terça-feira, 29 de março de 2011

O Facebook e o rato


De tempos a tempos visito o Facebook; por graça e para ver se algo de importante ou agradável aparece nesta “rede social”. Por vezes, se algo aparece de insólito ou interessante, comento.
Há uns dias atrás comentava uma senhora: «não consigo fazer nada, tudo isto está muito lento, até o rato não anda, será que acontece convosco o mesmo?»
Comentei: «Será falta de queijo?» Ofendida, a referida senhora escreveu: «está uma pessoa aflita, a pedir ajuda, e aparecem estes “xatos” (com um X) a intrometerem-se…» cortei-a das minhas relações, mas logo me arrependi. Gostaria de lhe ter respondido de imediato.
Não sei se lerá este meu blogue, mas espero que alguém lho faça chegar. Não me recordo o seu nome e, desta forma, não lhe poderei escrever diretamente.

Minha cara senhora.
Como se deve ter apercebido, esta rede social não é mais do que um passatempo, onde, na maioria senhoras mas não só, se entretêm a escrever e comentar pequenos e banais acontecimentos ou mesmo importantes. Brincadeiras e graças aparecem constantemente e, pelo que me tenho apercebido, nunca vi nenhum comentário menos digno ou ofensivo.
A sua modesta cabeça não sabe distinguir uma graça duma ofensa. A sua falta de humor não se limita a isto, verifica-se também a falta de conhecimentos técnicos de informática. Desde quando um rato tem a ver com a lentidão da Internet? O Muro das Lamentações fica em Jerusalém, no Templo de Herodes. Ali, são habituais as lamentações e mesmo assim, em silêncio, para que ninguém as oiça, mas se não quiser ir tão longe, faça-o contra a parede do seu quarto virada para Meca ou com as suas amigas mais íntimas, nunca em público e muito menos descritas.

Receba, se quiser, os cumprimentos do humorista Carlos Soares.   

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Patinho Feio

O Faustino era um menino negro, único na escola de brancos. Frequentava o nono ano com apenas 14 anos. Invejado e desprezado pelos colegas mais velhos de ambos os sexos. Era meigo, cortês e admirado pelos professores. A Rosinha, chefe de turma, não desgostava dele, mas pretendia não desagradar aos restantes colegas e por isso, evitava-o. A Fernandinha de 17 anos, a mais velha da turma, repetente e indisciplinada, era colega de carteira da Rosinha. Gostava do Faustino e reparava na empatia que Rosinha nutria pelo Faustino.

Estavam no recreio. Necessitavam dum décimo elemento para um torneio de futebol. Apenas restava o Faustino. Uma das equipas teve de o acolher e colocou-o na defesa. Espanto! Corria e dominava a bola como ninguém. Em poucos minutos introduziu a bola na baliza adversária. Protestos. O árbitro, um professor, validou o golo e mostrou um cartão amarelo a um dos jogadores. O Jogo continuou com encontrões, rasteiras e atropelos ao "patinho feio", como lhe chamavam. 

O começo de uma simpatia começava, mas a medo, sem demonstração nem manifestação. Em seguintes jogos disputavam-no e a equipa adversária castigava-o com pontapés, cambapés ou empurrões. Nunca se queixou.

Numa tarde de balburdia entre colegas femininos, Fernandinha agride a Rosinha que, desequilibrando-se, cai pela escadaria de pedra. Faustino que observara a cena, corre pelas escadas abaixo e tenta socorrer a colega. Depressa é incriminado pelos colegas que, apesar de nada terem visto, tentam arranjar um cúmplice. Faustino é expulso da escola.

Na cama do hospital encontra-se a Rosinha rodeada pela família. A medo, Faustino aproxima-se. Deixa um pacotinho com bolos e um papel escrito. A Rosinha desvia o olhar como que a evitá-lo. Faustino, sorrateiramente afasta-se. Os pais da miúda olham a caixa dos bolos e leem o papel. "Não tenho dinheiro para mais, deixo-te aqui dois bolos e espero que depressa regresses a casa."  
No dia seguinte Faustino regressa com mais um pacotinho e mais um papel escrito. Esconde-se e espera que a Rosinha esteja só. Entra. Pousa o pacotinho em cima da mesa e diz à Belinha: «estás melhor? Desculpa, hoje só te pude trazer um bolo.» Rosinha olha-o mas não diz nada. Fecha os olhos. 
Dois dias depois a garota tem alta. Tinha sofrido pequenas escoriações.

A mãe de Faustino preparava-se para sair quando lhe batem à porta.
Uma criança loira, com um ar comprometido, timidamente pergunta «o Faustino está?»
«Está sim o que querias?»
«Queria ir com ele à escola e falar com o senhor diretor»
«Para quê?»
«Não foi ele que me empurrou, foi uma colega, mas não me recordo qual.»
«És a Rosinha?»
«Sim, minha senhora.»
«FAUSTINO! Está aqui a tua colega Rosinha»
Faustino correu para a porta. «Não estás zangada comigo?»
«Não, eu sei que não foste tu que me empurraste, estavas longe de mim e foste o único que me tentou socorrer. Vem comigo, vamos à escola. Quero que duma vez por todas deixes de ser o "patinho feio", tu és bom e vamos resolver este assunto. Quero que voltes para a minha escola.»

A mãe de Faustino olhou as crianças saírem de mãos dadas em direção à escola e não pôde evitar uma lágrima.

Uma enorme faixa com a inscrição: BEM-VINDO PATINHO FEIO FAUSTINO, sobre as palavras PATINHO FEIO, um traço grosso a vermelho riscava-as. Os colegas receberam-no com palmas e gestos de amizade, dando-lhe palmadas amigáveis, gritando: «VIVA O FAUSTINO, VIVA O FASUTINO». 

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Português Que Nos Pariu

O Português Que Nos Pariu, por estanho que pareça, não é mais do que um título de um livro; todavia, se vos disser que foi escrito por uma brasileira, a Ângela Dutra de Menezes, também ela bisneta de um português, não parecerá assim tão estranho. Um bestseller no Brasil, já em 6.ª edição (em 2000).
Humorística e de certa maneira ironicamente, descreve a história de Portugal desde o dom Afonso Henriques até finais do século XIX. Os reis e os descobridores, a igreja e a inquisição, os espanhóis e os mouros, as guerras santas e as batalhas, tudo é confrontado com o sarcasmo e sátira da escritora. Com uma narração agradável ao jeitinho brasileiro, Ângela, narra cronologicamente os feitos e desfeitos dos portugueses. Escrito em português do Brasil, mas ortografado em português de Portugal, encontramos neste livro a nossa história bem documentada e divertida que nos apraz ler.
Bisavô português é igual carro a álcool: todo o mundo tem um, diz ela quase no final do seu livro. É na realidade uma verdade pura. Se perguntarmos a um brasileiro quem foi seu avô ou bisavô, na maioria das vezes ouviremos: «foi português».