domingo, 29 de abril de 2012

Crime mais-que-imperfeiro

Cerca das 6 da tarde Samuel recebe uma chamada da sua filha Fernanda.
«PAPÁ! A mãe foi de ambulância para o hospital São Francisco de Xavier. Tentei ligar-lhe para o telemóvel mas não atendeu, por isso lhe liguei para o escritório.»
«Que aconteceu? Perguntou inquietado.»
«Não sei papá. Estou a caminho do hospital. Vai lá ter depressa.»

Samuel Santos, homem na casa do 50, era casado com Margarida Santos, senhora da mesma idade que sofria de osteoporose. Há cerca de um ano que a senhora quase não saía. A sua fragilidade não lho permitia. A maior parte do tempo o seu leito era o único lugar onde se sentia bem. As suas duas filhas, casadas, passavam quase todas as tardes em casa da mãe, alternando-se, fazendo-lhe companhia. A empregada Ermelinda todas as manhãs tratava das lides da casa e aí permanecia até à chegada das filhas. Chegava cedo, muito antes do senhor Samuel sair para o escritório por volta das 8 da manhã. Nesse dia porém, não compareceu.

«Margarida pensa bem na vantagem de vivermos no andar de baixo» dizia Samuel à sua esposa e continuou. «Além disso é menos um andar a subir (o casal vivia num terceiro andar, último daquele prédio e sem elevador) e ainda temos a vantagem de receber 20.000 euros extra.»
«NÃO SAMUEL! Já sabes que não saio daqui por dinheiro nenhum, foi aqui que nasci e é aqui que hei de morrer».

O senhor Tomás, administrador do prédio onde vivia o casal Santos, casado, com 2 filhos menores, um menino e uma menina em idade da primária, pretendia uma casa maior, dado que habitava, tal como o casal Santos, num T2. Poderia, se ficasse com a casa dos Santos, fazer um duplex, uma vez que a casa deles era contígua à sua. Mais tarde necessitaria de quartos para os filhos.
Tinha-se oferecido a comprar o apartamento no andar inferior, uma vez que estava livre, e uma remuneração adicional de 20.000 euros, bem como tomaria a seu cargo a mudança de todo o mobiliário da casa dos Santos para o andar de baixo.

Fernanda e Madalena, filhas de Margarida, questionavam a ideia daquela mudança para o andar inferior.
«Parece impossível a mãe não querer a mudança. A casa é igualzinha à de cima, com a vantagem de ter menos um andar para subir e descer.» Dizia Fernanda a filha mais velha.
«Que queres, sabes como a mãe é teimosa. Não só era bom para ela como para todos nós. Estou cansada desta vida.» Retorqui Madalena.
«Não haverá forma de a convencermos?»
«Não me parece fácil. A mãe estaria melhor num lar do que lá em casa, mas… convencê-la?»
«O senhor Ezequiel também está cansado desta vida. A mãe pensa que o vizinho tem obrigação de estar presente sempre que ela lhe telefona. O homem tem a sua vida e não pode estar de plantão às suas ordens.» Dizia Fernanda, referindo-se ao vizinho que vivia em frente à casa da mãe.

Esta era uma das muitas conversas entre as irmãs e pai, sem nunca conseguirem chegar a uma resolução.

O senhor Ezequiel, ex-comandante dos bombeiros voluntários, vivia no 3.º andar daquele prédio mesmo defronte de Margarida e como hobby, em casa pintava aguarelas.
Na realidade estava farto de ser incomodado pela sua vizinha que, sem motivo justificável, lhe telefonava constantemente e sempre na ausência das filhas. Já as tinha informado que muitas vezes saía de manhã com o propósito de não estar presente.

São cerca das 5 horas da tarde. O senhor Ezequiel acompanhado de um seu vizinho do 2.º andar, únicos condóminos àquela hora em casa, entram e notam um forte cheiro a gás. Com a prática de bombeiro aconselha o vizinho a não entrar enquanto investiga a causa desse cheiro. Abre a porta da rua a fim de dar entrada a ar oxigenado e segundos depois desliga o quadro geral da eletricidade. Sobe as escadas e constata que o cheiro é proveniente da sua vizinha Margarida. De imediato fecha o gás na escada. Possuidor de uma chave da casa, abre a porta com cautela. Sustem a respiração e rapidamente abre todas as janelas. Dirige-se ao quarto da dona Margarida. Tarde demais. Já não respirava. Telefona para o quartel dos bombeiros, pede uma ambulância e liga para a Polícia e para o senhor Samuel. Como não consegue contacta-lo liga para a filha Fernanda. O fogão tinha todos os bicos de gás abertos.

Durante horas a PJ esquadrinhou todos os recantos da casa, investigou moradores. Não era necessário ser perito para se chegar à conclusão que de um homicídio se tratava. A empregada Ermelinda, filhas, o administrador Tomás Fernandes e o bombeiro reformado Ezequiel, todos eram possuidores da chave de casa da falecida. Todos tinham um motivo para se verem livre de dona Margarida. As impressões digitais nos botões do fogão eram inexistentes. 

Dois dias depois a PJ, na casa desta, reúne todos os intervenientes possuidores de chaves da casa da assassinada.
«Senhor Samuel. Este telefone é seu?» Perguntou o inspetor da Polícia Judiciária.
«É meu é. Pensei que o tinha perdido.»
«Esqueceu-se dele em casa, no dia da morte da sua esposa.» Disse o inspetor guardando-o novamente na algibeira e, dirigindo-se à empregada.
«D. Ermelinda. Naquele dia não veio trabalhar por que razão?»
«O senhor Samuel disse-me para não vir porque a Fernandinha (filha do casal) vinha cá passar o dia.»
«D. Fernanda. Esteve cá nessa manhã?»
«Não senhor inspetor. O meu pai deve ter feito confusão. Nesse dia não vim ver a minha mãe porque estive fora de Lisboa.»
«Avisou a sua irmã que não podia estar presente?»
«Sim. Telefonei-lhe, mas como não a apanhei em casa deixei-lhe uma mensagem no telemóvel. Normalmente nunca sai de manhã, por isso fiquei descansada.»
«D. Madalena. Saiu nessa manhã?» Indagou o inspetor,
«Fui tomar café, mas regressei de imediato. Não me apercebi da mensagem da minha irmã.»
«Passou o resto da manhã sempre em casa?»
«Sim senhor inspetor. Só saí quando a minha irmã me informou no final da tarde a informar-me da infeliz ocorrência.»
Agora dirigindo-se ao senhor Tomás, o administrador: «senhor Tomás. A que horas saiu de casa nessa manhã?»
«Seriam cerca das 9 e 30.»
«Nesse dia convidou o senhor Ezequiel e o vizinho do 2.º andar para uma visita à sua fábrica. E, conforme me disse, passou lá toda a manhã com eles e almoçaram juntos. Alguma razão especial?»
«Era o aniversário da fábrica e quis obsequiar estes meus vizinhos.» Respondeu o administrador um pouco inseguro.
Olhando o teto, como que a divagar, o inspetor com uma voz baixa, calma, murmura:
«Curioso. No dia em que empregada não vem trabalhar, as filhas não comparecem, os vizinhos estão ausentes, acontece o imprevisto. Parece muita coincidência para um dia só» e olhando de frente para cada um dos presentes como que a procurar uma resposta, prossegue «não vos parece?»           
«Nem me tinha apercebido disso, senhor inspetor. De facto é muita coincidência.» Diz a filha mais velha.
«Os vossos passos e as vossas declarações foram investigados ao pormenor. Não foram detetadas nenhumas contradições ou incoerências. Todavia, e começando pela D. Fernanda, pergunto: a visita a casa da sua amiga em Odivelas não poderia ter sido noutro dia?»
«Claro que podia, senhor inspetor.»
«Nesse dia emprestou a chave da casa de sua mãe a alguém?»
«Com certeza que não. A que título faria eu tal coisa?»
«D. Madalena. Esteve todo o dia em casa, não é verdade?» Perguntou o inspetor dirigindo-se agora à filha mais nova.
«Estive sim senhor inspetor. Apenas sai por dez minutos para tomar café, seriam cerca das 9 da manhã.»
«De sua casa aqui, à da sua mãe, são cerca de 10 minutos. Poderia ter vindo cá casa entre as 8 e as 9.»
«Claro que sim, mas nunca pensei que a mãe estivesse só. Como lhe disse, não me apercebi da mensagem da minha irmã. Caso contrário teria vindo de imediato.»
«O senhor Tomás» agora o inspetor dirigia a palavra ao administrador «nessa manhã recebeu uma mensagem no seu telemóvel. Recorda-se?»
«Mensagem, eu? Não me recordo.»
«Veja no seu telemóvel.»
O administrador pesquisa as mensagens e apresenta o telemóvel ao inspetor.
«Como vê, não tenho mensagens nesse dia.»
«É por que a apagou, mas tarde demais.»
«Não apaguei nem a recebi.» Grita o Tomás com raiva.
«O senhor recorda-se, ontem quando vim falar consigo, pedi-lhe o telefone emprestado para fazer uma chamada. Está lembrado?»
«Perfeitamente senhor inspetor.»
«Notou que o telemóvel do senhor Samuel está aqui em meu poder, por que ele o tinha deixado por esquecimento em casa?»
«Sim. Reparei.»
«Deste telemóvel foi-lhe enviada uma mensagem nesse dia às 9 e 15 da manhã. Essa mensagem ainda está aqui registada.»
«Ah! É verdade. Já não me lembrava. Não liguei ao assunto por pensar tratar-se de uma brincadeira.»
«É habitual receber mensagens do senhor Samuel?»
«Sim. Às vezes.»
«Recorda-se da mensagem?»
«Não, não.»
«Eu avivo-lhe a memória. Dizia: “Tudo pronto.” Não estranhou?»
«Como lhe disse, não liguei ao assunto.»
«Não teria sido por essa razão que convidou os seus vizinhos para a tal visita à fábrica a fim de o prédio ficar desabitado?»
O ar de espanto do senhor Samuel era patente e quase gritou:
«Não enviei nenhuma mensagem.»
Sem dar atenção a este, o inspetor olhou o senhor Ezequiel e questionou-o:
«Senhor Ezequiel, é habitual ir almoçar com o senhor Tomás?»
«Não. Foi a primeira vez.»
«Obrigado.»
«Dona Ermelinda. Nesse dia disse-me ter ficado em casa todo o dia. Alguém pode comprovar isso?» Perguntou o inspetor à empregada doméstica.
«Não senhor inspetor. Estive sozinha entretida nas limpezas da minha casa.»
Agora, dirigindo-se ao viúvo, o inspetor recosta-se na cadeira, olha-o bem de frente e bruscamente lança a questão.
«Senhor Samuel. Toma o pequeno-almoço em casa ou fora?»
«Tomo fora.»
«Costuma ir à cozinha de manhã antes de sair para o escritório?»
«Não.»
«O seu telemóvel jazia em cima do lava-louça esquecido.»
«Sou um despistado, deixo-o muitas vezes em locais que eu próprio me espanto.»
«Poderia o senhor ter ido à cozinha verificar se o fogão estava desligado, é a coisa mais normal, não acha?, e distraidamente deixa aí o telemóvel.»
«O senhor está a acusar-me de ter matado a minha mulher? A partir deste momento só falo em presença do meu advogado.» Disse furioso o Samuel.
«Eu não o acusei de nada, senhor Samuel. Está com medo de quê? Até este momento, o senhor foi a única pessoa que se exaltou. Estou a investigar todos vós por que, como se devem ter apercebido alguém abriu os bicos do fogão a gás. Além disso quem o fez ou estava em casa ou abriu a porta com a chave.»
O inspetor virando-se novamente para o ex-bombeiro «o senhor Ezequiel quando telefonou à D. Fernanda informou-a do que se passava?»
«Não senhor inspetor. Apenas lhe disse que a mãe tinha sido levada de ambulância para o hospital.»
«Não lhe foi perguntado o que tinha acontecido?»
«Sim perguntou-me, mas apenas lhe disse que estava mal, nem tive coragem de lhe dizer que tinha já falecido.»
«Senhor Samuel. Quando recebeu o telefonema da sua filha perguntou-lhe o que acontecera?»
«Sim, mas ela disse-me apenas que a mãe tinha ido de ambulância para o hospital.»
«Dona Fernanda, recorda-se a hora que recebeu a chamada do senhor Ezequiel?»
«Por volta das 6 mais ou menos.»
«Que informação recebeu do senhor Ezequiel acerca do sucedido?»
«Apenas que a minha mãe tinha sido levada para o hospital.»
«Tem a certeza?»
«Tenho sim.»
«Que fez após isso?»
«Telefonei ao meu pai e corri para o hospital.»
«Recebeu alguma chamada de alguém antes de chegar ao hospital?»
«Não.»
Enquanto consulta o caderninho de apontamentos, o inspetor vai olhando de soslaio para todos os presentes.
«Reuni-me em vossa casa com todos vós com o fim de ouvir mais uma vez as vossas declarações, mas desta vez com todos presentes. Algum de vós tem algo mais a contar para além do que aqui ficou dito?»
Todos se entreolham mas ninguém diz nada.
O inspetor olha demoradamente cada um dos presentes e observa cada reação nos semblantes de todos. Então, pausadamente começa:
«Por volta da 9 horas da manhã, no dia da morte de D. Margarida, alguém lhe serve um chá repleto de tranquilizantes, dá-lhe um beijo na testa “um beijo de Judas” e do telefone do senhor Samuel envia uma mensagem ao senhor Tomás; aguarda a sua saída, acompanhado pelos vizinhos. Enquanto a D. Margarida dorme encharcada em comprimidos dissolvidos no chá, abre os bicos do fogão a gás e corre para a rua.»
O inspetor volta a olhar todos os presentes à espera duma confissão.
«Foi o que aconteceu?»
«Qualquer um de nós o poderia ter feito senhor inspetor.» Disse a Madalena, filha mais nova.
«É claro que sim, mas foi um de vós o fez. Quem?»
Olham todos uns para os outros como que a perguntar: foste tu?
«Dona Fernanda. Têm alguma coisa a acrescentar?»
«Eu? Senhor inspetor.»
«Sim a senhora. Quando estive em sua casa recorda-se de me ter oferecido um café?»
«Recordo-me perfeitamente.»
«Enquanto foi prepará-lo à cozinha, tomei a liberdade de lhe extorquir o seu batom. Nele encontrei o tipo de batom que usava e as suas impressões digitais. A senhora sua mãe tinha vestígios do seu batom na testa e a chávena deixada por lavar, as suas impressões digitais.»
«Venho cá todos os dias é natural que as encontre por todo o lado.»
«O telemóvel esquecido na cozinha também as tinha.»
«Devo ter pegado nele em qualquer altura.» Respondeu a D. Fernanda com um à vontade impressionante.
«Quando chegou ao hospital, por voltas das 6 horas dirigiu-se ao guiché de informações e como perguntou pela sua mãe?» Interrogou o inspetor sem desviar os olhos dos dela.
«Perguntei como estava a senhora Margarida Santos, minha mãe, que tinha dado entrada momentos antes.»
«Foi com essas palavras exatamente?»
«Sim, mais ou menos.» Respondeu.
«Não teria perguntado por uma senhora que dera entrada com intoxicação por gás?»
«Que disparate senhor inspetor. Como é que eu sabia que a minha mãe estava intoxicada? E muito menos por gás?» Respondeu de pronto a D. Fernanda.
O inspetor, voltando-se para o guarda que o acompanhara, diz-lhe:
«Chefe Costa por favor vá ao carro e traga a nossa convidada.»
Nota-se um burburinho na sala e todos se interrogam com os olhos. Apenas impávida e serena estava a D. Fernanda, o que não passou despercebido ao inspetor.
Na sala entra uma senhora de meia-idade. O inspetor convida a sentar-se.
«A dona Isabel reconhece alguém nesta sala?» Perguntou o inspetor à senhora que acabara de entrar.
«Sim, conheço aquela senhora.» Disse Isabel apontando para a D. Fernanda.
«Tem a certeza?»
«Tenho sim. A cor rosada do seu batom obrigou-me a olhá-la e fixá-la.»
«E a dona Fernanda conhece esta senhora?» Indaga o inspetor apontado para Isabel.
«Creio que é a rececionista do hospital.»
«A dona Isabel está lembrada da forma como a D. Fernanda se apresentou a perguntar pela mãe naquele dia?»
«Sim senhor inspetor.»
«Recorde-me textualmente as sua palavras.»
«A D. Fernanda aproximou-se de mim e perguntou: deu aqui entrada há pouco uma senhora intoxicada por gás Margarida Santos, minha mãe. Como está ela?»
A D. Fernanda pulou da cadeira e gritou: «MENTIRA.»
O inspetor fingindo não ouvir voltou-se para Isabel e questionou-a. «Tem a certeza de que foram essas as palavras que D. Fernanda proferiu?»
«Perfeitamente senhor inspetor, até a minha colega perguntou se a senhora se tinha queimado, se tinha havido alguma explosão. A D. Fernanda respondeu que pensava que não.»
«Obrigado dona Isabel.» e virando-se para o chefe Costa «pode acompanhar a D. Isabel ao carro, já não preciso mais nada.»
Fernanda parecia explodir, vermelha como um pimento, contrastando com o seu batom rosado, parecia um avatar.
«A dona Fernanda mente muito mal» prosseguiu o inspetor, «para além de ter perguntado por sua mãe como acidentada por intoxicação, quando ninguém a tinha informado de tal, diz ter telefonado para o telemóvel de seu pai quando na realidade sabia perfeitamente que esse telemóvel estava em seu poder. Além de tudo, depois da sua mensagem enviada naquele dia para o senhor Tomás, nenhuma chamada foi recebida naquele telemóvel como pode ser provado. Desta forma, tanto a senhora como o senhor Tomás ficam desde já detidos preventivamente até julgamento.         
A dona Ermelinda, o senhor Samuel e a dona Manuela receberão em breve uma convocatória para prestar declarações em tribunal.
Por agora é tudo. Passem uma boa tarde.