domingo, 17 de abril de 2011

2,5 Milhões de joias desaparecidas

Sábado, 6 de dezembro.

No interior alentejano perto de Beja numa velha mansão, Fausto Trindade sentado à lareira na sala de estar, olhava para o relógio de parede que acabava de dar as oito badaladas.

«Não sabem que detesto atrasos?» Dizia ele para as duas filhas, «o namorado da vossa irmã, lá por ser advogado não lhe dá o direito de chegar à hora que lhe apetece.
«Mas papá. São oito horas, o Cláudio deve estar a chegar» desculpava-se a filha Alzira, estudante de química-física molecular.
«A vossa irmã foi para Lisboa e pespega-me cá com o namorado»
«Papá! O Cláudio vem por causa do meu computador, tenho um programa para instalar e eu pedi-lhe para o fazer» defendeu a filha mais nova, a Beatriz. 

Deolinda, a governanta, veio anunciar a chegada de Cláudio.
«Chegou o senhor Doutor Cláudio, menino Fausto.» Deolinda trabalhava naquela mansão havia já três gerações e o seu patrão seria sempre o menino Fausto. 
«Que entre» vociferou Fausto Trindade.

De imediato passaram todos à sala de jantar: o Fausto Trindade, as duas filhas Alzira e Beatriz e o Dr. Cláudio. Fausto não ia muito nas graças de Cláudio. Era o namorado da filha mais velha Isabel, mas havia qualquer coisa nele que o irritava sobremaneira. O jantar decorreu sem grandes conversas.

«DEOLINDA!» gritou Fausto.
«Sim menino Fausto…»
«Serve o café no salão que passamos já para lá»

Cerca das dez e meia, já depois do café e dum charuto, Fausto recosta-se na sua poltrona e olha a televisão. Beatriz pede licença ao pai e dirige-se para o escritório com o namorado da irmã e o seu computador. A Alzira faz companhia ao pai, no salão.

Perto das onze toca o telefone e Fernandina, a empregada, atende. Era a Isabel para falar com a irmã Beatriz.

Segunda-feira, 8 de dezembro.
Na porta envidraçada dum escritório em Beja lia-se: “Ferreira de Abreu – Investigador Privado”. Um cavalheiro corpulento, antigo fuzileiro, sentado por detrás duma enorme secretária, atende o telefone:
«Ferreira de Abreu, em que lhe posso ser útil?»
«Ferreira! Sou o Fausto Trindade, aconteceu-me uma coisa terrível, desapareceram as jóias»
«Olá Fausto. Aquelas jóias valiosíssimas desapareceram? Mas como?»
«Não sei, podes vir a minha casa?»  
«Dá-me meia hora. Estou à espera do Afonso que deve estar a chegar a todo o momento.» (O Dr. Afonso era o ajudante do “Inspetor Ferreira de Abreu”, como lhe chamavam.)

«Bom dia senhor inspetor, bom dia senhor doutor» diz Deolinda ao abrir a porta aos dois homens. «O menino Fausto está no salão com as filhas. Está num pranto»
«Olá Fausto, bom dia pequenas. O que aconteceu?»
«Esta manhã, cerca das dez horas, quando fui ao cofre para levar uns cheques para depositar no banco, dei pela falta do estojo das jóias.» Informou Fausto Trindade.
«Quando as viste pela última vez?» Indaga o inspetor.
«Foi no sábado de manhã, quando lá fui meter uns cheques que me trouxeram.»
«Arrombaram o cofre?»
«Não. Quem lá foi sabia o segredo.»
«Mas... quem conhece o segredo?»
«Apenas eu e as minhas filhas.»
«É verdade… a Isabel? Não a vejo, onde está?» Perguntou o inspetor.
«Foi na sexta-feira a Lisboa, ainda lá está. Foi a casa duma amiga, disse-me que vinha hoje, segunda-feira.»
«Já telefonas-te à polícia?»
«Ainda não, apenas enviei um e-mail à companhia de seguros e acabei de lhes confirmar por telefone. Devem estar a chegar.»
«Quem esteve cá em casa este fim de semana?»
«Ninguém. Aliás estivemos nós e as serviçais.»
«Tens a certeza de que mais ninguém tem acesso ao código.»
«Absoluta e as minhas filhas também não o divulgavam.»
«Mas, assim apenas restam vocês como suspeitos…» declara o inspetor.
«Alguém muito hábil que perceba de cofres, deve tê-lo aberto» declara Fausto.

Enquanto isto, o Dr. Afonso ia tirando apontamentos e inspecionando o pequeno escritório cuja mobília limitava-se a uma secretária e quatro cadeiras, um armário carregado de livros e pastas de arquivo. Era na parede do lado direito que se encontrava o enorme cofre. Era um vulgar cofre embutido na parede. Conhecia-o bem. Era exatamente o mesmo modelo que o inspetor tinha no seu escritório.

«Telefona à polícia, enquanto eu vou falando com as tuas filhas» disse o inspetor dirigindo-se à mais nova.
«Beatriz. Podemos falar em privado? Depois falarei com a tua irmã também em privado.»
«Sim senhor inspector. Podemos ir para a sala de jantar.»

Beatriz narra com todos os pormenores tudo o que se passara no sábado. A chegada do Cláudio, o tempo que estivera com ele no escritório a tratar do computador, etc.
«Ah! Estava a esquecer-me dum pormenor. Não sei se lhe interessa senhor inspetor. Cerca das onze horas recebi uma chamada da minha irmã Isabel.»
«Que queria ela a essa hora?» Admirou-se o inspetor.
«Perguntou se o Cláudio me tinha resolvido o problema do computador, se ainda cá estava...»
«Quis falar com ele?»
«Não.»
«Quem é esse Cláudio? O que faz?»
«A minha irmã namora com ele há mais de um ano, estão para casar, Ele é advogado.»
«Estranho… se a Isabel não queria falar com o namorado, para que te telefonou às onze na noite?»
«Estava preocupada com uma bolsinha de prata, que recebera dias antes da morte da nossa mãe. Tinha uma estima muito grande pela bolsa e não sabia se a perdera ou se a tinha deixado cá.»
«E então?»
«Fui ao quarto dela e depois de remexer em tudo, lá a descobri.»
«Diz-me uma coisa: entre receberes o telefonema, procurar a bolsa, etc., que tempo decorreu?»
«Talvez três ou quatro minutos, mas podemos confirmar no registo do telefone.»
«Durante esse tempo o Cláudio esteve no escritório a arranjar-te o computador?»
«Sim.»

Entretanto a polícia remexia o escritório, vasculhava tudo, tirava impressões digitais, fotografava, etc.
Enquanto o inspetor falava com a Beatriz, o Dr. Afonso sondava o pessoal.

Perto da uma hora, preparando-se o inspetor para se despedir, é abordado pelo seu ajudante que lhe segreda qualquer coisa.

«Não me digas,» exclama o inspetor e de imediato se dirige ao dono da casa.
«Fausto. Podes chegar aqui ao escritório por uns segundos?» Fausto, o inspetor e ajudante dirigem-se ao escritório.
«Por favor abre o cofre para ver um pormenor.» Pede o inspetor.
Fausto Trindade hesita uns segundos, mas lá se decide a abri-lo.
«Afonso, fotografa o interior por favor» pede o inspetor.
«Meu caro Fausto. Em breve terás notícias. Dá os meus cumprimentos à tua filha Isabel.»

Pelo caminho de regresso o inspetor e ajudante vão trocando impressões sobre o assunto.
«A empregada de quartos, a Fernandina, estava muita tensa, está lá há apenas um ano e pareceu-me amedrontada. Ela sabe qualquer coisa mas dá-me a impressão que tem medo de falar. Teremos de a apertar.» Declarou o ajudante do inspetor e continuou. «É estranho o comportamento do namorado de Isabel. Entrou com uma mala de computador que não largou até a deixar no escritório de Fausto e segundo a Deolinda que o acompanhou à porta, ia-se esquecendo da mesma. Voltou atrás muito aflito para a recolher.»
«Afonso! Lembras-te do tipo de estojo que continha as jóias?»
«Se é o mesmo, é um estojo de veludo do mesmo tamanho de um portátil. Caberia bem dentro duma pasta.» Declara Dr. Afonso.
«Estás a seguir o meu raciocínio. Na realidade o telefonema às onze da noite foi muito conveniente. A chamada durou 4m e 35s conforme verifiquei no registo do telefone. A ausência da filha Isabel é um perfeito álibi. Teremos de averiguar a causa desta ausência e investigar o passado do Dr. Cláudio Fonseca.» Acrescenta o inspetor Ferreira de Abreu.

As pesquisas sobre a ausência de Isabel e a vida privada do advogado não conduziram a quaisquer conclusões. Tudo parecia normal, o Dr. Cláudio Fonseca tinha uma reputação irrepreensível. Havia fortes suspeitas, mas nenhuma prova. Deolinda tinha desabafado sobre as questiúnculas entre pai e filha, a Isabel, que à força queria um casamento de pompa e centenas de convidados e o pai que em virtude do incêndio dois anos antes no seu montado e que tinha dizimado milhares de sobreiros, via-se numa situação financeira um pouco abalada.

Terça-feira, 9 de dezembro.

Um toque de telefone desperta o inspetor que, na sua secretária tentava alinhar os pensamentos.
«Ferreira de Abreu, em que lhe posso ser útil?»
«Senhor inspetor, o Dr. Afonso está?» Era a empregada mais novata de Fausto Trindade, a Fernandina.
«De momento não, mas não demora. Se quiseres deixar recado…»
«Queria falar com ele, mas não em casa. Estou aqui em Beja, no supermercado. Hoje é dia da minha folga. Se ele pudesse aqui vir… não quero ser vista a entrar para aí.»
«Está bem. Daqui a meia hora pode ser?» Pergunta o inspetor.
«Sim, sim. Eu tenho umas compras a fazer e ainda me vou demorar.»

No pequeno supermercado não foi difícil a Dr. Afonso localizar Fernandina de volta das compras de mercearia.
«Bom dia Fernandina, que novidades me trazes?»
«Senhor doutor, aquilo das joias traz-me muito preocupada. Sou nova lá em casa. Tenho medo que, por eu ser nova e o meu namorado por vezes passar por lá, que desconfiem de mim. Juro que ele nunca passou da entrada da porta da cozinha e a Maria da Conceição, a cozinheira, sabe bem que isso é verdade.»
«Conheces o segredo do cofre, Fernandina?»
«Não senhor. Nem nunca o vi aberto. Não sei o que tem dentro.»
«E o teu namorado?»
«Esse nem sabe da existência do cofre, nunca lhe toquei no assunto… mas há uma coisa que lhe queria contar e não consegui fazê-lo lá em casa.»
«O que foi?!» Pergunta cheio de curiosidade o ajudante do inspetor.
«A menina Alzira anda sempre a dizer que vai para Londres especializar-se em qualquer coisa molecular, mas o pai não a quer deixar ir, diz que é muito caro e ela anda muito irritada. Diz que vai e pronto.»
«Como sabes tudo isso?» Indaga o Dr. Afonso.
«Todos lá em casa sabem, as discussões são constantes… mas há mais uma coisa que me intriga. Olhe senhor doutor: No sabado a menina Alzira esteve até tarde no escritório e de manhã muito cedo saiu com uma pasta, creio que era o seu computador. Nem à missa foi.»
«Viste-a no escritório?»
«Não senhor, mas domingo de manhã fui limpar o escritório e o cinzeiro estava cheio dos cigarros dela, queimados. Devia ter estado a ler. Ainda lá estava um livro em cima da mesa.»
«Está bem. Não digas a ninguém que me contaste isso. Sabes mais alguma coisa?»
«Não senhor.»

O Dr. Afonso, depois de pôr ao corrente o seu chefe da conversa tida com a Fernandina, informou:
«Oh chefe, marque com o seu amigo Fausto Trindade uma ida lá a casa, gostava de falar com a sua filha Alzira e ver se há mais alguma novidade da parte das empregadas.»

Quinta-feira, 11 de dezembro.

«Bom dia senhor Fausto Trindade.»
«Bom dia doutor Afonso. Entre e esteja à vontade. Vou chamar a minha filha.»
Alzira recebeu o Dr. Afonso no escritório. Informou-o da sua saída cedo naquele domingo. Tinha ido à campa da mãe e depois fora almoçar com a sua colega de faculdade, a Maria José e com quem passara a tarde a estudar. O pai estava a par disso.
Depois de tirar apontamentos sobre as horas, morada da amiga, etc., despediu-se. Como sempre, a governanta Deolinda veio acompanhá-lo à porta e segredou-lhe:
«Senhor doutor, peço-lhe que não divulgue esta informação, mas a menina Beatriz, na noite de sábado, recebeu o namorado cá em casa. Eram cerca das duas da manhã.»
«Porque não me contaste isso quando cá estive? É muito grave o que me contas. A que horas é que ele saiu?»
«Senhor doutor, por favor não diga que obteve essa informação da minha boca, não quero ser despedida, invente o que quiser, que alguém cá em casa ouviu ruído ou outra história que lhe pareça melhor.»
«São habituais essas visitas?» Indaga o Dr. Afonso.
«Eu, pelo menos umas três vezes ouvi a porta abrir-se, altas horas da noite. Duas delas espreitei e vi-o subir para o quarto da menina. O meu quarto é mesmo por baixo da escada e posso ver e ouvir sem ser notada. Normalmente está com a menina uma hora ou mais.»
«O patrão sabe disso?» Quis saber o Dr. Afonso
«Não sei se sabe, mas conhece o rapaz e detesta-o, diz que é um drogado e não quer que a menina ande com ele. Creio que é colega da menina no liceu.»
«A Beatriz está em casa?» Pergunta o ajudante do inspetor.
«Por favor não fale com ela hoje, pode desconfiar que fui eu que lhe contei. Peço-lhe por tudo.»
«Está bem. Eu telefono e combino com ela.»

«Chefe! Mais um suspeito, a Beatriz. Mete lá o namorado em casa altas horas da noite. E naquele sábado esteve lá.» Informa o Dr. Afonso ao entrar no escritório.
«Temos as três filhas como principais suspeitos. Isto está a complicar-se. Marca uma entrevista com a Beatriz e vê lá quem é o marmanjo com quem ela anda e o que faz.» Exclama o inspetor, coçando a cabeça.

Segunda-feira, 15 de dezembro.

A Polícia nada de novo conseguira.
O inspetor e ajudante, colaborando com a Polícia pouco adiantaram nas investigações. As impressões digitais no cofre cingiam-se apenas às do Fausto Trindade.  
O namorado da Isabel, Dr. Cláudio da Fonseca, propôs-se colaborar com eles em quaisquer investigações que pretendessem. Sobre ele recaiam as principais suspeitas mas e as provas?
A história de Isabel Trindade e sua ida a Lisboa confirmavam-se.
Igualmente a história de Alzira era convincente.
A Beatriz confirmara também as visitas do seu namorado, Ezequiel Silveira, um miúdo aparentemente pacato, mas nada mais para além disso, nem por sombras conhecia o escritório de Fausto Trindade.
O namorado da empregada Fernandina era um camponês que mal sabia ler.

O inspetor não tirava os olhos do computador. Olhava todas as fotos tiradas na mansão. Relia os depoimentos de todos. Aplicava o zoom numa ou noutra foto, mas nada de novo aparecia nelas. Uma mesa, umas cadeiras, uns armários, um cofre… nada daquilo mostrava um pormenor que lhe despertasse interesse.
De repente dá um grito: «AFONSO!»
«Sim chefe.»
«Abre o cobre.»
«Não temos lá nada chefe…»
«Eu sei, mas quero vê-lo por dentro.»

O Dr. Afonso abre e cofre e o inspetor senta-se no chão. Mira e remira o seu interior. Retira o conjunto de gavetas vazias amovíveis. Torna a olhar e diz: «Não percebo, há qualquer coisa aqui que não bate certo.»
«O quê, chefe?» Pergunta o Dr. Afonso olhando para o interior do cofre.
«Vamos examinar as fotografias que tiraste ao cofre do Fausto Trindade.» Diz o inspetor dirigindo-se para o computador.

Depois de aumentadas e analisadas em pormenor todas as fotografias do interior do cofre, o inspetor Ferreira de Abreu liga para a companhia de seguros e marca uma reunião com o diretor da companhia.

Terça-feira, 16 de dezembro.

«Afonso, vamos marcar uma reunião com a família Trindade o senhor Comissário da PSP e o representante da companhia seguradora.» Pede o inspetor.
«Alguma novidade chefe?»
«Não sei ainda, mas vamos lançar o “isco” e esperemos que se “pesque” alguma coisa.» Declara o inspetor.

Quarta-feira, 17 de dezembro.

Estavam todos reunidos no escritório do Fausto Trindade: a família, o comissário e dois agentes, dois representantes da companhia de seguros, o inspetor e o seu ajudante.

«Fausto» começou o inspetor e continuou. «Segundo nos informaste apenas na segunda-feira dia 8 de dezembro, cerca das dez da manhã, deste pela falta das joias, não é verdade?»
«Sim!» Confirma Fausto Trindade.
«Tens a certeza que as joias desapareceram?» Interroga o inspetor.
«Claro que desapareceram. Não confirmaste quando fotografaste o interior do cofre?» Declara Fausto.
«Exatamente por fotografar o seu interior é que ponho algumas dúvidas.» Acrescenta o inspector.
Todos olham para o inspetor e simultâneamente para Fausto Trindade com um ar interrogativo.
«Abre o cofre Fausto.» Pede o inspetor
Hesitante, Fausto Trindade abre o cofre, deixando ver no seu interior alguns papéis e umas gavetas.
«Despeja o cofre e tira as gavetas, Fausto.» Impõe o inspetor e continua, «que vês?»
«Nada…» declara Fausto.
«Repara nesse fundo, não te parece uma profundidade demasiado pequena para esse cofre?»
«Parece-me normal, Ferreira» declara Fausto.
«Vê bem o fundo, não te parece um fundo falso? Não tens aí uma folha de cartão preto a servir de tapume?» Instiga o inspetor.

Todos os presentes tentam olhar o interior do cofre, enquanto Fausto Trindade apalpa o fundo e confirma as suspeitas do inspetor.
«Arranca esse fundo e verifica o que se encoste por detrás dele.»
Fausto Trindade constata a existência dum fundo e com o auxílio de uma faca rasga o cartão.
«Mas… que é isto? O estojo das joias aqui… como é possível? Quem escondeu as jóias neste fundo falso?» Exclama Fausto mostrando-se admirado.
«Estive esta manhã na tua companhia de seguros. Tinhas as joias seguras em 2,5 milhões de euros. Era esse o valor que a companhia pagava pelo seu desaparecimento.» Informa o inspetor olhando bem nos olhos do Fausto.

Todos olharam o dono casa com um ar incrédulo. Como teria aquilo acontecido? Quem tentara ludibriar a companhia seguradora?

«Não é possível. Alguém me tentou enganar, mas quem?» Indignou-se Fausto Trindade.
«Fausto» exclama o inspetor e continua, «enviaste dois e-mails para a companhia. Um, à uma hora da manhã e outro, às dez horas e cinco minutos, ambos na segunda-feira.» Declara o inspetor mostrando as duas cópias ao Comissário da PSP.

Os representantes da companhia de seguros olharam-se estupefactos, como era possível?, interrogaram-se.

O inspetor Ferreira de Abreu olha todos os presentes e, calmamente, dirigindo-se aos dois representantes da seguradora esclarece: «os e-mails são recebidos pelo vosso departamento de receção que, posteriormente os reencaminha para os respetivos departamentos. A rececionista, como tinha dois e-mails iguais, reencaminhou apenas um, por sinal o recebido às 10h e 5m.»
«NÃO PODE SER!» Grita Fausto Trindade.
«Na noite de domingo, ou melhor, à uma hora de segunda-feira estiveste a escrever um e-mail para ser enviado à companhia de seguros logo pela manhã, mas, ao fechares o computador, este anuncia: Tem um e-mail que não foi enviado. Pretende enviá-lo agora? Tu, distraído, clicaste no “Sim” e o e-mail seguiu. Nove horas depois, procuras o e-mail e reenvias o mesmo.»
«Não é verdade.» Exclama furioso Fausto Trindade.
«Estão as provas nas cópias dos e-mails recebidos na Companhia, além disso podes confirmá-lo no teu computador o envio dos dois e-mails, o primeiro nove horas antes de saberes do desaparecimento das joias.

«Chefe, como sabia que por detrás daquele fundo falso estavam as joias?»
«Não sabia, mas a atual situação financeira de Fausto e o e-mail enviado previamente levaram-me a desconfiar que as joias não teriam desaparecido. Lancei e “isco” e “pesquei.”

1 comentário:

  1. Mais um conto que leio e que suspeito de todos, menos do verdadeiro "bandido". Sua técnica é muito boa. Muito interessante!
    Beijinhos, Kiko

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