terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As Putos, As Putos

A D. Aninhas, velhinha com mais de 80 anos, vivia num prédio de um bairro de Lisboeta. Todos os dias por volta das 10 horas ia tomar o seu pequeno-almoço ao café do seu prédio. Descia no elevador e o espaço que mediava entre a porta deste e a da rua, era composto por um pequeno Hall e 5 degraus. Era muito querida por toda a vizinhança, não só pela sua cortesia como também pelo facto de não ter papas na língua, tendo sempre uma resposta brejeira para quem a desafiava.

Numa manhã, a D. Aninhas como sempre, desce no elevador, mas ao chegar aos degraus do Hall de entrada desequilibra-se e cai, esfola um pouco as pernas. Senta-se um pouco nos degraus, aprecia os estragos e resolve ir, a coxear, até à farmácia ali próximo. A D. Fernanda, sua vizinha, vendo-a naquele estado pergunta-lhe:
«D. Aninhas, que lhe aconteceu?»
«Caí nas escadas e vou à farmácia.» Respondeu a D. Aninhas, mostrando as mazelas nas pernas.
«Que horror… o melhor é ir ao hospital. Quer que vá consigo?»
«Não D. Fernanda, obrigado. Se me sentir mal mando chamar uma ambulância.» Após várias recusas da companhia da vizinha, lá continuou o seu caminho a coxear.

«Sente-se um pouco enquanto eu preparo umas compressas para tratarmos dessas feridas» disse a farmacêutica e continuou, «não me parece grave, mas depois de a tratar fique aqui um pouco até as dores lhe passarem. Se for necessário mandamos vir uma ambulância.»
«Não é preciso. Estou bem. Apenas umas dores. Isto já passa.»

Entretanto a D. Fernanda depois de deixar a D. Aninhas a caminho da farmácia, dirige-se ao café lá do prédio.
«D. Branca. Já sabe o que aconteceu?» Enquanto a D. Branca, a proprietária do café, olhava admirada para a D. Fernanda, esta continuou, «a D. Aninhas, caiu aqui nas escadas aqui do prédio e tem as pernas numa miséria. Quis levá-la ao hospital, mas sabe como ela é… preferiu mandar vir uma ambulância.»


A Fatinha, moradora também no prédio da D. Aninhas, entra no café da D. Branca.
«Bom dia D. Branca, dê-me um galão por favor.»
«Bom dia Fatinha, já sabe o que aconteceu à D. Aninhas?»
«Que aconteceu?» pergunta sobressaltada a Fatinha.
«Caiu nas escadas e partiu as pernas. Foi de Ambulância para hospital.»
«Coitada da senhora. Esta escadaria de pedra é um perigo. Logo as duas pernas. Quem foi com ela?»
«Não conhece a D. Aninhas?, teimosa, não quis companhia.» Respondeu a D. Branca.

«Olá Fatinha, bom dia. Quer vir tomar um cafezinho?» Pergunta a D. Bela, sua vizinha.
«Não Belinha. Acabei agora de tomar. Sabe que a D. Aninhas está no hospital com as pernas partidas?» E conta-lhe o que sabia e o que não sabia.
A D. Aninhas depois de se recompor regressa a casa, mas sem vontade de tomar o seu habitual pequeno-almoço. Sobe o 2.º andar, deita-se um pouco e adormece.
Um falatório vindo do hall, acorda-a. Olha o relógio. São duas da tarde. Discretamente abre a porta e tenta aperceber-se do que se passa. Pé ante pé, percorre o corredor do seu patamar até ao vão da escada. Olha para baixo e depara com a vizinhança falando sobre a sua queda nessa manhã.
«…deve estar ainda no hospital» dizia uma das vizinhas.
«O mais certo é ficar lá uns dias e, com aquela idade só de lá sairá em cadeira de rodas» comentava uma outra.
Do cimo da escada, D. Aninhas indignada, diz:
«Boa tarde vizinhas» e, lentamente volta para sua casa cantarolando:

Parecem bandos de abutres à solta as putos, as putos…(*)

                                         
(*) Para os meus leitores que vivem no estrangeiro e por ventura não conheçam a letra original da canção muito em voga, (letra de José Carlos Ary dos Santos) interpretada pelo famoso fadista “Carlos do Carmo”, aqui vai:
Parecem bancos de pardais à solta
Os putos, os putos. (“putos” – nome carinhoso, vulgarmente dado às crianças que, razões óbvias, é apenas atribuído às do sexo masculino. (N. do A.)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ontem, Hoje e Amanhã

Ontem desloquei-me do Porto com destino a Lisboa. Apanhei o comboio na estação de São Bento. Era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa. O comboio saiu à tabela, seriam 8 horas da manhã. Homens de negócios de fatos escuros e chapéus de coco, com pastas debaixo do braço, entravam nas carruagens de 1.ª classe. As damas de vestidos compridos, extravagantes chapéus e sombrinhas, acompanhadas pelos maridos ou não, subiam igualmente para as carruagens de primeira classe, ajudadas pelos empregados da estação que gentilmente as ajudavam a subir colocando um banquinho junto aos degraus das mesmas. Muitos cavalheiros, ao passarem pelas damas, tiravam o chapéu e faziam uma ligeira vénia. Mulheres carregadas de cestos, malas, crianças ao colo, provavelmente em deslocação de migração, ocupavam as carruagens de terceira. Eu, limitei-me a um lugar de 2.ª.
Um longo corredor do lado direito das cabinas com as largas janelas, deixava que os passageiros apreciassem a paisagem que lhes era oferecida ao longo do percurso. O vagão-restaurante oferecia uma modesta refeição ou uma bebida àqueles que, irrequietos, não pretendiam passar as oito horas da viagem sentados a ler ou simplesmente olhar através das janelas. Outros havia que, numa amena cavaqueira, lá iam passando o tempo. Sob a ponte Dona Maria Pia, os barcos rabelos descendo o Douro carregados de pipas do afamado vinho do porto, navegavam para o porto de embarque.
Em Coimbra alguns rapazolas saíram. Provavelmente estudantes em início de mais um ano de faculdade.
Numa das muitas paragens desci do comboio a fim de desentorpecer as pernas. Percorri a gare apinhada de gente com malas de cartão, cestos e um regimento de bagageiros que acompanhava os mais endinheirados. Fui até à máquina a vapor e apreciei os fogueiros que atiravam com achas de lenha para a fornalha, enquanto uma enorme conduta enchia os depósitos de água.
Cheguei à estação de Santa Apolónia cerca das quatro da tarde. Esperavam-me os meus pais. Um senhor, muito bem vestido, com a sua avantajada mão tirou do bolso do colete o seu relógio de bolso preso a uma grossa corrente de ouro. Comparou as horas com as da estação. Uma charrete puxada por quatro cavalos esperava-o. Nós seguimos para casa de táxi.

Hoje levantei-me cedo. O avião que me levaria a Londres partia às 8:30. Dentro do avião, uma elegante e simpática assistente de bordo informava quais as saídas de emergência, mandava apertar os cintos, explicava como colocar as máscaras de oxigénio quando estas caiam do teto, etc. Os cerca de 1.600 km a percorrer seriam feitos em menos de 3 horas, informava o comissário de bordo. O longo e estreito corredor, não era comparado ao do comboio e as janelas minúsculas apenas nos deixavam ver nuvens ou mar, um mar muito distante a cerca de 9km abaixo. Os passageiros dormitavam ou permaneciam calados, uns de fato e gravata, outros desportivamente iam passeando ao longo do corredor.    
Chegámos por volta da 11:20. A estação do metro, Heathrow, levou-me até Sloane Square, muito próximo do hotel, onde me hospedei por quatro dias. Tive oportunidade de visitar o museu de cera Madame Tussauds, London Eye, Big Ben, tower of London, entre outras, deslocando-me de metro ou bus.    

Amanhã é o meu grande dia. Vou de férias por 30 dias. A viagem que sempre sonhei será realizada. Já tinha visto em filmes, programas de viagens, publicidade em revistas e jornais, mas tê-la ao meu alcance não passava de um sonho.
Oito da manhã. O enorme plasma que ocupa quase toda a parede fronteiriça à minha cama, desperta-me. A imagem e voz daquela simpática personagem que me desperta, anuncia: são oito horas. Às nove, um helicóptero estará no seu terraço para o levar à estação de embarque. Depois de repetir não sei quantas vezes aquela frase, respondi com um “obrigado”, pondo fim à repetida frase. Enquanto me arranjava, ia sendo informado das principais notícias do dia. A mesma simpática voz, antes de eu subir para o terraço, dava-me as instruções pormenorizadas do que deveria levar na bagagem. “Nada de excessos”. Mais uma vez agradeci, a fim de lhe dar conhecimento de que tinha recebido a mensagem.
Um hotel espacial esperar-me-ia. Seriam 30 dias no espaço em torno do nosso satélite natural. Estava prevista uma saída desse hotel para uma viagem a um passeio lunar. Ser-nos-ia fornecido um fato espacial, concebido em fibra de carbono, a fim de suportar as condições ambientais extremas. A temperatura à superfície ronda entre os 150 graus centígrados negativos noturnos e os 120 positivos diurnos, obrigando a uma descida à lua a uma hora tal que combine com uma temperatura aceitável e nunca superior a escassos minutos.
O hotel, uma nave com mais de 10.000 m2, era composto por 50 suítes, 2 restaurantes e 3 grandes salas-jardim. Os 250 empregados do hotel lá estariam para nos obsequiar de tudo o que estivesse ao seu alcance.
A viagem dos 400.000 km seria efetuada em 4 dias e durante esse tempo, quer na ida quer no regresso, mostrariam através das largas janelas e teto, tudo em material transparente, todo o firmamento e seus astros. As viagens em torno da Lua mostrariam o nosso planeta azul e as suas fases noite e dia. As máquinas fotográficas com grande zoom ser-nos-iam facultadas para a captação de fotos que jamais iríamos esquecer.
O helicóptero levar-me-ia à estação orbital em Torres Vedras em pouco mais de 10 minutos. A nave “vaivém” partiria com os 50 passageiros destinados ao hotel, na sua maioria casais em lua-de-mel.
Apollo 11 que levara Armstrong à Lua, não passava de uma brincadeira no presente.

Depois de amanhã aonde nos levará o progresso?