Decorria o mês de maio, a época balnear tinha já passado; mas o sol queimava e a praia quase deserta não deixava de ser convidativa, principalmente para nós portugueses, habituados a frequentar a praia apenas nos meses de verão.
Pouco mais de uma dúzia de banhistas, na sua maioria estrangeiros, banhava-se nas águas quentes de Copacabana. Uma grande parte dos veraneantes, estrangeiros e não só, corriam ou passeavam no "calçadão". Um rapazola mulato, sob um guarda-sol, oferecia aos passantes as suas bebidas frescas, resguardadas do calor numa mala térmica.«Eh, amigo, quer uma acerola fresquinha?»
«Agora não, obrigado, vamos primeiramente dar um mergulho», respondi dando a mão à minha mulher.
«Vão que eu depois passo por lá e levo-vos uma bebida. Não precisam de aqui vir. Daqui eu vejo onde se acomodam. O que querem beber?»
Araci, o rapazola mulato, apareceu com um sumo de acerola e uma cerveja tão fresquinha que me admirei. Um rapaz simpático, falador, atencioso, aliás como quase todos os brasileiros, mas principalmente tão prestável que sempre que íamos à praia era a ele que encomendávamos as bebidas.
Vivia numa favela, no morro do Corcovado. A namorada, uma brasileira bonita e bem constituída, empregada de balcão numa loja de roupa de senhora, no centro do Rio de Janeiro, vivia com os pais numa casa próximo da praia da Tijuca.«Eu gosto de viver lá no bairro (na favela), a vida é muito mais barata ali», dizia o Araci, «a comida no restaurante é menos de metade do preço dos restaurantes daqui de Copacabana, mas a minha namorada não quer ir viver para lá...»
O rapaz contou-nos maravilhas daquela favela, como vivia na sua casa de duas assoalhadas, cozinha e casa de banho, dos amigos, da boa vizinhança, dos bons e baratos restaurantes, das lojas onde comprava a roupa, os utensílio para a sua casa, as mercearias e tudo o mais que havia no Rio, havia ali no bairro e muito mais em conta.
O transporte para sua casa era o trem, elevador que nos leva do Rio de Janeiro até ao Cristo Redentor, no cimo do morro do Corcovado, a 710 m de altura.
Por toda aquela encosta, do sopé ao topo, as favelas abundam e os turistas que sobem ao morro pelo trem, para desfrutarem da vista e apreciar a estátua do Cristo Redentor com os seus 38 m de altura, deparam com as variadas paragens para recolher ou largar passageiros.
Araci era um rapaz cheio de vida, alegre e feliz.