sábado, 27 de novembro de 2010

A Secretária

Precisa-se secretária de administração  - Era este o título de um anúncio publicado num matutino diário e mais informava: com bons conhecimentos de línguas e informática. Enviar currículo manuscrito, com foto, para a redação deste jornal

Hélder Ribeiro, um quarentão solteiro,  com um porte invejável,  era o diretor de uma importante empresa de informática. Tinha mandado publicar um anúncio num jornal diário para recrutamento de uma secretária. Nessa mesma tarde da sua publicação resolve ele próprio deslocar-se à redação do jornal e levantar os possíveis  currículos enviados. Havia 62. Voltou no dia seguinte e recolheu mais 18. No terceiro dia ainda conseguiu 7 cartas.

Oito e trinta da manhã, hora habitual de chegada ao escritório, Hélder Ribeiro lê as manchetes do dia, bebe um café e dirige-se para a sua secretária. Sobre ela estão três montinhos de cartas, currículos trazidos do jornal.

O primeiro monte de 7 cartas, último a ser recolhido, é analisado sem ser aberto. 5 dessas cartas não traziam selo pelo que teriam sido entregues ao balcão do jornal. Foram rasgadas sem serem abertas. Porquê ler cartas de pedido de emprego se só foram entregues três dias após a publicação do anúncio? Abertas e lidas as 2 restantes que foram enviadas por correio, verificou que uma delas se referia a uma candidata, cuja morada não distava muito longe da redação do jornal. De imediato foi para o lixo. Não podia aceitar que alguém, morando perto do jornal, necessitando de emprego enviasse a sua candidatura por correio, quando a poderia ter entregue dois dias antes. A última... que lástima erros ortográficos não faltavam. O primeiro grupo estava resolvido.
Depois de atender uma ou duas chamadas pegou no segundo grupo de cartas, as que tinham sido entregues no dia subsequente à publicação, as 18. Primeira escolha: 5 dessas cartas tinham sido feitas em computador. O anúncio pedia cartas manuscritas; lixo. 10 não traziam fotografia. As restantes 3 não testemunhavam muito a favor de quem as escreveu. Mais um grupo jazia no cesto dos papéis. Agora apenas faltava o último grupo, o maior, as 62, a ser examinado. As primeiras foram fáceis: falta de pontuação, frases sem nexo, letra indecifrável, erros de ortografia ou de sintaxe eram vulgares e mais de metade foram fazer companhia às outras no cesto dos papéis. Restavam 28 que teriam de ser lidas e apreciadas em pormenor. Tinha tempo, depois de almoço seriam dissecadas.

O mês de julho chegara quente e Hélder Ribeiro queria que alguém o substituísse nas suas férias de setembro. Necessitava urgentemente de uma secretária. Tinha já as férias marcadas para a Tailândia, eram 2 horas da tarde e queria resolver o problema da empregada. 
Sentou-se à secretária e abriu as 28 restantes cartas amontoando-as em duas pilhas: à direita as que tinham uma letra fina, legível e agradável e bem elaborada; à esquerda as que apresentavam letra regular, não rebuscada, vulgar e despretensiosa e com as melhores aptidões. Pelo meio ia enviando para o cesto de papéis, umas porque a fotografia enviada demonstrava falta de recato, havendo mesmo uma que enviara uma foto em biquíni, outras porque vinham perfumadas ou escritas em tinta cor de rosa.
No lado esquerdo ficaram 3 cartas. No lado direito restavam 4. Por razões óbvias escolheu as da esquerda e deitou fora as da direita.
«Restam três» pensou, «as melhores, uma delas seria a eleita».
Apenas faltava o contacto pessoal, seria o exame "oral".  Iria telefona-lhes de imediato e marcaria as três entrevistas para o dia seguinte: Amélia Rodrigues às 9:00, Maria José às 10:00 e Fernanda Lourenço às 11:00.

«Senhor Hélder, está aqui a D. Amélia Rodrigues,» anunciou a empregada, eram 9:10 da manhã.
«Mande entrar, Carolina» 
Hélder Ribeiro arregalou os olhos, seria possível? À sua frente via uma vampe, parecia uma "estrela" de cinema. Minissaia, um generoso decote e um ondulante andar. 
Estendeu-lhe a mão e apresentou-se: «Hélder Ribeiro.»
«Amélia Rodrigues,» apresentou-se ela por sua vez numa pequena vénia «desculpe o pequenino atraso, mas este trânsito...»
«Não tem importância, compreendo» interrompeu Hélder sem concordar minimamente.
Meia hora depois e após a sua apresentação, Hélder informa:
«Como deve calcular tenho outras candidatas ao lugar ou melhor, tenho mais duas.»
«Ah, sim com certeza.»
«Provavelmente marcarei com vocês as três um almoço ou um jantar para ultimarmos todos os pormenores.»
«Todas juntas.»
«Oh! Não. Prefere almoço ou jantar?»
Amélia Rodrigues, cruza os braços e debruça-se sobre a secretária, realçando ainda mais o seu peito e numa voz quente e sensual declara: «prefiro jantar... à luz das velas.»
Hélder levanta-se, estende-lhe a mão e informa: «em breve terá notícias,» disse, despedindo-se dela.
Amélia, de costas saracoteando as ancas,  sem se voltar dá-lhe um aceno de adeus por cima do ombro.
Hélder murmura para si próprio: «ganharias mais como acompanhante de luxo».
Senta-se à secretária, pega na carta de Amélia e num isqueiro, acende-o e por cima da chama coloca a carta de Amélia.
Aguarda pela segunda candidata.

Maria José chega às 10 em ponto. Apresenta-se. É uma interessante mulher, com um vestido justo, mostrando os contornos de um corpo perfeito. Tem 38 anos embora não pareça. As suas habilitações e conhecimentos são na realidade satisfatórios. A Hélder agradou e pareceu-lhe ter conseguido o que pretendia, mas ainda faltava receber mais uma candidata. Procurou testá-la num convite.
«Maria José, não lhe posso garantir o lugar em virtude de ter mais uma candidata a entrevistar. Provavelmente teremos de marcar um almoço ou um jantar para acertarmos mais uns pormenores.»
«Por mim tanto faz, almoço ou jantar, sou livre.»
«Ok, Maria José, voltaremos a falar.»

«Falta uma,» pensou Hélder e aguardou pelas 11 horas.

Fernanda Lourenço era aquilo que se pode chamar uma estampa de mulher. Vestia um fato cinza claro, sóbrio, por baixo uma camisa branca ligeiramente decotada, deixando adivinhar um peito perfeito. Parecia uma executiva.
«Fernanda Lourenço,» apresentou-se ela a Hélder, com com vigoroso aperto de mão. Hélder olhou-a nos olhos e verificou o embaraço de Fernanda. Era muito bonita, com uma longa e negra cabeleira. Os seus olhos azuis contrastavam com a sua tez morena. Parecia um pouco nervosa.

«Que idade têm?» Perguntou Hélder.
«Tenho 29» respondeu Fernanda.
«Ah, bom, pensei que fosse menor» disse Hélder sorrindo.
Após meia hora de conversa, reconheceu que os seus conhecimentos e capacidades intelectuais e empresariais eram sem dúvida bastante elevados.  
No final da entrevista, e para não fugir à regra, convidou-a para almoçar ou jantar. O embaraço de Fernanda foi total. Gaguejou, tossiu, mas lá se resolveu a dizer: «preferia o almoço, senhor Hélder».

Hélder tinha conseguido o que queria. Era uma mulher assim que idealizava.

Trinta dias depois estavam casados.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mariana e Pedro no Paraíso

Era uma vez um casal, a Mariana e o Pedro, os Sousas, que viviam numa aldeia, uma aldeia como muitas aldeias, com terreno para amanhar, gado para o pastoreio, árvores para podar e frutos para colher. As poucas centenas de habitantes daquele lugar viviam desafogadamente, sem luxos claro, mas sem necessidades visíveis; a Mariana e o Pedro eram dos poucos que não tinham um bocadinho de terra para amanhar e semear. 
Como em muitas aldeias também vivia um senhor numa grande mansão, endinheirado e viúvo.
..
O senhor D. Salomão, o viúvo, ausentava-se amiudadas vezes por longos períodos, por vezes só, outras com o seu criado, o caseiro, com quem vivia desde tenra idade. Era um senhor estranho, muito recatado, mas muito amigo do caseiro e dos camponeses que lhe tratavam da quinta. Com frequência dava ostentosos almoços, não só a amigos que apareciam não se sabe de onde, mas também a todos os seus empregados.
Vivia recatado, não tinha automóvel nem mostrava bens exteriores de riqueza. A sua mansão, a quinta e o gado eram toda a sua abastança visível. Adorado e respeitado por todos, rejeitava as viúvas lá da terra que por interesse ou afeto o adulavam assiduamente.
O casal Sousa, igualmente respeitado pela maioria dos conterrâneos, vivia com dificuldades numa modesta casa, ele trabalhando na quinta do senhor D. Salomão, ela como empregada doméstica na mansão, mas sempre pessimistas, maldizendo a vida, a falta de uma quinta com um grande pomar, a falta de cavalos, de uma carruagem para os levar à cidade, a falta de uma casa apalaçada, a falta de uma mansão igual à do senhor D. Salomão, enfim, a falta de tudo. Muitas vezes atribuíam as culpas a Adão e Eva, pelo pecado original e o castigo, serem expulsos do éden.
«Poderíamos ser felizes, não fora a ambição deles...» dizia o Pedro.
«Sim, se o Adão não tivesse comido a maçã...» dizia ela.
«Se a Eva não lha tivesse dado...» dizia ele.
E passavam horas a atribuir culpas, ora a Adão, ora a Eva.
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Num domingo depois da missa, o senhor D. Salomão convida o prior, o presidente da junta, alguns amigos e estranhamente o casal Sousa para o almoço. Já tarde adentro, depois dos amigos se terem despedido, o senhor D. Salomão anuncia aos presentes, o prior, o presidente da junta e ao próprio casal, a necessidade de se ter de ausentar por tempo indeterminado. Tinha de se descolar ao Brasil onde possuía uns terrenos e por lá ficaria provavelmente por mais de um ano.
«A razão do meu convite para este almoço é exatamente pelo motivo que acabei de expor. Vou ausentar-me e por isso necessito de alguém que me olhe pela quinta.» Disse o D. Salomão.
«Pensei na Mariana e no Pedro para essa tarefa; claro que serão recompensados.»
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Mariana e Pedro olharam-se com um ar tão espantado que não articularam palavra de estarrecidos que estavam.
«Estão que me dizem?» Indagou.
«Não...sim...mas...»
«Bom», interrompeu o D. Salomão «pensem esta noite no assunto e amanhã falaremos e acertaremos as condições. Agora deixem-me para eu ultimar uns assuntos aqui com o prior e o nosso presidente.»
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Nessa noite mal dormiram fazendo conjeturas de quanto iriam ganhar, certamente não seriam os mesmos 400 euros que cada um ganhava. Seria que iriam para lá morar? Comeriam da despensa do senhor D. Salomão? Se assim fosse tudo o que ganhassem seria para vestir e amealhar.
«Achas que, devemos pedir quanto?» Perguntou ela ao marido?
«Não vamos pedir nada mulher, ele certamente nos dará aquilo a que temos direito, parece que não conheces o senhor D. Salomão.»
«Sei lá, é uma grande responsabilidade para nós, homem»
«Não te preocupes. Já pensaste que durante um ano iremos viver como uns lordes? Provavelmente até dormiremos no quarto principal. Tomaremos conta da quinta e daremos ordens ao pessoal.»
«O caseiro também irá para o Brasil? Era bom que fosse, ficaríamos sozinhos na casa.»
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Nestas suposições e interrogações passou a noite e começava a amanhecer. Levantaram-se e seguiram para as suas atividades, ele para a quinta, ela para casa do senhor D. Salomão.
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«Bom dia Mariana», cumprimentou o D. Salomão «já pensaram no assunto?»
«Já sim, senhor D. Salomão, o meu homem aceita, só não sabe é quanto vamos ganhar...»
«Não te preocupes Mariana» interrompeu o D. Salomão, «estava a pensar dar-vos 1.000 euros a cada um. Que achas?»
«Mas... isso é mais do dobro do que ganhamos, senhor D. Salomão, o meu homem vai ficar radioso.»
«Ainda bem que aceitam. O Pereira (o caseiro) vai comigo. Ficas sozinha com o teu marido na casa. O melhor é trazerem os vossos bens para aqui, tão depressa não vão precisar de voltar para vossa casa. Não tragam móveis porque não precisam, dormem no quarto principal.»
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Era um milagre o que estava a acontecer, pensava a Mariana, como era possível que, tendo ela no dia anterior rogado à Virgem Maria para lhe dar saúde e algum bem material e hoje lho tivesse concedido?
À noite, enquanto jantavam, Mariana punha ao corrente o marido da conversa que tivera com o D. Salomão.
«O senhor D. Salomão quer que nos mudemos para lá, dormimos no quarto principal. Levamos apenas a roupa de vestir. O Pereira vai também com o patrão, ficamos sozinhos e vamos mudar-nos já amanhã»
«E falou-te na jorna?»
«Sim, vamos ganhar 500 euros cada»
«Não é mau»
«E se forem 1.000?»
«Vá lá, não sejas exigente demais.»
«Mas é isso mesmo que vamos ganhar, 2.000 euros por mês, comida, mas não é tudo.»
«Que mais surpresas trazes?»
«Vou ter uma empregada doméstica para tratar da casa... e uma cozinheira... agora sou uma senhora, o senhor D. Salomão diz que eu vou ter muito que fazer a tomar conta da casa e orientar o pessoal.»
«Não estaremos a sonhar? Nunca joguei no euromilhões, mas parece que sem jogar nos saiu a taluda.»
«Mas há mais...»
«Mau, que mais é que poderá haver?»
«Estás proibido de ir trabalhar para o campo...» o quê? Interrompeu o marido espantado.
«Sim, agora és o capataz. O senhor D. Salomão vai ter uma reunião com todo o pessoal e teremos de estar presentes. Seremos os seus novos patrões.»
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O dia da reunião chegou e com ele a confirmação de tudo o que a Mariana tinha dito. Pedro e Mariana já instalados na mansão, teriam uma reunião a sós com o senhor D. Salomão a fim de se inteirarem dos pormenores dos pagamentos a pessoal, das colheitas e seu destino, da necessidade de manter sempre a casa em ordem como se ele estivesse presente, etc., etc.
«Pedro e Mariana, tenham cuidado com aquela arca, no hall de entrada, tem as dobradiças estragadas e não é conveniente abri-la, dentro nada tem de importância, apenas trapos.» Disse o senhor D. Salomão.
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Passaram três meses que partira D. Salomão e consigo o caseiro. Pedro e Mariana viviam felizes. Davam conta do recado como novos patrões e donos da mansão. Não tiveram problemas com o pessoal que continuava a laborar como outrora. Ofereciam almoços a todo o pessoal. A sua conduta era de tal forma cativante que os empregados respeitavam os seu novos senhores como se de D. Salomão se tratasse.
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Estava uma tarde quente de verão, Mariana sentada no alpendre olhava o campo sorria e pensava: «como seria bom que esta vida se prolongasse eternamente». O marido ao lado olhava-a feliz.
«Pedro, há pouco ajudei a empregada a arredar a arca que está no hall, para limpar o chão e pareceu-me tão pesada...» disse Mariana para o marido «dá a impressão que está cheia de chumbo»
«Não mexas naquela caixa, Mariana.»
«Não mexi, apenas a arredei e olha que as dobradiças não parecem estragadas pelo contrário dá a impressão que são novas.»
«Não mexas e pronto.»
«Está bem, está bem, mas não mexi.» «Cá para mim há ali algo mais para além de trapos», pensava a Mariana «não percebo o problema de abrir a arca.»
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Sempre que entrava ou saía de casa não deixava de olhar de soslaio para a arca e pontapeava-a ao de leve e pensava «aqui há gato, deve ter a mala cheia de moedas ou segredos.»
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Cerca de quatro meses após a partida de D.Salomão, a Mariana continuava a cismar com o conteúdo da enigmática arca. Que mal poderia advir se ela espreitasse? As dobradiças eram novas, não tinha fechadura, era só levantar um pouquinho o tampo e espreitar. Pena era que o marido não colaborasse, teria de o convencer. Mas como?
Não aguentava mais, tinha de ser hoje, esperaria pelo marido e à noite desvendariam o mistério.
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«Pedro! Abri a arca, não tem nada dentro.» Mentiu Mariana.
«Tu és doida mulher, como foste capaz de fazer isso?»
«Não percebo porque não deixa o senhor D. Salomão mexer numa arca vazia...»
«Tens a certeza que está vazia?»
«Tenho, marido; queres confirmar?» E agarra-lhe no braço puxando-o para o hall. «Vê com os teus próprios olhos»
Pedro agacha-se e a medo levanta a tampa.
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No mesmo instante entra em casa o senhor D. Salomão que de imediato lhes aponta o dedo na direção da porta, gritanto: "PONHAM-SE NA RUA IMEDIATAMENTE."
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A estória de Adão e Eva repetiu-se e voltará a repetir-se.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Noite de Natal Inesquecivel

Há longos anos, talvez em meados dos anos 50, numa noite de Natal, estávamos eu e minha mãe, sozinhos.


«Carlitos! Despacha-te que a mãe tem de ir fazer umas compras ainda antes do jantar.»

Não me recordo bem qual a razão de estarmos sós, creio que o meu irmão mais velho estava com a viver com a namorada e o mais novo estava num colégio interno, mas não sei o porquê de não vir passar o Natal connosco. O meu pai estava na marinha, em serviço nos Açores. Só não me esquecerei nunca, que, eu e a minha mãe, apenas os dois, pela primeira vez em toda a nossa vida estávamos sós naquela noite.

No bairro de Campolide num primeiro andar, muito próximo do Aqueduto das Águas-Livres, vivíamos nós. Recordo isso, recordo a minha mãe a subir a escada para convidar a vizinha de cima, uma amiga nossa que também vivia só, para connosco jantar. Não estava em casa. Recordo que telefonou para alguém a quem convidou mas não teve sucesso. A minha tia, sua irmã, vivia na baixa, junto ao Chiado, mas tinha ido passar o Natal com o meu primo, seu filho, à nossa terra, Espinho.

«Não temos ninguém para nos acompanhar» disse eu olhando para a minha mãe, mas ela desviou o olhar, correu para a casa de banho, parecia que chorava. Regressou e com um tremor na voz disse-me: «Carlitos vamos comprar umas prendas para os manos, para quando eles chegarem...» fez uma pausa e prosseguiu «não te importas que jantemos os dois num restaurante?»
«Claro que não mãezinha, que fazemos sozinhos aqui em casa?»


Claro que me importava, importava-me por ver a minha mãe triste, importava-me por não ter principalmente os meus os meus irmãos naquela noite a jantar connosco, importava-me de estar só eu em companhia de minha mãe, nunca tal tinha acontecido. Interiormente chorei, mas sem que a minha mãe se apercebesse, (ou teria reparado?)
Como sempre, uma árvore de Natal e um presépio não faltavam nunca na nossa casa, nem nesse ano; mas faltou o calor da família, do Zé Maria, do Toninho, (meus irmãos), do pai, da tia Eduarda e do primo Francisco. Estávamos sós; sós e tristes, afinal era noite de Natal. Por que todos nos tinham abandonaram naquela noite?


Apanhámos um elétrico e saímos no Rossio. Passeámos pela rua Augusta e parávamos para ver as montras; entrámos numa loja de roupas. A mãe comprou não sei o quê, pagou e saímos. Descemos essa rua e seguimos para a rua da Madalena. Entrámos na igreja da Madalena. Ali ficámos uns momentos. A minha mãe rezava e chorava.

«Então mãezinha, hoje é Natal» (eu sabia porque chorava e apetecia-me chorar com ela).
«É por isso mesmo Carlitos» disse-me ela com os olhos inundados de água, «estamos sós numa noite de consoada.»
«Mas está com o filho que mais lhe quer.»

Agarrou-se a mim e chorou, fazendo-me chorar também.

Saímos e subimos a rua da Madalena em direção ao Rossio. Eram quase nove horas da noite. Estava frio, mas o frio maior vinha dentro de mim. Como era possível naquela noite não termos a família junta como era hábito? Entrámos num restaurante de frangos da rua Jardim do Regedor. Apenas um casal de idosos estava na sala. Provavelmente não teriam filhos nem família. Sob a mesa deles viam-se embrulhos embalados em lindos papéis coloridos, certamente presentes de Natal. Apeteceu-me sentarmo-nos junto deles e dizer: por favor façam-nos companhia, estamos sós e a minha mãe sofre, temos família mas esta noite não.
Hoje tê-lo-ia feito.

Comemos bacalhau e frango em silêncio, com mais vontade de chorar do que comer.

Pouco passaria da dez horas quando saímos. Atrás de nós alguém nos seguia e nos abordou: «desculpe, minha senhora, é seu filho»?
«É sim, senhor», respondeu a minha mãe.
«Eu conheço-te» disse ele dirigindo-se a mim, «não trabalhas na "Transagraire"?» Era um escritório na rua do Comércio onde na realidade eu trabalhava.
«Trabalho, sim»...
«É natural que não te recordes de mim, mas costumas ir à "Pombalina" lanchar.»

Era verdade, por baixo do escritório, havia uma pastelaria onde eu ia amiudadas vezes não só lanchar como buscar refrigerantes ou cafés para os meus colegas do escritório.

O casal de idosos que estivera a jantar no mesmo restaurante, tinha estado a observar-nos. Era o dono da "Pombalina" e a sua esposa.

«Onde moram?»
«Em Campolide», informou a minha mãe.
«Eu e minha mulher, íamos passar a meia-noite em casa, sozinhos» e logo de seguida «estão sozinhos também»?
«Sim» disse a minha mãe.
«Não pretendo ser indiscreto, mas para onde vão agora?«
«Para casa, o meu marido e meus dois outros filhos não estão cá»...
«Seria um prazer para nós se nos fizessem companhia, já seríamos quatro e em conjunto festejaríamos a meia-noite.»

Moravam na rua das Pretas, numa grande casa, com muitas divisões. É apenas o que me recordo.

Recordo igualmente que a minha mãe entrou na casa daquele casal com dois embrulhos e saiu com quatro.

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Quantos milhares de pessoas passam noites de Natal, de Fim de Ano, de Páscoa de Festas, e todos os dias, sozinhas sem uma mãe?

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Foi um Natal triste mas feliz
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Nota: As imagens inseridas neste texto foram retiradas da Internet