Num dos meus blogues do ano passado, dirigido a todos os meus leitores, informava que tudo o que escrevia ou pelo menos a sua maioria, era dirigido a alguém, familiar ou amigo, embora muita gente se sinta retratado neles. Desta vez não é dirigido a ninguém; ou melhor, é dirigido a mim próprio.
O som estridente do meu despertador soou. Eram oito horas. Olhei o relógio e pensei: só mais uns minutinhos. Adormeci.
Entrava numa tabacaria com o intuito de vender os meus produtos. Curiosamente reparei nas centenas de cautelas expostas. Todas tinham o mesmo número: 13674. Pedi uma. A empregada sorriu e mostrou-me que aquelas cautelas não passavam de uma enorme foto publicitária. Entretanto entra uma cliente e compra uma. A empregada entrega a cautela com o número 13674. Estranhei e reclamei que também eu queria uma com aquele número. A mesma resposta: «isto é um cartaz, venha ver.» Entrei, apalpei e na realidade não passava de uma fotografia. Mais um comprador entra e leva uma cautela, e mais outro. Desesperado tentei tirar da mão da empregada a cautela que ela estendia a um outro cliente, mas tanto a cautela como a empregada pareciam esfumar-se entre as minhas mãos. Não conseguia perceber o que se estava a passar. O 13674 saia da fotografia e ia parar as mãos das dezenas de clientes que agora faziam fila no interior da tabacaria. Tentei roubar uma das mãos desses clientes, mas, para além de me sorrirem, pareciam hologramas sem que eu os conseguisse tocar. Saí da tabacaria e a fila de pessoas ultrapassava umas centenas de metros. Coloquei-me no final da fila. As pessoas entravam às dezenas e saiam todas com uma cautela na mão: o 13674. Esperei mais de uma hora mas chegou a minha vez. Estendi a mão como todos faziam e a empregada repetiu a malfadada frase: «é uma foto.» Saltei pelo balcão e a foto lá estava com centenas de cautelas com o malfadado n.º 13674. Gritei, tentei empurrar a empregada, maltratei-a com palavras pouco usuais em mim, mas estava desesperado. A empregada não era palpável. Era mais um holograma. Chegou a polícia e agarrou-me e eu gritei e eles algemaram-me e meteram-me num carro celular e eu atravessei a porta que não existia. Corri. Cansado, sentei-me e olhei em meu redor. O despertador continuava a tocar. Eram oito horas.
Levantei-me e segui para o escritório. O número 13674 ficara na minha mente. Era quinta-feira. A lotaria era sorteada às sextas ao meio-dia. Teria sonhado com a taluda? Telefonei para a Santa Casa da Misericórdia. Aquele número tinha sido vendido a um revendedor do Porto. Procurei e telefonei ao revendedor. Um cauteleiro, normalmente da zona de Santa Catarina, tinha-o adquirido. Desconheciam o seu contacto.
Não poderia deixar de adquirir aquelas cautelas. Eram doze. O seu custo era de 45 escudos cada. Compraria as que houvesse. Decididamente só tinha uma solução: ir ao Porto. Justificaria a minha viagem com as vendas que conseguisse.
Segui para o Porto pela nacional 1 e, cerca das quatro da tarde estava na rua de Santa Catarina. Cauteleiro, nem cheiro. Indaguei pelas lojas de comércio, tendo-me sido informado que só pela manhã o encontraria. Segui para o hotel. Nessa noite não dormi. Sete da manhã já estava a pé. Em jejum segui para Santa Catarina. Duas horas rua acima rua abaixo. Finalmente o António cauteleiro apareceu. Cautelas com o n.º 13674, já lá iam. Tinham sido vendidas não sabia a quem. Inconformado ainda fui ao revendedor da lotaria na esperança de ter ficado lá uma delas por esquecimento.
Nesse dia não vendi nada, claro está. Nem me atreveria a entrar numa loja para vender fosse o que fosse. Deambulei pelas ruas do Porto olhando toda a gente com uma vontade enorme de perguntar se tinham comprado lotaria e qual o número.
Pouco faltava para o meio-dia quando segui para o hotel a fim de ouvir na rádio, em direto, o cantar do sorteio. Os três principais prémios acabaram de ser divulgados, mas o 13674 não constava em nenhum deles. Provavelmente seria atribuído um prémio dos mais pequenos. Aguardei pela saída da lista de prémios. Nem uma terminação. Amaldiçoei o meu sonho. Como acreditara nele? Como iria dar conta da gasolina gasta, da conta do hotel? Não. Não podia dar. Teria de ser tudo às minhas custas.
Regressei a Lisboa resmungando todo o caminho. Tinha sono. Parei dezenas de vezes para tomar café, espreguiçar-me, molhar a cara, mas cheguei. Revoltado e ensonado como estava, nem me apercebi que era sexta-feira e que sábado não trabalharia. O despertador continuava preparado para às oito da manhã dar-me cabo da cabeça e não me deixar dormir.
Sábado, oito da manhã: terrim, terrim, terrim. Acordo sobressaltado. Olho o relógio. 8:00. Por baixo das horas reparo no calendário: 15/6/74. Dei um safanão ao despertador e rolou pelo chão.
«Nunca mais me enganas.» Disse eu ao reparar que tinha sonhado dois dias antes com a data que o calendário me apresentara: 13/6/74.
Fui castigado e por isso me penitencio. Não quis telefonar ao meu colega do Porto para que me adquirisse a lotaria. Teria medo que ele ficasse com o eventual prémio? Teria eu ido ao Porto e venderia nos seus clientes demonstrando a sua incompetência? Infelizmente esse colega já não faz parte deste mundo mas, tenho a certeza que ele lá em cima me perdoa.