Era uma vez um casal, a Mariana e o Pedro, os Sousas, que viviam numa aldeia, uma aldeia como muitas aldeias, com terreno para amanhar, gado para o pastoreio, árvores para podar e frutos para colher. As poucas centenas de habitantes daquele lugar viviam desafogadamente, sem luxos claro, mas sem necessidades visíveis; a Mariana e o Pedro eram dos poucos que não tinham um bocadinho de terra para amanhar e semear. Como em muitas aldeias também vivia um senhor numa grande mansão, endinheirado e viúvo.
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O senhor D. Salomão, o viúvo, ausentava-se amiudadas vezes por longos períodos, por vezes só, outras com o seu criado, o caseiro, com quem vivia desde tenra idade. Era um senhor estranho, muito recatado, mas muito amigo do caseiro e dos camponeses que lhe tratavam da quinta. Com frequência dava ostentosos almoços, não só a amigos que apareciam não se sabe de onde, mas também a todos os seus empregados.
Vivia recatado, não tinha automóvel nem mostrava bens exteriores de riqueza. A sua mansão, a quinta e o gado eram toda a sua abastança visível. Adorado e respeitado por todos, rejeitava as viúvas lá da terra que por interesse ou afeto o adulavam assiduamente.
O casal Sousa, igualmente respeitado pela maioria dos conterrâneos, vivia com dificuldades numa modesta casa, ele trabalhando na quinta do senhor D. Salomão, ela como empregada doméstica na mansão, mas sempre pessimistas, maldizendo a vida, a falta de uma quinta com um grande pomar, a falta de cavalos, de uma carruagem para os levar à cidade, a falta de uma casa apalaçada, a falta de uma mansão igual à do senhor D. Salomão, enfim, a falta de tudo. Muitas vezes atribuíam as culpas a Adão e Eva, pelo pecado original e o castigo, serem expulsos do éden.
«Poderíamos ser felizes, não fora a ambição deles...» dizia o Pedro.
«Sim, se o Adão não tivesse comido a maçã...» dizia ela.
«Se a Eva não lha tivesse dado...» dizia ele.
E passavam horas a atribuir culpas, ora a Adão, ora a Eva.
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«Poderíamos ser felizes, não fora a ambição deles...» dizia o Pedro.
«Sim, se o Adão não tivesse comido a maçã...» dizia ela.
«Se a Eva não lha tivesse dado...» dizia ele.
E passavam horas a atribuir culpas, ora a Adão, ora a Eva.
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Num domingo depois da missa, o senhor D. Salomão convida o prior, o presidente da junta, alguns amigos e estranhamente o casal Sousa para o almoço. Já tarde adentro, depois dos amigos se terem despedido, o senhor D. Salomão anuncia aos presentes, o prior, o presidente da junta e ao próprio casal, a necessidade de se ter de ausentar por tempo indeterminado. Tinha de se descolar ao Brasil onde possuía uns terrenos e por lá ficaria provavelmente por mais de um ano.
«A razão do meu convite para este almoço é exatamente pelo motivo que acabei de expor. Vou ausentar-me e por isso necessito de alguém que me olhe pela quinta.» Disse o D. Salomão.
«Pensei na Mariana e no Pedro para essa tarefa; claro que serão recompensados.»
«Pensei na Mariana e no Pedro para essa tarefa; claro que serão recompensados.»
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Mariana e Pedro olharam-se com um ar tão espantado que não articularam palavra de estarrecidos que estavam.
Mariana e Pedro olharam-se com um ar tão espantado que não articularam palavra de estarrecidos que estavam.
«Estão que me dizem?» Indagou.
«Não...sim...mas...»
«Bom», interrompeu o D. Salomão «pensem esta noite no assunto e amanhã falaremos e acertaremos as condições. Agora deixem-me para eu ultimar uns assuntos aqui com o prior e o nosso presidente.»
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Nessa noite mal dormiram fazendo conjeturas de quanto iriam ganhar, certamente não seriam os mesmos 400 euros que cada um ganhava. Seria que iriam para lá morar? Comeriam da despensa do senhor D. Salomão? Se assim fosse tudo o que ganhassem seria para vestir e amealhar.
Nessa noite mal dormiram fazendo conjeturas de quanto iriam ganhar, certamente não seriam os mesmos 400 euros que cada um ganhava. Seria que iriam para lá morar? Comeriam da despensa do senhor D. Salomão? Se assim fosse tudo o que ganhassem seria para vestir e amealhar.
«Achas que, devemos pedir quanto?» Perguntou ela ao marido?
«Não vamos pedir nada mulher, ele certamente nos dará aquilo a que temos direito, parece que não conheces o senhor D. Salomão.»
«Sei lá, é uma grande responsabilidade para nós, homem»
«Não te preocupes. Já pensaste que durante um ano iremos viver como uns lordes? Provavelmente até dormiremos no quarto principal. Tomaremos conta da quinta e daremos ordens ao pessoal.»
«O caseiro também irá para o Brasil? Era bom que fosse, ficaríamos sozinhos na casa.»
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Nestas suposições e interrogações passou a noite e começava a amanhecer. Levantaram-se e seguiram para as suas atividades, ele para a quinta, ela para casa do senhor D. Salomão.
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«Bom dia Mariana», cumprimentou o D. Salomão «já pensaram no assunto?»
«Já sim, senhor D. Salomão, o meu homem aceita, só não sabe é quanto vamos ganhar...»
«Não te preocupes Mariana» interrompeu o D. Salomão, «estava a pensar dar-vos 1.000 euros a cada um. Que achas?»
«Mas... isso é mais do dobro do que ganhamos, senhor D. Salomão, o meu homem vai ficar radioso.»
«Ainda bem que aceitam. O Pereira (o caseiro) vai comigo. Ficas sozinha com o teu marido na casa. O melhor é trazerem os vossos bens para aqui, tão depressa não vão precisar de voltar para vossa casa. Não tragam móveis porque não precisam, dormem no quarto principal.»
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Era um milagre o que estava a acontecer, pensava a Mariana, como era possível que, tendo ela no dia anterior rogado à Virgem Maria para lhe dar saúde e algum bem material e hoje lho tivesse concedido?
À noite, enquanto jantavam, Mariana punha ao corrente o marido da conversa que tivera com o D. Salomão.
«O senhor D. Salomão quer que nos mudemos para lá, dormimos no quarto principal. Levamos apenas a roupa de vestir. O Pereira vai também com o patrão, ficamos sozinhos e vamos mudar-nos já amanhã»
«E falou-te na jorna?»
«Sim, vamos ganhar 500 euros cada»
«Não é mau»
«E se forem 1.000?»
«Vá lá, não sejas exigente demais.»
«Mas é isso mesmo que vamos ganhar, 2.000 euros por mês, comida, mas não é tudo.»
«Que mais surpresas trazes?»
«Vou ter uma empregada doméstica para tratar da casa... e uma cozinheira... agora sou uma senhora, o senhor D. Salomão diz que eu vou ter muito que fazer a tomar conta da casa e orientar o pessoal.»
«Não estaremos a sonhar? Nunca joguei no euromilhões, mas parece que sem jogar nos saiu a taluda.»
«Mas há mais...»
«Mau, que mais é que poderá haver?»
«Estás proibido de ir trabalhar para o campo...» o quê? Interrompeu o marido espantado.
«Sim, agora és o capataz. O senhor D. Salomão vai ter uma reunião com todo o pessoal e teremos de estar presentes. Seremos os seus novos patrões.»
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«Sim, agora és o capataz. O senhor D. Salomão vai ter uma reunião com todo o pessoal e teremos de estar presentes. Seremos os seus novos patrões.»
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O dia da reunião chegou e com ele a confirmação de tudo o que a Mariana tinha dito. Pedro e Mariana já instalados na mansão, teriam uma reunião a sós com o senhor D. Salomão a fim de se inteirarem dos pormenores dos pagamentos a pessoal, das colheitas e seu destino, da necessidade de manter sempre a casa em ordem como se ele estivesse presente, etc., etc.
«Pedro e Mariana, tenham cuidado com aquela arca, no hall de entrada, tem as dobradiças estragadas e não é conveniente abri-la, dentro nada tem de importância, apenas trapos.» Disse o senhor D. Salomão.
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Passaram três meses que partira D. Salomão e consigo o caseiro. Pedro e Mariana viviam felizes. Davam conta do recado como novos patrões e donos da mansão. Não tiveram problemas com o pessoal que continuava a laborar como outrora. Ofereciam almoços a todo o pessoal. A sua conduta era de tal forma cativante que os empregados respeitavam os seu novos senhores como se de D. Salomão se tratasse.
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Estava uma tarde quente de verão, Mariana sentada no alpendre olhava o campo sorria e pensava: «como seria bom que esta vida se prolongasse eternamente». O marido ao lado olhava-a feliz.
«Pedro, há pouco ajudei a empregada a arredar a arca que está no hall, para limpar o chão e pareceu-me tão pesada...» disse Mariana para o marido «dá a impressão que está cheia de chumbo»
«Não mexas naquela caixa, Mariana.»
«Não mexi, apenas a arredei e olha que as dobradiças não parecem estragadas pelo contrário dá a impressão que são novas.»
«Não mexas e pronto.»
«Está bem, está bem, mas não mexi.» «Cá para mim há ali algo mais para além de trapos», pensava a Mariana «não percebo o problema de abrir a arca.»
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Sempre que entrava ou saía de casa não deixava de olhar de soslaio para a arca e pontapeava-a ao de leve e pensava «aqui há gato, deve ter a mala cheia de moedas ou segredos.»
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Cerca de quatro meses após a partida de D.Salomão, a Mariana continuava a cismar com o conteúdo da enigmática arca. Que mal poderia advir se ela espreitasse? As dobradiças eram novas, não tinha fechadura, era só levantar um pouquinho o tampo e espreitar. Pena era que o marido não colaborasse, teria de o convencer. Mas como?
Não aguentava mais, tinha de ser hoje, esperaria pelo marido e à noite desvendariam o mistério.
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«Pedro! Abri a arca, não tem nada dentro.» Mentiu Mariana.
«Tu és doida mulher, como foste capaz de fazer isso?»
«Não percebo porque não deixa o senhor D. Salomão mexer numa arca vazia...»
«Tens a certeza que está vazia?»
«Tenho, marido; queres confirmar?» E agarra-lhe no braço puxando-o para o hall. «Vê com os teus próprios olhos»
Pedro agacha-se e a medo levanta a tampa.
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No mesmo instante entra em casa o senhor D. Salomão que de imediato lhes aponta o dedo na direção da porta, gritanto: "PONHAM-SE NA RUA IMEDIATAMENTE."
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A estória de Adão e Eva repetiu-se e voltará a repetir-se.
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Cerca de quatro meses após a partida de D.Salomão, a Mariana continuava a cismar com o conteúdo da enigmática arca. Que mal poderia advir se ela espreitasse? As dobradiças eram novas, não tinha fechadura, era só levantar um pouquinho o tampo e espreitar. Pena era que o marido não colaborasse, teria de o convencer. Mas como?
Não aguentava mais, tinha de ser hoje, esperaria pelo marido e à noite desvendariam o mistério.
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«Pedro! Abri a arca, não tem nada dentro.» Mentiu Mariana.
«Tu és doida mulher, como foste capaz de fazer isso?»
«Não percebo porque não deixa o senhor D. Salomão mexer numa arca vazia...»
«Tens a certeza que está vazia?»
«Tenho, marido; queres confirmar?» E agarra-lhe no braço puxando-o para o hall. «Vê com os teus próprios olhos»
Pedro agacha-se e a medo levanta a tampa.
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No mesmo instante entra em casa o senhor D. Salomão que de imediato lhes aponta o dedo na direção da porta, gritanto: "PONHAM-SE NA RUA IMEDIATAMENTE."
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A estória de Adão e Eva repetiu-se e voltará a repetir-se.
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