberta e espreitando por ela estava o marido.
          «Olá.» Disse ele com um sorriso forçado.
          «Não abres a porta para eu entrar?»
         «Desculpa» disse, abrindo a porta e afastando-se para lhe dar entrada «que surpresa.» Concluiu.
          Alzira olhou em volta num rápido olhar. Já lá tinha estado mas agora parecia-lhe mais pequeno. Uma mesa de reuniões, uma secretária com papelada e um computador, duas prateleiras com livros e arquivos e pouco mais. Ao fundo uma casa de banho e era tudo. Ezequiel parecia um autómato, em pé, sem saber se se deveria sentar ou manter-se de pé.
          «Senta-te e continua o trabalho.» Disse ela com uma voz imperativa.
          Atabalhoadamente sentou-se. Não sabia se deveria teclar no computador se mexer na papelada.
          «Estás nervoso Ezequiel?»
         «Oh, n… não.» Tentando acalmar-se perguntou: «a que devo a honra desta visita?»           
          Com uma voz cheia de azedume debruçou-se sobre a secretária e aproximando a cara do corpo do marido, fungando como se estivesse e inalar um odor horrível disse num tom calmo, baixo, mas não tão baixo que não pudesse ser ouvido na casa de banho.
          «Cheiras mal. Cheira à rameira que está ali.» Disse isso apontando com o olhar para a casa de banho que, de porta entreaberta, embora de luz apagada, ela adivinhava estar lá. Atirou-lhe o embrulho do petisco que fizera e, com o mesmo azedume de voz acrescentou: «depois disso deves estar com fome.»
          Deu meia volta e dirigiu-se para a saída. Prontamente Ezequiel levanta-se e, ato simultâneo, ela para, volta-se para ele e com a mão como um sinaleiro a mandar para o trânsito disse: «Conheço a saída, mas vou-me esquecer da entrada.»
          Desceu as escadas a correr. As lágrimas rolaram-lhe pela face. Correu para o carro. Acelerou como uma louca dando murros no volante. As lágrimas eram tantas que deixou de ver a estrada. Acalma-te, tem cuidado, para um pouco e limpa os olhos. Lembra-te que tens um filho. Obedeceu à consciência e parou e chorou mais. Tinha de chegar depressa a casa antes do marido. Acalmou-se um pouco, tentado recordar os momentos felizes que passara com o filho.
          Chegou a casa e sem ruído para evitar acordar o filho pegou numa pequena mala, depositou algumas peças de roupa e artigos de higiene e deixou um bilhete ao marido. Dirigiu-se ao quarto de Pedrito e deu-lhe um suave beijo. Saiu.
          Ezequiel está colérico, grita com a sua empregada para se despachar. Julieta vermelha de vergonha, não sabe o que dizer nem fazer.
          «Despacha-te, espero-te lá em baixo.» Diz Ezequiel e sem mais conversas, desce para a rua. Aí, telefona a chamar um táxi. Como Julieta se demorava um pouco e o táxi tinha chegado, preparava-se para tocar à campainha quando Julieta ainda rubra chega.
          «Tens dinheiro para o táxi?» Indagou Ezequiel.
          Julieta apenas respondeu sim, dirigindo-se para o táxi, mas sem antes tentar receber um beijo de Ezequiel sem o conseguir.
            Ezequiel meteu-se no seu automóvel. Apetecia-lhe ir para um bar e embebedar-se, mas pensou melhor e dirigiu-se para casa. Iria rogar de joelhos o seu perdão.
           «Que estúpido fui, como consegui atraiçoar a minha amada mulher?» Pensava Ezequiel pelo caminho. Não esperava que ela lhe perdoasse hoje, mas talvez amanhã ou depois as coisas se recomporiam.
          Entra sem ruído esperando encontrar a sua mulher num pranto no seu quarto. Não a encontrou em casa. O seu filho dormia. Deu-lhe um beijo e quando se preparava para lhe telefonar reparou numa folha de papel com algumas linhas manuscritas.
          Não me telefones. Amanhã ou depois eu entro em contacto contigo a fim de resolver o futuro do nosso filho. Não tentes sequer telefonar de um outro telefone, porque mal oiça a tua voz desligar-te-ei o telefona na cara.
         Ezequiel sentou-se na mesa da cozinha. Não lhe apetecia ir dormir. Conhecia bem a mulher e sabia que não valeria a pena telefonar-lhe. Provavelmente tinha ido para casa da mãe. Levantou-se e rebuscou os armários. Não deu por falta da roupa dela. Se levara algo tinha sido muito pouco. Foi para a sala e aí ficou, não sabe quanto tempo. Não conseguia raciocinar, não sabia o que deveria fazer. Olhou o relógio, três da manhã e ela sem dar notícias. Resolveu ir deitar-se, teria de se levantar cedo para levar o filho à escola. O amanhã viria e logo resolveria ou não o seu problema. Foi então que, na casa de banho, deu por falta dos produtos de higiene de Alzira. Não havia dúvida, tinha ido para casa da mãe. Deitou-se. Cinco da manhã. O sono não vinha. À cabeça vinha-lhe tudo menos a solução para o seu comportamento com aquela lambisgoia da Julieta. Levantou-se e bebeu um copo de água. Voltou a deitar-se. Sete da manhã sem conseguir pregar olho. Levantou-se, arranjou-se, preparou o pequeno-almoço para si e para o filho.
          «Olá papá, bom dia. A mamã já se levantou?»
          «Já sim, filho. Já saiu para o trabalho. Eu levo-te à escola.»
          Que irei dizer ao meu filho logo à noite? Como reagirá ele quando souber que a mãe tinha saído de casa não se sabe por quanto tempo nem mesmo se voltaria? Como acontecera isto? Como fora possível a sua secretária conseguir aquilo que há tanto ensaiara? Como tinha sido tão parvo em consentir que ela lhe fizesse companhia sozinha e à noite? Caíra que nem um patinho. Era de prever que isso iria acontecer. Mas, a culpa é pura e simplesmente minha. Seria que eu já preveria tal desfecho e inconscientemente o preparara?
          «Pai! Pai! Olha as horas. Estavas a dormir?»
          Ezequiel olha para o filho. Estava a sonhar acordado nem reparando que o filho já há muito estava à porta à sua espera.
          «Estava a pensar no trabalho, filho.» Mentiu Ezequiel.
          Trim trim, trim trim. «Senhor Ezequiel, olhe o telefone.» Grita Julieta para o patrão. Ezequiel tão apático estava que nem o ouvia. Olhou o mostrador. Era a sua mulher, a sua queria Alzira. Levantou-se e foi para a varanda atender.
          «Olá querida.»
          «Cala-te e ouve. Esta semana vais levar e buscar o Pedrinho à escola. Prepara-lhe o jantar e deita-o. Entretanto vou passar lá por casa para recolher a minha roupa. Estou em casa da minha mãe. Não te atrevas a telefonar-lhe»
          «Mas» ia Ezequiel interromper,
          «Já te disse, ouve e cala-te» interrompeu a mulher e continuou «na próxima semana eu vou buscá-lo para passar comigo. Eu telefone-te. Tchau.» E desligou o telefone.
          Não restavam dúvidas, Alzira estava encolerizada com ele. Iria ser difícil a reconciliação. Faria tudo para conseguir recuperar o seu amor. Despedir a sua secretária com uma indemnização seria a primeira coisa a fazer e depois se veria. Pensou Ezequiel.
           «Pai, a mãe não vem jantar?» Perguntou o petiz, vendo que o pai preparava a mesa para o jantar apenas para os dois.
          «Não, filho. A mamã está em casa da avó. Está zangada com o pai.»
          «Porquê? O que fizeste para a mãezinha se zangar?»
          «A mamã pensa que o pai anda com outra mulher.»
            «E andas?»
          «Claro que não.»
          «Então porque não a convences?»
          «Terei de esperar uns dias para a mamã se acalmar.»
            As conversas diárias entre pai e filho abordavam sempre o mesmo tema. Ezequiel não conseguia convencer seu filho dos motivos que levam um casal a uma separação. Sentia-se culpado, mas não ao ponto da atitude tomada pela sua mulher. Se fosse o contrário? Se a mulher o tivesse atraiçoado aceitaria o facto ou reagiria da mesma forma?
         «Pai, tenho saudades da mãe. Quando é que ela volta? Porque não a vais buscar?»
          «A mãe vem buscar-te na próxima segunda-feira para passares uma semana com ela» e continuando «tens falado com ela pelo telefone?»
         «Tenho sim pai.»
          «Quando voltares a falar-lhe diz-lhe que gosto muito dela. Pede-lhe para voltar para casa.»
         «Já o fiz pai, mas ela disse que não te quer ver mais. Tens de ser tu a convencê-la.»
          «Tens razão filho, mas tenho de lhe dar mais uns dias para ela arrefecer as ideias.»
         «Pai. É verdade que andaste com a Julieta?»
         «Não meu querido. Não andei nem ando com ela. Apenas lhe dei um beijo e a tua mãe descobriu. Já a despedi. Já não trabalha com o pai.»
         «Porque lhe deste um beijo? Gostavas dela?»
         «Não, não gostava, aconteceu.»
         «Então porque a beijaste?»
           «Ela pediu-mo…»
         «Pai, mas quem paga sou eu, vejo-me privado da companhia de ambos.»
         Era doloroso ver que o filho tinha razão. A culpa era dele, só dele. O filho estava a sofrer com aquela separação, mas era difícil, pelo menos nos dias mais próximos, abordar a mulher e convencê-la a dar-lhe o perdão.
         Pedrinho não desistia em abordar tanto o pai como a mãe para uma reconciliação conjugal. Estava na semana de passar em casa da avó e mãe, e as conversas eram as mesmas:
         «Mãe, o pai gosta muito de ti. Quer que voltes para casa.»
           «O pai foi mau para a mãe. Terá de ser castigado.»
          «E quem paga sou eu?»
          «Tu não tens culpa de nada, filho.»
         «Mas, mãe, não quero estar uns dias contigo e outros com o pai. Quero estar sempre com os dois.»
         Tinham passados 30 dias e Pedrito via-se umas vezes em casa da avó, outras em casa do pai. Tinha de resolver ele próprio aquilo que os pais não conseguiam. Não era possível que os pais continuassem zangados. Sabia que ambos gostavam um do outro e que o pai estava arrependido do que fizera. A mãe teria de lhe perdoar. Iria fazer tudo para o conseguir.
          O telefone de Ezequiel toca e este repara que do outro lado estava o filho.
          «Sim Pedrito, que se passa?»
          «Podes vir buscar-me à escola, pai?»
          «Posso, mas a mãe não te vai buscar?»
          «A mãe não pode, pediu para eu te telefonar.»
            «Está bem. Até logo.»
          Estranho, pensou Ezequiel, a Alzira deveria ter-me telefonado. Vou-lhe telefonar. E telefonou. Resultado: chamada recusada. Bom vou busca-lo.
           Pedrito olha o relógio do seu telemóvel. Escondido atrás da janela da escola aguarda a chegada dos pais. Queria ver a reação de ambos quando chegassem para o ir buscar. Vê a mãe à entrada e logo a seguir chega o pai. O pai aproxima-se da mãe e parecem discutir durante uns segundos. A mãe distancia-se do pai um bom par de metros. Ficam especados à espera do filho. Resolutamente Pedrito sai da escola e dirige-se à mãe.
           «Olá mãe.» E olhando o pai, «olá pai.»
         «Porque telefonaste ao pai, Pedrito?»
         «Tinha saudades dele, mãe.»
         «Não voltes a fazer isso Pedrito.» Disse a mãe e logo de seguida «despacha-te que temos de ir comprar as sapatilhas que me pediste.»
          «O pai podia ir connosco para me ajudar a escolhê-los?»
          «O pai não pode ir, tem muito que fazer lá no escritório.» Declarou a mãe pegando na mão do filho arrastando-o para o carro a fim de evitar mais conversas.
          Pedrito não desistia assim tão facilmente. Teria de arranjar outra forma de juntar os pais. Faria tudo que estivesse ao seu alcance, mesmo preparando-se para que um ou outro lhe dessem um raspanete. Do pai talvez não, mas da mãe… não importava. Arriscaria.
          «Olá mãe» disse o filho logo que a mãe atendeu o telefone «a escola ofereceu-me dois bilhetes para o cinema aqui ao lado. Queres vir comigo?»
          «Está bem Pedrito. Vou ter contigo à escola.»
          «Não vale a pena vires à escola, mãe. Eu deixo o teu bilhete na bilheteira. Vou estudar com o meu colega aqui e fazer horas para o cinema.»
          «Como queiras. Um beijinho, até logo.»
            Logo de seguida Pedrito liga para o pai com a mesma conversa.
          «Não vale a pena vires aqui à escola pai, deixo-te o bilhete na bilheteira.»
          Pedrito tinha recebido três bilhetes, oferta da escola. Iria juntar os pais dentro da sala do cinema. Escolheu o seu se forma a ficar ao lado do pai e, assim juntava a mãe e o pai.
           Já sentado no seu lugar no cinema, tendo chegado momentos antes do início, Pedrito aguardava a chegada dos pais. Sabia que os pais não discutiam e muito menos em público. Só esperaria que a mãe não se levantasse e saísse antes do filme começar.
          «Olá pai» disse baixinho Pedrito à chegada deste e continuou «a mãe também vem. Esse lugar é para ela.»
            Ezequiel olha espantado para o filho e pergunta: «A mãe sabe que eu venho?»
           «Não sei, eu não lhe disse.»
          «A mãe ainda se zanga contigo por não lhe teres dito.» Disse o pai, mas interiormente satisfeito perante a atitude do filho. Entretanto a mãe chega segundos depois das luzes se terem apagado. Só momentos depois repara no marido. Olha o filho mostrando-se zangada.
           «Troca comigo de lugar para ficares entre nós os dois.» Disse Alzira para seu filho.
           «Nesse lugar não vejo tão bem como aqui. Esse senhor à frente é muito alto.» Respondeu Pedrito muito baixinho.
          Durante todo o filme Pedrito não tirava os olhos dos pais. O pai olhava para a mãe, mas esta ignorava-o. Ao intervalo a mãe abordou o filho dizendo-lhe que a deveria ter avisado da presença do pai.
           «Se o fizesse a mãe provavelmente não viria e eu queria vê-los juntos.»
           «Eu não quero estar com o pai, sabes bem disso.»
           «Ó mãe, não sejas má para mim. Tenho saudades de vos ver juntos.»
          Mais uma tentativa de Pedrito não lograda. Que poderia ele fazer mais? Não desistiria.
 
          Três meses decorridos após as desavenças dos pais, Pedrito magicava num novo encontro a três. Teria de ser prudente a fim de não despertar suspeitas. Estava prestes a completar o seu 15-º aniversário. A data seria ótima para os unir num jantar, mas como? Com o pai não havia problema, já reparara que ele até gostava, mas o pior era a mãe.
           «Mãe. Na próxima semana faço anos, podíamos ir jantar àquele restaurante onde servem aqueles bifes de que eu gostei muito.»
           «Depois veremos Pedrito.»
           Dias depois telefona ao pai. «Pai, na quarta-feira faço anos, vem jantar comigo ao restaurante dos bifes.»
           «A tua mãe vai?»
           «Ó pai, vai lá ter e logo verás.»
           Ezequiel nem protestou. Tinha a certeza de que Alzira lá estaria, mas também não se importaria, muito pelo contrário.
            A quarta-feira chegou e com ela o aniversário de Pedrito. A mãe, tal como prometera no dia anterior, foi buscar o filho à escola, deram uma volta pela baixa e aproveitaram para umas compras fazendo assim horas para o jantar.
           «A que horas vamos jantar, mãe?»
           «Estás com fome? Ainda é cedo. Jantamos às 8.»
           Estavam dentro de um centro comercial e Pedrito pediu à mãe para ir à casa de banho. Uma vez sozinho enviou uma mensagem ao pai a informá-lo da hora de jantar.
           Mãe e filho entram no restaurante e pedem uma mesa para dois. Poucos minutos depois entra o pai.
           «Mãe. Olha o pai…» disse Pedrito fingindo-se admirado e grita. «Pai, estamos aqui.»
           A mãe olha para o marido e em simultâneo para o filho. Não sabe o que fazer. Fica perplexa. O marido aproxima-se e o filho convida-o a sentar-se. A mãe boquiaberta nada diz. Ezequiel pede licença e Alzira encolhe os ombros. O marido senta-se.
           «Pedrito convidou-me, se não te importas jantamos os três uma vez que é esse o seu desejo.»
          «Este nosso filho é demais. Já o avisei várias vezes e ele continua a teimar em juntar-te a mim.»
           «Querida, não me castigaste já o suficiente?»
             «Mãezinha, o pai gosta de ti. Devias perdoá-lo. Ele até despediu a sua secretária…»
           «E eu despedi-o a ele.» Disse Alzira, virando-se para o filho.
           «Não o podes despedir mãe, ele é o meu pai» e continuou «além disso faço anos hoje e deveria ser eu a convidar quem quisesse.»
           Ezequiel passou a mão pela cabecita do petiz e olhou a mulher com ternura.
           «Esta é minha melhor prenda de anos, mãezinha. É tão bom ter os dois ao pé de mim…»
           Alzira sorriu para o filho e disse-lhe: «está bem, por hoje perdoo-te, mas promete que não voltas a fazer convites sem me avisar, está bem?»
          «Sim mãe.»
           O jantar decorria em silêncio, apenas o tagarela do petiz teimava em manter uma conversação entre pai e mãe.
           «Estás contente mãe?»
           «Estou sim filho.»
           «E tu, pai?»
           «Claro que sim. Ao pé de vocês estou sempre contente.»
           «Ó mãe… quando é que voltas para casa? Era tão bom que voltasses. Seria o dia mais feliz da minha vida.» Alzira compreendia o filho. Custava-lhe aquela situação, mas não perdoara ainda a tirania do marido.
           «Querido. És muito novo ainda para te aperceberes de quanto custa uma humilhação.»
           «Mas mãe, quem sofre sou eu. Não posso continuar a viver uns dias contigo outros com o pai. Não tenho culpa do que fazem os adultos.»
           «Tens razão filho», apoiou o pai e continuou «a mãe está zangada com o pai e não é fácil perdoar o que fiz, embora eu esteja arrependido.» Disse isto olhando a sua esposa como que a pedir-lhe desculpa.
          «Mas a mãe é boa e perdoa, não perdoa mãe?»
           Alzira olha o filho com ternura. Faz-lhe uma carícia, mas não responde à sua pergunta.
          «A mãe vai pensar no assunto e depois diz-te.» Responde o pai pela mãe.
          «Olha mãe. Na próxima semana é a festa de Natal na escola, gostava que o pai e a mãe estivessem presentes. Prometem-me que vão os dois?» O pai sorriu e a mãe disse que ela iria.
          «E tu, pai? Também vais.»
          «Vou sim filho.» Respondeu o pai olhando Alzira com um sorriso.
            Pela primeira vez após a malfadada noite de traição, Ezequiel vislumbrou um ligeiro sorriso na mulher. Pedrito reparou, nem lhe podia ter passado despercebido dado nunca tirava os olhos de ambos. O jantar terminou e Ezequiel perguntou se Alzira queria que os levasse a casa.
          «Não obrigada, trouxe o carro.»
            Despediram-se. Ezequiel estava radiante. Alzira parecia-lhe menos distante e tudo graças ao seu querido filho.
          O dia da festa na escola chegou e novamente os pais se juntaram. Pedrito conduziu-os a um lugar marcado. Olharam em volta. O seu filho tinha-lhes reservado um ótimo lugar onde poderiam apreciar em pormenor todas as atividades do filho. Não tiraram os olhos do filho durante toda a sua representação, ginástica e outros atividades realizadas. Por seu lado o filho fazia o mesmo de tal forma que muitas vezes a distração fazia-o errar num ou noutro momento. Duas horas depois o filho junta-se aos pais.
          «Gostaram paizinhos?»
          «Gostámos muito.»
          «Ó mãe, hoje gostei muito de te ver. Estavas sorridente, parecias muito feliz. Ficas tão bonita assim…»
          Alzira sorriu para o filho apertando-o contra si. Virou a cara para que este não lhe visse uma fortuita lágrima a querer saltar dos olhos.
           Decorreram quase cinco meses e Ezequiel por duas vezes tentou telefonar à sua mulher sem resultado. Ela desligava-lhe o telefone. Apenas trocavam umas escassas palavras quando ia buscar o filho na semana que lhe era destinada e nos poucos momentos que Pedrito os juntava. O castigo infringido por sua mulher começava a ser demasiado doloroso. Os e-mails que lhe enviava ficavam sem resposta. Não sabia tão-pouco se ela os lia, e-mails, carregados de carinho e perdões. Amava bastante Alzira não a querendo perder. A noite de Natal aproximava-se e a dúvida sobre onde a passaria e como. Nessa semana o filho passaria com a mãe. Mas e ele? Iria passá-la sozinho? Pegou no telefone para telefonar à mulher, mas ei-la a ligar-lhe.
           «Olá querida.»
           «Olá Ezequiel. O Pedrito fez uma fita tremenda, quer passar a noite de Natal em “nossa casa”, diz que é a melhor prenda que lhe poderemos dar. Que me dizes? Onde pensavas ir passar a noite de Natal?»
           «Desde que passasse contigo e o nosso filho, qualquer lado me serviria.»
           «Bem, a minha mãe vai passar connosco aí, e prepara a ceia. Achas bem?»
           «Claro que sim. Sabes bem que adoro a tua mãe. Será também para mim uma prenda muito valiosa ter a família junta.»
           «Está bem. Aí estaremos no dia 24. Um beijo.» E desligou o telefone.
            Ezequiel estava radiante. Ao fim de 5 meses a sua mulher tinha-lhe mandado um beijo. Os dois dias que antecediam a noite de Natal iriam ser muito longos. Seria finalmente a reconciliação ou voltariam ao mesmo após aquela noite? Mais dois dias de sofrimento e de esperança. Agradecia a Deus por lhe ter dado um filho que tudo fizera para os juntar. Amava-o muito. Era um garoto meigo, terno, inteligente e estudioso. Eram uma família feliz, apenas perturbada por uma insensatez acidental.
          Ezequiel chega a casa naquela tarde de 24. O seu filho corre a abraçá-lo. Pega-lhe na mão e leva-o à sala e mostra-lhe a árvore de Natal.
          «Fui eu que a montei, pai.»
          «Que bonita está.» Disse o pai com toda a sinceridade e continuou «a mãe?» Sem largar a mão do pai e com um sorriso de grande felicidade corre para a cozinha onde mãe e avó, de avental, preparavam a consoada. A sua sogra com um sorriso beija o genro e sua esposa olha-o com um sorriso beija-o também. O filho olhava-os com ternura metendo-se entre ambos a dando uma mão a cada.
          «Que bom, estamos novamente cá em casa, juntos, com os meus queridos pais, não achas paizinho? Não achas mãezinha?» Os olhos do petiz irradiavam felicidade. Pai e mãe abraçaram o filho, a sogra sorria.
          O jantar decorreu animado, o filho olhava o pai, olhava a mãe, sorria feliz. Por duas vezes se levantou da mesa para beijar os pais.
          «Ó vovó. Eu também gosto muito de ti, mas hoje a noite é dos meus pais.»
          «Eu sei, meu querido.» Disse-lhe a avó, afagando-lhe a cabeça.
            Perto da meia-noite Pedrito grita:
         «Está na hora de abrir as prendas.» Disse correndo para a árvore de Natal e trazendo três pacotinhos que distribuiu pelos pais e avó.
          «Vai abrir as tuas, Pedrito.» Disse a mãe enquanto abria o pacotinho do filho.
          Alzira levanta-se e dirige-se ao quarto. Trás uma mão cheias de papéis e diz para o marido: «estes são os e-mails, que me enviaste. Desculpa não te ter respondido nunca, mas vou fazê-lo agora.»
          Agarra-se ao marido e beija-o com ternura. «Agora vais ter de me amar muito mais.»
           Pedrito chora de alegria agarrado à avó que chora também.
           Entre soluços e sorrisos Pedrito corre para os pais agarra-os com força e diz: «Este foi o presente que pedi ao Menino Jesus.