Era o início das
aulas e Isabel tal como outros alunos, dirigiu-se para a escola a fim de se
informar dos horários das aulas.
Professores e encarregados de
educação deambulavam pelos corredores verificando as disciplinas e horários das
mesmas. Um cavalheiro de aspeto nada digno de um docente, com uma barba negra
mal aparada e cabelo rapado, abordou Isabel:
«Qual a tua turma?»
«É a B, senhor professor.» Respondeu
um pouco amedrontada.
«És do 10.º?»
«Não senhor. Sou do 11.º»
Um amigo e colega de Isabel que
assistiu à conversa, não pode deixar de a questionar.
«Quem era aquele Belita? Que aspeto asqueroso.»
«Deve ser um professor, espero que
não seja meu.» Respondeu.
Na realidade não era um professor.
Isabel, Belita para os amigos, era
uma jovem morena de grandes olhos castanhos. Tinha 16 anos já com corpo de
mulher. A sua postura e aplicação aos estudos, faziam inveja a muitas colegas.
Nos seus tempos livres dedicava-os a nadar na piscina da escola ou na praia.
Praticava natação e adorava o mergulho, permanecendo muito tempo debaixo de
água em competição com os colegas.
Em finais de setembro Isabel, como
habitualmente, seguia a pé para casa, não muito longe da escola. Vivia numa
vila pacata onde o perigo não parecia existir. Todavia, nessa tarde, algo de
inesperado aconteceu. Seguia no seu caminho. Encostado a um carro velho
estacionado junto ao passeio, de posta aberta, um cavalheiro fumava um cigarro.
Estava de costas para a estrada. Isabel seguia por aquele passeio sem reparar
naquele personagem. Tarde demais. Um trapo embebido num líquido que lhe fez
lembrar o cheiro dos hospitais foi-lhe aplicado junto ao rosto. Ainda teve
tempo de olhar a cara do homem. Era o personagem que a tinha abordado no início
das aulas. O professor asqueroso que não voltou a ver. Debateu-se
violentamente, mas sem resultado. Depressa compreendeu que aquele homem a queria
raptar. Suspendeu a respiração por longos segundos, até que se fingiu desmaiada
caindo desamparada. De imediato foi atirada para o banco traseiro.
Mata-moscas, após a fuga da prisão,
refugiara-se naquela vila pacata, longe da cidade e onde provavelmente a
Polícia o não procuraria. Deixara crescer a barba e rapara o cabelo.
Em vésperas de abertura de aulas
introduziu-se na escola da vila, misturando-se com professores e pais de
alunos. Escolheu a sua próxima vítima. Isabel pareceu-lhe que valeria um bom
capital.
No banco de trás Isabel mal se mexia
com medo que o raptor descobrisse que não desmaiara. O carro seguia a pouca
velocidade por ser velho ou para não despertar suspeitas. Naquela cabecinha de
Isabel conjeturava-se tudo menos pânico. Sabia que teria de ser prudente e agir
com a cabeça fria. Muito lentamente, tira os atacadores dos ténis. Amarra um ao
outro. Pareciam resistentes. Deu um nó de maneira a formar um laço. Teria de
ser rápida e certeira. De repente um solavanco e o carro sai da estrada. Agora
rodavam por uma estrada de terra batida, entre pinhais e a uma velocidade ainda
mais lenta. Talvez fosse o momento apropriado.
Enche o peito de ar. Sempre com movimentos
muito lentos, procura dentro da sua mochila qualquer coisa, mas apenas lápis,
esferográficas e livros existiam. Agarrou um lápis. Com uma destreza anormal, enfia
o laço no pescoço do homem e amarra-o contra o encosto do banco. Apanhado de
surpresa e quase a sufocar, tenta com a mão direita agarrar a jovem pelos
cabelos. Com toda a força ela espeta-lhe o lápis no pulso de tal forma que
parte o lápis, ficando metade espetado e a outra metade na sua mão. O homem
grita de dor. Com a mão esquerda tenta libertar o pescoço. Ela ameaça-o que lhe
espeta o resto do lápis na cara. Com o lápis na mão esquerda encostado ao
pescoço do homem, abre o porta-luvas. Uma pistola. A medo pega nela e mete-a
dentro da sua mochila. Tira a chave da ignição e guarda-a também. Rapidamente
sai do carro e rebusca a bagageira. Apena lixo, roupa e uma corda.
«Vinha
preparado o nojento.» Pensou.
Não largava os olhos do homem que
entretanto retirara o lápis do pulso, com os dentes e com a mão esquerda
tentava libertar-se. Isabel abriu as portas do carro e com a corda a custo
amarrou o homem ao banco do carro.
Correu no sentido que lhe pareceu
ser o da estrada principal. Deviam ter percorrido naquela estrada de terra
batida uns bons quilómetros. Os ténis sem atacadores e a mochila não a deixavam
correr mais depressa. Sempre a correr e a chorar pegou no telemóvel e ligou o
112. Com a voz sufocada pela corrida e pelo choro, lá conseguiu informar a
Polícia que não parava de lhe pedir pormenores do caminho percorrido, do aspeto
do homem, se estava ferida, etc.
Quando desligou sentiu-se mais reanimada.
A Polícia iria de imediato ao seu encontro. Tinha de chegar rapidamente à
estrada principal na expectativa de encontrar alguém.
Sem parar de correr, ouve o telefone
tocar. Era a mãe. Atendeu. Com a preocupação tinha-se esquecido de telefonar
para casa.
«Mãezinha, não te preocupes, estou a
caminho de casa.»
«Está a chorar, filha. Que te
aconteceu?»
«Eu depois conto-te.»
Não quis alarmar a mãe. Ela, nada
poderia fazer, mas a mãe insistia e ela desculpou-se que depois lhe contaria,
que tinha de desligar. Correria melhor com o telefone no bolso.
Enquanto corria ia olhando para trás.
Quase sufocou quando viu que o homem
se tinha libertado e corria atrás dela. Trazia qualquer coisa na mão esquerda
que brilhava. A mão direita estava envolta num lenço. Seria Uma faca? Atirou
para longe a mochila para correr melhor embora os ténis sem os atacadores lhe dificultassem
a corrida. De imediato se arrependeu. A chave do carro e arma estavam dentro da
mochila. Que imprudência. Por que não pensara nisso? Agora era tarde. Não iria
perder tempo a voltar atrás. Teria de fugir o mais depressa possível. Se se descalçasse
correia melhor, mas naquele chão irregular seria capaz de se magoar. As
lágrimas corriam-lhe pela cara, dificultando-lhe a visão. Limpou os olhos e
tentou concentrar-se na corrida.
«A
Polícia deve estar a chegar.» Pensava.
O Pânico apoderou dela quando ouviu
um tiro. O homem tinha-se apoderado da arma.
Ziguezagueando por estre os
pinheiros, corria e chorava copiosamente. Um segundo tiro alarmou-a ainda mais.
Iria morrer. Não valia a pena correr mais. O homem estava cada vez mais perto.
«Não
lhe acertara porque com a mão esquerda não tinha pontaria ou porque não a
queria morta? Não seria melhor parar? Em poucos minutos ele a alcançaria. Talvez
a não quisesse matar.» Pensava.
Não aguentou a corrida. Caiu, chorou
e gritou: «Não me mate por favor.»
O homem alcançou-a e agarrou-a pelos
cabelos.
«Vais pagar pelo que me fizeste.»
«Desculpe, senhor. Tive medo.» Lamentou-se.
«Eu não te quero fazer mal, mas vais
ter de te portares bem, se não levas um tiro.»
«Faço o que quiser, senhor.»
«Segue à minha frente.» Ordenou.
Caminham em direção ao carro. Isabel
chora com os olhos postos no chão. Parecia procurar algo. De repente
contorce-se e cai. O homem agarra-a pelos cabelos e levanta-a. Isabel com ambas
as mãos agarradas à barriga levanta-se. Trazia uma pedra escondida.
«Que se passa?» Pergunta o homem um
pouco perplexo.
Isabel com os olhos alagados em
lágrimas, olha o homem. Na mão esquerda a arma parecia pronta a disparar.
Estava desvairada. Preferia morrer a ter de subjugar-se àquele energúmeno. Com um
golpe inesperado atira a pedra com uma força louca contra a mão armada do
homem. O homem grita de dor deixando cair a arma. Isabel arremessa a pedra com
força contra a cara do homem e pontapeia a arma para longe. Corre desvairada o
mais que podia, escudando-se por entre as árvores.
O silvo de carros da Polícia ecoou
naquele momento. Chegariam a tempo? Atirou-se para o chão exausta. As suas
forças chegaram ao fim. Iria morrer. Só teve tempo de gritar:
«Mata-me porco.»
Ouviu 3 ou 4 tiros e desmaiou.
O raptor ouvindo os carros da
Polícia abandonou a sua presa e correu para o carro na esperança de se por em
fuga. Junto ao mesmo, um agente aguarda-o. Aponta-lhe a pistola e ordena que se
entregue. Como resposta recebeu um tiro num braço, mas logo um seu colega dispara
contra o foragido que cai por terra.
Isabel acordou no hospital. Pais, um
agente da Polícia e um médico estavam junto dela.
«Não te preocupes Isabel. Agora
estás a salvo. A alma do teu raptor a esta hora deve estar a arder no inferno.
Foste muito corajosa.» Comentou o agente.
«Doí-te alguma coisa querida?
Segundo me informou o senhor doutor, não tens nada.» Conformou-a a mãe.
Isabel agarrou-se à mãe a chorar.
Não tinha nada, mas não mais esqueceria o que passou.
Sem comentários:
Enviar um comentário