sábado, 1 de dezembro de 2018

EMMANUELLE


             Esta história passa-se em Paris, cidade luz, onde o romance é obrigatório e o amor acontece. Cidade onde a noite é destinada a amar, onde é proibido dormir.

               Junto ao rio Sena que, sem pressa, se encaminha para o Canal da Mancha parecendo atrasar o passo no centro da cidade para apreciar os seus majestosos monumentos e parando mesmo ao atravessar, sob as magníficas pontes, vivia a personagem deste romance, Emmanuelle (a partir de aqui o seu nome passará a “Ema” Caret. Da sua janela no último andar daquele prédio na Rue de Rivoli, margem direita do rio, via o famoso Jardin des Tuileries. Muitos dos seus quadros tinham sido pintados nesse jardim. Ema, para além de pintora, era uma conceituada restauradora de obras de arte, profissão que vinha desenvolvendo desde há longos anos. Vivia só. Divorciara-se há algum tempo. A sua filha dera-lhe um neto que era o seu maior tesouro e a sua companhia quando os pais se ausentavam de Paris. Embora reformada continuava a trabalhar no restauro de quadros como sempre fizera e com a mesma dedicação. Ema, uma mulher meiga e carinhosa, dedicava a sua vida ao trabalho, à filha e neto, mas faltava-lhe algo mais; um abraço, um carinho uma palavra doce de alguém como aquele que conhecera um ano após o divórcio.

               Era uma tarde de junho, Ema restaurava o famoso quadro de Velasquez (O Triunfo de Baco), do Museu Nacional Do Prado. Aquele rosto à esquerda, visto à lupa, fez-lhe lembrar alguém que conhecera havia uns anos, Claude Croze. Já não trabalhava na mesma empresa, como pudera constatar. Não tinha nenhum contacto de Claude. Estivera apaixonada por ele. Amara-o profundamente. Porquê lembrar-se dele? Decorrera tanto tempo… esta personagem não lhe saía da cabeça. Que seria feito dele? Seria que o encontraria nas redes sociais? Não resistiu. Ligou o computador e procurou-o. Encontrou. Peço-lhe amizade? Não, não peço. É um homem casado… seria ainda? Todos os dias consultava a sua página, bisbilhotava o passado e presente de Claude, até que se decidiu. Pediu-lhe amizade.

 

               Cerca de três anos antes, Emmanuelle num dos seus passeios pelos Campos Elísios observando as vitrinas, não resiste a uma montra que expunha uma coleção de vestidos, uma coleção de verão. Demora algum tempo a contemplá-la. Ao seu lado um cavalheiro olha-a e, balbucia como se falasse para si próprio «ficava-lhe bem, o azul.»

               Ema não resiste a um sorriso mal disfarçado.

               «Como?»

               «Oh… desculpe, falava comigo próprio.» Responde o cavalheiro olhando-a fixamente nos olhos e não resistindo conclui. «Mas o azul ficava-lhe bem.»

                Emmanuelle desafia-o igualmente com o mesmo olhar, sem pestanejar.

               «Obrigado, mas gosto mais daquele.» Contrapõe, apontando para um outro que tanto poderia ser o verde como outro qualquer.

               «Permita-me que me apresente…» Diz o homem fazendo uma vénia, «Croze, Claude Croze.»

               Ela sorri. Estende-lhe a mão que ele beija.            «Emmanuelle Caret, Ema pour les amis

               Emmanuelle despede-se depois de aceitar o seu cartão-de-visita. Era um vendedor de material para pintura. Talvez seja útil, pensou.

               Já em casa Ema criticava-se a si própria. Mas que imprudente que fui. Porque lhe dei conversa? Devo estar maluca. Pegou no cartão e atirou-o para o cesto dos papéis. À noite, já na cama, pensou nele. Levantou-se e foi recolher o cartão-de-visita. Voltou a lê-lo. Preciso de pincéis. Vou guardá-lo.

               Ema tentava esquecer aquele homem, mas havia qualquer coisa no seu olhar que Ema não conseguia resistir. Resistiu 8 dias. Telefonou-lhe. Precisava de uns pincéis com pelo de marta e pediu-lhos.

 

               Claude recebe um pedido de amizade através das redes sociais. Era da sua ex-namorada Ema, que não via há algum tempo. Tinham-se zangado por um capricho sem fundamento.

               Foi o início de uma troca de correspondência que, a partir daí, começou a ser diária. Reavivaram os bons momentos passados uns anos antes. Recordaram como se conheceram, como se apaixonaram nos primeiros encontros, as tardes passadas sobre as magníficas pontes que cruzam o rio Sena e que eram palco dos abraços e beijos a que não resistiam, dos passeios noturnos após o jantar em restaurantes junto ao rio, nas noites loucas de amor que jamais esqueceriam.

               Renasceu assim o mesmo amor que nutriam e, sem se aperceberem, viram-se envolvidos novamente numa noite de outubro numa cama de hotel.

               «Oh, querida, como foi bom teres-me encontrado.» Disse-lhe ele abraçando-a com carinho e beijando-a com ternura.

               Ema nada disse, limitando-se a olhá-lo com o mesmo olhar com que o cativara, envolvendo-o com os seus braços e beijando-o apaixonadamente.

               Nos meses seguintes, os telefonemas e mensagens tornaram-se constantes. Pela manhã ao acordarem havia sempre um carinho no telemóvel. As mensagens de hora a hora apareciam nos Smartphones de ambos. Amavam-se pela madrugada dentro em mensagens. Escreviam loucuras de amor um ao outro.

               «Querido, é tão bom ter-te aqui agarradinho a mim.» Escrevia Ema nas suas mensagens.

               «Tens os pés tão frios, amor… vou aquecê-los,» respondia Claude e continuava… «vou aquecê-los com os meus beijos.»

               Muitas noites eram passadas a amarem-se platonicamente.

               Claude insistia num novo encontro, mas Ema esquivava-se.

               «Amor, eu queria, mas não posso, não devo. És casado.» Dizia Ema.

               «Vamos tomar um café apenas.» Insistia Claude.

               Passavam os meses e Ema rejeitava sempre quaisquer encontros. Amava-o, mas não queria voltar a vê-lo. Era um homem casado e não queria sofrer como sofrera outrora quando soube que Claude era casado. Debatia-se constantemente contra a sua consciência. Chegou mesmo a dizer-lhe que se arrependera daquele fortuito encontro. Agora já não lhe dizia “eu queria, mas não posso, não devo”. Agora era: NÃO QUERO, NÃO POSSO, NÃO DEVO. As zangas começavam novamente. Ainda houve uma tentativa de se tronarem apenas amigos, mas não resultou. Cada vez se tornavam mais agressivos. Por duas vezes o cortou do Facebook e por duas vezes lhe reenviou o pedido de amizade. Ela sofria e fazia sofrer aquele que amava. À noite pensava nele, virava e revirava-se na cama pensando tê-lo junto a si. Acariciava o seu corpo pensando que as suas mãos eram as dele. Doía, doía muito amar aquele homem que não era seu.

               Ema não queria gostar dele, mas não conseguia esquecê-lo. Implicava com tudo o que ele escrevia ou dizia. Começou a tratá-lo com rudeza, chegando mesmo a tratá-lo mal. Claude tentava apaziguar e esquecer, não gostava da reviravolta daquela que também amava. Emmanuelle já não era a Ema de há uns pares meses, a apaixonada, a romântica, a carinhosa. Tornara-se arrogante, menos feminina e até revoltada.

 

               Uma certa tarde Emannuelle recebe uma chamada de uma mulher que de imediato reconhece ter-se enganado no número. Ema não acreditou tratar-se de um engano, pensou em tudo menos num engano. Furiosa telefona a Claude.

               «Deste este meu número a alguém?»

               «Não, Ema. Que disparate…»

               «Telefonaram-me, uma mulher.»

               «Que queria?»

               «Disse-me que foi por engano.»

               «É natural, porquê essa indignação?»

               «Dá-me o telefone da tua mulher. Não confio em ti. Deixas o telefone por aí…»

               Claude deu-lhe o número. Não era o mesmo da chamada recebida.

               Estas cenas começaram a ser diárias e Claude, sempre que Ema lhe vinha com estas conversas, ficava furioso e deixava de escrever por uns dias até que um cedia e voltavam às conversas, agora mais espaçadas.

               Um dia, Claude cansado daquelas atitudes, da forma como ela falava, dos ataques e falta de confiança, convenceu-se que Ema se cansara, que queria que tudo acabasse. Deixa de lhe escrever.

               «Ema já não me ama. Penso que queira acabar definitivamente. Vou fazer-lhe a vontade. Não suporto mais as suas mensagens cheias rancor.» Pensava Claude desesperado. Um dia tinha-lhe dito: prefiro o teu silêncio, dói menos que menos que as tuas amargas palavras.

               Ema, furiosa, elimina o número guardado no seu telefone e corta-o do Facebook. Mais de um mês passou sem que soubessem um do outro.

               Finalmente tudo tinha acabado, pensava Ema. Ou melhor, pensava a sua consciência, porque Emmanuele não dormia, não suportava aquele fim. Não tinha o seu amor nas redes sociais, não sabia o seu número de telefone por o ter eliminado e não queria voltar a pedir-lhe novamente amizade. Que seria feito dele? Olhava o telefone repetidamente na esperança de uma mensagem. Não, Claude não fugiu. Vai voltar. Amanhã receberei um telefonema ou uma mensagem. Estes pensamentos eram diários e a preocupação começava a tornar-se extenuante e preocupante. Acontecera alguma coisa? Claude, Claude, telefona-me. Telefona-me amor. Há 63 dias que não falava com ele e nunca mais recebera notícias. Por sua vez Claude deixara de abrir, escrever ou colocar fotos no Facebook. As noites tornaram-se atrozes e cruéis. Não dormia, queria saber do seu Claude, mas não queria pedir-lhe mais uma vez amizade. Se Claude gostava dela, devia contactá-la. Ele era orgulhoso, mas ela também o era. Foi ele que me deixou de contactar, se gostasse de mim escrevia, mandava uma mensagem. Gostava apenas de saber se está bem. Teria acontecido alguma coisa? Eram estes os pensamentos constantes de Ema, mas principalmente à noite quando se deitava. Durante o dia ia-se entretendo com o restauro do quadro. Não o odiava, mas tinha-lhe raiva.

              

               Três meses decorreram e nada de notícias de Claude. Começou a preocupar-se e pensou no pior. Não lhe iria pedir amizade, mas ia mandar-lhe uma mensagem. Mas como?

               Não resistiu e pediu-lhe amizade. Oito dias passaram sem receber resposta. Mais preocupada ficou.

               «Estaria doente? Num hospital? Terá arranjado outra? Ó meu querido Deus…»  não decorara o número do seu telefone. Procurou na papelada das suas anotações, mas o telefone não aparecia. Tinha anotado alguns números, mas nenhum de Claude. Havia um número que lhe ocorreu ser o da sua mulher. Mas como iria contactá-la? Que lhe diria? Pediria a um amigo que o fizesse? Não tinha amigos tão íntimos como isso. Não iria expor-se a explicações do seu íntimo. Teria de ser ela a resolver o assunto.

               «Madame Croze? Fala do BNP Paribas, o seu marido está?»

               «O meu marido morreu…» de imediato Ema ficou lívida deixando cair o telefone e quando o apanhou, já a chamada se tinha desligado, por isso não ouviu o resto da frase «… pelo menos para mim 

               «Ó meu Deus, porque me castigas. Não merecia isto. Por favor… traz-mo de volta. Não acredito que tenha morrido.» Chorava Ema copiosamente.

 

               Três meses aproximadamente decorreram após aquele telefonema. O trabalho de Emmanuelle parara e limitava-se a deambular pelas ruas, ver vitrinas. Não podia desabafar com as amigas, doía-lhe o coração. Emagrecera.

               Numa tarde de verão descendo os Campos Elísios, Ema parando nesta ou naquela montra recordava os passeios que tinham dado por aquela avenida, ficava-lhe bem o azul. Recordou as primeiras palavras proferidas por Claude. De repente tem uma visão. Seria possível?

 

               Nessa mesma tarde, mas em sentido contrário, Claude subia os Campos Elísios em passo lento, também ele olhando as montras alheio a quem passava olhando os transeuntes, mas não vendo ninguém.

               «CLAUDE!» Grita uma voz.

               Claude olha para o local de onde vem a voz. Fica paralisado.

               «Ó, ó, ó. Ema, amor, tu… tu aqui?»

               «Ó querido.» Exclama Ema atirando-se para os braços de Claude e beijando-o com fervor. E, junto ao ouvido, segreda-lhe: «tua mulher disse-me que… que tinhas morrido…» 

               «Morri, mas renasci para ti.» Disse abraçando-a com ternura colando a sua à boca dela.

               As pessoas olhavam, sorriam e seguiam. Não era normal verem um casal de idosos abraçados aos beijos no meio da rua como dois adolescentes.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

SEMANA AZARADA


Um azar nunca vem só, mas quando o azar se prolonga por todos os dias da semana, algo vai mal.
Foi o que se passou comigo na passada semana. Todos os dias uma pequena peripécia atacou-me. Eu passo a explicar.
Via Facebook, recebo um convite para uma festa de aniversário de um sobrinho neto. É-me enviada a morada, dia e hora do evento. O local é Casal de Cambra. Há anos, pensava eu, não passava por aquela localidade, pelo que, à cautela, iria lá passar com a ajuda do GPS. Assim fiz.
 
6 de agosto, segunda-feira anoto a morada no GPS e sigo o itinerário aconselhado.
- Siga pela estrada indicada, siga 300 m ao encontro da rotunda, saia na segunda saída. Siga 6 km. Mantenha-se à direita. Saia na saída a 200 m, siga durante 8 km. Etc.Etc.
Depois de vários quilómetros pelo eixo Norte-Sul, continuo pela A8, dou voltas e mais voltas e finamente chego ao destino. Espanto! Estou à porta do meu irmão. Ligo à minha cunhada.
“ALICE… estou à tua porta. Não está em casa? Como se chama esta localidade?”
“Casal de Cambra” respondeu.
“Não sabia, pensei que fosse Caneças.”
Expliquei-lhe que, não conhecendo o nome da rua onde moravam nem sequer o n.º da porta, tinha resolvido localizar o local do evento que afinal seria em casa dela.   
 
7 de agosto, terça-feira vou lavar o carro a um autosserviço, adquiro uma ficha para a aspiração e qual o meu espanto, não tenho tapetes. Na garagem onde costumo lavar o carro, mostraram-me alguns tapetes, mas nenhum era meu. Provavelmente deixei-os num autosserviço qualquer.
 
8 de agosto, quarta-feira. São 6 da tarde. Queria aproveitar o resto da tarde para umas tacadas de golfe. Alguém estacionou em segunda fila impossibilitando-me de sair com o meu carro. Percorri todas as lojas em volta, mas ninguém sabia a quem pertencia o carro mal estacionado. Ao fim de muitos minutos resolvi buzinar, mas sem que alguém aparecesse. Aguardei cerca de meia hora e desisti. Voltei para casa.
 
9 de agosto, quinta-feira, vou como habitualmente às quintas, para o escritório. Aguardada uma mensagem depois das 18H00, de forma que, ao sair do escritório, ligo a rede móvel e localizo-me no messanger. Ao descer as escadas, tropeço (mas não caio), cai o telemóvel que galgou alguns degraus. Verifiquei que não tinha sofrido danos, mas não sei como, alguns emojis foram enviados para alguém.
 
10 de agosto, sexta-feira. Não, não foi uma sexta-feira negra. Foi uma sexta-feira normal, sem incidentes. Pensei que os azares tinham acabado, mas qual quê, voltaram e mais violentos.
 
11 de agosto, sábado. Fui ao aniversário do meu sobrinho neto. Depois de jantar regresso a casa, deixo a minha mulher à porta e procuro um lugar para estacionar. Tinha levado as chaves de casa e guardado no porta-luvas. Agora não as encontrava. Ligo para casa, mas não, não estavam em casa. Depois de procurar em todos os compartimentos do carro e com a ajuda da lanterna do telemóvel lá as consegui encontrar.
 
12 de agosto, domingo. Preparava-me para sair e ir almoçar a casa de um sobrinho, quando me batem à porta. Tinha o vidro do carro aberto. Desci de imediato. Claro que o vidro da porta do meu lado estava totalmente descido. As portas destrancadas. Os óculos de sol tinham desaparecido. O GPS, guardado no porta-bagagens, evaporou-se. Vá lá que me deixaram 2 moedas de 50 cêntimos que guardo no porta-luvas para estacionamentos.
A tragédia continua.
Regresso a casa pelas 18H00. Deixo e minha mulher à porta, procuro estacionamento e volto para casa. Dentro do elevador, procuro a chave da porta, mas o porta-chaves cai-me e em vez de me cair aos pés, cai para o alçapão do elevador.
Com a ajuda dos vizinhos, tentam com um íman recolher as chaves, mas sem resultado. O íman era fraco e não suportava o peso das chaves. Conseguiu-se abrir a porta do elevador no rés-do-chão. Não era muito fundo e prontifiquei-me descer para recolher o porta-chaves. Escorreguei, no óleo, caí de costas. A custo me levantei. Não me magoei, mas os braços, o polo e calças ficaram negros, cheios de óleo. Rasguei as calças, por sinal novas. Tomei um banho e depois de me esfregar com uma luva de sisal, lá consegui ficar minimamente lavado.
 
Que mais me iria acontecer? Pensei ir hoje, segunda-feira, a um cartomante, um astrólogo ou talvez mandar rezar uma missas pelos meus pecados, mas sou tão bonzinho… penso não ter pecados que o justificasse. Resolvi desistir de fazer fosse o que fosse. A segunda-feira decorreu sem incidentes e então pensei que o melhor seria desabafar convosco e pedir: REZEM POR MIM.