Vivia nos arredores
de Coimbra numa mansão de um casal abastado, onde sua mãe exercia as funções de
governanta. Ali nascera e se criara. O pai, motorista privado daquele casal,
falecera ainda Margarida Salgueiro andava na primária. A custo a mãe conseguira
manter Margarida até ela completar a escolaridade obrigatória, mas Margarida
queria mais, queria frequentar um curso superior, Gestão de Empresas.
A mãe de Margarida era uma mulher
jovem quando enviuvou, mas não queria dar um padrasto à sua filha que tanto
amava. Queria vê-la com o curso superior completo e bem casada, já que ela não
o tinha e mal sabia ler. A esmerada educação da sua menina e as boas notas
obtidas, foram um bom motivo para que os patrões custeassem
as despesas escolares.
Muito longe dali, mais propriamente
em S. João da Madeira, vivia o “Sapateiro”, como era conhecido João Inácio na
faculdade. O seu pai possuía uma fabriqueta de calçado manufaturado de alta
qualidade. Quase toda a produção era enviada para Inglaterra, para um
importador português aí estabelecido. João Inácio aprendera o ofício ainda em
criança. Hoje é o diretor comercial e teima na expansão da fábrica. As encomendas
começavam a crescer, mas a mão-de-obra era escassa mesmo trabalhando 24 horas
por dia. Para aumentar a produção necessitava de mais pessoal e,
consequentemente, de mais espaço, de mais maquinaria, de mais matéria-prima. Já
tinham recorrido à banca, mas o investimento pretendido era muito superior ao do
capital social da fábrica. Por muitos bons argumentos apresentados pelo filho
do industrial, como o da expansão da fábrica e encomendas a angariar noutro
países, não eram suficientes para que o banco concedesse tal empréstimo.
Cerca de um ano após a tentativa de
empréstimo à banca, decorria uma campanha publicitária, na rádio e imprensa de
um cruzeiro de volta do mundo, um cruzeiro para milionários. Tratava-se de um
“Cruzeiro Escola”. Uma viagem que se previa durar entre 6 a 7 meses. A viagem,
para além de viagem de lazer, era igual e principalmente viagem de formação.
Uma viagem onde professores das mais variadas jurisdições académicas levariam
os seus instruendos a um “Curso Intensivo Superior”. Também constava a aprendizagem
de um “Curso de Boas Maneiras”
O paquete partiria de lisboa em
meados de agosto e regressaria em fevereiro do ano seguinte. Para além das
salas de aulas, um centro de saúde, capela, bares, restaurantes, sala de cinema,
discoteca, piscina, campo de ténis, ginásio e outros lazeres, dispunha de um
centro comercial onde não faltavam boutiques, alfaiataria, alta-costura,
farmácia, artigos para informática e tudo o mais que se possa imaginar, de
forma que os passageiros não necessitassem de sair para se abastecer.
Anunciavam mesmo que não carregassem muita bagagem, pois nada lhes faltaria a
bordo.
O itinerário seria de uma volta ao mundo,
fazendo estadia em todos os portos principais, onde permaneceriam entre 4 a 8
dias para visitas locais.
João Inácio chega a casa eufórico.
Convida os pais a um jantar de negócios. Tem uma proposta a fazer.
João, à mesa de um restaurante
elegantíssimo, olha os pais com ternura e informa:
«Tenho excelentes notícias a dar. Se
lhes perguntar: querem deixar de trabalhar ou preferem aumentar a fábrica?»
O pai atónito olha o filho e a
esposa e com ar interrogativo balbucia.
«Que se passa?»
«Pai! Se lhe dessem a escolher entre
uma choruda reforma ou aumentar a fábrica, que escolheria?»
«Aumentar a fábrica, sou muito novo
para me reformar. Mas não vejo aonde queres chegar.»
Entretanto chega o empregado com as
ementas. Pai e mãe abrem a ementa, olham o filho, olham a ementa e especados
sem saber o que dizer ou fazer ficam paralisados.
«Então? Não vos agradam os pratos?»
Ri João.
«Mas, estás a intrigar-nos. Que te
passou pela cabeça, filho?»
«Temos todo o jantar para falar.
Agora escolham o prato que eu escolho o vinho.»
João sorria feliz, enquanto mãe e
pai olhavam intrigados quer para o filho, quer um para o outro. A meio do
jantar João abre a carteira e mostra um talão.
«Sabem o que é isto? A nossa
independência financeira.» Diz João muito baixinho para os pais mostrando o
talão do Euromilhões e prossegue. «Saiu-me o Euromilhões.»
Pai e mãe ficam especados olhando o
filho sem conseguirem articular palavra.
«Mas… é verdade?» Articula o pai.
«Chiu. Na próxima semana estaremos
na posse destes milhões. Agora comece a trabalhar na ampliação da fábrica e a
contratar pessoal. Vou estar ausente uns meses. Vou viajar pelo mundo, num
barco. Vou cultivar-me e aproveitar a oportunidade para contactar clientes por
esse mundo fora, mas não deixarei de estar presente diariamente via Internet.»
João contou a sua ideia de uma
viagem no cruzeiro que semanas antes tinha comentado com o pai, quando leram a
notícia da viagem de sonho para milionários.
Carregado de malas, o jovem João, atraente,
introvertido, mas resoluto, embarca. Tinha reservado uma suite a bordo do “Navio Escola”. É olhado com espanto pelos outros
passageiros, principalmente por uma garota de longos cabelos negros e um corpo
escultural, em virtude da sua volumosa bagagem.
Margarida, não desarreda os olhos do
elegante cavalheiro que embarcara carregado de malas. Segue-o para todo o lado,
mas ele parecia não dar pela sua presença, sempre ocupado quer nas suas aulas,
quer agarrado ao computador que nunca largava. Parecia impossível. Ela sabia
bem o quanto era apreciada pelos colegas da universidade e não só. Não era
vaidosa, mas tinha um espelho que lhe dizia o quanto era bela. Vira-o
recentemente na sua própria aula de Gestão e esperava agora, como colega de
turma, entabular conversa com ele. Mas não. Ele era o primeiro a entrar e o
último a sair, não dando conta dos colegas que entravam ou saiam. Chegou mesmo
a dar-lhe um encontro propositado, mas a reação foi um pedido de desculpas da
parte dele, mas sem a olhar, seguindo o seu caminho. Pensou em pedir a
transferência da sua mesa do restaurante para a dele, mas teria de fazê-lo em
companhia de sua mãe, que por sua vez, já notara os olhares constantes dela
para o rapaz.
Cerca de dez dias após o embarque, Margarida
passeia pelo convés. Era um domingo. Não havia aulas. Estava uma tarde quente e
pensava ir tomar um banho à piscina. Trajando uma túnica sobre o biquíni, olha
em redor e procura uma cadeira para se sentar. Um cavalheiro não muito longe do
lugar escolhido, manuseava um computador. Ao seu lado duas senhoras na casa dos
cinquenta conversavam. Eram as companheiras de sua mãe nas horas das refeições.
Cumprimentou-as e sentou-se. O cavalheiro, como de costume, não levantou os
olhos do computador. Encheu-se de coragem e aproximou-se do rapaz.
«Desculpe-me. Tem Internet?»
João olha-a e fica paralisado.
Margarida, mais afoita, estende-lhe
a mão.
«Margarida.» Disse em tom de
apresentação.
João levanta-se e aperta-lhe a mão
sem tirar os olhos dela.
«João. Muito prazer.»
«Importa-se de me devolver a mão?»
«Oh, desculpe.» Disse João, corando
visivelmente e libertando a mão de Margarida. Desfez-se em desculpas.
«Tem?»
«Tenho o quê?» Interroga João.
«Internet.»
«Tenho sim. Quer consultá-la?»
«Gostaria, mas tenho tempo. Acabe o
que está a fazer e depois utilizo o seu computador. Apenas queria ver a cotação
da bolsa.»
«Joga na bolsa?»
«Não. São apenas umas ações que
herdei.»
«Desculpe Margarida, mas… caiu do
céu?»
«Não percebo a pergunta.»
«Há quase 2 semanas que embarquei e
só hoje a vi…»
«Embarquei em Lisboa, tal como o senhor,
mas como anda tão atarefado com as aulas e o seu trabalho de computador, nem
repara nos seus companheiros de viagem.»
«Tem razão. Sou um pouco distraído.»
Confessa João.
«Enquanto acaba o que estava a fazer
vou dar um mergulho e volto já.» Disse Margarida tirando a túnica
arremessando-a para a cadeira ao lado da do João.
João não tirou os olhos daquela
perfeita garota, bela e sedutora, enquanto nadava com uma perfeição
impressionante. Minutos depois Margarida regressa limpando-se, sentando-se ao
lado de João que de imediato lhe passa o computador.
«Nada muito bem, Margarida.»
«Aprendi na escola. O que faz João?»
«Sou sapateiro.» Exclama João em voz
um pouco mais alta, que não passou despercebido às duas cinquentonas que de
imediato se voltaram e cochicharam em surdina.
«Sapateiro?»
«Sim. Meu pai tem uma fábrica de
calçado manufaturado, em São João da Madeira. Sou o diretor comercial. E a
Margarida?»
Margarida sorriu e confessou.
«Eu sou ajudante de governanta numa
casa de uns fidalgos, nos arredores de Coimbra.»
«Não brinque.»
«É verdade, pelo menos fui-o até há
pouco tempo.»
«E agora?»
«É uma longa história. Depois
conto-lha.»
«Porque não agora?»
«Temos muito tempo. Daqui a pouco
são horas de jantar.»
«É assim tão longa a sua história?»
«É um pouco.»
«Quando ma pode contar?»
«Logo depois do jantar ou amanhã.»
Disse Margarida pegando no computador e consultando os resultados da bolsa.
«Estão em alta?» Pergunta João.
«Ligeiramente. Quando chegarmos a Lisboa,
vendo-as. Não gosto de ações.»
«Também fazem parte da história?»
Indaga João.
«Também. Obrigado pelo computador.
Até logo ou até amanhã. Vou tomar um duche e vestir-me para jantar.»
João olha-a com ternura e indaga.
«Até logo, onde?
«Não vai jantar?»
«Vou.»
«A minha mesa é uma, mesmo atrás da
sua.» Respondeu Margarida com um sorriso dizendo-lhe adeus.
Desta vez foi João que não
desarredou os olhos de Margarida até a perder de vista.
À mesa de jantar D. Constança ouvia as
suas amigas cinquentonas que em surdina declaravam:
«É verdade. Ouvimos perfeitamente.
Ele é sapateiro.»
«Não pode ser. Tem um porte
impecável. Deve ser uma pessoa importante.» Declara D. Constança.
«Não sei não, aquelas malas que
andam com ele deve ser contrabando. Sai com elas sempre que atracamos e voltam
cheias de quê?»
«Ó D. Genoveva. Ele anda sempre de
volta do comandante e até já o levou ao seu camarote… se fosse contrabando o
comandante já tinha descoberto.»
«Nunca fiando, D. Constança. Cuidado
com a sua filha. Ela que se acautele.»
A conversa embora em tom quase inaudível,
não deixou de causar mal-estar a Margarida que não suportava aquelas
alcoviteiras.
Com esta preocupação nem repara que
João passa por ela e a cumprimentara com um sorriso e um aceno de cabeça, tendo
apenas se apercebido quando ele já se dirigia para o seu lugar, de costas para
ela. Apetece-lhe correr para junto dele e pedir-lhe desculpas.
O jantar decorre com as cerimónias
habituais, mas Margarida alheia a tudo nem repara que sua mãe se começara a
despedir das suas companheiras e lhe dizia:
«Filha, vou andando para o quarto,
ficas?»
«Fico mais um pouco, mãe. Vai
andando que já lá vou ter.»
Depressa se apercebe que, sindo a
mãe, se sentiria só, ao lado daquelas incómodas criaturas. João continuava
sentado de costas para ela, conversando com um casal. Arranja coragem e despede-se
das senhoras, levantando-se de imediato para não dar hipótese a conversas.
Passa junto à mesa de João, vira-se para trás e diz adeus a uma hipotética
pessoa, olhando para João. Sobe a escada e dirige-se para o convés. A noite
estava quente e apetecia-lhe ouvir o marulhar das ondas contra o casco do
navio.
«Sinto-me como Ulisses.» Disse João
muito baixinho por detrás de Margarida que, por sua vez, parecia esperá-lo a
todo o momento.
«Por quê?»
«Quero ouvir o canto das sereias e,
como não estou amarrado, receio ficar enfeitiçado.»
«Aqui não há sereias» interrompe
Margarida.
«Ah, a Margarida parecia-me uma.» Ela
sorriu. «Quando cheguei ao restaurante cumprimentei-a, mas pareceu não me
prestar atenção.»
«Oh, João, desculpe, estava tão
furiosa com as minhas companheiras de mesa, que nem reparei.»
«Que lhe fizeram?»
«Ora, coscuvilhices de gente sem
princípios.»
«A menina que estava do seu lado não
me pareceu dessa
«Menina? Ao meu lado?»
«Sim ao seu lado direito.»
«É minha mãe. Referia-me às outras
duas ao lado de minha mãe.» Informou Margarida.
«É muito nova, não parece ser sua
mãe.»
«Já tem 45 anos. Vai ficar toda
vaidosa quando lhe contar.»
«Está uma noite maravilhosa,
Margarida e como ainda é cedo, pode contar-me a sua longa história de que me
falou esta tarde.»
«Primeiro, fala-me de si. Quem é, o
que faz, o porquê desta viagem, fale-me da sua namorada e do que vai fazer
quando a viagem acabar.»
João, delicadamente toma-lhe o braço
e encaminha-a para uma mesa onde se sentam. Contou-lhe tudo desde o prémio
recebido do Euromilhões, a conversa com os pais sobre a evolução da empresa, do
seu curso de Gestão de Empresas que acumulava com a direção comercial e do seu
futuro como Diretor Comercial da fábrica.
«As malas que trouxe consigo têm a
ver com isso.» Interrompe Margarida.
«Sim, são mostruário que eu levo aos
possíveis clientes que vou contactando via Internet.»
«Daí a razão das suas saídas, sempre
que atracamos?»
«Anda a espiar-me?»
«Eu não, mas alguém o faz e conta à
minha mãe.»
«A sua mãe não gosta de mim?»
«Não gosta nem desgosta. Não o conhece…»
«São aquelas suas companheiras de
mesa que me espiam?»
«Creio que sim, mas passemos à
frente. E o resto?»
«Qual resto?»
«A sua namorada ou namoradas…»
«Ainda não encontrei a mulher ideal,
pelo menos até hoje.»
«Espera encontrá-la neste navio?»
«Nunca se sabe.» Rematou João Inácio
olhando-a com ternura. E continuou. «Agora conte-me a sua “longa” história,
Margarida.
Margarida olha o relógio. «É quase
uma hora, João. Amanhã temos aulas. A propósito, se tem o curso de gestão, por
que razão frequenta as minhas aulas?»
«Acabei o curso há três anos. Há
sempre novidades e novos conhecimentos que não devem ser desaproveitados.
Margarida sorri e despede-se de João
com um beijo na face. João cora sem retribuir o beijo. Fica atónito sem reação.
Quando dá por si, já Margarida desaparecera escada a baixo. Durante mais de uma
hora permanece no convés envergonhado consigo próprio. Era um tímido
incorrigível. Que pensaria Margarida a seu respeito?
A semana seguinte decorreu com a habitual
rotina: aulas, computador, almoços e jantares em mesas distintas, umas saídas
furtuitas ao convés onde João e Margarida se encontravam e conversavam por longos
momentos.
João, sempre inibido e receoso de se
declarar, ia adulando a beleza da sua nova amiga, sempre com parcimónia, mas de
tal forma agradável e divertida, que Margarida ria dos piropos recebidos. Começava
a achar graça àquela timidez, achando estranho que um rapaz daquela idade fosse
tão tímido. Admitia que, por essa razão, João não tivesse namorada.
«É verdade que nunca tiveste uma namorada,
João?»
«Namorada a sério, não. Namorisquei
algumas amigas, mas namorada propriamente, não, e tu?»
«Já te disse que ainda não encontrei
o homem dos meus sonhos.»
«És exigente.»
«Nem por isso.»
«Uma garota como tu, bonita,
elegante… deves ter destroçado muitos corações.»
«Não é a minha forma de estar,
brincar com coisas sérias. Tenho muito respeito por mim e, consequentemente
pelos outros.»
«Estava a brincar, Margarida.
Conheço-te mal, mas o suficiente para saber que serias incapaz de melindrar o
teu semelhante. És uma garota que impõe respeito. Temo-te.»
«Temes-me? Provavelmente temes-te a
ti próprio. Eu mostro o que sou. Aberta, sincera, natural, extrovertida, mas
íntegra…» Expõe Margarida.
«Há dias, quando te despediste com
um até amanhã, beijaste-me na cara. Fiquei desnorteado, sem reação. Apeteceu-me
beijar-te também.»
«Porque não o fizeste? Porque tens
medo de ti?»
«Não, Margarida. Tu impões respeito.
Não te quero perder… quero dizer, magoar.»
«És um tonto. O que me magoa é a
indiferença. Julgo que não gostas de mim.»
João olha-a nos olhos e toma-lhe as
mãos, acariciando-as.
«Margarida, és a garota mais amorosa
que até hoje conheci.» Declara com emoção.
Margarida agarra nas mãos dele e
leva-as ao rosto. João acaricia as faces da garota com ternura. Margarida, com
as mãos dele no seu rosto, e presas pelas suas próprias, puxa-o para si. Olha-o
com ternura e fecha os olhos entreabrindo a boca. João não resiste e beija-a na
boca.
«A tua língua sabe bem, João.»
Exclama Margarida.
João beija-a novamente com
sofreguidão.
«Adoro-te Guidinha.»
Ela sorri, levanta-se e diz-lhe.
«Amanhã é dia de aulas. Temos de nos
levantar cedo. Vamo-nos deitar.»
«Já?»
«Sim.»
«Tens medo de mim?»
«Não. Tenho medo de mim.» Disse Margarida
rindo e puxando-o para se levantar.
Nessa noite João não dormiu.
Margarida enfeitiçara-o. Não sabia que estava apaixonado, mas a verdade é que
passou a noite a pensar nela.
Outros dias passaram e a sua paixão
crescia dia para dia. Conseguira que o comandante o transferisse para a mesa da
sua amada na sala de jantar. Fora apresentado à mãe, que lhe parecera não o
detestar, embora se mostrasse um pouco indiferente. Iria mostrar-se atencioso,
meigo, carinhoso, até que conseguisse a sua aceitação.
Certa noite, depois de jantar,
convidou D. Constança e Margarida a tomarem um digestivo no bar.
«Dona Constança. Permita-me que lhe
diga: É tão jovem e muito bonita… não parece ser mãe de Margarida.» Constança
sorriu embevecida e não deixou de comentar.
«É um galanteador. Foi assim que
conquistou a minha filha?»
«Não sou galanteador, sou sincero.»
Margarida sorria. Mais uma vez o seu
amado cativava. Agora era a sua mãe. Habituada aos galanteios dos seus
admiradores, por vezes excessivos e inconvenientes, admirava-se que João não a
cortejasse com um pouco mais atrevimento. Desejava-o, desejava-o muito.
Adoraria que tomasse uma iniciativa mais ousada. Teria ela de tomar essa
iniciativa? Margarida amava aquele rapaz, mas não queria ser ela a declarar-se.
Iria provocá-lo, espevitá-lo, mas como?
Numa noite, a sós com ele à luz da
lua no convés, tentara desafiá-lo para um banho na piscina, mas ele, como não
tinha fato de banho, recusou.
«Tomamos banhos nus. Não está aqui
ninguém…»
Ele limitou-se a sorrir. Não
acreditou na sinceridade dela. Beijou-a ardentemente e passaram umas boas horas
conversando, apenas conversando.
«Guidinha, Conta-me por que fizeste
esta viagem, que vais fazer quando chegarmos a Lisboa. Conta-me tudo. Fala-me
de ti, dos teus projetos futuros.»
Margarida contou-lhe. Informou-o da
vida que levava na casa dos patrões onde a mãe era governanta, em Coimbra, da
morte do seu progenitor, logo seguida pela morte da viúva. Da herança que estes
lhe deixaram, mansão, terrenos, ações, contas bancárias, etc. Tencionava vender
a mansão e terrenos. Embora não necessitasse, gostaria de empregar-se como
gestora de uma grande empresa. Não tinha jeito para ser empresária nem se
julgava apta para tal. Talvez num futuro. O que sabia é que queria ser útil à
sociedade, queria acabar o Curso de Gestão de Empresa uma vez que estava no
último ano. Aproveitou esta viagem para dar à sua mãe umas férias merecidas, e
a si própria, dado que nunca as tivera. Queria casar, ter filhos, enfim, ser
uma mulher como todas as outras. Queria ser feliz.
«Não és feliz?»
«Sou, mas quero preparar-me para o
futuro.»
«Como te admiro, Guidinha. Gostava
de ser teu namorado, teu marido.»
«Por que não me pedes?»
João, olha-a com ternura, agarra-lhe
as mãos, ajoelha-se e com um ar muito emocionado roga.
«Queres ser a minha namorada que
desde o primeiro dia eu amei?»
Margarida ri, levanta-se e puxa João
para si e beija-o apaixonadamente.
«São quase duas horas da manhã,
querido. Vamos dormir.»
«Mas… não me respondeste.»
«A quê?» Interroga Margarida.
«Ao meu pedido. Queres ser minha namorada?»
«Ah, tenho de pensar, falar com a
minha mãe. Amanhã dou-te a resposta.» Disse Margarida rindo e puxando-o pela
escada abaixo.
Três meses depois, e a um mês do fim
da viagem, como habitualmente, Margarida no salão de jantar com sua mãe e
demais companhias aguarda a chegada do seu amado. João chega, cumprimenta
Margarida com um beijo e as respetivas pessoas à sua volta e senta-se. Estava
desejoso de acabar o jantar. Margarida tinha combinado com ele irem à discoteca
nessa noite. Estava tudo combinado. Seria mais um convite dele à sua mãe
enquanto tomavam uma bebida ao som da música. Seria naquela noite que pediria a
mão de Margarida.
Acabam o jantar. Despedem-se dos acompanhantes
e dirigem-se para o convés.
«Dona Constança, como é do conhecimento
amo a sua filha. Gostaria que aprovasse e consentisse que sua filha fosse minha
namorada e futura esposa. Perdoe-me por ser assim tão direto, mas não tenho
jeito para discursos desta matéria. Quero fazê-la feliz e prometo respeitá-la
não só a ela, como a si também. Gostaria que, quando nos casássemos, viesse
viver connosco.» Disse João corando visivelmente e beijando a mão da senhora.
Margarida parecia feliz, olhando
para a mãe e namorado e, para aliviar o embaraço de ambos, conclui.
«Está uma noite agradável, podemos
ficar aqui um pouco a conversar antes de irmos, não acham?»
«Concordo. A discoteca a esta hora
ainda deve estar deserta.» Declara a mãe de Margarida.
«Estou de acordo consigo, dona
Constança. Seria uma pena perder esta noite maravilhosa com tão agradáveis
companhias.»
«O que faz João?» Indaga D.
Constança.
«Os meus pais têm uma pequena
fábrica de calçado, onde exerço várias funções. Estamos a aumentá-la, mas julgo
que Margarida já lhe tenha contado tudo isto.»
«Sim, já me contou, mas pergunto
qual o seu papel dentro da fábrica.»
«Sou uma espécie de ‘faz-tudo’ desde
a gestão, vendas, crio e desenho o calçado, etc., todavia como a produção tende
a aumentar e vamos necessitar de pessoal especializado. Não vou ter tempo para
tudo.»
«Acredita que o aumento das vendas
justifica isso?»
«Tenho a certeza. Temos rejeitado
encomendas por falta de capacidade de resposta. Ainda há dias fechei um negócio
na Grécia que nos daria para três meses de ininterrupto trabalho se não
aumentássemos a fábrica.»
«Com tantas fábricas de calçado que
há na sua terra…» tenta argumentar Constança, logo interrompida pelo seu
interlocutor.
«Como a nossa há poucas. O calçado é
quase todo feito à mão, por encomenda. Não criamos stocks.»
«Ó mãe, o João sabe o que faz, além
disso não estamos aqui para falar de trabalho.»
«Tens razão filha, sou uma
fala-barato.» E dirigindo-se para João «desculpe-me.»
Já na discoteca, João segreda a
Margarida qualquer coisa que a faz sorrir e concordar.
«A minha mãe adora dançar, pede-lhe.
E junto ao ouvido de João diz: «Só uma, olha que sou ciumenta.»
De regresso à mesa João agradeceu a
dança e rematou. «Adorei dançar consigo. Dança muito bem.»
«Não te sentes, agora é a minha
vez.» Declara Margarida levantando-se.
Margarida entregou-se de tal forma a
João, que este sentiu o corpo da sua amada quase dentro do seu. Não resistiu e
beijou-a na boca.
«Vamo-nos sentar. Estou cansada.»
Exclama Margarida dando-lhe o braço.
«Desculpa, Margarida, mas não
resisti.» Confessa envergonhado João.
«Vocês ficam ainda? Eu vou para a
cama, já não tenho idade para isto.» Diz sorrindo Constança levantando-se.
De imediato João levanta-se e
propõe-se acompanhá-la ao seu camarote.
«Eu também vou. Não confio em vocês.
Depois voltamos.» Disse Margarida rindo.
Deixaram a senhora no camarote com
um beijo de despedida e um até amanhã.
«Queres voltar à discoteca?»
Pergunta João dando a mão a Margarida.
«Trouxeste os desenhos dos sapatos?»
«Como?»
«Não disseste que desenhavas os
sapatos?»
«Sim.»
«Gostava de vê-los.»
«Estão no meu camarote.»
«Vai buscá-los.»
«Estás a falar a sério?»
«Não. Estava a brincar. Mas gostava
de os ver.»
«Agora?»
«Por que não?»
«Está bem, anda.»
Subiram dois andares e pararam à
porta do camarote de João. Este parecia confuso, indeciso e Margarida
arranca-lhe o cartão da mão, introduzindo-o na ranhura. Abre a porta e entra.
«Ficas aí?» Pergunta Margarida
sorrindo.
João entra enquanto Margarida olha
em volta admirando o tamanho do camarote.
«É lindo o teu camarote. É nestas
malas que tens os sapatos?»
João abre uma delas expondo uma coleção
de sapatos.
«Que lindos, são mesmo bonitos.» Diz
margarida pegando num sapato. Senta-se numa cadeira, calça-o. Dá uns passos pela
sala e reclama.
«Serve-me, dá-me o outro.»
«Não trouxe pares completos. São mostruário.
«És mau para mim.»
«Não sou mau. Dava-te todos e tudo.»
Disse João aproximando-se de Margarida pegando-lhe nas mãos e levando-as aos
lábios.
Margarida olhava-o com ternura.
Agarrou as mãos de João e encostou-as mais uma vez à sua face. João acariciou-a
a puxou-a para si. Ela ficou à espera que o seu rosto chega-se ao dela. Ele
temia que ela o rejeitasse como fizera enquanto dançavam. Margarida fechou os
olhos levantou um pouco a cabeça, entreabriu a boca e aguardou. João não
resistiu. Apertou-a contra si, sentido o seu peito hirto a perfurar o seu.
Beijou-a apaixonadamente.
«A tua língua sabe bem. Dá-me mais
um bocadinho.» Diz baixinho João.
E ela deu-lhe. Beijaram-se como
loucos. Margarida transpirava não só de calor como de amor.
«Estou cheia de calor. Empresta-me
uns chinelos de quarto, vou à casa de banho.» Disse Margarida descalçando-se.
João senta-se e aguarda o regresso
da sua Margarida. Repentinamente pela porta da casa de banho surge Margarida
envolta num toalhão, aparentemente sem nada por baixo.
«Tens lá outro toalhão.» Graceja
Margarida fingindo alheada à cara de espanto de João e remexendo numa papelada
indaga. «Posso?»
João acena com a cabeça e Margarida
folheia os papéis distraidamente.
Momentos depois, descalço, aparece
João envolto num toalhão.
«Olha, olha. O dono de uma fábrica
de sapatos, descalço.» Ambos riem.
Agora, mais séria, Margarida
levanta-se e aparentemente a medo, aproxima-se de João. Este, parecendo ter
despertado, aproxima-se também. Puxa-a contra si. Com as mãos, lentamente,
tira-lhe a toalha. Margarida não reage. João olha-a com paixão. Agarra-a pelos
ombros e beija-a apaixonadamente. Pega nela ao colo e dirige-se para o quarto.
Deita-a na cama e exclama.
«Como és bela…»
Margarida puxa-o para si e
beijando-o. Estava sedenta de amor. Finalmente o seu amado tomava a iniciativa
que ela pretendia. Afastou-lhe o toalhão e beijou-lhe o peito. João apaixonadamente
beija-a no pescoço, no peito enquanto ela geme de prazer. Delira quando ele a
beija mais abaixo. Agarra-lhe a cabeça, e grita-lhe:
«Quero-te dentro de mim.»
João com ternura tenta possui-la,
mas repara que ela virgem. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Margarida
força de tal forma a penetração que não consegue evitar um grito de dor e as
lágrimas brotam-lhe. Agarra-o com força e geme.
«Não te mechas. Isto já passa.»
«Porque fizeste isso?» Segreda João
beijando-a.
«Guardei-me para o meu primeiro e
único amor.»
«E agora Guidinha?»
«Agora tens de me amar muito mais.»
João ficou calado, agarrado ao seu
amor sem saber o que dizer. Outra teria dito: ‘desgraçaste-me’ ou ‘agora terás de
casar comigo’, mas a sua amada limitou-se a segredar: “Agora tens de me amar
muito mais’.