terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Bom Campista


           Decorriam os anos 50 do passado século. Eu e o meu amigo João resolvemos acampar na praia da Costa de Caparica. Campismo selvagem.
            «Basta levares um cobertor, uma tolha de banho e sabonete. O resto, levo eu.» Disse para o meu amigo.
            «Sabes montar a tenda?»
            «Lembra-te que andei na Mocidade Portuguesa. Já acampei muitas vezes.» Respondi.
 
            Era um sábado. Apanhámos a camioneta para a Costa logo após o almoço. Iríamos pernoitar aquela noite numa pequeníssima tenda que mal dava para um. Carregado de fogareiro a petróleo, um tacho, pratos de alumínio, lanterna, toalha, sabonete, e artigos de primeiros socorros, chegámos. A praia estava repleta. Como não podíamos montar a tenda àquela hora resolvemos passear pela vila. Cerca das 8 da tarde voltámos. Não fomos os primeiros. Já lá estavam 2 campistas. Montei a tenda com esmero como era meu hábito. Agora, libertado do peso, voltámos à vila. Jantámos e, já noite cerrada, retornámos ao acampamento. O número de campistas tinha-se multiplicado assustadoramente. Se não fosse o luar, com as lanternas ter-nos-ia sido difícil localizar a nossa tenda.
            «É esta.» Gritei ao aproximar-me da tenda.
            Um ruido que me pareceu o de uma faca rasgando a tela da tenda pelo interior, assustou-me e de imediato agarrei, creio que uma pedra, e desferi na mão do intruso. Simultaneamente o meu amigo João puxou-me pelo braço e segredou-me:
            «Esta não é a nossa tenda.»
            Corremos e escondemo-nos. Momentos depois, parecendo tudo calmo, procurámos a nossa um pouco mais à frente.

            Sete horas e meia da manhã de domingo acordámos com o barulho dos veraneantes que chegavam. Preparávamo-nos para ir ao banho quando um rapaz com a mão envolta num lenço nos perguntou se tínhamos um penso ou desinfetante.
            «Que lhe aconteceu?» Perguntou o João.
            «Alguém tentou roubar-me e deu-me uma pancada na mão.»
            «Porque não gritou?»
            «Quem o fez fugiu.»
            «Bandidos.» Exclamei olhando de soslaio o meu amigo. 

            Demos uns mergulhos no mar e aproveitei para me lavar e irmos tomar o pequeno-almoço. Por mais que esfregasse o sabonete no corpo não conseguia que este fizesse espuma. Desisti. Limpei-me e saímos para a vila. Depois do pequeno- almoço fomos ao mercado. Comprámos uma boa posta de peixe, batatas, uma suculenta cebola e duas carcaças. Iríamos almoçar peixe cozido preparado por mim. Sim, eu, habituado a campismo, também sabia cozinhar. 

            Uma hora da tarde. Enquanto o João brinca na praia, eu pego no tacho e meto as batatas lá dentro. Corro para o mar. Lavo as batatas e o tacho. Encho o tacho de água do mar e meto as batatas lá dentro. Regresso à tenda. Corto as batatas ao meio. Descasco a cebola e corto-a ao meio. Meto-a também no tacho. A posta de peixe é colocada por cima. (Eu percebia de cozinha, tinha aprendido com a minha mãe.) Acendo o fogareiro a petróleo depois de ter gasto quase metade dos fósforos. Estava muito vento. Ponho o tacho ao lume. Agora é só esperar que o petisco ficasse cozido. De vez em quanto ia espetando o canivete nas batatas. Só mais uns minutos e teria o almoço pronto.
            Corri à borda de água e chamei o João.
            «O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.»
            Sentámo-nos no chão. Uma toalha de banho serviu de toalha de mesa. Um prato de cado lado, garfo e pão ladeavam os pratos. Estava tudo perfeito. Dividimos o peixe, repartimos as batatas e metade da cebola para cada um.
            «Cheira bem, foi pena não termos trazido azeite e vinagre.» Lamenta João.
            «Hum, não faz muita falta.» Arrematei à laia de desculpa.
            «Que é isto? Descuidaste-te no sal.» Exclama João ao dar uma dentada numa batata.
            «Eu?, não pus sal nenhum… é só água do mar.» Respondi, metendo um bocado de batata na boca, cuspindo-a de imediato e continuei.
            «Pode ser que o peixe esteja melhor.»
            Tal como as batatas estava intragável.  

            Depois de contarmos os trocos que nos sobravam, verificámos que ainda podíamos comprar um bocado de chouriço. O nosso almoço limitou-se a uma sandes de chouriço e um pirolito.

            Duas coisas aprendi. Não podemos cozinhar com água do mar nem nos lavarmos com sabonete na praia.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Agora Tens de Me Amar Muito Mais


             Vivia nos arredores de Coimbra numa mansão de um casal abastado, onde sua mãe exercia as funções de governanta. Ali nascera e se criara. O pai, motorista privado daquele casal, falecera ainda Margarida Salgueiro andava na primária. A custo a mãe conseguira manter Margarida até ela completar a escolaridade obrigatória, mas Margarida queria mais, queria frequentar um curso superior, Gestão de Empresas.
            A mãe de Margarida era uma mulher jovem quando enviuvou, mas não queria dar um padrasto à sua filha que tanto amava. Queria vê-la com o curso superior completo e bem casada, já que ela não o tinha e mal sabia ler. A esmerada educação da sua menina e as boas notas obtidas, foram um bom motivo para que os patrões custeassem as despesas escolares.

            Muito longe dali, mais propriamente em S. João da Madeira, vivia o “Sapateiro”, como era conhecido João Inácio na faculdade. O seu pai possuía uma fabriqueta de calçado manufaturado de alta qualidade. Quase toda a produção era enviada para Inglaterra, para um importador português aí estabelecido. João Inácio aprendera o ofício ainda em criança. Hoje é o diretor comercial e teima na expansão da fábrica. As encomendas começavam a crescer, mas a mão-de-obra era escassa mesmo trabalhando 24 horas por dia. Para aumentar a produção necessitava de mais pessoal e, consequentemente, de mais espaço, de mais maquinaria, de mais matéria-prima. Já tinham recorrido à banca, mas o investimento pretendido era muito superior ao do capital social da fábrica. Por muitos bons argumentos apresentados pelo filho do industrial, como o da expansão da fábrica e encomendas a angariar noutro países, não eram suficientes para que o banco concedesse tal empréstimo.

            Cerca de um ano após a tentativa de empréstimo à banca, decorria uma campanha publicitária, na rádio e imprensa de um cruzeiro de volta do mundo, um cruzeiro para milionários. Tratava-se de um “Cruzeiro Escola”. Uma viagem que se previa durar entre 6 a 7 meses. A viagem, para além de viagem de lazer, era igual e principalmente viagem de formação. Uma viagem onde professores das mais variadas jurisdições académicas levariam os seus instruendos a um “Curso Intensivo Superior”. Também constava a aprendizagem de um “Curso de Boas Maneiras”
            O paquete partiria de lisboa em meados de agosto e regressaria em fevereiro do ano seguinte. Para além das salas de aulas, um centro de saúde, capela, bares, restaurantes, sala de cinema, discoteca, piscina, campo de ténis, ginásio e outros lazeres, dispunha de um centro comercial onde não faltavam boutiques, alfaiataria, alta-costura, farmácia, artigos para informática e tudo o mais que se possa imaginar, de forma que os passageiros não necessitassem de sair para se abastecer. Anunciavam mesmo que não carregassem muita bagagem, pois nada lhes faltaria a bordo. 
             O itinerário seria de uma volta ao mundo, fazendo estadia em todos os portos principais, onde permaneceriam entre 4 a 8 dias para visitas locais. 

            João Inácio chega a casa eufórico. Convida os pais a um jantar de negócios. Tem uma proposta a fazer.
            João, à mesa de um restaurante elegantíssimo, olha os pais com ternura e informa:
            «Tenho excelentes notícias a dar. Se lhes perguntar: querem deixar de trabalhar ou preferem aumentar a fábrica?»
            O pai atónito olha o filho e a esposa e com ar interrogativo balbucia.
            «Que se passa?»
            «Pai! Se lhe dessem a escolher entre uma choruda reforma ou aumentar a fábrica, que escolheria?»
            «Aumentar a fábrica, sou muito novo para me reformar. Mas não vejo aonde queres chegar.»
            Entretanto chega o empregado com as ementas. Pai e mãe abrem a ementa, olham o filho, olham a ementa e especados sem saber o que dizer ou fazer ficam paralisados.
            «Então? Não vos agradam os pratos?» Ri João.
            «Mas, estás a intrigar-nos. Que te passou pela cabeça, filho?»
            «Temos todo o jantar para falar. Agora escolham o prato que eu escolho o vinho.»
            João sorria feliz, enquanto mãe e pai olhavam intrigados quer para o filho, quer um para o outro. A meio do jantar João abre a carteira e mostra um talão.
            «Sabem o que é isto? A nossa independência financeira.» Diz João muito baixinho para os pais mostrando o talão do Euromilhões e prossegue. «Saiu-me o Euromilhões.»
            Pai e mãe ficam especados olhando o filho sem conseguirem articular palavra.
            «Mas… é verdade?» Articula o pai.
            «Chiu. Na próxima semana estaremos na posse destes milhões. Agora comece a trabalhar na ampliação da fábrica e a contratar pessoal. Vou estar ausente uns meses. Vou viajar pelo mundo, num barco. Vou cultivar-me e aproveitar a oportunidade para contactar clientes por esse mundo fora, mas não deixarei de estar presente diariamente via Internet.»
            João contou a sua ideia de uma viagem no cruzeiro que semanas antes tinha comentado com o pai, quando leram a notícia da viagem de sonho para milionários.

            Carregado de malas, o jovem João, atraente, introvertido, mas resoluto, embarca. Tinha reservado uma suite a bordo do “Navio Escola”. É olhado com espanto pelos outros passageiros, principalmente por uma garota de longos cabelos negros e um corpo escultural, em virtude da sua volumosa bagagem.

            Margarida, não desarreda os olhos do elegante cavalheiro que embarcara carregado de malas. Segue-o para todo o lado, mas ele parecia não dar pela sua presença, sempre ocupado quer nas suas aulas, quer agarrado ao computador que nunca largava. Parecia impossível. Ela sabia bem o quanto era apreciada pelos colegas da universidade e não só. Não era vaidosa, mas tinha um espelho que lhe dizia o quanto era bela. Vira-o recentemente na sua própria aula de Gestão e esperava agora, como colega de turma, entabular conversa com ele. Mas não. Ele era o primeiro a entrar e o último a sair, não dando conta dos colegas que entravam ou saiam. Chegou mesmo a dar-lhe um encontro propositado, mas a reação foi um pedido de desculpas da parte dele, mas sem a olhar, seguindo o seu caminho. Pensou em pedir a transferência da sua mesa do restaurante para a dele, mas teria de fazê-lo em companhia de sua mãe, que por sua vez, já notara os olhares constantes dela para o rapaz.

            Cerca de dez dias após o embarque, Margarida passeia pelo convés. Era um domingo. Não havia aulas. Estava uma tarde quente e pensava ir tomar um banho à piscina. Trajando uma túnica sobre o biquíni, olha em redor e procura uma cadeira para se sentar. Um cavalheiro não muito longe do lugar escolhido, manuseava um computador. Ao seu lado duas senhoras na casa dos cinquenta conversavam. Eram as companheiras de sua mãe nas horas das refeições. Cumprimentou-as e sentou-se. O cavalheiro, como de costume, não levantou os olhos do computador. Encheu-se de coragem e aproximou-se do rapaz.
           «Desculpe-me. Tem Internet?»
            João olha-a e fica paralisado.
            Margarida, mais afoita, estende-lhe a mão.
            «Margarida.» Disse em tom de apresentação.          
            João levanta-se e aperta-lhe a mão sem tirar os olhos dela.
            «João. Muito prazer.»
            «Importa-se de me devolver a mão?»
            «Oh, desculpe.» Disse João, corando visivelmente e libertando a mão de Margarida. Desfez-se em desculpas.
            «Tem?»
            «Tenho o quê?» Interroga João.
            «Internet.»
            «Tenho sim. Quer consultá-la?»
            «Gostaria, mas tenho tempo. Acabe o que está a fazer e depois utilizo o seu computador. Apenas queria ver a cotação da bolsa.»
            «Joga na bolsa?»
            «Não. São apenas umas ações que herdei.»
            «Desculpe Margarida, mas… caiu do céu?»
            «Não percebo a pergunta.»
            «Há quase 2 semanas que embarquei e só hoje a vi…»
            «Embarquei em Lisboa, tal como o senhor, mas como anda tão atarefado com as aulas e o seu trabalho de computador, nem repara nos seus companheiros de viagem.»
            «Tem razão. Sou um pouco distraído.» Confessa João.
            «Enquanto acaba o que estava a fazer vou dar um mergulho e volto já.» Disse Margarida tirando a túnica arremessando-a para a cadeira ao lado da do João.
            João não tirou os olhos daquela perfeita garota, bela e sedutora, enquanto nadava com uma perfeição impressionante. Minutos depois Margarida regressa limpando-se, sentando-se ao lado de João que de imediato lhe passa o computador.  
            «Nada muito bem, Margarida.»
            «Aprendi na escola. O que faz João?»
            «Sou sapateiro.» Exclama João em voz um pouco mais alta, que não passou despercebido às duas cinquentonas que de imediato se voltaram e cochicharam em surdina.
            «Sapateiro?»
            «Sim. Meu pai tem uma fábrica de calçado manufaturado, em São João da Madeira. Sou o diretor comercial. E a Margarida?»
            Margarida sorriu e confessou.
            «Eu sou ajudante de governanta numa casa de uns fidalgos, nos arredores de Coimbra.»
            «Não brinque.»
            «É verdade, pelo menos fui-o até há pouco tempo.»
            «E agora?»
            «É uma longa história. Depois conto-lha.»
            «Porque não agora?»
            «Temos muito tempo. Daqui a pouco são horas de jantar.»
            «É assim tão longa a sua história?»
            «É um pouco.»
            «Quando ma pode contar?»
            «Logo depois do jantar ou amanhã.» Disse Margarida pegando no computador e consultando os resultados da bolsa.
            «Estão em alta?» Pergunta João.
            «Ligeiramente. Quando chegarmos a Lisboa, vendo-as. Não gosto de ações.»
            «Também fazem parte da história?» Indaga João.
            «Também. Obrigado pelo computador. Até logo ou até amanhã. Vou tomar um duche e vestir-me para jantar.»
            João olha-a com ternura e indaga.
            «Até logo, onde?
            «Não vai jantar?»
            «Vou.»
            «A minha mesa é uma, mesmo atrás da sua.» Respondeu Margarida com um sorriso dizendo-lhe adeus.
            Desta vez foi João que não desarredou os olhos de Margarida até a perder de vista.

            À mesa de jantar D. Constança ouvia as suas amigas cinquentonas que em surdina declaravam:
            «É verdade. Ouvimos perfeitamente. Ele é sapateiro.»
            «Não pode ser. Tem um porte impecável. Deve ser uma pessoa importante.» Declara D. Constança.
            «Não sei não, aquelas malas que andam com ele deve ser contrabando. Sai com elas sempre que atracamos e voltam cheias de quê?»
            «Ó D. Genoveva. Ele anda sempre de volta do comandante e até já o levou ao seu camarote… se fosse contrabando o comandante já tinha descoberto.»
            «Nunca fiando, D. Constança. Cuidado com a sua filha. Ela que se acautele.»
            A conversa embora em tom quase inaudível, não deixou de causar mal-estar a Margarida que não suportava aquelas alcoviteiras.
            Com esta preocupação nem repara que João passa por ela e a cumprimentara com um sorriso e um aceno de cabeça, tendo apenas se apercebido quando ele já se dirigia para o seu lugar, de costas para ela. Apetece-lhe correr para junto dele e pedir-lhe desculpas.
            O jantar decorre com as cerimónias habituais, mas Margarida alheia a tudo nem repara que sua mãe se começara a despedir das suas companheiras e lhe dizia:
            «Filha, vou andando para o quarto, ficas?»
            «Fico mais um pouco, mãe. Vai andando que já lá vou ter.»
            Depressa se apercebe que, sindo a mãe, se sentiria só, ao lado daquelas incómodas criaturas. João continuava sentado de costas para ela, conversando com um casal. Arranja coragem e despede-se das senhoras, levantando-se de imediato para não dar hipótese a conversas. Passa junto à mesa de João, vira-se para trás e diz adeus a uma hipotética pessoa, olhando para João. Sobe a escada e dirige-se para o convés. A noite estava quente e apetecia-lhe ouvir o marulhar das ondas contra o casco do navio.

            «Sinto-me como Ulisses.» Disse João muito baixinho por detrás de Margarida que, por sua vez, parecia esperá-lo a todo o momento.
            «Por quê?»
            «Quero ouvir o canto das sereias e, como não estou amarrado, receio ficar enfeitiçado.»
            «Aqui não há sereias» interrompe Margarida.
            «Ah, a Margarida parecia-me uma.» Ela sorriu. «Quando cheguei ao restaurante cumprimentei-a, mas pareceu não me prestar atenção.»
            «Oh, João, desculpe, estava tão furiosa com as minhas companheiras de mesa, que nem reparei.»
            «Que lhe fizeram?»
            «Ora, coscuvilhices de gente sem princípios.»
            «A menina que estava do seu lado não me pareceu dessa
            «Menina? Ao meu lado?»
            «Sim ao seu lado direito.»
            «É minha mãe. Referia-me às outras duas ao lado de minha mãe.» Informou Margarida.
            «É muito nova, não parece ser sua mãe.»
            «Já tem 45 anos. Vai ficar toda vaidosa quando lhe contar.»
            «Está uma noite maravilhosa, Margarida e como ainda é cedo, pode contar-me a sua longa história de que me falou esta tarde.»
            «Primeiro, fala-me de si. Quem é, o que faz, o porquê desta viagem, fale-me da sua namorada e do que vai fazer quando a viagem acabar.»
            João, delicadamente toma-lhe o braço e encaminha-a para uma mesa onde se sentam. Contou-lhe tudo desde o prémio recebido do Euromilhões, a conversa com os pais sobre a evolução da empresa, do seu curso de Gestão de Empresas que acumulava com a direção comercial e do seu futuro como Diretor Comercial da fábrica.   
            «As malas que trouxe consigo têm a ver com isso.» Interrompe Margarida.
            «Sim, são mostruário que eu levo aos possíveis clientes que vou contactando via Internet.»
            «Daí a razão das suas saídas, sempre que atracamos?»
            «Anda a espiar-me?»
            «Eu não, mas alguém o faz e conta à minha mãe.»
            «A sua mãe não gosta de mim?»
            «Não gosta nem desgosta. Não o conhece…»  
            «São aquelas suas companheiras de mesa que me espiam?»
            «Creio que sim, mas passemos à frente. E o resto?»
            «Qual resto?»
            «A sua namorada ou namoradas…»
            «Ainda não encontrei a mulher ideal, pelo menos até hoje.»
            «Espera encontrá-la neste navio?»
            «Nunca se sabe.» Rematou João Inácio olhando-a com ternura. E continuou. «Agora conte-me a sua “longa” história, Margarida.
            Margarida olha o relógio. «É quase uma hora, João. Amanhã temos aulas. A propósito, se tem o curso de gestão, por que razão frequenta as minhas aulas?»
            «Acabei o curso há três anos. Há sempre novidades e novos conhecimentos que não devem ser desaproveitados.
            Margarida sorri e despede-se de João com um beijo na face. João cora sem retribuir o beijo. Fica atónito sem reação. Quando dá por si, já Margarida desaparecera escada a baixo. Durante mais de uma hora permanece no convés envergonhado consigo próprio. Era um tímido incorrigível. Que pensaria Margarida a seu respeito?

            A semana seguinte decorreu com a habitual rotina: aulas, computador, almoços e jantares em mesas distintas, umas saídas furtuitas ao convés onde João e Margarida se encontravam e conversavam por longos momentos.
            João, sempre inibido e receoso de se declarar, ia adulando a beleza da sua nova amiga, sempre com parcimónia, mas de tal forma agradável e divertida, que Margarida ria dos piropos recebidos. Começava a achar graça àquela timidez, achando estranho que um rapaz daquela idade fosse tão tímido. Admitia que, por essa razão, João não tivesse namorada.
            «É verdade que nunca tiveste uma namorada, João?»
            «Namorada a sério, não. Namorisquei algumas amigas, mas namorada propriamente, não, e tu?»
            «Já te disse que ainda não encontrei o homem dos meus sonhos.»
            «És exigente.»
            «Nem por isso.»
            «Uma garota como tu, bonita, elegante… deves ter destroçado muitos corações.»
            «Não é a minha forma de estar, brincar com coisas sérias. Tenho muito respeito por mim e, consequentemente pelos outros.»
            «Estava a brincar, Margarida. Conheço-te mal, mas o suficiente para saber que serias incapaz de melindrar o teu semelhante. És uma garota que impõe respeito. Temo-te.»
            «Temes-me? Provavelmente temes-te a ti próprio. Eu mostro o que sou. Aberta, sincera, natural, extrovertida, mas íntegra…» Expõe Margarida.
            «Há dias, quando te despediste com um até amanhã, beijaste-me na cara. Fiquei desnorteado, sem reação. Apeteceu-me beijar-te também.»
            «Porque não o fizeste? Porque tens medo de ti?»
            «Não, Margarida. Tu impões respeito. Não te quero perder… quero dizer, magoar.»
            «És um tonto. O que me magoa é a indiferença. Julgo que não gostas de mim.»
            João olha-a nos olhos e toma-lhe as mãos, acariciando-as.
            «Margarida, és a garota mais amorosa que até hoje conheci.» Declara com emoção.
            Margarida agarra nas mãos dele e leva-as ao rosto. João acaricia as faces da garota com ternura. Margarida, com as mãos dele no seu rosto, e presas pelas suas próprias, puxa-o para si. Olha-o com ternura e fecha os olhos entreabrindo a boca. João não resiste e beija-a na boca.
            «A tua língua sabe bem, João.» Exclama Margarida.
            João beija-a novamente com sofreguidão.
            «Adoro-te Guidinha.»
            Ela sorri, levanta-se e diz-lhe.
            «Amanhã é dia de aulas. Temos de nos levantar cedo. Vamo-nos deitar.»
            «Já?»
            «Sim.»
            «Tens medo de mim?»
            «Não. Tenho medo de mim.» Disse Margarida rindo e puxando-o para se levantar.
            Nessa noite João não dormiu. Margarida enfeitiçara-o. Não sabia que estava apaixonado, mas a verdade é que passou a noite a pensar nela. 

            Outros dias passaram e a sua paixão crescia dia para dia. Conseguira que o comandante o transferisse para a mesa da sua amada na sala de jantar. Fora apresentado à mãe, que lhe parecera não o detestar, embora se mostrasse um pouco indiferente. Iria mostrar-se atencioso, meigo, carinhoso, até que conseguisse a sua aceitação.

            Certa noite, depois de jantar, convidou D. Constança e Margarida a tomarem um digestivo no bar.
            «Dona Constança. Permita-me que lhe diga: É tão jovem e muito bonita… não parece ser mãe de Margarida.» Constança sorriu embevecida e não deixou de comentar.
            «É um galanteador. Foi assim que conquistou a minha filha?»
            «Não sou galanteador, sou sincero.»
            Margarida sorria. Mais uma vez o seu amado cativava. Agora era a sua mãe. Habituada aos galanteios dos seus admiradores, por vezes excessivos e inconvenientes, admirava-se que João não a cortejasse com um pouco mais atrevimento. Desejava-o, desejava-o muito. Adoraria que tomasse uma iniciativa mais ousada. Teria ela de tomar essa iniciativa? Margarida amava aquele rapaz, mas não queria ser ela a declarar-se. Iria provocá-lo, espevitá-lo, mas como?
            Numa noite, a sós com ele à luz da lua no convés, tentara desafiá-lo para um banho na piscina, mas ele, como não tinha fato de banho, recusou.
            «Tomamos banhos nus. Não está aqui ninguém…»
            Ele limitou-se a sorrir. Não acreditou na sinceridade dela. Beijou-a ardentemente e passaram umas boas horas conversando, apenas conversando.
            «Guidinha, Conta-me por que fizeste esta viagem, que vais fazer quando chegarmos a Lisboa. Conta-me tudo. Fala-me de ti, dos teus projetos futuros.»
            Margarida contou-lhe. Informou-o da vida que levava na casa dos patrões onde a mãe era governanta, em Coimbra, da morte do seu progenitor, logo seguida pela morte da viúva. Da herança que estes lhe deixaram, mansão, terrenos, ações, contas bancárias, etc. Tencionava vender a mansão e terrenos. Embora não necessitasse, gostaria de empregar-se como gestora de uma grande empresa. Não tinha jeito para ser empresária nem se julgava apta para tal. Talvez num futuro. O que sabia é que queria ser útil à sociedade, queria acabar o Curso de Gestão de Empresa uma vez que estava no último ano. Aproveitou esta viagem para dar à sua mãe umas férias merecidas, e a si própria, dado que nunca as tivera. Queria casar, ter filhos, enfim, ser uma mulher como todas as outras. Queria ser feliz.
            «Não és feliz?»
            «Sou, mas quero preparar-me para o futuro.»
            «Como te admiro, Guidinha. Gostava de ser teu namorado, teu marido.»
            «Por que não me pedes?»
            João, olha-a com ternura, agarra-lhe as mãos, ajoelha-se e com um ar muito emocionado roga.
            «Queres ser a minha namorada que desde o primeiro dia eu amei?»
            Margarida ri, levanta-se e puxa João para si e beija-o apaixonadamente.
            «São quase duas horas da manhã, querido. Vamos dormir.»
            «Mas… não me respondeste.»
            «A quê?» Interroga Margarida.
            «Ao meu pedido. Queres ser minha namorada?»
            «Ah, tenho de pensar, falar com a minha mãe. Amanhã dou-te a resposta.» Disse Margarida rindo e puxando-o pela escada abaixo.

            Três meses depois, e a um mês do fim da viagem, como habitualmente, Margarida no salão de jantar com sua mãe e demais companhias aguarda a chegada do seu amado. João chega, cumprimenta Margarida com um beijo e as respetivas pessoas à sua volta e senta-se. Estava desejoso de acabar o jantar. Margarida tinha combinado com ele irem à discoteca nessa noite. Estava tudo combinado. Seria mais um convite dele à sua mãe enquanto tomavam uma bebida ao som da música. Seria naquela noite que pediria a mão de Margarida.
            Acabam o jantar. Despedem-se dos acompanhantes e dirigem-se para o convés.
            «Dona Constança, como é do conhecimento amo a sua filha. Gostaria que aprovasse e consentisse que sua filha fosse minha namorada e futura esposa. Perdoe-me por ser assim tão direto, mas não tenho jeito para discursos desta matéria. Quero fazê-la feliz e prometo respeitá-la não só a ela, como a si também. Gostaria que, quando nos casássemos, viesse viver connosco.» Disse João corando visivelmente e beijando a mão da senhora.
            Margarida parecia feliz, olhando para a mãe e namorado e, para aliviar o embaraço de ambos, conclui.    
            «Está uma noite agradável, podemos ficar aqui um pouco a conversar antes de irmos, não acham?»
            «Concordo. A discoteca a esta hora ainda deve estar deserta.» Declara a mãe de Margarida.
            «Estou de acordo consigo, dona Constança. Seria uma pena perder esta noite maravilhosa com tão agradáveis companhias.»
            «O que faz João?» Indaga D. Constança.
            «Os meus pais têm uma pequena fábrica de calçado, onde exerço várias funções. Estamos a aumentá-la, mas julgo que Margarida já lhe tenha contado tudo isto.»
            «Sim, já me contou, mas pergunto qual o seu papel dentro da fábrica.»
            «Sou uma espécie de ‘faz-tudo’ desde a gestão, vendas, crio e desenho o calçado, etc., todavia como a produção tende a aumentar e vamos necessitar de pessoal especializado. Não vou ter tempo para tudo.»
            «Acredita que o aumento das vendas justifica isso?»
            «Tenho a certeza. Temos rejeitado encomendas por falta de capacidade de resposta. Ainda há dias fechei um negócio na Grécia que nos daria para três meses de ininterrupto trabalho se não aumentássemos a fábrica.»
            «Com tantas fábricas de calçado que há na sua terra…» tenta argumentar Constança, logo interrompida pelo seu interlocutor.
            «Como a nossa há poucas. O calçado é quase todo feito à mão, por encomenda. Não criamos stocks.»
            «Ó mãe, o João sabe o que faz, além disso não estamos aqui para falar de trabalho.»
            «Tens razão filha, sou uma fala-barato.» E dirigindo-se para João «desculpe-me.»
            Já na discoteca, João segreda a Margarida qualquer coisa que a faz sorrir e concordar.
            «A minha mãe adora dançar, pede-lhe. E junto ao ouvido de João diz: «Só uma, olha que sou ciumenta.»
            De regresso à mesa João agradeceu a dança e rematou. «Adorei dançar consigo. Dança muito bem.»
            «Não te sentes, agora é a minha vez.» Declara Margarida levantando-se.
            Margarida entregou-se de tal forma a João, que este sentiu o corpo da sua amada quase dentro do seu. Não resistiu e beijou-a na boca.
            «Vamo-nos sentar. Estou cansada.» Exclama Margarida dando-lhe o braço.
            «Desculpa, Margarida, mas não resisti.» Confessa envergonhado João.
            «Vocês ficam ainda? Eu vou para a cama, já não tenho idade para isto.» Diz sorrindo Constança levantando-se.
            De imediato João levanta-se e propõe-se acompanhá-la ao seu camarote.
            «Eu também vou. Não confio em vocês. Depois voltamos.» Disse Margarida rindo.
            Deixaram a senhora no camarote com um beijo de despedida e um até amanhã.
            «Queres voltar à discoteca?» Pergunta João dando a mão a Margarida.
            «Trouxeste os desenhos dos sapatos?»
            «Como?»
            «Não disseste que desenhavas os sapatos?»
            «Sim.»
            «Gostava de vê-los.»
            «Estão no meu camarote.»
            «Vai buscá-los.»
            «Estás a falar a sério?»
            «Não. Estava a brincar. Mas gostava de os ver.»
            «Agora?»
            «Por que não?»
            «Está bem, anda.»
            Subiram dois andares e pararam à porta do camarote de João. Este parecia confuso, indeciso e Margarida arranca-lhe o cartão da mão, introduzindo-o na ranhura. Abre a porta e entra.
            «Ficas aí?» Pergunta Margarida sorrindo.
            João entra enquanto Margarida olha em volta admirando o tamanho do camarote.
            «É lindo o teu camarote. É nestas malas que tens os sapatos?»
            João abre uma delas expondo uma coleção de sapatos.

            «Que lindos, são mesmo bonitos.» Diz margarida pegando num sapato. Senta-se numa cadeira, calça-o. Dá uns passos pela sala e reclama.
            «Serve-me, dá-me o outro.»
            «Não trouxe pares completos. São mostruário.
            «És mau para mim.»
            «Não sou mau. Dava-te todos e tudo.» Disse João aproximando-se de Margarida pegando-lhe nas mãos e levando-as aos lábios.
            Margarida olhava-o com ternura. Agarrou as mãos de João e encostou-as mais uma vez à sua face. João acariciou-a a puxou-a para si. Ela ficou à espera que o seu rosto chega-se ao dela. Ele temia que ela o rejeitasse como fizera enquanto dançavam. Margarida fechou os olhos levantou um pouco a cabeça, entreabriu a boca e aguardou. João não resistiu. Apertou-a contra si, sentido o seu peito hirto a perfurar o seu. Beijou-a apaixonadamente.
            «A tua língua sabe bem. Dá-me mais um bocadinho.» Diz baixinho João.
            E ela deu-lhe. Beijaram-se como loucos. Margarida transpirava não só de calor como de amor.
            «Estou cheia de calor. Empresta-me uns chinelos de quarto, vou à casa de banho.» Disse Margarida descalçando-se.
            João senta-se e aguarda o regresso da sua Margarida. Repentinamente pela porta da casa de banho surge Margarida envolta num toalhão, aparentemente sem nada por baixo.
            «Tens lá outro toalhão.» Graceja Margarida fingindo alheada à cara de espanto de João e remexendo numa papelada indaga. «Posso?»
            João acena com a cabeça e Margarida folheia os papéis distraidamente.
            Momentos depois, descalço, aparece João envolto num toalhão.
            «Olha, olha. O dono de uma fábrica de sapatos, descalço.» Ambos riem.
            Agora, mais séria, Margarida levanta-se e aparentemente a medo, aproxima-se de João. Este, parecendo ter despertado, aproxima-se também. Puxa-a contra si. Com as mãos, lentamente, tira-lhe a toalha. Margarida não reage. João olha-a com paixão. Agarra-a pelos ombros e beija-a apaixonadamente. Pega nela ao colo e dirige-se para o quarto. Deita-a na cama e exclama.
            «Como és bela…»
            Margarida puxa-o para si e beijando-o. Estava sedenta de amor. Finalmente o seu amado tomava a iniciativa que ela pretendia. Afastou-lhe o toalhão e beijou-lhe o peito. João apaixonadamente beija-a no pescoço, no peito enquanto ela geme de prazer. Delira quando ele a beija mais abaixo. Agarra-lhe a cabeça, e grita-lhe:
            «Quero-te dentro de mim.»
            João com ternura tenta possui-la, mas repara que ela virgem. Antes que pudesse dizer alguma coisa, Margarida força de tal forma a penetração que não consegue evitar um grito de dor e as lágrimas brotam-lhe. Agarra-o com força e geme.
            «Não te mechas. Isto já passa.»
            «Porque fizeste isso?» Segreda João beijando-a.
            «Guardei-me para o meu primeiro e único amor.»
            «E agora Guidinha?»
            «Agora tens de me amar muito mais.»
            João ficou calado, agarrado ao seu amor sem saber o que dizer. Outra teria dito: ‘desgraçaste-me’ ou ‘agora terás de casar comigo’, mas a sua amada limitou-se a segredar: “Agora tens de me amar muito mais’.