quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Loiras, mas Não Burras.


            Estava em vésperas de completar o seu 60.º aniversário, mas continuava convencido da sua jovialidade. Casara tarde, com jovens com metade da sua idade, e pela segunda vez se divorciara. Olhava-se ao espelho e convencia-se que ainda tinha 30. Edmundo, assim se chamava, era bem constituído e vestia com gosto. Tinha uma boa colocação na empresa onde exercia cargo de direção. Era fã do Facebook e, sempre que via uma jovem bonita, enviava-lhe um pedido de amizade. Por este motivo não se admirou de, desta vez, ter sido ele a receber um pedido de amizade de uma bonita e escultural loira. Era sueca, jovem de 22 anos ainda na universidade. Com grande entusiasmo a aceitou de imediato. Com o seu desaforo obteve dias depois o seu contacto via Skype e rara era a semana que não falava em videoconferência com a sua nova amiga Annika Bergman. Era uma garota meiga e culta, com o seu inglês oxfordiano. Edmundo andava eufórico com a sua nova conquista.
            A três mil e quinhentos quilómetros de Lisboa, nos arredores de Norrkoping, Suécia, vivia a família Bergman, duas irmãs e mãe. A mais nova e mais extrovertida Annika, divertia-se à noite, no Facebook, a falar com amigos. A sua irmã mais velha, Therese, de 28 anos, admoestava-a constantemente.
            «Ainda arranjas algum sarilho com essas tuas brincadeiras».
            «Não faço nada de mal. Apenas converso com os meus amigos.»
            «Já tratas por querido, amor, a esse teu português…»
            «Ele é que começou. Além disso não vejo mal nenhum nisso.»

            Os contactos começaram a ser mais frequentes, quase diários.
           Uma certa noite em que estavam ligados em videoconferência, Annika pressentindo a entrada da irmã e vendo-a sentar-se ao fundo da sala, discretamente roda o computador de forma a que a irmã fosse captada pela câmara.
            «Quem é que está aí contigo?»
            «É a minha irmã Therese de quem te falei.»
            «Apresenta-ma.» Rogou Edmundo.
            «Olha que eu sou ciumenta.» Declarou Annika.
            «Não sejas tontinha, Ann, já me falaste tando dela que queria apenas cumprimentá-la.» Sugeriu Edmundo.
            «THERESE.» Gritou Annika dirigindo-se à irmã. «Chega aqui, quero apresentar-te o meu amigo Edmundo.»
            Lentamente, mostrando pouco interesse nessa apresentação e, para além do mais, já o tinha espreitado sem ser notada, aproxima-se da câmara.
            «Olá Edmundo, sou a Therese.»
            «É um prazer conhecer-te. És muito mais bonita do que aparentas em fotografia, embora a tua irmã te tenha elogiado imenso.» Declara Edmundo com sinceridade.
            «Então andas a enviar as minhas fotos ao teu amigo?» Admoesta Therese, virando-se para a irmã.
            «Não, mana. Apenas lhe enviei aquela onde estamos ambas junto ao lago.» Desculpa-se Annika.
            Therese despede-se com um sorrido de Edmundo, regressando ao lugar de onde saíra segundos antes.

            À mesa de um restaurante, Edmundo e um colega de trabalho, conversavam.
            «Podes crer. É muito mais bonita que a Annika. Tenho pena de a não ter conhecido antes. É mais velha que a irmã, tem 28 anos, agora é tarde, Annika parece gostar de mim e poderia estragar tudo. Temos de combinar um destes dias passar no escritório depois de jantar e eu entro em contacto com elas e apresento-ta.»

            Therese comentava com a irmã a forma engenhosa como ela planeara a apresentação do Edmundo-
            «Vais ver que um destes dias ele vai entrar em contacto comigo e trazer um amigo» informa Annika e continua: «vou convidá-los a virem à Suécia.»
            «E se eles aceitam? Que fazes?»
            «Delete. E acabou a brincadeira.» Informa Annika.
            «E se, mesmo assim, eles aparecem por cá?»
            «Julgas que sou burra? A morada que lhe dei, foi a de Estocolmo, Birger Jarlsgatan, uma morada que tirei da Internet. Não é em milhão e meio de habitantes que nos vão encontrar. Para além disso estamos a mais de 150 quilómetros de Estocolmo.» Anota Annika.

            Três dias após a conversa dos amigos Edmundo e Horácio naquele jantar, juntam-se no escritório, ligam-se à Internet e entram em contacto com as suecas.
            «Olá amorzinho. Já tinha saudades tuas.» Declara Edmundo logo que Annika atende.
            «És mau para mim, Edmundo. Há três dias que não me contactas. Pensei que me tivesses esquecido.» Choraminga Annika.
            «Amor, tenho saído tarde do escritório…» desculpa-se Edmundo.
            «Não voltes a estar ausente tanto tempo, querido. Já estou habituada aos teus mimos e não adormeço sem eles.» Volta a chorar Annika.
            Ao lado de Edmundo, Horácio acredita na sinceridade de Annika e não deixa de gesticular e gabar a beleza dela.
            «A Therese está aí? Tenho aqui um amigo que a quer conhecer.» Exclama Edmundo.
            «THERESE!» Grita Annika voltando-se para trás concluindo: «está aqui um amigo do Edmundo que te quer conhecer.»

            Horácio, homem da idade do amigo, estava louco com tamanha beldade.
            «Temos de ir a Estocolmo. São mesmo giras as garotas. Aquilo não será demais para nós?»
            «Qual quê. Elas adoram os latinos. A Annika não gosta de miúdos, gosta mais de homens feitos. Ela própria mo disse.»

            O verão aproximava-se. Julho começara quente e as férias chegavam. Horácio lamentava o facto de Therese não ser adepta das redes sociais nem gostar de computadores. Bastava-lhe o dia inteiro agarrada a um. As poucas vezes que conseguia falar com ela era quando o amigo se reunia com ele no escritório. Therese não era tão meiga como Annika, mas o seu sorriso dizia tudo. Parecia ter simpatizado com ele. Se Edmundo não for a Estocolmo, vou eu, pensava Horácio. Aquela mulher dera-lhe volta à cabeça.

           Edmundo continuava a falar diariamente com a sua nova paixoneta e, quando naquela noite Annika o convida a ir a Estocolmo, fica radiante.
            «Vêm cá, amor e traz o teu amigo. Há aqui perto de minha casa um hotel muito bom e não é caro.»
            Edmundo prometeu falar com o amigo e combinarem a melhor altura para a viagem. Passou o dia a pensar no assunto e à noite telefonou ao amigo.
            «Não estava à espera do convite, apanhou-me de surpresa.» Disse Edmundo.
            «Devias ter dito logo que sim. Estou desejoso de estar junto delas.» Respondeu Horácio.
            «Repara numa coisa, Horácio. Elas convidam-nos para dormirmos num hotel, não em casa delas. Provavelmente porque vivem com a mãe e pelo que sei vivem num pequeno apartamento. Será que vão ter connosco ao hotel? Duvido. E num hotel próximo de casa delas, não é muito aconselhável. Não crês melhor serem elas a virem a Lisboa?»
            «Se conseguires isso, melhor. Será que têm dinheiro para a viagem?»
            «Poderemos oferecer-lhes as passagens. Que dizes?»
            «Por mim, tudo bem. Poupamos a estada no hotel. Fica-nos mais económico.»

            No dia seguinte Edmundo entra em contacto com a sua amada.
            «Querida, estive a pensar se não seria melhor virem vocês a Lisboa e, como não conhecem, terão dois cicerones à vossa disposição.»
            «As viagens são caras, mais de 400 euros e nesta altura não podemos.» Retorque pesarosa Annika.
            «Se tu e tua irmã não se importarem, teremos muito gosto em oferecer-vos as passagens.»
            «Oh amorzinho, és tão bom para mim. Eu já te ligo vou falar com a minha irmã.»           
            Não passaram 5 minutos e Annika entra em contacto com Edmundo.
            «Já combinei tudo com Therese. Ela agradece muito, estávamos ansiosas de conhecer Lisboa e a tua oferta veio mesmo coincidir com os nossos desejos.»
            «Em que altura querem vir?»
            «Poderíamos ir na segunda semana de agosto, mas apenas ficaremos 8 dias.»
            «Está bem. Vou à agência marcar, e pagar claro, os voos de vinda e ida, e amanhã confirmo-te. Queres que reserve hotel?»
            «Não é preciso, ficamos no apartamento daquela amiga minha que aí vive e de quem te falei.»
            «Em que zona mora ela?»
            «Espera aí, deixa-me ver.»
            Edmundo por momentos ficou sem imagem, mas aguardou.
            «Desculpa, tenho a morada aqui no computador por isso ficaste sem me ver. Não sei ler bem isto, mas parece-me avenida da Igreja.» Disse Annika quase soletrando.
            «Fica no bairro de Alvalade, próximo do aeroporto.» Responde Edmundo.

            Annika e irmã conversam sobre a oferta do português.
            «Pensei que nos ia enviar o dinheiro, mana. E agora?» Interroga-se Annika.
            «Começaste, leva tudo até ao fim. Vamos a Portugal.» Declara Therese-
            «Queres mesmo ir?»
            «Claro. Não podemos desperdiçar as duas viagens de avião. Procura um hotel barato em Lisboa e, mal saibas a data de partida, reserva.» Exclama Therese.»
            «Ok mana. Vou indagando os preços e localização.»

            Oito dias depois, as reservas de avião chegam.
            «A partida é no próximo sábado e o regresso na segunda-feira da outra semana. Temos 9 dias para conhecer Lisboa.» Informa Annika pulando de alegria.
            «Achas que ele se convenceu de que tens uma amiga em Lisboa?»
            «Claro que sim. Fartei-me de lhe falar dela e até lhe arranjei uma morada perto do aeroporto. Falei-lhe das maravilhas que ela me contava de Lisboa, dos seus miradouros, dos baixos preços dos restaurantes, da cortesia dos portugueses, etc.»

            Edmundo e Horácio pareciam dois miúdos aguardando a chegada das suas belas suecas. Conjeturavam os lugares a visitar, restaurantes, discotecas e enfim, proporcionarem uma estada em Lisboa que jamais esquecessem.
            «Estive a falar com elas ontem. Estão radiantes e desejosas que chegue o sábado.» Informa Edmundo.
            «Espero que não nos achem demasiado velhos.» Lamenta Horácio.
            «Estás louco Horácio. Ninguém nos dá mais de 40 anos.»
            «A ti Edmundo, mas a mim…» volta a lamentar Horácio.

            Quinta-feira, dois dias antes da partida, Anika muito chorosa contacta Edmundo.
            «Amorzinho.»
            «Que tens querida?»
            «É minha irmã, está com uma gripe enorme. Esteve cá o médico e receitou-lhe vários medicamentos. Proibiu-a de sair da cama durante 3 ou 4 dias. Estou tão preocupada. Vou ter de adiar a nossa ida.»
            «Vai à agência e altera a data das passagens.» Sugere Edmundo.
            «É o que vou fazer amanhã de manhã. Espero que ela recupere depressa.»
            «Dá-lhe um beijinho e desejo-lhe rápidas melhoras. Uma gripe cura-se rapidamente.»
            «Obrigada, amor. Estava tão entusiasmada e logo aconteceu isto. Pede desculpa ao Horácio e diz-lhe que ela lhe manda um grande beijo. Amanhã voltamos a falar.»
            «Diz à Therese que não se preocupe connosco. A sua saúde está em primeiro lugar. Temos todo o verão de agosto à nossa disposição.»

            Annika, depois de se despedir com um grande beijo, corre ao encontro da irmã:
            «Ficou convencido, mana.»
            «Eu vi como representaste bem. Devias ir para o teatro.» Riu Therese.
            «Agora repara no plano para a chegada a Lisboa: começamos por levar umas perucas para esconder os nossos longos cabelos louros. Óculos escuros. Separamo-nos no aeroporto e tu segues-me à distância até eu entrar no táxi.»
            «Eh lá! Para quê tudo isso?» Admira-se Therese.
            «Nunca se sabe se os nossos portugueses irão confirmar a nossa chegada. Se assim for, esperarão 2 loiras juntas. Quando chegarmos ao quarto do hotel, ligo-lhe para lhe dizer que estás muito melhor e nos próximos dias lhe confirmo a data de embarque. Nessa altura verei a sua reação.»

            Edmundo de imediato telefona ao amigo contando-lhe as más notícias.
            «Não será uma desculpa?» Lamenta Horácio com o seu habitual pessimismo.
            «Estás tonto, se visses a cara dela, tão triste e tão preocupada. Amanhã de manhã vai alterar as datas das passagens, está descansado, elas estão mais desejosas de vir do que nós.»

            A 9.000 metros acima da terra as duas suecas saúdam, com 2 copos de água solicitados à comissária de bordo, um brinde aos portugueses.
            «Não sentes remorsos do que estamos a fazer?» Indaga Therese.
            «Hum, um pouco, mas não íamos perder esta oportunidade. Não achas? Ou preferes ir ter com eles?»
            «Nem pensar. Deve haver lá rapazes novos com quem nos poderemos divertir.»
            «E, remorsos?» Olharam-se sérias por alguns segundos e desataram à gargalhada.

            Quando o avião aterrou e os passageiros começaram a sair foi com regozijo que constataram que ninguém as esperava.
            Dirigiram-se para o hotel, desfizeram as malas, e Annika ligou o portátil.
            «Que vais fazer?» Questiona a irmã.
            «Vou ligar ao Edmundo.»
            «A esta hora?»
            «Sim, quero saber se ele está no escritório e se não desconfiou de nada. Assim podemos dar uma volta pela cidade, mais à vontade.»

            Edmundo continuava acreditando na gripe de Therese.

            Annika, no hotel em Lisboa, ligava-lhe todas as noites antes de saírem para as noitadas lisboetas. Três dias depois resolve dar boas notícias ao português.
            «QUERIDO! A Therese vai ter alta amanhã. Já está boa. Vou marcar a viagem e amanhã dou-te as boas notícias do dia em que, finalmente, te poderei abraçar. Diz ao Horácio que a Therese lhe envia um grande beijo.» 

            O dia de regresso à Suécia chegou. Annika e Therese deixam o hotel e a caminho do aeroporto prometiam voltar. Iam radiantes. Adoraram a cidade. Não se preocuparam em manterem-se juntas e com os seus belos cabelos loiros a descoberto. Os portugueses tinham acreditado na grande comediante Annika.
            «E agora, mana?» Pergunta Therese.
            «Agora, chegamos a casa, bloqueamos e removemos o Edmundo, e procuramos uns franceses. Vamos a Paris nas próximas férias.» 

            Edmundo e Horácio lamentavam o desaparecimento de Annika dos seus contactos.
            «Parece impossível, Horácio. Estava convencidíssimo de que Annika gostava de mim. Não percebo o porquê deste desaparecimento.»
            «Olha Edmundo. Isto não fica assim. Se tu não quiseres ir, vou eu a Estocolmo procurá-las.»
            «Acreditas que elas vivem em Estocolmo?»
            «Não te deram a morada?»
            «E acreditas que, depois de tudo isto, elas nos deram a morada correta? Provavelmente moram numa outra cidade, longe de Estocolmo. Acredita Horácio, elas são louras mas não são burras.