terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Bom Campista


           Decorriam os anos 50 do passado século. Eu e o meu amigo João resolvemos acampar na praia da Costa de Caparica. Campismo selvagem.
            «Basta levares um cobertor, uma tolha de banho e sabonete. O resto, levo eu.» Disse para o meu amigo.
            «Sabes montar a tenda?»
            «Lembra-te que andei na Mocidade Portuguesa. Já acampei muitas vezes.» Respondi.
 
            Era um sábado. Apanhámos a camioneta para a Costa logo após o almoço. Iríamos pernoitar aquela noite numa pequeníssima tenda que mal dava para um. Carregado de fogareiro a petróleo, um tacho, pratos de alumínio, lanterna, toalha, sabonete, e artigos de primeiros socorros, chegámos. A praia estava repleta. Como não podíamos montar a tenda àquela hora resolvemos passear pela vila. Cerca das 8 da tarde voltámos. Não fomos os primeiros. Já lá estavam 2 campistas. Montei a tenda com esmero como era meu hábito. Agora, libertado do peso, voltámos à vila. Jantámos e, já noite cerrada, retornámos ao acampamento. O número de campistas tinha-se multiplicado assustadoramente. Se não fosse o luar, com as lanternas ter-nos-ia sido difícil localizar a nossa tenda.
            «É esta.» Gritei ao aproximar-me da tenda.
            Um ruido que me pareceu o de uma faca rasgando a tela da tenda pelo interior, assustou-me e de imediato agarrei, creio que uma pedra, e desferi na mão do intruso. Simultaneamente o meu amigo João puxou-me pelo braço e segredou-me:
            «Esta não é a nossa tenda.»
            Corremos e escondemo-nos. Momentos depois, parecendo tudo calmo, procurámos a nossa um pouco mais à frente.

            Sete horas e meia da manhã de domingo acordámos com o barulho dos veraneantes que chegavam. Preparávamo-nos para ir ao banho quando um rapaz com a mão envolta num lenço nos perguntou se tínhamos um penso ou desinfetante.
            «Que lhe aconteceu?» Perguntou o João.
            «Alguém tentou roubar-me e deu-me uma pancada na mão.»
            «Porque não gritou?»
            «Quem o fez fugiu.»
            «Bandidos.» Exclamei olhando de soslaio o meu amigo. 

            Demos uns mergulhos no mar e aproveitei para me lavar e irmos tomar o pequeno-almoço. Por mais que esfregasse o sabonete no corpo não conseguia que este fizesse espuma. Desisti. Limpei-me e saímos para a vila. Depois do pequeno- almoço fomos ao mercado. Comprámos uma boa posta de peixe, batatas, uma suculenta cebola e duas carcaças. Iríamos almoçar peixe cozido preparado por mim. Sim, eu, habituado a campismo, também sabia cozinhar. 

            Uma hora da tarde. Enquanto o João brinca na praia, eu pego no tacho e meto as batatas lá dentro. Corro para o mar. Lavo as batatas e o tacho. Encho o tacho de água do mar e meto as batatas lá dentro. Regresso à tenda. Corto as batatas ao meio. Descasco a cebola e corto-a ao meio. Meto-a também no tacho. A posta de peixe é colocada por cima. (Eu percebia de cozinha, tinha aprendido com a minha mãe.) Acendo o fogareiro a petróleo depois de ter gasto quase metade dos fósforos. Estava muito vento. Ponho o tacho ao lume. Agora é só esperar que o petisco ficasse cozido. De vez em quanto ia espetando o canivete nas batatas. Só mais uns minutos e teria o almoço pronto.
            Corri à borda de água e chamei o João.
            «O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.»
            Sentámo-nos no chão. Uma toalha de banho serviu de toalha de mesa. Um prato de cado lado, garfo e pão ladeavam os pratos. Estava tudo perfeito. Dividimos o peixe, repartimos as batatas e metade da cebola para cada um.
            «Cheira bem, foi pena não termos trazido azeite e vinagre.» Lamenta João.
            «Hum, não faz muita falta.» Arrematei à laia de desculpa.
            «Que é isto? Descuidaste-te no sal.» Exclama João ao dar uma dentada numa batata.
            «Eu?, não pus sal nenhum… é só água do mar.» Respondi, metendo um bocado de batata na boca, cuspindo-a de imediato e continuei.
            «Pode ser que o peixe esteja melhor.»
            Tal como as batatas estava intragável.  

            Depois de contarmos os trocos que nos sobravam, verificámos que ainda podíamos comprar um bocado de chouriço. O nosso almoço limitou-se a uma sandes de chouriço e um pirolito.

            Duas coisas aprendi. Não podemos cozinhar com água do mar nem nos lavarmos com sabonete na praia.

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