terça-feira, 3 de maio de 2011

Assassínio por Envenenamento

«FERNANDA, FERNANDA» gritava Maria dos Prazeres, batendo estrondosamente à porta do quarto da sua irmã sem receber qualquer resposta.

Fernanda, uma senhora de 50 anos, encontrava-se fechada por dentro no seu quarto. A sua irmã gémea, visita habitual da casa, estranhando a ausência da sua irmã nessa tarde de aniversário de ambas, resolveu ir pessoalmente lá casa, uma vez que a irmã não atendia o telefone.

Desesperada, continuou a bater até que decidiu telefonar para o 112.
«Estou casada de bater à porta e minha irmã não responde. Está trancada por dentro e temo qualquer coisa de desagradável possa ter acontecido. Por favor mandem alguém para arrombar a porta,» disse Maria dos Prazeres quando do outro lado alguém atendeu.

A casa de D. Fernanda, num velho prédio de três andares, era composta por quatro salas, uma cozinha e duas casas de banho. Era a única inquilina naquele prédio já bastante degradado. O pequeno quarto possuía uma ampla janela virada a norte, onde o sol nunca batia.

Quando a polícia e bombeiros chegaram depararam com Maria dos Prazeres num pranto banhada em lágrimas.

«Não percebo por que é que a minha irmã não abre a porta. Ela teve sempre a mania de se trancar no quarto quando de deitava,» disse Maria dos Prazeres ao comandante dos bombeiros, enquanto este tentava abrir a porta com uma gazua.

«Impossível. Tem uma chave por dentro. Só me resta arrombar a porta.» Disse o comandante dos bombeiros,

Um forte cheiro a amêndoas amargas inundava o pequeno quarto. A janela fechada e as cortinas corridas davam um aspeto fúnebre àquele local. Na cama jazia Fernanda. A polícia corre a abrir a janela para dar entrada de ar fresco.

Maria dos Prazeres e sua irmã gémea ficaram órfãs ainda jovens. Possuíam uma pequena herdade próximo de Beja. Fernanda nunca se casara, ao contrário de sua irmã que, já divorciada, tinha um filho casado, um rapaz dono de uma marcenaria que em tempos dera bons lucros, mas a crise reduzira-a a uma pequena empresa com apenas um empregado. Vivam das suas reformas e da renda que recebiam da herdade, alugada ao senhor Manuel das Lajes. Manuel das Lajes tinha sido o caseiro daquela herdade e por comum acordo foi arrendado o terreno àquele caseiro. A pequena casa dentro da herdade era, na maior parte do ano, residência de D. Fernanda que não dispensava um bom passeio no seu cavalo. A Maria dos Prazeres raramente lá ia, passando por vezes mais de um ano sem visitar a herdade. O filho do senhor Manuel das lajes, o Joaquim das Lajes, embora vivendo em Lisboa, assiduamente visitava o pai, aproveitando a boleia no carro de D. Fernanda.

O corpo da D. Fernanda seguiu para o necrotério a fim de ser autopsiado. A Polícia pediu a comparência do inspetor Ferreira de Abreu, amigo das irmãs gémeas, a pedido da Maria dos Prazeres. Esta não aceitou a ideia de suicídio. Era impossível a irmã tê-lo consumado. Era demasiado feliz para ter posto fim à sua vida. A herdade era a sua paixão. Muitas vezes Maria dos Prazeres e seu filho pretenderam vender a herdade mas a Fernanda rejeitava sempre a sua venda, mesmo renunciando a um superior valor que o caseiro, Manuel das Lajes e seu filho, lhe ofereciam.

O inspetor Ferreira e seu ajudante Dr. Afonso fotografavam e inspecionavam meticulosamente o quarto de D. Fernanda. O cheiro a amêndoas ainda permanecia no quarto.
«Chefe, já viu esta garrafa aqui junto à janela?» Disse o Dr. Afonso apontando para uma garrafa de vidro com capacidade aproximada a meio litro.
«É estranho, o que faz esta garrafa aqui? Parece ser uma garrafa de água, mas aqui, junto à janela e sem rolha?» Admirou-se o inspetor e aproximando o gargalo do nariz.
«Repara neste cheiro, Afonso. Que te parece?»
«Cheira a amêndoas amargas» disse o Dr. Afonso.
Olhando em redor como se procurasse algo, o Dr. Afonso baixou-se e com um lenço envolveu uma pequena rolha de cortiça.

A autópsia ao corpo de D. Fernanda evidenciava morte por envenenamento por inalação de cianeto de hidrogénio. A irritação nasal comprovava essa teoria. Se tivesse sido ingerido esse veneno a boca da vítima mostraria queimaduras de cianeto, o que não se verificou. A morte ocorrera 48 horas antes.

No escritório do inspetor Ferreira de Abreu e Dr. Afonso, congeminavam a causa da morte.
«Se a D. Fernanda se quisesse suicidar teria sido mais fácil ingerir o cianeto.» Pensou alto o Dr. Afonso.
«Sim, como faziam os espiões na 2.ª guerra mundial, quando eram feitos prisioneiros.» Concluiu o inspetor.
«A garrafa junto à janela é que me preocupa. Não há duvida que tanto a garrafa como a rolha mostram vestígios de cianeto de hidrogénio e, segundo as leis da física, o cianeto de hidrogénio entra em ebulição a 25,7ºC. Naquele quarto virado a norte não bate o sol e dificilmente atingiria tal temperatura, mesmo com este calor que se tem sentido.» Conclui o inspetor.
«Analisemos os factos e os motivos de quem pretenderia ver-se livre da senhora.» Exclama o inspetor e prossegue. «A irmã Maria dos Prazeres e seu filho fruiriam com a morte de Fernanda; quiseram vender a herdade mas a falecida sempre se opusera. O caseiro e seu filho ofereceram uma importância superior ao valor real da herdade. Quem mais lucraria com a morte de Fernanda?»
«Mesmo assim, como teriam possibilidade de envenenar a senhora? Porquê a garrafa com cianeto? Como fora aberta?» Interroga o Dr. Afonso.
«Teremos de interrogar todos os intervenientes, saber quem tinha a chave da casa, quem a visitava, etc.,» e conclui «caso bicudo.»

Para além da irmã e sobrinho, também o filho do caseiro, como visitas assíduas lá de casa, tinham as chaves da casa.

Maria dos Prazeres e seu filho entraram no escritório do inspetor Ferreira de Abreu. As suas declarações pouco adiantaram para além do que já tinham exposto.

«Porque razão a sua irmã não deixava a casa, uma vez que raramente a habitava?» Perguntou o inspetor.
«Gostava de estar perto de mim, quando vinha a Lisboa. Além disso a renda que pagava era uma ninharia,» e continuou, «o senhorio já lhe tinha oferecido dinheiro para ela deixar a casa, mas nunca quis.»
Depois de pedir o endereço do senhorio despediu-se o inspetor e pensou. Mais um a investigar.

Também, após investigação, o filho do caseiro, Joaquim das Lajes fora perentório nas suas declarações. Restava o senhorio, o Jorge Carreira, rapaz jovem que herdara o prédio onde habitara a D. Fernanda.

«Eu ofereci à D. Fernanda uma boa quantia para ela sair, era a única inquilina daquele prédio e eu pretendia remodelá-lo.» Informou o Jorge Carreira.
«Qual foi a última vez que viu a D. Fernanda?» Interrogou o inspetor Abreu.
«Já não a via há bastantes meses, ela transferia a renda para a minha conta.»
«Esteve lá em casa recentemente?» Indaga o inspetor.
«Há mais de um ano que lá não entro.»
«Mas tem as chaves lá de casa?»
«Sim. A D. Fernanda fez questão que eu ficasse com as chaves, para qualquer eventualidade de infiltrações de águas pluviais. Sabe, o prédio é velho e o terraço não possui um bom isolamento,» e prosseguiu, «com a renda que recebia não podia fazer obras de melhoramentos…»

O inspetor e seu ajudante davam voltas à cabeça sem conseguirem chegar a quaisquer conclusões.
«Não consigo perceber como uma garrafa cheia de cianeto de hidrogénio se abre sem a intervenção de alguém.» Declara o inspetor
«Ainda por cima com a porta fechada por dentro.» Conclui o Dr. Afonso.
«Há apenas uma de forma, é o calor incidir sobre a garrafa, mas a casa para além de não ter aquecimento, é bastante húmida.
«Se fosse no prédio da frente… esse recebe o sol todo o dia.» Diz o Dr. Afonso.
«O QUÊ?» Exclama o inspetor.
«Sim, o prédio da frente está devoluto mas o sol bate-lhe quase todo o dia. Está virado a sul…»

O inspetor Abreu relia todos os depoimentos que tinha à sua frente sem chegar a qualquer conclusão. Pensativo, olhava o sol que lhe entrava pela sua janela e incidia sobre o abre-cartas com cabo de vidro. O reflexo do cabo batia no teto.
«AFONSO!» Gritou o inspector.
«Sim, chefe.»
«Olha para o abre-cartas»
«Que tem?»
«Repara no reflexo do sol»
«Sim, e depois?»
«Não me disseste que defronte do prédio onde morava a D. Fernanda havia um outro onde batia o sol?» Pergunta o inspetor.
«Sim.»
«Imagina que estás no prédio da frente e com o auxílio de um espelho e duma lente, fazes refletir um foco para a janela do outro lado. Que acontece?»
«Tem razão chefe, é uma hipótese a considerar. Alguém poderia tê-lo feito e, apontando à garrafa, aquecê-la-ia, fazendo com que a rolha saltasse e os vapores do cianeto se espalhassem no ar.»
«O mistério está desvendado. Resta saber quem e o porquê.» Esclarece o inspetor.
«O porquê calculamos nós. Apenas nos falta o “quem”. Todos tinham, duma maneira ou de outra, interesse na morte da senhora.»
«Temos de lá ir e pesquisar tudo muito bem.»

O prédio estava com taipais pronto para a sua demolição havia já bastantes meses. A sua entrada não foi difícil e o inspetor e ajudante começaram no rés do chão. O pó reinava por todo o lado. À medida que iam subindo o mesmo aspeto empoeirado. Chegados ao 3.º andar, depararam com uma janela frente à do prédio de D. Fernanda. Não havia pó. Alguém tivera o cuidado de limpar o parapeito não só do pó, como de possíveis impressões digitais.
«O tipo foi esperto. Tal como limpou as impressões digitais da garrafa e rolha, também aqui fez o mesmo.» Declara o inspetor.
«OLHE, OLHE, INSPETOR!» Grita o Dr. Afonso. «Uma garrafa de água aqui no chão. Deve cá estar há pouco tempo, não está coberta de pó como tudo o resto.»
«Provavelmente alguém aqui esteve algumas horas e com este calor veio prevenido.» Diz o inspetor e conclui, «esperemos que não tenha tido o mesmo cuidado em limpar as impressões digitais.»
O Dr. Afonso pegou num lápis e introduziu no gargalo da garrafa. Com auxílio de uma lupa analisou a garrafa. Estava carregada de impressões digitais.
«Estúpido. Tanto cuidado e larga a garrafa sem a limpar.»
«Resta saber a quem pertencem estas dedadas.» Diz o inspetor.

Já no escritório, estudam a forma de colher impressões digitais de todos os presumíveis assassinos.
«Vamos colher os resultados» Informa o inspetor.
«Podemos levar-lhes uma foto de alguém e perguntarmos se conhecem essa pessoa.» Alvitra o Dr. Afonso.

No Google, em imagens, procuram “Fotografias de homens”. Escolhem uma de alguém desconhecido e imprimem meia dúzia de fotos da mesma imagem, em papel fotográfico. Numeram-nas de 1 a 6.
A irmã, Maria dos Prazeres, foi a primeira a ser visitada, com a foto, n.º 1.
«D. Maria dos Prazeres, conhece esta pessoa?» Pergunta o Dr. Afonso.
Maria dos prazeres pega na foto, olha atentamente, e responde negativamente. Segue-se o seu filho, o Caseiro Manuel das Lajes e o seu filho Joaquim da Lajes. Apenas faltava o senhorio da D. Fernanda, o Jorge Carreira.
«Senhor Carreira, conhece este senhor»
«Não,» responde o Jorge Carreira sem ligar muita importância à foto.
«Repare bem nos olhos e diga-me se lhe faz lembrar alguém,» insiste o Dr. Afonso e prossegue. «É importante, examine bem ali à claridade da janela.»
Jorge Carreira pega na foto e leva-a para próximo da janela, voltando segundos depois.
«Não. Não conheço.»
«Obrigado.»
O inspetor mete a foto no bolso e despede-se.

A análise às impressões digitais começa. As fotos tinham sido mostradas pela ordem de 1 a 5, correspondendo à ordem com que tinham sido apresentadas.

«Afonso, as impressões digitais da garrafa correspondem às da foto, n.º 5, ao Jorge Carreira, o senhorio. Para se ver livre da sua inquilina e remodelar o prédio não encontrou outro meio se não o homicídio. Vamos falar com o comissário da PSP, para que ele se apresente na esquadra a fim de prestar mais declarações. Vou pô-lo ao corrente da nossa investigação.»
«E como provamos que foi ele o assassino? Poderá dizer que esteve lá, apenas para bisbilhotar...» diz o Dr. Afonso.
«Como habitualmente, lançarei o isco.»

Na esquadra da Polícia apresentou-se o Jorge Carreira. Estavam presentes o inspetor, o Dr. Afonso e o comissário da PSP.

«Senhor Jorge Carreira. Que esteve a fazer naquele prédio que está para demolir em frente ao seu?» Perguntou o comissário, depois de lhe apresentar a garrafa de água e o ter informado das suas impressões digitais.
O embaraço de Jorge Carreira era visível. Gaguejava, tinha lá ido para ver o prédio por dentro, ver o estado do mesmo, etc., etc.
«Senhor Comissário,» começa o inspetor Ferreira de Abreu. «Sabe por que razão aquele prédio não está invadido por drogados ou mendigos? O proprietário colocou vigilância eletrónica por todo o prédio. A vigilância é filmada e registada no computador. Estive na empresa de segurança e está lá tudo registado em vídeo. Estão bem visíveis todos os pormenores da atividade do senhor Jorge Carreira. Tem aqui uma cópia do vídeo.» Disse o inspetor entregando um DVD ao comissário.
Jorge Carreira olha estupefacto o inspetor. Como não se tinha apercebido das câmaras de vídeo? Era um crime quase perfeito. Já não sabendo o que dizer, acabou por confessar o crime.

«Chefe, não sabia que o prédio estava sob vigilância eletrónica.»
«E não está.»
«Então e o DVD?»
«Estava em branco. Tinha tudo combinado com o comissário.» E terminou. «Lancei mais uma vez o isco.»

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