domingo, 17 de abril de 2011

2,5 Milhões de joias desaparecidas

Sábado, 6 de dezembro.

No interior alentejano perto de Beja numa velha mansão, Fausto Trindade sentado à lareira na sala de estar, olhava para o relógio de parede que acabava de dar as oito badaladas.

«Não sabem que detesto atrasos?» Dizia ele para as duas filhas, «o namorado da vossa irmã, lá por ser advogado não lhe dá o direito de chegar à hora que lhe apetece.
«Mas papá. São oito horas, o Cláudio deve estar a chegar» desculpava-se a filha Alzira, estudante de química-física molecular.
«A vossa irmã foi para Lisboa e pespega-me cá com o namorado»
«Papá! O Cláudio vem por causa do meu computador, tenho um programa para instalar e eu pedi-lhe para o fazer» defendeu a filha mais nova, a Beatriz. 

Deolinda, a governanta, veio anunciar a chegada de Cláudio.
«Chegou o senhor Doutor Cláudio, menino Fausto.» Deolinda trabalhava naquela mansão havia já três gerações e o seu patrão seria sempre o menino Fausto. 
«Que entre» vociferou Fausto Trindade.

De imediato passaram todos à sala de jantar: o Fausto Trindade, as duas filhas Alzira e Beatriz e o Dr. Cláudio. Fausto não ia muito nas graças de Cláudio. Era o namorado da filha mais velha Isabel, mas havia qualquer coisa nele que o irritava sobremaneira. O jantar decorreu sem grandes conversas.

«DEOLINDA!» gritou Fausto.
«Sim menino Fausto…»
«Serve o café no salão que passamos já para lá»

Cerca das dez e meia, já depois do café e dum charuto, Fausto recosta-se na sua poltrona e olha a televisão. Beatriz pede licença ao pai e dirige-se para o escritório com o namorado da irmã e o seu computador. A Alzira faz companhia ao pai, no salão.

Perto das onze toca o telefone e Fernandina, a empregada, atende. Era a Isabel para falar com a irmã Beatriz.

Segunda-feira, 8 de dezembro.
Na porta envidraçada dum escritório em Beja lia-se: “Ferreira de Abreu – Investigador Privado”. Um cavalheiro corpulento, antigo fuzileiro, sentado por detrás duma enorme secretária, atende o telefone:
«Ferreira de Abreu, em que lhe posso ser útil?»
«Ferreira! Sou o Fausto Trindade, aconteceu-me uma coisa terrível, desapareceram as jóias»
«Olá Fausto. Aquelas jóias valiosíssimas desapareceram? Mas como?»
«Não sei, podes vir a minha casa?»  
«Dá-me meia hora. Estou à espera do Afonso que deve estar a chegar a todo o momento.» (O Dr. Afonso era o ajudante do “Inspetor Ferreira de Abreu”, como lhe chamavam.)

«Bom dia senhor inspetor, bom dia senhor doutor» diz Deolinda ao abrir a porta aos dois homens. «O menino Fausto está no salão com as filhas. Está num pranto»
«Olá Fausto, bom dia pequenas. O que aconteceu?»
«Esta manhã, cerca das dez horas, quando fui ao cofre para levar uns cheques para depositar no banco, dei pela falta do estojo das jóias.» Informou Fausto Trindade.
«Quando as viste pela última vez?» Indaga o inspetor.
«Foi no sábado de manhã, quando lá fui meter uns cheques que me trouxeram.»
«Arrombaram o cofre?»
«Não. Quem lá foi sabia o segredo.»
«Mas... quem conhece o segredo?»
«Apenas eu e as minhas filhas.»
«É verdade… a Isabel? Não a vejo, onde está?» Perguntou o inspetor.
«Foi na sexta-feira a Lisboa, ainda lá está. Foi a casa duma amiga, disse-me que vinha hoje, segunda-feira.»
«Já telefonas-te à polícia?»
«Ainda não, apenas enviei um e-mail à companhia de seguros e acabei de lhes confirmar por telefone. Devem estar a chegar.»
«Quem esteve cá em casa este fim de semana?»
«Ninguém. Aliás estivemos nós e as serviçais.»
«Tens a certeza de que mais ninguém tem acesso ao código.»
«Absoluta e as minhas filhas também não o divulgavam.»
«Mas, assim apenas restam vocês como suspeitos…» declara o inspetor.
«Alguém muito hábil que perceba de cofres, deve tê-lo aberto» declara Fausto.

Enquanto isto, o Dr. Afonso ia tirando apontamentos e inspecionando o pequeno escritório cuja mobília limitava-se a uma secretária e quatro cadeiras, um armário carregado de livros e pastas de arquivo. Era na parede do lado direito que se encontrava o enorme cofre. Era um vulgar cofre embutido na parede. Conhecia-o bem. Era exatamente o mesmo modelo que o inspetor tinha no seu escritório.

«Telefona à polícia, enquanto eu vou falando com as tuas filhas» disse o inspetor dirigindo-se à mais nova.
«Beatriz. Podemos falar em privado? Depois falarei com a tua irmã também em privado.»
«Sim senhor inspector. Podemos ir para a sala de jantar.»

Beatriz narra com todos os pormenores tudo o que se passara no sábado. A chegada do Cláudio, o tempo que estivera com ele no escritório a tratar do computador, etc.
«Ah! Estava a esquecer-me dum pormenor. Não sei se lhe interessa senhor inspetor. Cerca das onze horas recebi uma chamada da minha irmã Isabel.»
«Que queria ela a essa hora?» Admirou-se o inspetor.
«Perguntou se o Cláudio me tinha resolvido o problema do computador, se ainda cá estava...»
«Quis falar com ele?»
«Não.»
«Quem é esse Cláudio? O que faz?»
«A minha irmã namora com ele há mais de um ano, estão para casar, Ele é advogado.»
«Estranho… se a Isabel não queria falar com o namorado, para que te telefonou às onze na noite?»
«Estava preocupada com uma bolsinha de prata, que recebera dias antes da morte da nossa mãe. Tinha uma estima muito grande pela bolsa e não sabia se a perdera ou se a tinha deixado cá.»
«E então?»
«Fui ao quarto dela e depois de remexer em tudo, lá a descobri.»
«Diz-me uma coisa: entre receberes o telefonema, procurar a bolsa, etc., que tempo decorreu?»
«Talvez três ou quatro minutos, mas podemos confirmar no registo do telefone.»
«Durante esse tempo o Cláudio esteve no escritório a arranjar-te o computador?»
«Sim.»

Entretanto a polícia remexia o escritório, vasculhava tudo, tirava impressões digitais, fotografava, etc.
Enquanto o inspetor falava com a Beatriz, o Dr. Afonso sondava o pessoal.

Perto da uma hora, preparando-se o inspetor para se despedir, é abordado pelo seu ajudante que lhe segreda qualquer coisa.

«Não me digas,» exclama o inspetor e de imediato se dirige ao dono da casa.
«Fausto. Podes chegar aqui ao escritório por uns segundos?» Fausto, o inspetor e ajudante dirigem-se ao escritório.
«Por favor abre o cofre para ver um pormenor.» Pede o inspetor.
Fausto Trindade hesita uns segundos, mas lá se decide a abri-lo.
«Afonso, fotografa o interior por favor» pede o inspetor.
«Meu caro Fausto. Em breve terás notícias. Dá os meus cumprimentos à tua filha Isabel.»

Pelo caminho de regresso o inspetor e ajudante vão trocando impressões sobre o assunto.
«A empregada de quartos, a Fernandina, estava muita tensa, está lá há apenas um ano e pareceu-me amedrontada. Ela sabe qualquer coisa mas dá-me a impressão que tem medo de falar. Teremos de a apertar.» Declarou o ajudante do inspetor e continuou. «É estranho o comportamento do namorado de Isabel. Entrou com uma mala de computador que não largou até a deixar no escritório de Fausto e segundo a Deolinda que o acompanhou à porta, ia-se esquecendo da mesma. Voltou atrás muito aflito para a recolher.»
«Afonso! Lembras-te do tipo de estojo que continha as jóias?»
«Se é o mesmo, é um estojo de veludo do mesmo tamanho de um portátil. Caberia bem dentro duma pasta.» Declara Dr. Afonso.
«Estás a seguir o meu raciocínio. Na realidade o telefonema às onze da noite foi muito conveniente. A chamada durou 4m e 35s conforme verifiquei no registo do telefone. A ausência da filha Isabel é um perfeito álibi. Teremos de averiguar a causa desta ausência e investigar o passado do Dr. Cláudio Fonseca.» Acrescenta o inspetor Ferreira de Abreu.

As pesquisas sobre a ausência de Isabel e a vida privada do advogado não conduziram a quaisquer conclusões. Tudo parecia normal, o Dr. Cláudio Fonseca tinha uma reputação irrepreensível. Havia fortes suspeitas, mas nenhuma prova. Deolinda tinha desabafado sobre as questiúnculas entre pai e filha, a Isabel, que à força queria um casamento de pompa e centenas de convidados e o pai que em virtude do incêndio dois anos antes no seu montado e que tinha dizimado milhares de sobreiros, via-se numa situação financeira um pouco abalada.

Terça-feira, 9 de dezembro.

Um toque de telefone desperta o inspetor que, na sua secretária tentava alinhar os pensamentos.
«Ferreira de Abreu, em que lhe posso ser útil?»
«Senhor inspetor, o Dr. Afonso está?» Era a empregada mais novata de Fausto Trindade, a Fernandina.
«De momento não, mas não demora. Se quiseres deixar recado…»
«Queria falar com ele, mas não em casa. Estou aqui em Beja, no supermercado. Hoje é dia da minha folga. Se ele pudesse aqui vir… não quero ser vista a entrar para aí.»
«Está bem. Daqui a meia hora pode ser?» Pergunta o inspetor.
«Sim, sim. Eu tenho umas compras a fazer e ainda me vou demorar.»

No pequeno supermercado não foi difícil a Dr. Afonso localizar Fernandina de volta das compras de mercearia.
«Bom dia Fernandina, que novidades me trazes?»
«Senhor doutor, aquilo das joias traz-me muito preocupada. Sou nova lá em casa. Tenho medo que, por eu ser nova e o meu namorado por vezes passar por lá, que desconfiem de mim. Juro que ele nunca passou da entrada da porta da cozinha e a Maria da Conceição, a cozinheira, sabe bem que isso é verdade.»
«Conheces o segredo do cofre, Fernandina?»
«Não senhor. Nem nunca o vi aberto. Não sei o que tem dentro.»
«E o teu namorado?»
«Esse nem sabe da existência do cofre, nunca lhe toquei no assunto… mas há uma coisa que lhe queria contar e não consegui fazê-lo lá em casa.»
«O que foi?!» Pergunta cheio de curiosidade o ajudante do inspetor.
«A menina Alzira anda sempre a dizer que vai para Londres especializar-se em qualquer coisa molecular, mas o pai não a quer deixar ir, diz que é muito caro e ela anda muito irritada. Diz que vai e pronto.»
«Como sabes tudo isso?» Indaga o Dr. Afonso.
«Todos lá em casa sabem, as discussões são constantes… mas há mais uma coisa que me intriga. Olhe senhor doutor: No sabado a menina Alzira esteve até tarde no escritório e de manhã muito cedo saiu com uma pasta, creio que era o seu computador. Nem à missa foi.»
«Viste-a no escritório?»
«Não senhor, mas domingo de manhã fui limpar o escritório e o cinzeiro estava cheio dos cigarros dela, queimados. Devia ter estado a ler. Ainda lá estava um livro em cima da mesa.»
«Está bem. Não digas a ninguém que me contaste isso. Sabes mais alguma coisa?»
«Não senhor.»

O Dr. Afonso, depois de pôr ao corrente o seu chefe da conversa tida com a Fernandina, informou:
«Oh chefe, marque com o seu amigo Fausto Trindade uma ida lá a casa, gostava de falar com a sua filha Alzira e ver se há mais alguma novidade da parte das empregadas.»

Quinta-feira, 11 de dezembro.

«Bom dia senhor Fausto Trindade.»
«Bom dia doutor Afonso. Entre e esteja à vontade. Vou chamar a minha filha.»
Alzira recebeu o Dr. Afonso no escritório. Informou-o da sua saída cedo naquele domingo. Tinha ido à campa da mãe e depois fora almoçar com a sua colega de faculdade, a Maria José e com quem passara a tarde a estudar. O pai estava a par disso.
Depois de tirar apontamentos sobre as horas, morada da amiga, etc., despediu-se. Como sempre, a governanta Deolinda veio acompanhá-lo à porta e segredou-lhe:
«Senhor doutor, peço-lhe que não divulgue esta informação, mas a menina Beatriz, na noite de sábado, recebeu o namorado cá em casa. Eram cerca das duas da manhã.»
«Porque não me contaste isso quando cá estive? É muito grave o que me contas. A que horas é que ele saiu?»
«Senhor doutor, por favor não diga que obteve essa informação da minha boca, não quero ser despedida, invente o que quiser, que alguém cá em casa ouviu ruído ou outra história que lhe pareça melhor.»
«São habituais essas visitas?» Indaga o Dr. Afonso.
«Eu, pelo menos umas três vezes ouvi a porta abrir-se, altas horas da noite. Duas delas espreitei e vi-o subir para o quarto da menina. O meu quarto é mesmo por baixo da escada e posso ver e ouvir sem ser notada. Normalmente está com a menina uma hora ou mais.»
«O patrão sabe disso?» Quis saber o Dr. Afonso
«Não sei se sabe, mas conhece o rapaz e detesta-o, diz que é um drogado e não quer que a menina ande com ele. Creio que é colega da menina no liceu.»
«A Beatriz está em casa?» Pergunta o ajudante do inspetor.
«Por favor não fale com ela hoje, pode desconfiar que fui eu que lhe contei. Peço-lhe por tudo.»
«Está bem. Eu telefono e combino com ela.»

«Chefe! Mais um suspeito, a Beatriz. Mete lá o namorado em casa altas horas da noite. E naquele sábado esteve lá.» Informa o Dr. Afonso ao entrar no escritório.
«Temos as três filhas como principais suspeitos. Isto está a complicar-se. Marca uma entrevista com a Beatriz e vê lá quem é o marmanjo com quem ela anda e o que faz.» Exclama o inspetor, coçando a cabeça.

Segunda-feira, 15 de dezembro.

A Polícia nada de novo conseguira.
O inspetor e ajudante, colaborando com a Polícia pouco adiantaram nas investigações. As impressões digitais no cofre cingiam-se apenas às do Fausto Trindade.  
O namorado da Isabel, Dr. Cláudio da Fonseca, propôs-se colaborar com eles em quaisquer investigações que pretendessem. Sobre ele recaiam as principais suspeitas mas e as provas?
A história de Isabel Trindade e sua ida a Lisboa confirmavam-se.
Igualmente a história de Alzira era convincente.
A Beatriz confirmara também as visitas do seu namorado, Ezequiel Silveira, um miúdo aparentemente pacato, mas nada mais para além disso, nem por sombras conhecia o escritório de Fausto Trindade.
O namorado da empregada Fernandina era um camponês que mal sabia ler.

O inspetor não tirava os olhos do computador. Olhava todas as fotos tiradas na mansão. Relia os depoimentos de todos. Aplicava o zoom numa ou noutra foto, mas nada de novo aparecia nelas. Uma mesa, umas cadeiras, uns armários, um cofre… nada daquilo mostrava um pormenor que lhe despertasse interesse.
De repente dá um grito: «AFONSO!»
«Sim chefe.»
«Abre o cobre.»
«Não temos lá nada chefe…»
«Eu sei, mas quero vê-lo por dentro.»

O Dr. Afonso abre e cofre e o inspetor senta-se no chão. Mira e remira o seu interior. Retira o conjunto de gavetas vazias amovíveis. Torna a olhar e diz: «Não percebo, há qualquer coisa aqui que não bate certo.»
«O quê, chefe?» Pergunta o Dr. Afonso olhando para o interior do cofre.
«Vamos examinar as fotografias que tiraste ao cofre do Fausto Trindade.» Diz o inspetor dirigindo-se para o computador.

Depois de aumentadas e analisadas em pormenor todas as fotografias do interior do cofre, o inspetor Ferreira de Abreu liga para a companhia de seguros e marca uma reunião com o diretor da companhia.

Terça-feira, 16 de dezembro.

«Afonso, vamos marcar uma reunião com a família Trindade o senhor Comissário da PSP e o representante da companhia seguradora.» Pede o inspetor.
«Alguma novidade chefe?»
«Não sei ainda, mas vamos lançar o “isco” e esperemos que se “pesque” alguma coisa.» Declara o inspetor.

Quarta-feira, 17 de dezembro.

Estavam todos reunidos no escritório do Fausto Trindade: a família, o comissário e dois agentes, dois representantes da companhia de seguros, o inspetor e o seu ajudante.

«Fausto» começou o inspetor e continuou. «Segundo nos informaste apenas na segunda-feira dia 8 de dezembro, cerca das dez da manhã, deste pela falta das joias, não é verdade?»
«Sim!» Confirma Fausto Trindade.
«Tens a certeza que as joias desapareceram?» Interroga o inspetor.
«Claro que desapareceram. Não confirmaste quando fotografaste o interior do cofre?» Declara Fausto.
«Exatamente por fotografar o seu interior é que ponho algumas dúvidas.» Acrescenta o inspector.
Todos olham para o inspetor e simultâneamente para Fausto Trindade com um ar interrogativo.
«Abre o cofre Fausto.» Pede o inspetor
Hesitante, Fausto Trindade abre o cofre, deixando ver no seu interior alguns papéis e umas gavetas.
«Despeja o cofre e tira as gavetas, Fausto.» Impõe o inspetor e continua, «que vês?»
«Nada…» declara Fausto.
«Repara nesse fundo, não te parece uma profundidade demasiado pequena para esse cofre?»
«Parece-me normal, Ferreira» declara Fausto.
«Vê bem o fundo, não te parece um fundo falso? Não tens aí uma folha de cartão preto a servir de tapume?» Instiga o inspetor.

Todos os presentes tentam olhar o interior do cofre, enquanto Fausto Trindade apalpa o fundo e confirma as suspeitas do inspetor.
«Arranca esse fundo e verifica o que se encoste por detrás dele.»
Fausto Trindade constata a existência dum fundo e com o auxílio de uma faca rasga o cartão.
«Mas… que é isto? O estojo das joias aqui… como é possível? Quem escondeu as jóias neste fundo falso?» Exclama Fausto mostrando-se admirado.
«Estive esta manhã na tua companhia de seguros. Tinhas as joias seguras em 2,5 milhões de euros. Era esse o valor que a companhia pagava pelo seu desaparecimento.» Informa o inspetor olhando bem nos olhos do Fausto.

Todos olharam o dono casa com um ar incrédulo. Como teria aquilo acontecido? Quem tentara ludibriar a companhia seguradora?

«Não é possível. Alguém me tentou enganar, mas quem?» Indignou-se Fausto Trindade.
«Fausto» exclama o inspetor e continua, «enviaste dois e-mails para a companhia. Um, à uma hora da manhã e outro, às dez horas e cinco minutos, ambos na segunda-feira.» Declara o inspetor mostrando as duas cópias ao Comissário da PSP.

Os representantes da companhia de seguros olharam-se estupefactos, como era possível?, interrogaram-se.

O inspetor Ferreira de Abreu olha todos os presentes e, calmamente, dirigindo-se aos dois representantes da seguradora esclarece: «os e-mails são recebidos pelo vosso departamento de receção que, posteriormente os reencaminha para os respetivos departamentos. A rececionista, como tinha dois e-mails iguais, reencaminhou apenas um, por sinal o recebido às 10h e 5m.»
«NÃO PODE SER!» Grita Fausto Trindade.
«Na noite de domingo, ou melhor, à uma hora de segunda-feira estiveste a escrever um e-mail para ser enviado à companhia de seguros logo pela manhã, mas, ao fechares o computador, este anuncia: Tem um e-mail que não foi enviado. Pretende enviá-lo agora? Tu, distraído, clicaste no “Sim” e o e-mail seguiu. Nove horas depois, procuras o e-mail e reenvias o mesmo.»
«Não é verdade.» Exclama furioso Fausto Trindade.
«Estão as provas nas cópias dos e-mails recebidos na Companhia, além disso podes confirmá-lo no teu computador o envio dos dois e-mails, o primeiro nove horas antes de saberes do desaparecimento das joias.

«Chefe, como sabia que por detrás daquele fundo falso estavam as joias?»
«Não sabia, mas a atual situação financeira de Fausto e o e-mail enviado previamente levaram-me a desconfiar que as joias não teriam desaparecido. Lancei e “isco” e “pesquei.”

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Brincadeiras Perigosas

Ainda jovem, na casa dos trinta, era já Diretor Geral em Portugal de uma multi-nacional operadora telefónica. Normalmente poucos e-mails recebia no seu correio privado.

Uma manhã, ao ligar o computador, verificou a existência de correio na sua caixa privada. Admirado abriu e leu a mensagem:

Caro Fernando,
Perdoe-me este meu atrevimento. Sou viúva há dois anos. Conheço-o e admiro-o não só como diretor dessa companhia, mas também pela sua conduta como homem. Não lhe venho pedir emprego nem pretendo aborrecê-lo com queixumes. A minha timidez obriga a dirigir-me a si por este meio.
Há muito que o rondo e discretamente o olho, embora nos tenhamos cruzado poucas vezes. Sei que é casado e penso que feliz. 
Sou viúva e tendo apenas 32 anos, o meu espelho diz-me que sou atraente. Não me julgue mal. Sou uma mulher sensata, recatada e é a primeira vez que me dirijo a um homem. Gostaria de ter em si um amigo, um confidente. Será ousadia demais da minha parte pedir-lhe para me acompanhar a tomarmos um café... apenas um café?
Não me alongo mais e, se não me responder compreendê-lo-ei perfeitamente.
Os meus sinceros cumprimentos.

Filomena, Filó para amigos.    

Fernando Oliveira, releu o e-mail. Sorriu e pensou: queres brincar, pois iremos brincar.

Isabel Oliveira, dona de uma pequena agência de publicidade, tinha como sócia a Isaura, uma amiga íntima de há longa data. Apenas cinco pessoas trabalhavam naquela empresa e todas mulheres. Nas horas vagas Isabel e Isaura entretinham-se no facebook, com fotos falsas brincavam com os pseudopretendentes.

«Enviei-lhe ontem o e-mail, Isaura» disse Isabel à sua sócia. 
«Vê lá o que fazes. Tem cuidado. Se ele descobre... é perigoso.»
«Tenho a certeza que ele não me responde. Vais ver»

Enganava-se. Nessa mesma tarde recebe o seguinte e-mail:

Minha cara Filó,
O seu e-mail deixou-me ansioso. Conhecemo-nos? Quem é você? Não quererá antes dar-me o seu MSN para assim podermos em direto "conversar"? Não vejo qualquer problema em tomarmos um café juntos, mas gostaria de saber algo mais a seu respeito.
Aguardo seu comentário.
Fernando.

«ISAURA! ISAURA! ELE RESPONDEU, ANDA VER» gritou Isabel.
«Ainda te metes em alguma alhada Isabel», retorquiu Isaura.
«Vou criar um novo MSN para comunicar com ele.»

Nessa mesma tarde Isabel enviou um e-mail ao marido com o seu MSN.

De minuto a minuto olhava o canto inferior direito do seu PC auscultando a entrada do marido. Só no dia seguinte viu satisfeito o seu desejo.

«Olá Filó, bom dia»
«Bom dia Fernando, estava a ver que me tinha desprezado»
«Não estive no escritório ontem à tarde. Não tem foto no seu hotmail...»
«Não gosto de pôr a minha foto na Internet, os pretendente já são muitos sem ela...»
«Vou começar a tratar-te por tu, vês algum inconveniente?»
«Não, não. Eu farei o mesmo. Estava ansiosa pelo teu contacto.» 
«De onde me conheces? Trabalhas aqui perto? O que fazes? Como és?»
«Calma, uma pergunta de cada vez. Conheço-te da tua rua, moro perto de tua casa, mas tu sais muito cedo e raramente te vejo. Tenho um escritório de representações na baixa. Um dia vi-te entrar para o teu escritório e perguntei na portaria por ti, fingindo estar interessada numa rede de telefones.»
«Sua atrevida. Tu conheces-me e eu? Não tenho o mesmo direito?»
«No nosso encontro conhecer-me-ás e não te vais desiludir.»
«Vaidosa»
«Sei o que valho. Tenho muitos espelhos em casa. Entretanto dou-te algumas dicas, pode ser que te recordes de me ter visto. Sou morena, cabelo preto comprido, normalmente visto saias ou vestidos e saltos muito altos, como sou baixa... tenho olhos verdes.»
«Deves ser aquilo a que se chama uma "brasa", não?»
«Admiradores não me faltam, mas enviuvei há dois anos e ainda não perdi a cabeça.»
«Mentirosa. Então porque me procuraste?»
«Agora o vaidoso és tu. Eu apenas te convidei para um café, como amigo. Recordas-te?»
«Está bem. Perdoa-me. Foi a brincar. Quando é que queres encontrar-te comigo?»
«Hoje é terça-feira. Amanhã é um dia difícil para mim. Que tal na quinta?»
«Pode ser. Marca o local e hora»
«Amanhã envio-te uma mensagem»

«Isaura! Ele caiu. Vai encontrar-se comigo na Verssailles. E agora o que faço?»
«Não vás» respondeu a amiga.
«Mas assim não sei se ele aparece.»
«Mandamos a Catarina,  ela é de confiança. Mostra-lhe a fotografia do teu marido e ela fica lá a ver o seu comportamento.»

Catarina segui para a Verssaille meia hora antes da hora indicada.

«D. Isabel, aquele senhor da foto não apareceu. Estive lá das 3 até agora e não apareceu.»
«Tens a certeza, Catarina?»
«Absoluta. Estive sentada mesmo à entrada e reparei em todos os homens que entravam. Aquele senhor é demasiado charmoso para passar despercebido.»
«Ok, obrigada Catarina.»

Isabel ficou desconsertada. Não sabia o que fazer. No seu PC não viu o Fernando em linha. Porque não aparecera? Era estranho, deveria ter comparecido... ou não? Aguardaria uma mensagem sua. Deveria haver uma forte razão. 

Nestes pensamentos nem repara que Fernando acabara de entrar em contacto.

«Olá Filó, que aconteceu? Não pudeste comparecer?» Isabel mais confusa ficou. Dizer-lhe que sim, que esteve à sua espera? Ele tinha razão. Não comparecera. Mas se Fernando esteve lá como é que Catarina não o  viu? Resolveu dizer a verdade.
«Perdoa-me Fernando. Um imprevisto reteve-me no escritório e como não podia contactar-te...»
«Por esta vez perdoo-te. Marca outro encontro, mas recorda-te que não te conheço. Tu terás de te dirigir a mim, embora pela descrição que de ti fizeste não será difícil reconhecer-te.
«Está bem. Na próxima segunda-feira estás disponível? Poderíamos almoçar juntos, para te compensar da minha falta.»
«Está bem. Terei muito gosto. Escolhe o restaurante e a hora.

Em casa nada fazia prever que o marido andasse comprometido com uma "Filó". Continuava o mesmo marido terno e afável. Na próxima segunda-feira faziam cinco anos de casados e ele tinha marcado um almoço com outra. Isabel começou a temer que algo de mal pudesse vir a acontecer. A sua amiga bem a avisara. Mas já agora levaria o caso até ao fim. Na segunda-feira iria almoçar com ele e logo lhe diria das boas.

O relógio do escritório de Isabel marcava 12h30. Do escritório ao restaurante demoraria cerca de trinta minutos. Meteu-se no carro e pelo caminho imaginou a cena. Ela ao entrar, o marido ficaria espantado. Qual seria a sua reação? Ainda pensou em voltar para trás, mas assim ficaria na eterna dúvida. Não. Iria e ele é que tinha procedido mal. Logo no dia do seu aniversário de casamento. Era demais. E se acontecesse o contrário?, não tinha pensado nisso. Se o marido julgasse que era ela que andava a meter-se com outro Fernando? Não, não. Isso não ia acontecer. Ela sabia bem que o marido nunca pensaria assim.

Pouco passava da uma. A tremer e até com certo receio, entra no pequeno mas requintado restaurante.
Um cavalheiro sorridente, sentado muito próximo da porta de entrada, levanta-se e aproxima-se de Isabel.
«Olá Filó!, mentiste-me, não tens olhos verdes ou usa lentes de contacto?»
«Quem é o senhor???» Disse Isabel muito espantada.
«Sou o Fernando, mas... não me conheces? Disseste-me que me conhecias bem...»
«Há qualquer coisa que não entendo. Eu conheço bem o Fernando Oliveira. Quem é o senhor?»
«Eu sou Fernando Ferreira, a Filó marcou este restaurante para eu a conhecer.»
«Peço desculpa mas há um enorme equívoco. Tenho de me retirar.»
«Mas, almocemos e conversaremos durante o almoço» insistiu o cavalheiro. 
«Não. Peço desculpa. Esqueça o meu e-mail. Esqueça tudo o que se passou. Por favor não me contacte mais. Eu queria encontrar-me com alguém que conheço bem e não com um desconhecido» disse Isabel e sem mais delongas abandona o restaurante.

A sua cabeça não conseguia raciocinar. Quem era aquele homem? Teria ela andado a corresponder-se com um desconhecido? Dirigiu-se para o escritório. Não almoçou nem conseguiu trabalhar. Fechou-se no seu gabinete e não atendeu ninguém. Mexia e remexia em papéis mas não conseguia vê-los. Durante mais de duas horas não conseguiu tirar o estranho personagem que a aguardava para almoçar. Agora compreendia por que a sua empregada não vira o seu marido na Verssailles, seria aquele cavalheiro que lá estivera à sua espera? De repente correu para o computador. O seu primeiro e-mail enviado era sem dúvida para o seu marido, embora assinado com Filó. Como era possível aquele senhor ter-se correspondido com ela através do MSN? Nada fazia sentido. Bruscamente o seu telemóvel toca. Era o seu marido. Atendeu a tremer e receosa: «querida, não faças jantar para hoje. Vamos jantar fora.É o dia do nosso aniversário. Vou-te buscar ao escritório às oito.»

Com um enorme ramo de flores, Fernando Oliveira entra pelo escritório da mulher e dá-lhe um beijo muito terno.

«Despacha-te, estou cheio de fome» disse o marido, sorrindo para Isabel.
«Eu também. Não almocei...» mas logo se arrependeu do proferido.
«Porquê» perguntou Fernando
«Muito que fazer» mentiu Isabel.

No restaurante, o marido como sempre muito atencioso, olhava-a carinhoso. Isabel não se sentia bem desde a hora do almoço.

Repentinamente Isabel dá um salto e põe-se de pé. E, numa vós abafada diz: «vamos embora.»
«O que aconteceu? Parece que viste o diabo.»
«Não é nada, mas não me sinto bem» disse Isabel não tirando os olhos do cavalheiro à sua frente, que entretanto lhe sorria. Era o mesmo com quem se encontrara à hora de almoço.

O marido olhando na direção do olhar da mulher viu o cavalheiro e saudou-o: «Olá Ferreira»
«Conheces aquele homem?» Perguntou Isabel.
«É um colaborador meu. Faz hoje anos e vem com a sua mulher jantar. Fui eu que lhe recomendei este restaurante.»
«Sabias que ele vinha aqui?»
«Sim. Porquê? Mas senta-te. O Ferreira anda maluco com uma correspondente, uma "Filó", que conheceu na Net.

Isabel ficou lívida. Não sabia o que dizer nem como comportar-se. Não queria estar ali. Mas se insistisse em saír não seria pior? Fernando, olhando para trás diz para o Ferreira e sua acompanhante: «por que não vêm comemorar connosco?, sentem-se aqui.»

Isabel queria gritar. Tirem-me daqui, pensou. 
«O que estás a fazer Fernando?»
«A convidá-los para a nossa mesa, importas-te»
Isabel ficou calada. Não sabia o que fazer nem dizer.

«Então Ferreira. Sempre te decidiste a vir a este restaurante?, apresento-te a minha mulher, Isabel.»
«Muito prazer minha senhora» e apontando para a simpática e sorridente esposa, «a minha mulher Ana Ferreira.»

Isabel cada vez mais perplexa não conseguia estar sentada sem se remexer incomodada.

Ana Ferreira e o marido, pareciam brincar com a situação. Olhavam Isabel e sorriam. Isabel encolhida, não pronunciava palavra. 

«Oh! Ferreira, sempre conheceste a "Filó"?,» disse Fernando e simultaneamente olhou para a mulher. 
Isabel levantou-se vermelha de raiva. Estavam a brincar com ela. 
Todos se levantaram. Fernando, o marido, pegou-lhe num braço com delicadeza e disse-lhe ao ouvido. «Senta-te que vais ter uma agradável surpresa.»
Isabel estava transtornada. O marido tentou acalmá-la.
«Hoje fazemos cinco anos de casados, parece que foi ontem.»
Depois de ver a mulher um pouco mais calma disse: «Quiseste brincar comigo e eu fiz-te a vontade.»
«Brincar? Como? Que queres dizer?» Respondeu a mulher com os olhos arregalados.
«Recordas-te do primeiro e-mail que me enviaste? Assinaste Filó, mas esqueceste que apenas o diretor Ibérico, o nosso banco e tu, têm acesso a esse endereço. Nem no escritório o conhecem. Consequentemente, só poderia ser teu. O Ferreira apenas me fez o favor de, em meu lugar, estar presente no restaurante. Se tivesses ficado um pouco mais, verias a sua linda esposa, Ana a chegar.»

Todos riram, menos Isabel que, com ar envergonhado deu um meigo encontrão ao marido e lhe disse: «Seu mausão a enganar a sua mulherzinha.»
«Quem, eu?» Interrogou o marido.