Decorriam os
anos 50 do passado século. Eu e o meu amigo João resolvemos acampar na praia da
Costa de Caparica. Campismo selvagem.
«Basta levares um cobertor, uma
tolha de banho e sabonete. O resto, levo eu.» Disse para o meu amigo.
«Sabes montar a tenda?»
«Lembra-te que andei na Mocidade
Portuguesa. Já acampei muitas
vezes.» Respondi.
Era um sábado. Apanhámos a camioneta
para a Costa logo após o almoço. Iríamos pernoitar aquela noite numa
pequeníssima tenda que mal dava para um. Carregado de fogareiro a petróleo, um
tacho, pratos de alumínio, lanterna, toalha, sabonete, e artigos de primeiros
socorros, chegámos. A praia estava repleta. Como não podíamos montar a tenda
àquela hora resolvemos passear pela vila. Cerca das 8 da tarde voltámos. Não
fomos os primeiros. Já lá estavam 2 campistas. Montei a tenda com esmero como
era meu hábito. Agora, libertado do peso, voltámos à vila. Jantámos e, já noite
cerrada, retornámos ao acampamento. O número de campistas tinha-se multiplicado
assustadoramente. Se não fosse o luar, com as lanternas ter-nos-ia sido difícil
localizar a nossa tenda.
«É esta.» Gritei ao aproximar-me da
tenda.
Um ruido que me pareceu o de uma
faca rasgando a tela da tenda pelo interior, assustou-me e de imediato agarrei,
creio que uma pedra, e desferi na mão do intruso. Simultaneamente o meu amigo
João puxou-me pelo braço e segredou-me:
«Esta não é a nossa tenda.»
Corremos e escondemo-nos. Momentos
depois, parecendo tudo calmo, procurámos a nossa um pouco mais à frente.
Sete horas e meia da manhã de
domingo acordámos com o barulho dos veraneantes que chegavam. Preparávamo-nos
para ir ao banho quando um rapaz com a mão envolta num lenço nos perguntou se
tínhamos um penso ou desinfetante.
«Que lhe aconteceu?» Perguntou o
João.
«Alguém tentou roubar-me e deu-me
uma pancada na mão.»
«Porque não gritou?»
«Quem o fez fugiu.»
«Bandidos.» Exclamei olhando de
soslaio o meu amigo.
Demos uns mergulhos no mar e aproveitei
para me lavar e irmos tomar o pequeno-almoço. Por mais que esfregasse o
sabonete no corpo não conseguia que este fizesse espuma. Desisti. Limpei-me e
saímos para a vila. Depois do pequeno- almoço fomos ao mercado. Comprámos uma
boa posta de peixe, batatas, uma suculenta cebola e duas carcaças. Iríamos
almoçar peixe cozido preparado por mim. Sim, eu, habituado a campismo, também
sabia cozinhar.
Uma hora da tarde. Enquanto o João
brinca na praia, eu pego no tacho e meto as batatas lá dentro. Corro para o
mar. Lavo as batatas e o tacho. Encho o tacho de água do mar e meto as batatas
lá dentro. Regresso à tenda. Corto as batatas ao meio. Descasco a cebola e
corto-a ao meio. Meto-a também no tacho. A posta de peixe é colocada por cima. (Eu
percebia de cozinha, tinha aprendido com a minha mãe.) Acendo o fogareiro a
petróleo depois de ter gasto quase metade dos fósforos. Estava muito vento.
Ponho o tacho ao lume. Agora é só esperar que o petisco ficasse cozido. De vez
em quanto ia espetando o canivete nas batatas. Só mais uns minutos e teria o
almoço pronto.
Corri à borda de água e chamei o
João.
«O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.»
Sentámo-nos no chão. Uma toalha de
banho serviu de toalha de mesa. Um prato de cado lado, garfo e pão ladeavam os
pratos. Estava tudo perfeito. Dividimos o peixe, repartimos as batatas e metade
da cebola para cada um.
«Cheira bem, foi pena não termos trazido
azeite e vinagre.» Lamenta João.
«Hum, não faz muita falta.»
Arrematei à laia de desculpa.
«Que é isto? Descuidaste-te no sal.»
Exclama João ao dar uma dentada numa batata.
«Eu?, não pus sal nenhum… é só água
do mar.» Respondi, metendo um bocado de batata na boca, cuspindo-a de imediato e
continuei.
«Pode ser que o peixe esteja melhor.»
Tal como as batatas estava intragável.
Depois de contarmos os trocos que nos
sobravam, verificámos que ainda podíamos comprar um bocado de chouriço. O nosso
almoço limitou-se a uma sandes de chouriço e um pirolito.
Duas coisas aprendi. Não podemos cozinhar com água do mar nem nos lavarmos com sabonete na praia.
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