quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Concerto

No número 20 da rua da Sofia, em Coimbra, num 2.º andar, viviam quatro estudantes. Era ali que funcionava uma das muitas repúblicas estudantis. A "República dos Monarcas". O Carlos Alves, estudante na faculdade de medicina, filho dum famoso médico trasmontano, liderava esta república. Por ser um dos mais endinheirados do grupo, organizava variadíssimas festas, não só em Coimbra como também fora da cidade.

O Dr. Fernando Alves cirurgião em Vila Real, vivia desafogadamente, mas gostava de controlar os gastos dos seus dois filhos. O mais velho estudava medicina em Coimbra e o mais novo ainda andava na secundária em Vila Real. Carlos Alves, o mais velho, bom estudante, mas um contador de histórias que conseguia do pai sempre os seus intentos. O pai sabia e intimamente apreciava. Todas as vezes que o Carlos lhe pedia dinheiro extra, algo de invulgar iria acontecer.

Numa tarde de junho, reunidos na República dos Monarcas, um dos elementos do grupo comenta para os colegas:
«Vocês sabem do concerto que vão dar em Lisboa os "Excélios" este fim de semana?» (Excélios, era um grupo rock inglês,  muito em voga naquela altura). 
«É no estádio do Sporting, não é?» Pergunta o Samuel.
«Serão caros os bilhetes?» Indaga outro.
«Não sei, mas da minha parte arranjo pelos menos 250,00 euros, é só falar o meu pai,» prontificou-se de imediato o Carlos «vejam quanto conseguem angariar mais e veremos com as passagens e entradas em quanto fica.»

Não foi difícil convencer o papá que de imediato lhe transferiu aquela quantia.

«Para que a tua mãe fique descansada filho, depois do espetáculo mal regresses a Coimbra, envia-nos um e-mail a dizer que chegaste bem e se gostaste dos Excélios.» Pede-lhe o pai.
«Está bem papá, prometo. Dê beijinhos à mãe.»

O preço de ingresso no Sporting para assistir ao concerto dos Excélios era bastante acessível, o problema era conseguir entradas. Há mais de três meses que estavam esgotadas. Não iria devolver o dinheiro ao pai claro está, fariam uma festança na Figueira da Foz inaugurara recentemente uma discoteca, jantariam na Figueira e acabariam a noite na discoteca. Apanhariam o comboio de regresso às seis.

Domingo sete da manhã, estavam os estudantes a chegar a casa perdidos de sono e bem bebidos, mas Carlos Alves, como filho exemplar, teria de escrever ao pai como prometera.

Bebeu um café bem forte e tomou uma aspirina,  sentou-se ao computador e, que diria ao pai?

Papá, conforme prometido aqui estou a escrever-vos. Chegámos bem, graças a Deus. O espetáculo foi um êxito. Aqueles Excélios são o máximo. Valeu a pena. O John Wels saltou do palco esteve no meio da multidão e voltou ao palco em ombros. O público delirou.
Três raparigas espetadoras, subiram ao palco e acompanharam o John com uma afinação surpreendente. Uma delas agarrou-se ao John de tal maneira que foram precisos  dois seguranças para a retirarem do palco. Entrou em histeria. Foi levada par o hospital pelos bombeiros.
Aquele John tem uma voz que mesmo sem micro conseguia ser ouvido no meio do relvado. Olhe pai, estou convencido que se o pai lá estivesse teria delirado com aquele grupo e teria gritado como todos: "JOHN, TU ÉS O MÁXIMO".
Bem pai, já cumpri o prometido agora vou dormir. Beijinhos para vós e até logo.

São dez da manhã de domingo,  o dr. Fernando Alves sai para comprar o jornal e tomar café. Lê a manchete dum diário sobre os Excélios e sorri. Volta para casa e liga o computador. 
Conhecia o filho e sabia que teria um e-mail dele. Nunca até à presente data tinha faltado a uma promessa. Estava desejoso de saber o que o filho lhe contaria. Quando acabou disse para consigo próprio: Vê-se mesmo que és meu filho, sacana.

O cirurgião atira para cima do computador o diário que acabara de comprar e que mostrava um acidente na autoestrada envolvendo a caravana em que John Wels viajava na sua viagem para Lisboa e por pouco não sucumbira, encontrando-se hospitalizado, mas sem gravidade. O Espectáculo que iam dar no estádio do Sporting ficara anulado.  

domingo, 12 de dezembro de 2010

Aos meus 2.600 Leitores deste Blogue

Caros familiares, amigos e leitores. Quando escrevo faço-o para ocupar os momentos de ócio, que de uma maneira geral ocorrem à noite depois do jantar enquanto a minha mulher se entretém a ver a TV. Quando não tenho assunto penso nos meus familiares e amigos e dedico-lhes um blogue sem que disso se apercebam. Quase todos eles estão direcionados a um familiar ou a um amigo. Faço-o de uma forma a não ferir afetividades e de maneira a que o seu conteúdo possa ser abarcado a outras personagens, como conselho.  Os leitores que me não conhecem não se apercebem disso, mas os meus familiares ou amigos mais atentos perceberão que as mensagens lhe tocam. Felizmente que até hoje apenas um amigo reconheceu que era o atingido e se acusou; terei de ter mais cuidado com os próximos blogues.

Este blogue não é direcionado a ninguém em particular, mas sim a todos.

Primeiro: quero agradecer aos dois mil seiscentos e tal leitores que até hoje me têm acompanhado, quer em comentários escritos ou verbais, quer na simples leitura; àqueles que nada comentam e àqueles que me incentivam a continuar; à minha mulher; à minha grande amiga que, do outro lado do Atlântico me obriga a escrever mais e mais.  É graças a vós que o meu hobby continua.
Segundo: aproxima-se o final do ano e com ele as festas natalícias. Não sabendo se até ao final do ano voltarei a escrever, não posso deixar que esta época passe sem vos desejar um Bom Natal, um Ano Novo com 'carradas' de felicidade e principalmente que o ano de 2011 não seja tão amargo como se prevê. 
Sempre ao vosso serviço,
o amigo Carlos Soares.   

     

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Herança

Pouco passava da meia-noite. Um pachorrento burro puxava uma carroça em direção ao cemitério. Transportava um caixão. Conduzia a carroça o velho coveiro da aldeia. Atrás, duas mulheres e um homem, todos na casa dos cinquenta, acompanhavam cabisbaixos a carroça. O morgado Fernando da Ribeira tinha falecido.
Tinha sido um cavalheiro que, apesar da sua riqueza era um tanto avaro e não muito amigo do seu vizinho. Poucas amizades angariava embora oferecesse amiudadas vezes suculentos almoços na sua quinta, não só ao presidente da Junta de Freguesia e ao pároco da aldeia, como também a meia dúzia de compadres. 

«Eu sei que não tenho amigos» dizia Fernando da Ribeira numa das suas faustosas almoçaradas, «mas tenho este feitio, não gosto de dar aquilo que me custou a ganhar; porque não fazem como eu que toda a vida trabalhei no duro para ter o que tenho?»
O pároco que recebia chorudas oferendas em gado, trigo ou produtos hortícolas, dava-lhe razão. «Estes jovens não querem trabalhar, têm os terrenos e nada fazem e depois querem que os outros repartam os seus bens.»
Os amigos bebiam, comiam, davam palmadinhas nas costas do morgado e retorquiam: «vão trabalhar como nós fazemos.»

No norte do País, perto do Porto, numa das aldeias do concelho desenrolava esta história. O morgado Fernando da Ribeira, senhor de uma grande propriedade, viúvo, vivia com uma senhora muito mais jovem do que ele, a D. Amélia Brandão, solteira, não aparentando mais de 30 anos, cerca de metade da idade do seu companheiro. Era criticada por toda a vizinhança, mal vista pelos empregados da quinta, pelo pároco que a via como uma meretriz e eventual herdeira do senhor Fernando da Ribeira.

Num cartório da cidade do Porto, o senhor Fernando da Ribeira acompanhado por dois amigos, elaborava a seu testamento. Estava doente e o seu médico não lhe dava muitos anos de vida. Custava-lhe deixar os seus bens ao deus-dará e a sua companheira não era merecedora da sua herança. Os dois amigos, testemunhas do ato, convencidos de que seriam herdeiros pelo menos em parte, desiludiram-se quando a descrição da herança foi introduzida num envelope e selado a fim de ser aberto dois dias após a sua morte. Deixou um outro subscrito em envelope selado que deveria ser aberto logo após a sua morte.
Esse dia chegou e com ele a abertura do primeiro envelope. 
«O meu desejo é ser enterrado entre a meia-noite e a uma da manhã.» Rezava assim o conteúdo daquele envelope. 

A Maria Miquelina cozinheira, o João Madeira e sua mulher, caseiros da quinta do morgado, foram os únicos a acompanhar o enterro.

Quarenta e oito horas após a morte do morgado, todos os amigos, primos, tias, tios, pároco, Amélia Brandão a mulher com quem vivia e empregados, reuniram-se para a leitura do testamento constante do segundo envelope.

Nele constava: «todos os meus bens deverão ser distribuídos equitativamente por todos aqueles que me acompanharam na derradeira viagem ao cemitério.» 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os Quatro em Três Camas

Esta é a história verídica da minha amiga família Ribeiro, mas que certamente será comum a muitas outras famílias. Por motivos de privacidade não mencionarei os seus nomes. Serão conhecidos nesta narração por Pai, Mãe, Filho e Filha. O Pai, importante defensor da paz, a Mãe, conceituada defensora das leis, o Filho, estudante no 8.º ano e a Filha, estudante do 4.º ano, constituem o núcleo desta família. 

Como em qualquer família pai e mãe chegam à noite a casa; o pai conversa ou brinca com os filhos enquanto a mãe prepara o jantar. Depois do jantar reúnem-se na sala, assistem a um programa da TV. A mãe, como sempre, depois de arrumar a cozinha junta-se aos filhos e ao marido. A mais pequenita já sonolenta encosta a cabecita no regaço da mãe e poucos minutos depois adormece. A mãe pega no seu tesouro ao colo e levo-a para o quarto, deita-a e tenta sair sem ruído, mas a garotita tibubeia: 
«Mamã, fica aqui um bocadinho comigo.»
A mãe fica e acaba por adormecer também, fatigada do trabalho. O pai, se o programa da TV lhe não agrada, adormece no sofá. O filho julgando-se preterido, vai para o seu quarto e deita-se. O pai, acordando pouco depois e vendo-se sozinho, desliga a televisão e vai-se deitar.

Meia hora depois a mãe acorda, deixa o quarto da filha, prepara-se e vai juntar-se na cama com o marido. 

Tic tic, tic tic, os passitos da filhota conduzem-na ao quarto dos pais, com uma mão esfregando os olhitos e a outra segurando acima da cabeça a sua almofada.
«Mamã...» e sem esperar resposta deita-se entre a mãe e o pai. 

Como qualquer criança dorme agitando os braços e as pernas, pontapeando a mãe e bofeteando o pai. A mãe, com o sono mais leve, acorda e sorrateiramente vai deitar-se no quarto da filha. Entretanto o filho levanta-se, vai à casa de banho e os seus passos levam-no para o quarto do pais. Com o sono nem repara que é a irmã e o pai que estão na cama. 

O pai, com um filho de cada lado, acaba por acordar com os pontapés de um e palmadas de outro. Sorrateiramente esgueira-se e vai para o quarto da filha juntar-se à mulher. Entretanto a miúda acorda, sente a falta dos pais e vai procurá-los no seu quarto, deitando-se com eles. 

O filho acorda. Vê-se no quarto dos pais sozinho. Levanta-se choramingando e vai procurá-los. Deita-se conforme pode no meio de todos.

De manhã pai e mãe levantam-se, arranjam-se, preparam o pequeno-almoço, acordam as crianças e mais um dia decorre. 

A noite seguinte chega. A garota adormece enroscada à mãe. A mãe com cuidado pega nela ao colo e leva-a para o quarto...

«mamã, fica aqui um bocadinho comigo...»
...e começa mais uma noite de passeios entre camas.

«Sei onde me deito, mas não sei onde acordo», costuma dizer a mãe.  

sábado, 27 de novembro de 2010

A Secretária

Precisa-se secretária de administração  - Era este o título de um anúncio publicado num matutino diário e mais informava: com bons conhecimentos de línguas e informática. Enviar currículo manuscrito, com foto, para a redação deste jornal

Hélder Ribeiro, um quarentão solteiro,  com um porte invejável,  era o diretor de uma importante empresa de informática. Tinha mandado publicar um anúncio num jornal diário para recrutamento de uma secretária. Nessa mesma tarde da sua publicação resolve ele próprio deslocar-se à redação do jornal e levantar os possíveis  currículos enviados. Havia 62. Voltou no dia seguinte e recolheu mais 18. No terceiro dia ainda conseguiu 7 cartas.

Oito e trinta da manhã, hora habitual de chegada ao escritório, Hélder Ribeiro lê as manchetes do dia, bebe um café e dirige-se para a sua secretária. Sobre ela estão três montinhos de cartas, currículos trazidos do jornal.

O primeiro monte de 7 cartas, último a ser recolhido, é analisado sem ser aberto. 5 dessas cartas não traziam selo pelo que teriam sido entregues ao balcão do jornal. Foram rasgadas sem serem abertas. Porquê ler cartas de pedido de emprego se só foram entregues três dias após a publicação do anúncio? Abertas e lidas as 2 restantes que foram enviadas por correio, verificou que uma delas se referia a uma candidata, cuja morada não distava muito longe da redação do jornal. De imediato foi para o lixo. Não podia aceitar que alguém, morando perto do jornal, necessitando de emprego enviasse a sua candidatura por correio, quando a poderia ter entregue dois dias antes. A última... que lástima erros ortográficos não faltavam. O primeiro grupo estava resolvido.
Depois de atender uma ou duas chamadas pegou no segundo grupo de cartas, as que tinham sido entregues no dia subsequente à publicação, as 18. Primeira escolha: 5 dessas cartas tinham sido feitas em computador. O anúncio pedia cartas manuscritas; lixo. 10 não traziam fotografia. As restantes 3 não testemunhavam muito a favor de quem as escreveu. Mais um grupo jazia no cesto dos papéis. Agora apenas faltava o último grupo, o maior, as 62, a ser examinado. As primeiras foram fáceis: falta de pontuação, frases sem nexo, letra indecifrável, erros de ortografia ou de sintaxe eram vulgares e mais de metade foram fazer companhia às outras no cesto dos papéis. Restavam 28 que teriam de ser lidas e apreciadas em pormenor. Tinha tempo, depois de almoço seriam dissecadas.

O mês de julho chegara quente e Hélder Ribeiro queria que alguém o substituísse nas suas férias de setembro. Necessitava urgentemente de uma secretária. Tinha já as férias marcadas para a Tailândia, eram 2 horas da tarde e queria resolver o problema da empregada. 
Sentou-se à secretária e abriu as 28 restantes cartas amontoando-as em duas pilhas: à direita as que tinham uma letra fina, legível e agradável e bem elaborada; à esquerda as que apresentavam letra regular, não rebuscada, vulgar e despretensiosa e com as melhores aptidões. Pelo meio ia enviando para o cesto de papéis, umas porque a fotografia enviada demonstrava falta de recato, havendo mesmo uma que enviara uma foto em biquíni, outras porque vinham perfumadas ou escritas em tinta cor de rosa.
No lado esquerdo ficaram 3 cartas. No lado direito restavam 4. Por razões óbvias escolheu as da esquerda e deitou fora as da direita.
«Restam três» pensou, «as melhores, uma delas seria a eleita».
Apenas faltava o contacto pessoal, seria o exame "oral".  Iria telefona-lhes de imediato e marcaria as três entrevistas para o dia seguinte: Amélia Rodrigues às 9:00, Maria José às 10:00 e Fernanda Lourenço às 11:00.

«Senhor Hélder, está aqui a D. Amélia Rodrigues,» anunciou a empregada, eram 9:10 da manhã.
«Mande entrar, Carolina» 
Hélder Ribeiro arregalou os olhos, seria possível? À sua frente via uma vampe, parecia uma "estrela" de cinema. Minissaia, um generoso decote e um ondulante andar. 
Estendeu-lhe a mão e apresentou-se: «Hélder Ribeiro.»
«Amélia Rodrigues,» apresentou-se ela por sua vez numa pequena vénia «desculpe o pequenino atraso, mas este trânsito...»
«Não tem importância, compreendo» interrompeu Hélder sem concordar minimamente.
Meia hora depois e após a sua apresentação, Hélder informa:
«Como deve calcular tenho outras candidatas ao lugar ou melhor, tenho mais duas.»
«Ah, sim com certeza.»
«Provavelmente marcarei com vocês as três um almoço ou um jantar para ultimarmos todos os pormenores.»
«Todas juntas.»
«Oh! Não. Prefere almoço ou jantar?»
Amélia Rodrigues, cruza os braços e debruça-se sobre a secretária, realçando ainda mais o seu peito e numa voz quente e sensual declara: «prefiro jantar... à luz das velas.»
Hélder levanta-se, estende-lhe a mão e informa: «em breve terá notícias,» disse, despedindo-se dela.
Amélia, de costas saracoteando as ancas,  sem se voltar dá-lhe um aceno de adeus por cima do ombro.
Hélder murmura para si próprio: «ganharias mais como acompanhante de luxo».
Senta-se à secretária, pega na carta de Amélia e num isqueiro, acende-o e por cima da chama coloca a carta de Amélia.
Aguarda pela segunda candidata.

Maria José chega às 10 em ponto. Apresenta-se. É uma interessante mulher, com um vestido justo, mostrando os contornos de um corpo perfeito. Tem 38 anos embora não pareça. As suas habilitações e conhecimentos são na realidade satisfatórios. A Hélder agradou e pareceu-lhe ter conseguido o que pretendia, mas ainda faltava receber mais uma candidata. Procurou testá-la num convite.
«Maria José, não lhe posso garantir o lugar em virtude de ter mais uma candidata a entrevistar. Provavelmente teremos de marcar um almoço ou um jantar para acertarmos mais uns pormenores.»
«Por mim tanto faz, almoço ou jantar, sou livre.»
«Ok, Maria José, voltaremos a falar.»

«Falta uma,» pensou Hélder e aguardou pelas 11 horas.

Fernanda Lourenço era aquilo que se pode chamar uma estampa de mulher. Vestia um fato cinza claro, sóbrio, por baixo uma camisa branca ligeiramente decotada, deixando adivinhar um peito perfeito. Parecia uma executiva.
«Fernanda Lourenço,» apresentou-se ela a Hélder, com com vigoroso aperto de mão. Hélder olhou-a nos olhos e verificou o embaraço de Fernanda. Era muito bonita, com uma longa e negra cabeleira. Os seus olhos azuis contrastavam com a sua tez morena. Parecia um pouco nervosa.

«Que idade têm?» Perguntou Hélder.
«Tenho 29» respondeu Fernanda.
«Ah, bom, pensei que fosse menor» disse Hélder sorrindo.
Após meia hora de conversa, reconheceu que os seus conhecimentos e capacidades intelectuais e empresariais eram sem dúvida bastante elevados.  
No final da entrevista, e para não fugir à regra, convidou-a para almoçar ou jantar. O embaraço de Fernanda foi total. Gaguejou, tossiu, mas lá se resolveu a dizer: «preferia o almoço, senhor Hélder».

Hélder tinha conseguido o que queria. Era uma mulher assim que idealizava.

Trinta dias depois estavam casados.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mariana e Pedro no Paraíso

Era uma vez um casal, a Mariana e o Pedro, os Sousas, que viviam numa aldeia, uma aldeia como muitas aldeias, com terreno para amanhar, gado para o pastoreio, árvores para podar e frutos para colher. As poucas centenas de habitantes daquele lugar viviam desafogadamente, sem luxos claro, mas sem necessidades visíveis; a Mariana e o Pedro eram dos poucos que não tinham um bocadinho de terra para amanhar e semear. 
Como em muitas aldeias também vivia um senhor numa grande mansão, endinheirado e viúvo.
..
O senhor D. Salomão, o viúvo, ausentava-se amiudadas vezes por longos períodos, por vezes só, outras com o seu criado, o caseiro, com quem vivia desde tenra idade. Era um senhor estranho, muito recatado, mas muito amigo do caseiro e dos camponeses que lhe tratavam da quinta. Com frequência dava ostentosos almoços, não só a amigos que apareciam não se sabe de onde, mas também a todos os seus empregados.
Vivia recatado, não tinha automóvel nem mostrava bens exteriores de riqueza. A sua mansão, a quinta e o gado eram toda a sua abastança visível. Adorado e respeitado por todos, rejeitava as viúvas lá da terra que por interesse ou afeto o adulavam assiduamente.
O casal Sousa, igualmente respeitado pela maioria dos conterrâneos, vivia com dificuldades numa modesta casa, ele trabalhando na quinta do senhor D. Salomão, ela como empregada doméstica na mansão, mas sempre pessimistas, maldizendo a vida, a falta de uma quinta com um grande pomar, a falta de cavalos, de uma carruagem para os levar à cidade, a falta de uma casa apalaçada, a falta de uma mansão igual à do senhor D. Salomão, enfim, a falta de tudo. Muitas vezes atribuíam as culpas a Adão e Eva, pelo pecado original e o castigo, serem expulsos do éden.
«Poderíamos ser felizes, não fora a ambição deles...» dizia o Pedro.
«Sim, se o Adão não tivesse comido a maçã...» dizia ela.
«Se a Eva não lha tivesse dado...» dizia ele.
E passavam horas a atribuir culpas, ora a Adão, ora a Eva.
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Num domingo depois da missa, o senhor D. Salomão convida o prior, o presidente da junta, alguns amigos e estranhamente o casal Sousa para o almoço. Já tarde adentro, depois dos amigos se terem despedido, o senhor D. Salomão anuncia aos presentes, o prior, o presidente da junta e ao próprio casal, a necessidade de se ter de ausentar por tempo indeterminado. Tinha de se descolar ao Brasil onde possuía uns terrenos e por lá ficaria provavelmente por mais de um ano.
«A razão do meu convite para este almoço é exatamente pelo motivo que acabei de expor. Vou ausentar-me e por isso necessito de alguém que me olhe pela quinta.» Disse o D. Salomão.
«Pensei na Mariana e no Pedro para essa tarefa; claro que serão recompensados.»
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Mariana e Pedro olharam-se com um ar tão espantado que não articularam palavra de estarrecidos que estavam.
«Estão que me dizem?» Indagou.
«Não...sim...mas...»
«Bom», interrompeu o D. Salomão «pensem esta noite no assunto e amanhã falaremos e acertaremos as condições. Agora deixem-me para eu ultimar uns assuntos aqui com o prior e o nosso presidente.»
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Nessa noite mal dormiram fazendo conjeturas de quanto iriam ganhar, certamente não seriam os mesmos 400 euros que cada um ganhava. Seria que iriam para lá morar? Comeriam da despensa do senhor D. Salomão? Se assim fosse tudo o que ganhassem seria para vestir e amealhar.
«Achas que, devemos pedir quanto?» Perguntou ela ao marido?
«Não vamos pedir nada mulher, ele certamente nos dará aquilo a que temos direito, parece que não conheces o senhor D. Salomão.»
«Sei lá, é uma grande responsabilidade para nós, homem»
«Não te preocupes. Já pensaste que durante um ano iremos viver como uns lordes? Provavelmente até dormiremos no quarto principal. Tomaremos conta da quinta e daremos ordens ao pessoal.»
«O caseiro também irá para o Brasil? Era bom que fosse, ficaríamos sozinhos na casa.»
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Nestas suposições e interrogações passou a noite e começava a amanhecer. Levantaram-se e seguiram para as suas atividades, ele para a quinta, ela para casa do senhor D. Salomão.
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«Bom dia Mariana», cumprimentou o D. Salomão «já pensaram no assunto?»
«Já sim, senhor D. Salomão, o meu homem aceita, só não sabe é quanto vamos ganhar...»
«Não te preocupes Mariana» interrompeu o D. Salomão, «estava a pensar dar-vos 1.000 euros a cada um. Que achas?»
«Mas... isso é mais do dobro do que ganhamos, senhor D. Salomão, o meu homem vai ficar radioso.»
«Ainda bem que aceitam. O Pereira (o caseiro) vai comigo. Ficas sozinha com o teu marido na casa. O melhor é trazerem os vossos bens para aqui, tão depressa não vão precisar de voltar para vossa casa. Não tragam móveis porque não precisam, dormem no quarto principal.»
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Era um milagre o que estava a acontecer, pensava a Mariana, como era possível que, tendo ela no dia anterior rogado à Virgem Maria para lhe dar saúde e algum bem material e hoje lho tivesse concedido?
À noite, enquanto jantavam, Mariana punha ao corrente o marido da conversa que tivera com o D. Salomão.
«O senhor D. Salomão quer que nos mudemos para lá, dormimos no quarto principal. Levamos apenas a roupa de vestir. O Pereira vai também com o patrão, ficamos sozinhos e vamos mudar-nos já amanhã»
«E falou-te na jorna?»
«Sim, vamos ganhar 500 euros cada»
«Não é mau»
«E se forem 1.000?»
«Vá lá, não sejas exigente demais.»
«Mas é isso mesmo que vamos ganhar, 2.000 euros por mês, comida, mas não é tudo.»
«Que mais surpresas trazes?»
«Vou ter uma empregada doméstica para tratar da casa... e uma cozinheira... agora sou uma senhora, o senhor D. Salomão diz que eu vou ter muito que fazer a tomar conta da casa e orientar o pessoal.»
«Não estaremos a sonhar? Nunca joguei no euromilhões, mas parece que sem jogar nos saiu a taluda.»
«Mas há mais...»
«Mau, que mais é que poderá haver?»
«Estás proibido de ir trabalhar para o campo...» o quê? Interrompeu o marido espantado.
«Sim, agora és o capataz. O senhor D. Salomão vai ter uma reunião com todo o pessoal e teremos de estar presentes. Seremos os seus novos patrões.»
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O dia da reunião chegou e com ele a confirmação de tudo o que a Mariana tinha dito. Pedro e Mariana já instalados na mansão, teriam uma reunião a sós com o senhor D. Salomão a fim de se inteirarem dos pormenores dos pagamentos a pessoal, das colheitas e seu destino, da necessidade de manter sempre a casa em ordem como se ele estivesse presente, etc., etc.
«Pedro e Mariana, tenham cuidado com aquela arca, no hall de entrada, tem as dobradiças estragadas e não é conveniente abri-la, dentro nada tem de importância, apenas trapos.» Disse o senhor D. Salomão.
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Passaram três meses que partira D. Salomão e consigo o caseiro. Pedro e Mariana viviam felizes. Davam conta do recado como novos patrões e donos da mansão. Não tiveram problemas com o pessoal que continuava a laborar como outrora. Ofereciam almoços a todo o pessoal. A sua conduta era de tal forma cativante que os empregados respeitavam os seu novos senhores como se de D. Salomão se tratasse.
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Estava uma tarde quente de verão, Mariana sentada no alpendre olhava o campo sorria e pensava: «como seria bom que esta vida se prolongasse eternamente». O marido ao lado olhava-a feliz.
«Pedro, há pouco ajudei a empregada a arredar a arca que está no hall, para limpar o chão e pareceu-me tão pesada...» disse Mariana para o marido «dá a impressão que está cheia de chumbo»
«Não mexas naquela caixa, Mariana.»
«Não mexi, apenas a arredei e olha que as dobradiças não parecem estragadas pelo contrário dá a impressão que são novas.»
«Não mexas e pronto.»
«Está bem, está bem, mas não mexi.» «Cá para mim há ali algo mais para além de trapos», pensava a Mariana «não percebo o problema de abrir a arca.»
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Sempre que entrava ou saía de casa não deixava de olhar de soslaio para a arca e pontapeava-a ao de leve e pensava «aqui há gato, deve ter a mala cheia de moedas ou segredos.»
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Cerca de quatro meses após a partida de D.Salomão, a Mariana continuava a cismar com o conteúdo da enigmática arca. Que mal poderia advir se ela espreitasse? As dobradiças eram novas, não tinha fechadura, era só levantar um pouquinho o tampo e espreitar. Pena era que o marido não colaborasse, teria de o convencer. Mas como?
Não aguentava mais, tinha de ser hoje, esperaria pelo marido e à noite desvendariam o mistério.
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«Pedro! Abri a arca, não tem nada dentro.» Mentiu Mariana.
«Tu és doida mulher, como foste capaz de fazer isso?»
«Não percebo porque não deixa o senhor D. Salomão mexer numa arca vazia...»
«Tens a certeza que está vazia?»
«Tenho, marido; queres confirmar?» E agarra-lhe no braço puxando-o para o hall. «Vê com os teus próprios olhos»
Pedro agacha-se e a medo levanta a tampa.
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No mesmo instante entra em casa o senhor D. Salomão que de imediato lhes aponta o dedo na direção da porta, gritanto: "PONHAM-SE NA RUA IMEDIATAMENTE."
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A estória de Adão e Eva repetiu-se e voltará a repetir-se.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Noite de Natal Inesquecivel

Há longos anos, talvez em meados dos anos 50, numa noite de Natal, estávamos eu e minha mãe, sozinhos.


«Carlitos! Despacha-te que a mãe tem de ir fazer umas compras ainda antes do jantar.»

Não me recordo bem qual a razão de estarmos sós, creio que o meu irmão mais velho estava com a viver com a namorada e o mais novo estava num colégio interno, mas não sei o porquê de não vir passar o Natal connosco. O meu pai estava na marinha, em serviço nos Açores. Só não me esquecerei nunca, que, eu e a minha mãe, apenas os dois, pela primeira vez em toda a nossa vida estávamos sós naquela noite.

No bairro de Campolide num primeiro andar, muito próximo do Aqueduto das Águas-Livres, vivíamos nós. Recordo isso, recordo a minha mãe a subir a escada para convidar a vizinha de cima, uma amiga nossa que também vivia só, para connosco jantar. Não estava em casa. Recordo que telefonou para alguém a quem convidou mas não teve sucesso. A minha tia, sua irmã, vivia na baixa, junto ao Chiado, mas tinha ido passar o Natal com o meu primo, seu filho, à nossa terra, Espinho.

«Não temos ninguém para nos acompanhar» disse eu olhando para a minha mãe, mas ela desviou o olhar, correu para a casa de banho, parecia que chorava. Regressou e com um tremor na voz disse-me: «Carlitos vamos comprar umas prendas para os manos, para quando eles chegarem...» fez uma pausa e prosseguiu «não te importas que jantemos os dois num restaurante?»
«Claro que não mãezinha, que fazemos sozinhos aqui em casa?»


Claro que me importava, importava-me por ver a minha mãe triste, importava-me por não ter principalmente os meus os meus irmãos naquela noite a jantar connosco, importava-me de estar só eu em companhia de minha mãe, nunca tal tinha acontecido. Interiormente chorei, mas sem que a minha mãe se apercebesse, (ou teria reparado?)
Como sempre, uma árvore de Natal e um presépio não faltavam nunca na nossa casa, nem nesse ano; mas faltou o calor da família, do Zé Maria, do Toninho, (meus irmãos), do pai, da tia Eduarda e do primo Francisco. Estávamos sós; sós e tristes, afinal era noite de Natal. Por que todos nos tinham abandonaram naquela noite?


Apanhámos um elétrico e saímos no Rossio. Passeámos pela rua Augusta e parávamos para ver as montras; entrámos numa loja de roupas. A mãe comprou não sei o quê, pagou e saímos. Descemos essa rua e seguimos para a rua da Madalena. Entrámos na igreja da Madalena. Ali ficámos uns momentos. A minha mãe rezava e chorava.

«Então mãezinha, hoje é Natal» (eu sabia porque chorava e apetecia-me chorar com ela).
«É por isso mesmo Carlitos» disse-me ela com os olhos inundados de água, «estamos sós numa noite de consoada.»
«Mas está com o filho que mais lhe quer.»

Agarrou-se a mim e chorou, fazendo-me chorar também.

Saímos e subimos a rua da Madalena em direção ao Rossio. Eram quase nove horas da noite. Estava frio, mas o frio maior vinha dentro de mim. Como era possível naquela noite não termos a família junta como era hábito? Entrámos num restaurante de frangos da rua Jardim do Regedor. Apenas um casal de idosos estava na sala. Provavelmente não teriam filhos nem família. Sob a mesa deles viam-se embrulhos embalados em lindos papéis coloridos, certamente presentes de Natal. Apeteceu-me sentarmo-nos junto deles e dizer: por favor façam-nos companhia, estamos sós e a minha mãe sofre, temos família mas esta noite não.
Hoje tê-lo-ia feito.

Comemos bacalhau e frango em silêncio, com mais vontade de chorar do que comer.

Pouco passaria da dez horas quando saímos. Atrás de nós alguém nos seguia e nos abordou: «desculpe, minha senhora, é seu filho»?
«É sim, senhor», respondeu a minha mãe.
«Eu conheço-te» disse ele dirigindo-se a mim, «não trabalhas na "Transagraire"?» Era um escritório na rua do Comércio onde na realidade eu trabalhava.
«Trabalho, sim»...
«É natural que não te recordes de mim, mas costumas ir à "Pombalina" lanchar.»

Era verdade, por baixo do escritório, havia uma pastelaria onde eu ia amiudadas vezes não só lanchar como buscar refrigerantes ou cafés para os meus colegas do escritório.

O casal de idosos que estivera a jantar no mesmo restaurante, tinha estado a observar-nos. Era o dono da "Pombalina" e a sua esposa.

«Onde moram?»
«Em Campolide», informou a minha mãe.
«Eu e minha mulher, íamos passar a meia-noite em casa, sozinhos» e logo de seguida «estão sozinhos também»?
«Sim» disse a minha mãe.
«Não pretendo ser indiscreto, mas para onde vão agora?«
«Para casa, o meu marido e meus dois outros filhos não estão cá»...
«Seria um prazer para nós se nos fizessem companhia, já seríamos quatro e em conjunto festejaríamos a meia-noite.»

Moravam na rua das Pretas, numa grande casa, com muitas divisões. É apenas o que me recordo.

Recordo igualmente que a minha mãe entrou na casa daquele casal com dois embrulhos e saiu com quatro.

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Quantos milhares de pessoas passam noites de Natal, de Fim de Ano, de Páscoa de Festas, e todos os dias, sozinhas sem uma mãe?

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Foi um Natal triste mas feliz
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Nota: As imagens inseridas neste texto foram retiradas da Internet

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sê Feliz Onde Quer Que Vivas

Decorria o mês de maio, a época balnear tinha já passado; mas o sol queimava e a praia quase deserta não deixava de ser convidativa, principalmente para nós portugueses, habituados a frequentar a praia apenas nos meses de verão.


Pouco mais de uma dúzia de banhistas, na sua maioria estrangeiros, banhava-se nas águas quentes de Copacabana. Uma grande parte dos veraneantes, estrangeiros e não só, corriam ou passeavam no "calçadão". Um rapazola mulato, sob um guarda-sol, oferecia aos passantes as suas bebidas frescas, resguardadas do calor numa mala térmica.

«Eh, amigo, quer uma acerola fresquinha?»

«Agora não, obrigado, vamos primeiramente dar um mergulho», respondi dando a mão à minha mulher.

«Vão que eu depois passo por lá e levo-vos uma bebida. Não precisam de aqui vir. Daqui eu vejo onde se acomodam. O que querem beber?»

Araci, o rapazola mulato, apareceu com um sumo de acerola e uma cerveja tão fresquinha que me admirei. Um rapaz simpático, falador, atencioso, aliás como quase todos os brasileiros, mas principalmente tão prestável que sempre que íamos à praia era a ele que encomendávamos as bebidas.

Vivia numa favela, no morro do Corcovado. A namorada, uma brasileira bonita e bem constituída, empregada de balcão numa loja de roupa de senhora, no centro do Rio de Janeiro, vivia com os pais numa casa próximo da praia da Tijuca.

«Eu gosto de viver lá no bairro (na favela), a vida é muito mais barata ali», dizia o Araci, «a comida no restaurante é menos de metade do preço dos restaurantes daqui de Copacabana, mas a minha namorada não quer ir viver para lá...»


O rapaz contou-nos maravilhas daquela favela, como vivia na sua casa de duas assoalhadas, cozinha e casa de banho, dos amigos, da boa vizinhança, dos bons e baratos restaurantes, das lojas onde comprava a roupa, os utensílio para a sua casa, as mercearias e tudo o mais que havia no Rio, havia ali no bairro e muito mais em conta.

O transporte para sua casa era o trem, elevador que nos leva do Rio de Janeiro até ao Cristo Redentor, no cimo do morro do Corcovado, a 710 m de altura.
Por toda aquela encosta, do sopé ao topo, as favelas abundam e os turistas que sobem ao morro pelo trem, para desfrutarem da vista e apreciar a estátua do Cristo Redentor com os seus 38 m de altura, deparam com as variadas paragens para recolher ou largar passageiros.

Araci era um rapaz cheio de vida, alegre e feliz.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Aposentação

Dedicado a ti meu caro amigo aposentado e a ti que te vais aposentar; e a ti também que, embora novo, lá hás de chegar, já não tens a quem obedecer, em quem mandar. Estás em casa e não tens de te levantar cedo, não precisas de sair todos os dias; podes ficar na cama e dormir até ao meio-dia, até às quatro ou seis horas. Podes passar o dia sentado no sofá e ver televisão, telenovelas ou futebol, podes adormecer sentado, ressonar, babar-te, podes conspurcar-te porque ninguém te enfada, te chateia. Podes envenenar-te com tudo isto; mas pensa, pensa como um adulto, não como uma criança. Não estás enfermo, inválido, não estás num hospital, estás em tua casa.
Olha-te ao espelho; enquanto tens um pouco de energia deves consumi-la. Tens um jardim? Trata dele, rega, planta, limpa, semeia, poda essas árvores ou corta essa relva. Convida os teus netos para com eles brincar. Vai fazer compras, vai passear, visita amigos, museus, exposições. Abriu um novo espaço habitacional, já la foste? E aquele jardim perto de tua casa, há quantos anos não o atravessas?
Lê um livro, vai a um cinema, a um teatro, escreve nem que seja para ti; relê o que escreveste e apaga, escreve novamente. Consulta a Internet nela tens jornais, livros, revistas, blogues, visitas a países longínquos, já visitaste a tua terra na Internet? Lembra-te que estás vivo. Tens mais dez, mais vinte anos à tua frente e mesmo que tenhas só mais um ou dois podes ainda fazer muito por ti próprio. Despe esse pijama, arranja-te, veste a tua melhor roupa e sai, sai desse mausoléu nem que seja para dares a volta ao quarteirão. A tua casa não é um asilo nem uma prisão.
Procura os teus amigos, a tua família, os teus conhecimentos, aparece, diz a todo o mundo que estás vivo... qualquer dia pensam que morreste. Viaja, gasta o que tens porque não o vais levar contigo.
Não fiques em casa a resmungar, não impliques com os vizinhos, deixa o cão do vizinho ladrar à vontade, não batas no teto porque a tua vizinha não se descalçou. Não rabujes com a tua nora ou a tua sogra, vive e deixa viver. Não penses que por seres velho já sabes tudo; com os nossos filhos ou nossos netos também aprendemos, não sejas presunçoso.
Recorda-te sempre meu amigo: a vida são dois dias - VIVE HOJE - AMANHÃ PODE SER TARDE.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Escrever, apenas escrever

Há uns dias atrás um leitor dos meus blogues, (não se identificou por isso não sei o seu nome) escrevia-me: «também gostava de escrever, mas não sei o quê, nem como começar.» Respondi-lhe pelo meu blogue, não sei se leu, que escrevesse qualquer coisa, mesmo sem assunto, mas que escrevesse aquilo que lhe ia na alma, mas que escrevesse.

Hoje, após algum tempo de interregno, no meu blogue claro, resolvi, tal como lhe tinha dito, escrever: escrever por escrever, mesmo sem assunto, mas escrever. Espero que este leitor leia este blogue e se entusiasme.

Não sei ainda o que daqui vai sair mas tão pouco Interessa, O principal é escrever, desde que não sejam disparates, asneiras, maldizeres, imbecilidades, cretinices tudo nos é permitido.

Poderemos escrever sobre o que se passou hoje, ontem ou na semana passada, poderemos escrever sobre aquele telefonema que recebemos ou que fizemos; da conversa no café com o nosso amigo ou pura e simplesmente descrever o dia passado no trabalho ou das notícias lidas e ouvidas; a propósito: têm ouvido o folhetim "Carlos Queiroz"? Aquele senhor do futebol que disse palavrões e mandou uns senhores da brigada antidoping para a c... da mãezinha deles? Temos de concordar que não é bonito, que não fica bem a um senhor que seleciona a equipa nacional de futebol, dizer palavras feias, palavras injuriosas, palavras que nem eu, que não sou selecionador de uma equipa de futebol, seria capaz de dizer.

Se estiverem com o senhor Queiroz, digam-lhe por favor que não me leve a mal; mas eu corroboro com o senhor Laurentino Dias, digníssimo Secretário de Estado do Desporto e na decisão da pena a aplicar de seis meses de suspensão a que está sujeito. Como amigo do senhor Queiroz, eu dar-lhe-ia mais seis meses ou ainda mais; mas como não sou da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP)... todavia acho por bem que tencione apresentar recurso no Tribunal Arbitral do Desporto e, com um pouquinho de sorte, se não disser mais palavrões, poderá ser que a pena lhe seja reduzida de seis meses para cento e setenta e nove dias.

sábado, 3 de julho de 2010

A EDP e a Cultura

A antiga Central Tejo, actual Museu da Electricidade desde Maio de 2006, está de parabéns; mais uma vez nos apresenta uma exposição digna, rica em pintura, desenho, fotografia, escultura e cinema, de famosos artistas.




Conceituados coleccionadores não se privaram de "emprestar" ao POVO as suas valiosíssimas obras a fim de este se deleitar e apreciar a arte que é do povo, das gentes, da população e, em resumo: a nossa arte.


POVO - assim se chama a exposição.

Dividida por meia dúzia de salas onde a "Política", "Trabalho", "Habitação", "Consumo" e "Sociedade", estão patentes, mostra-nos não só a arte do povo e para o povo, como também textos literários e frases (sloganes) que fazem parte da história, como estas:


  • o POVO é sereno;

  • o POVO é quem mais ordena;

  • diz-me quem és;

  • ganharás o pão com o suor do teu rosto;

  • casas do POVO;

  • queres fiado? Toma!;

  • se isto não é o POVO, onde é que está o POVO?
Por ordem alfabética: Amadeo de Sousa Cardoso, Álvaro Cunhal, Eduardo Gageiro, Joana Vasconcelos, José Dominguez Alvarez, Lima de Freitas, Maria Helena Vieira da Silva, Paula Rego, Rafael Bordalo Pinheiro, são uma pequeníssima parte de alguns dos artistas, que nos brindam com as suas pinturas, fotografias ou esculturas.




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Aos digníssimos coleccionadores, privados ou públicos, quero agradecer a oportunidade que nos deram de podermos apreciar as suas colecções.

Maria Eugénia Cunhal, Fundação Calouste Gulbenkian, EDP, Museo Extremeño Ibero Americano Arte Contemporaneo (MEIAC) -Badajoz, Casa das Histórias Paula Rego, Museu Nacional Soares dos Reis, Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, etc., etc. Estes são alguns dos coleccionadores que emprestam à galeria as suas obras, tornando este espaço num lugar de cultura, ócio e prazer.

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Esta exposição, tal como deveriam todas ser, é de entrada gratuita. Um POVO, para além do seu PIB, mede-se também pela sua cultura, pelos seus conhecimentos. A cultura não vem da escola. A cultura não se estuda, adquire-se. O acesso às bibliotecas, exposições, colóquios, palestras, deveriam ser todas com entrada livre.
























Interrogado sobre a diferença existente entre os homens cultos e os incultos, Aristóteles respondeu: «A mesma diferença que existe entre os vivos e os mortos.»


«A cultura é tudo aquilo que resta depois de se ter esquecido tudo o que se aprendeu.»
Frase da novelista sueca Lagerlof, Selma (1858-1940)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

José Saramago

Ficou o País mais pobre no respeitante à cultura; não ponho isso em causa, mas não haverá um quanto de exagero? Não haverá um pouco de mediatísmo em redor de tudo isto?


José Saramago, o polémico, adorado por uns e desprezado e odiado por outros, deixou a vida terrena. Todos desejamos que a sua alma repouse em paz, embora a sua ideologia não previsse que a tivesse.


Não teria sido o controverso "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" em 1991 e mais ainda o Nobel recebido em 1998, que fez exaltar e insuflar a importância de José de Sousa Saramago? A sua literatura será assim tão importante que mereça a atribuição em 1995 do Prémio Camões? São dúvidas que se me debatem após a leitura de alguns dos seus livros.


Não sendo letrado, mas após a leitura de: A Viagem do Elefante; Ensaio sobre a Cegueira; Todos os Nomes; perguntei-me: Que pretende este escritor dizer? Que moral posso tirar destes livros? Para além da forma estranha e estilo da sua escrita, utilizando frases e períodos compridos e pontuação duma forma não convencional; os diálogos inseridos nos mesmos parágrafos obrigam-nos a retroceder na leitura para uma melhor compreensão. Os travessões são inexistentes e por vezes confundem-nos num certo diálogo se é real ou apenas um pensamento.
Dirão uns: «é um estilo de escrita, por sinal já adoptado por alguns novos escritores.»
Pergunto eu: «mas não há normas? A partir de agora serão substituídas as normas por estilos?»
Cada escritor optará por um estilo e em breve ninguém entenderá o que é correcto ou errado.
Memorial do Convento; não o consegui acabar; tenho aqui uns quantos livros que comprei e outros que me ofereceram ainda não lidos, porquê perder tempo com o Memorial do Convento se não me agrada aquele tipo de escrita?
Eu sei o que me vão dizer, mas não tenho culpa de não ser do meu agrado esta escrita, ou não estar preparado para "uma literatura tão evoluída".
Não é por discordar da sua ideologia que critico os seus livros. Gosto muito de ler e pela primeira vez, em centenas de livros lidos, uns bons outros maus (para o meu gosto claro), não o acabei.
Recentemente passou na TV o filme Ensaio sobre a Cegueira. Sabia que fora apresentado no 61.º Festival de Cannes, mas não foi por isso que me deu vontade de o ver. Tive curiosidade em saber como o cineasta brasileiro Fernando Meirelles se descalçaria, produzindo um filme do livro, que à partida me parecia difícil se não impossível de transpor para a película. Conseguiu-o com mérito. De uma forma geral os livros são superiores aos filmes; são minimizados alguns comentários, suprimidas muitas cenas e como é óbvio muitas vezes impossível transportar para a tela uma ideia, um pensamento. Desta vez foi o filme que suplantou o livro.

sábado, 19 de junho de 2010

1910 - 2010

A Real Fábrica da Cordoaria da Junqueira data de 1779. Tal como o nome indica, está sedeada na Junqueira, a Belém. Era ali que se fabricavam as cordas de sisal, se teciam as velas e bandeiras para as Naus que navegaram por esse mundo fora. Actualmente dedicada ao "fabrico" de exposições e eventos.
Não resisti em visitá-la.

"Viva a República", representada neste espaço de mais de uma dúzia de salas com paredes cobertas por centenas de fotografias sobre um fundo cor de sangue, do sangue derramado pelo regicídio a 1 de Fevereiro de 1908, pelo assassínio de Sidónio Pais, a 14 de Dezembro de 1918 e muitas outras mortes. Recortes de jornais, descrições em grandes cartazes alusivas aos acontecimentos na época. De 1878, ano do primeiro programa republicano, até à Constituição de 1933, a cronologia está bem patente nas sucessivas salas e corredores que as separam, estes igualmente decorados com gigantescas fotos, cartazes, jornais, etc.


Dezenas de filmes da época compõem a exposição; filmes da revolução; filmes mudos de inocentes passagens, como por exemplo: a actividade têxtil na Covilhã; filmes de guerra; filmes de pesadelos; filmes de tropas; filmes do Terreiro do Paço. Filmes restaurados e passados ao sistema digital, graças à Cinemateca e ao ANIME.
A passagem pela primeira guerra mundial, as greves, a fome, os tumultos e saques a estabelecimentos comerciais, provocados pela escassez de bens alimentares, os sucessivos golpes de estado e queda de governos, tudo isso muito bem representado nesta exposição.
No amplo Hall de entrada deparamos com a recepção, onde a simpatia de duas senhoras nos acolhem com um sorriso. Ao fundo em frente, um diapositivo da República e à esquerda um filme duma banda tocando a "Portuguesa". Uns quantos "RRR" vermelhos decoram o chão, R de República. É o início da exposição.

Por estreitos corredores vamos passando de salão em salão. De 31 de Janeiro de 1891, data em que o Partido Republicano desencadeou no Porto a primeira tentativa gorada contra a Monarquia, passando pelos comícios na Avenida Almirante Reis, (antiga Avenida D. Amélia), ou as fotos de José Relvas proclamando a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa. Tudo isto bem documentado com fotografias e filmes.




Um outro filme numa outra sala e o Escudo Nacional focado por um projector. Os rostos de 4 dos revolucionários do 5 de Outubro: José Relvas; António José de Almeida; Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, nomes sobejamente conhecidos como nomes de ruas, largos ou hospitais.
A exposição mostra-nos o percurso do triunfo da ideia republicana, a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra, a vida política, social, cultural e artística.
A eleição do Presidente Arriaga a 24 de Agosto de 1911, a partida de tropas para África, lideradas por Afonso Costa, a eleição de Sidónio Pais em 1918, no dia 28 de Abril e a sua morte no dia 14 de Dezembro desse mesmo ano, tudo isto documentado com filmes, fotografias e jornais.
A subida ao "trono" de Salazar e Américo Tomás é igualmente retratada por fotos e filmes.





















Uma exposição a não perder por aqueles que gostam de história.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Neologismos

Que DESDE OS Americanos se lembraram de Comecar Chamar EAo uma pretos "afro-Americanos", vista com um Acabar com a Raças Por via gramatical TEM, ISTO Sido Pegado fartote um. Como nsa Anos criadas 70, passaram uma Chamar-se "Domésticas empregadas" e preparam-se ágora parágrafo receber uma menção de "auxiliares de Apoio Doméstico".

De Igual MoDo extinguiram-se NAS Escolas OS Que passaram contínuo Todos um "auxiliares da Acção Educativa". Os Vendedores de Medicamentos, prosapia Alguma com.br, tratam-se Por "delegados de Informação Médica". E, MESMO Pelo Processo transmudaram-se OS caixeiros-in Viajantes "Técnicos de Vendas".

O aborto eufemizou-in se "interrupção Voluntária da Gravidez". grupos étnicos São Os "Grupos de Jovens. " Os Operários fizeram-se de repente "Colaboradores". Como Fabricas, essas, vistas de Dentro "São Unidades produtivas", vistas da estranja São "Centros de DECISÃO Nacionais".

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o Passo a literacia galopante.
Desapareceram dos comboios como 1. ª e 2. Classes ª, parágrafo nao Ferir uma susceptibilidade das Massas sociais hierarquizadas, MAS Por imperscrutáveis Necessidades de Tesouraria continuam cobrar-se uma precos NAS classes Distintos "
Conforto e Turística".

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou Mãe Solteira ...», ágora, Se Quiser Acompanhar Novos Tempos OS, alterar desenvolvi uma letra da pungente melodia:« Tenho UMA família "monoparental"... »- eis o verso da cançoneta novo, Se Quiser Fazer jus à Modernidade impante.


Aquietadas Pela Televisão, por ai Crianças irrequietas pinotes EAo veem e 'terroristas JÁ SE nao, Diz-se modernamente hum dez Que "disfuncional hiperactivo Comportamento".
Do MESMO modo, e parágrafo Felicidade dos
encarregados de Educação, OS Brilhantes Programas escolares extinguiram OS Alunos cábulas, os tais Estudantes Serao, quando Muito, "Crianças de Desenvolvimento Instável".

HÁ CEGOS Ainda, infelizmente. Mas Como A Palavra Fosse considerada desagradável e comeu aviltante, Quem Vê nao e considerado "invisual". (O Termo e gramaticalmente impróprio, Como Seria impróprio Chamar "inauditivos"EAo surdos; Mas o politicamente correcto marimba-se Pará como regras gramaticais ...)

Como putas passaram um ser "senhoras de Alterne". Pará COMPOR O Ramalhete e ares daRem si mesmo, como gentes cultas da praça desbocam-se in implementações, posturas pró-Activas, Políticas fracturantes e Outros barbarismos da Linguagem.
E, ASSIM
linguajamos o Português, vagueando Perdidos Entre uma "Política correcção 'EO novo-riquismo Linguistico.

ESTAMOS COM lixados Este novo português; admiração Que o Pessoal tenha CADA Vez Mais nao esgotamentos e stress. JA nao se Diz O Que PENSA SE, TEM de se Pensar O Que Diz se de forma politicamente Correcta.

E Ainda Falta esclarecer Que Tradicionais 'estao in anões OS vias de Passar uma "verticalmente desfavorecidos cidadaos"...
Os Idiotas e imbecis Passam um designar-se Por "
atitude com indivíduos nao vinculativa".
Os pretos passaram um ser "PESSOAS de cor".
O mongolismo Passou um designar-se "
síndroma do cromossoma 21".
Os Gordos e Magros OS passaram um ser "
PESSOAS COM Disfunção Alimentar".
Os mentirosos Passam um ser "
PESSOAS COM Muita Imaginação"
Os desfalques Que Fazem Empresas NAS e São descobertos São "
Grande PESSOAS COM Visão Empresarial Mas Que estao rodeados de invejosos".
Políticos e autarcas do Pará, Que AFIRMAR "IMPUNIDADE eu tenho judicial, substituido FOI POR"Estar de Consciência tranquila".
O Conceito de Corrupção organizada FOI substituido Pela Palavra "
Sistema".
Difícil, dramático, desastroso, congestionado, Problematico, etc, serviços Passou um sinónimo de Complicado.
E assim vai o nosso léxico e a Nossa Gramática.
Texto retirado de um e-mail recebido de autor desconhecido e, adaptado para este blogue