quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sê Feliz Onde Quer Que Vivas

Decorria o mês de maio, a época balnear tinha já passado; mas o sol queimava e a praia quase deserta não deixava de ser convidativa, principalmente para nós portugueses, habituados a frequentar a praia apenas nos meses de verão.


Pouco mais de uma dúzia de banhistas, na sua maioria estrangeiros, banhava-se nas águas quentes de Copacabana. Uma grande parte dos veraneantes, estrangeiros e não só, corriam ou passeavam no "calçadão". Um rapazola mulato, sob um guarda-sol, oferecia aos passantes as suas bebidas frescas, resguardadas do calor numa mala térmica.

«Eh, amigo, quer uma acerola fresquinha?»

«Agora não, obrigado, vamos primeiramente dar um mergulho», respondi dando a mão à minha mulher.

«Vão que eu depois passo por lá e levo-vos uma bebida. Não precisam de aqui vir. Daqui eu vejo onde se acomodam. O que querem beber?»

Araci, o rapazola mulato, apareceu com um sumo de acerola e uma cerveja tão fresquinha que me admirei. Um rapaz simpático, falador, atencioso, aliás como quase todos os brasileiros, mas principalmente tão prestável que sempre que íamos à praia era a ele que encomendávamos as bebidas.

Vivia numa favela, no morro do Corcovado. A namorada, uma brasileira bonita e bem constituída, empregada de balcão numa loja de roupa de senhora, no centro do Rio de Janeiro, vivia com os pais numa casa próximo da praia da Tijuca.

«Eu gosto de viver lá no bairro (na favela), a vida é muito mais barata ali», dizia o Araci, «a comida no restaurante é menos de metade do preço dos restaurantes daqui de Copacabana, mas a minha namorada não quer ir viver para lá...»


O rapaz contou-nos maravilhas daquela favela, como vivia na sua casa de duas assoalhadas, cozinha e casa de banho, dos amigos, da boa vizinhança, dos bons e baratos restaurantes, das lojas onde comprava a roupa, os utensílio para a sua casa, as mercearias e tudo o mais que havia no Rio, havia ali no bairro e muito mais em conta.

O transporte para sua casa era o trem, elevador que nos leva do Rio de Janeiro até ao Cristo Redentor, no cimo do morro do Corcovado, a 710 m de altura.
Por toda aquela encosta, do sopé ao topo, as favelas abundam e os turistas que sobem ao morro pelo trem, para desfrutarem da vista e apreciar a estátua do Cristo Redentor com os seus 38 m de altura, deparam com as variadas paragens para recolher ou largar passageiros.

Araci era um rapaz cheio de vida, alegre e feliz.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Aposentação

Dedicado a ti meu caro amigo aposentado e a ti que te vais aposentar; e a ti também que, embora novo, lá hás de chegar, já não tens a quem obedecer, em quem mandar. Estás em casa e não tens de te levantar cedo, não precisas de sair todos os dias; podes ficar na cama e dormir até ao meio-dia, até às quatro ou seis horas. Podes passar o dia sentado no sofá e ver televisão, telenovelas ou futebol, podes adormecer sentado, ressonar, babar-te, podes conspurcar-te porque ninguém te enfada, te chateia. Podes envenenar-te com tudo isto; mas pensa, pensa como um adulto, não como uma criança. Não estás enfermo, inválido, não estás num hospital, estás em tua casa.
Olha-te ao espelho; enquanto tens um pouco de energia deves consumi-la. Tens um jardim? Trata dele, rega, planta, limpa, semeia, poda essas árvores ou corta essa relva. Convida os teus netos para com eles brincar. Vai fazer compras, vai passear, visita amigos, museus, exposições. Abriu um novo espaço habitacional, já la foste? E aquele jardim perto de tua casa, há quantos anos não o atravessas?
Lê um livro, vai a um cinema, a um teatro, escreve nem que seja para ti; relê o que escreveste e apaga, escreve novamente. Consulta a Internet nela tens jornais, livros, revistas, blogues, visitas a países longínquos, já visitaste a tua terra na Internet? Lembra-te que estás vivo. Tens mais dez, mais vinte anos à tua frente e mesmo que tenhas só mais um ou dois podes ainda fazer muito por ti próprio. Despe esse pijama, arranja-te, veste a tua melhor roupa e sai, sai desse mausoléu nem que seja para dares a volta ao quarteirão. A tua casa não é um asilo nem uma prisão.
Procura os teus amigos, a tua família, os teus conhecimentos, aparece, diz a todo o mundo que estás vivo... qualquer dia pensam que morreste. Viaja, gasta o que tens porque não o vais levar contigo.
Não fiques em casa a resmungar, não impliques com os vizinhos, deixa o cão do vizinho ladrar à vontade, não batas no teto porque a tua vizinha não se descalçou. Não rabujes com a tua nora ou a tua sogra, vive e deixa viver. Não penses que por seres velho já sabes tudo; com os nossos filhos ou nossos netos também aprendemos, não sejas presunçoso.
Recorda-te sempre meu amigo: a vida são dois dias - VIVE HOJE - AMANHÃ PODE SER TARDE.