Seria uma viagem normal naquela manhã de domingo, não fora o
caso do comandante do barco procedente do Barreiro com destino a Lisboa, ser
alertado por um tripulante que um cavalheiro, sentado na amurada, tinha sido
baleado. Tratava-se de um homem a caminho da quarta idade que, parecendo
dormir, apresentava vestígios de sangue no tórax.
O
comandante de imediato alertou a polícia e o cais de desembarque aparentava um
aspeto de um filme policial, com ambulâncias, bombeiros e carros da polícia.
Os
passageiros provenientes do Barreiro eram em número reduzido, cerca de duas
dezenas. O relógio da embarcação marcava onze e cinquenta e cinco da manhã. Não
foi permitido o desembarque a qualquer pessoa ou tripulação.
Joaquim
Gonçalves era um cavalheiro em vésperas do seu 80.º aniversário, mas ainda rijo
como ferro. Possuía uma herdade próximo do Barreiro avaliada em cerca de 2
milhões de euros. A sua conta bancária ascendia a mais de um milhão entre
depósitos à ordem e a prazo. Apesar de tudo isso não gastava uma moeda que
fosse em estravagâncias. Vestia sem gosto e evitava longos passeios de carro a
fim de não gastar gasolina. Chorava o vencimento que pagava ao pessoal e aos camponeses
que lhe tratavam das vinhas. O seu filho, o Gustavo, bem como a sua nora Isabel,
viviam com ele e com muita paciência lá iam resolvendo e administrando a mansão
e a herdade. Era avô de dois netos já adultos, um rapaz de 28 anos, Gustavo,
tenente da GNR, casado com Paula. A sua neta Rosalina era um pouco mais nova e
ainda solteira vivia em Lisboa onde exercia medicina numa clínica privada. Era
ela que mais recalcitrava com o avô, chegando mesmo um dia a chamá-lo de forreta. Na realidade ninguém na família
tinha paciência para aturar as suas exageradas poupanças. A Mansão estava a
precisar de obras havia mais de 20 anos, mas segundo opinião de Joaquim
Gonçalves, a casa estava muito bem. Os custos da reparação eram tão elevados
que estava fora de questão quaisquer obras.
No convés
do barco a azáfama era enorme com o pessoal da PSP, da Judiciária, médico e
bombeiros de um lado para o outro colhendo informações dos passageiros e tripulação.
O comandante do barco, Cláudio Silveira, pediu autorizarão para mandar vir
almoço para toda aquela gente. Eram duas da tarde e apenas tinha sido
dispensada uma dúzia de passageiros que, depois de identificados, foram
autorizados a sair. Restava a tripulação do barco, os familiares da vítima e
pouco mais, para além do pessoal forense.
O filho,
nora e netos do falecido choravam agarrados uns aos outros.
«Ele era
sovina, mas não merecia isto.» Lamentava a neta.
«Quem teria
a coragem de matar o meu pai?» Lamentava Gustavo agarrado ao filho Ricardo e à
nora Paula.
Enquanto
isto, chega uma equipa de mergulho. Um dos passageiros tinha visto cair um
objeto pesado embrulhado naquilo que parecia ser um lenço branco. Provavelmente
a arma do crime. Segundo o mesmo passageiro o objeto fora arremessado a
estibordo momentos antes da atracação.
São seis da
tarde quando a Polícia dispensa toda a gente. Havia muitas informações,
análises, recolha de impressões digitais e outros pormenores que iriam ser
estudados em laboratório. A arma do crime com o respetivo silenciador, fora
encontrada no fundo do rio, muito próximo da amarração, assunto esse que não
foi revelado aos passageiros nem à tripulação. A convocação dos arguidos,
porque na realidade todos o eram, seria posteriormente comunicada.
Três dias
após o incidente a P.J. estava de posse de algumas informações relevantes. A
arma do crime estava registada em nome de Ricardo Gonçalves, neto do falecido.
No lenço que a envolvia estavam bordadas as iniciais RG. As impressões digitais
na arma eram bem visíveis, as do Ricardo, mas havia mais algumas que teriam de
ser examinadas em minúcia, dado não serem bem visíveis.
O médico
legista foi perentório. A bala tinha penetrado no peito, junto ao coração, de
cima para baixo e correspondia à arma encontrada.
Os agentes
tiravam as suas conclusões.
«Toda a
família do assassinado tinha interesse naquela morte e provavelmente serão
todos coniventes.» Declarou um dos agentes.
«A que leva
a ambição à fortuna, meu Deus.» Arremata um outro.
«Vamos de
imediato arranjar um mandato de captura a esse jovem tenente. Posteriormente
falaremos com os restantes familiares.»
O
Tenente-Coronel que superintendia o tenente Ricardo ficou aterrado ao saber da
sua detenção. Era impossível o rapaz ter cometido tal crime. Conhecia-o há
longos anos e apadrinhara o seu casamento com a Paula. De imediato correu à
P.J. e falou com Ricardo.
«Juro por
Deus. Não cometi tal crime. Alguém se apoderou daquela arma.» Declarou o
tenente ao seu superior.
«Está
descansado, vou pessoalmente investigar o caso e arranjar-te um advogado. Até
lá fala o menos possível. Em breve sairás daqui.» Ameniza o Tenente-Coronel.
Não perdeu
tempo. Falou com um advogado seu amigo que lhe deu acesso a todo o processo. Sondou
o pessoal de bordo, familiares, passageiros e anotou todos os pormenores.
Constatou que Ricardo estivera sempre no convés junto ao avô, a bombordo e
neste caso seria difícil arremessar a arma para estibordo sem ser notado. O médico
legista confirmava que o tiro fora disparado de alguma distância e de cima para
baixo, o que obrigaria o atirador a postar-se em cima de um escadote. Pelo
filho da vítima, o Gustavo, soube que, por azar, embarcaram naquele barco por que
perderam o anterior, a sua filha Rosalina esquecera-se de algo no carro e
voltara atrás para recolher o algo esquecido, mas também esta não saíra de
junto do irmão e do avô. O filho Gustavo e a nora Isabel não paravam de um lado
para outro e os passageiros que seguiam no convés não puderam confirmar por
onde andavam. A tripulação afirmava que em nada de especial se tinha apercebido
durante o trajeto. Apenas um marinheiro informou que o neto, o Ricardo, com um
ar desvairado se lhe tinha dirigido e em voz baixa o tinha informado do estado
do avô minutos antes da atracagem. De imediato se acercou discretamente do
assassinado e confirmou o seu estado. Subiu rapidamente à ponte superior e
informou o comandante que, sem largar o leme, ligou à P.S.P.
Entretanto
na P.J. conjeturavam-se as medidas e os passos a seguir de imediato. As
impressões digitais de Rosalina também apareciam, embora pouco visíveis, na
arma. Em princípio seria normal, dado a arma estar em casa do irmão e por
curiosidade a irmã lhe ter pegado, mas havia impressões digitais no silenciador
que não pertenciam à família, o que dificultava este caso.
Poucos dias
após a detenção de Ricardo, o seu advogado com os elementos e provas
apresentadas, consegue a sua libertação até ao julgamento que se esperava para
breve. Estavam convocados como arguidos os cinco elementos da família Gonçalves,
a tripulação do barco e dois dos passageiros. Entretanto o advogado de Ricardo
tinha montado uma vigilância apertada a toda a família Gonçalves.
À porta de
um elegante restaurante, um Volvo de
cor branca estaciona. Rosalina acompanhada de um cavalheiro sai do carro.
Entram no restaurante, pedem a ementa e escolhem o jantar. Duas horas depois
regressam ao automóvel e dirigem-se para casa de Rosalina sem se aperceberem
que um outro carro os seguia de perto. Faltavam cinco minutos para as seis da
manhã quando a luz do primeiro andar se acende. Dez minutos depois o acompanhante
de Rosalina sai. O exemplar da ementa manuseada pelo casal estava agora em
posse do advogado de Ricardo.
O dia do
julgamento chega e com ele os convocados. Na sala de espera do tribunal os
familiares conversavam em voz baixa. Um pouco nervosos inquirem qual o primeiro
a ser chamado. A resposta veio de imediato quando uma voz chamou por Ricardo
Gonçalves. Tremeu ao ouvir o seu nome e de imediato o fazem entrar na sala de
audiência. Após o juramento habitual é-lhe mostrada a foto da arma.
«Conhece
esta arma?»
«É parecida
com a minha, mas a minha não tem silenciador.
«Esta é
mesmo a sua arma» declara o seu advogado e continua «quando foi a última que
lhe tocou?»
«Talvez há
uns dois ou três meses, estive a limpá-la como faço de vez em quanto.»
«Onde a
guarda normalmente?»
«Num
armário, dentro do respetivo estojo.»
«Quem mais
sabe do lugar onde a guarda?»
«A minha
mulher, a minha irmã, e creio que mais ninguém.»
«É tudo,
pode sentar-se senhor Ricardo.» E dirigindo-se ao Dr. Juiz «Gostaria de falar
com a D. Rosalina.»
«D.
Rosalina, conhece esta arma?»
«Se não
tivesse esse cano tão comprido diria que era a de meu irmão.»
«Este cano
comprido é um assessório, um silenciador.» E continuou. «Alguma vez tomou o
peso desta arma?»
«Quem, eu?!
Tenho horror a armas.»
«Podia
ter-lhe tocado para sopesá-la…»
«Oh, não.»
«Na arma
estão marcadas as suas impressões digitais, é porque lhe tocou.»
Sem rodeios
e com uma descontração espantosa, Rosalina respondeu.
«Provavelmente
sem querer desloquei-a do seu lugar para procurar uma mala.»
«E foi
preciso tirá-la de dentro do estojo.» Rematou o advogado sem se preocupar com o
ar estupefacto da jovem.
«Não tenho
mais perguntas. Pode sentar-se.» Dirigindo-se novamente ao Magistrado, «chamo
agora o senhor Cláudio Silveira.»
«Senhor
Cláudio Silveira, conhece aquela senhora?» Perguntou o advogado apontando para
Rosalina.
«Sim é a
neta do falecido senhor Joaquim Gonçalves. Estava no meu barco no dia fatídico da
sua morte.
«Perguntei
se a conhecia, para além desse dia.»
«Não, não
conhecia.»
«Recorda-se
onde jantou na passada quarta-feira?»
O
comandante empalideceu. Seria que o viram
naquela noite, pensou.
«Não, não
me recordo.»
«Eu
recordo-lhe.» Atacou o advogado e continuou. «Jantou no restaurante Pap’Açorda…» «anda a perseguir-me?»
Interrompeu Cláudio.
Sem lhe
responder o advogado continua. «Também deve recordar-se da hora em que saiu de
casa da S. Rosalina.»
«Senhor
Doutor, a minha vida privada não é para aqui chamada.»
O Juiz
chama o advogado e conferenciam alguns segundos. Este pede-lhe que continue.
«Senhor
Cláudio, da ponte onde se encontrava não se apercebeu do que se passava no
convés?»
«A minha
preocupação é a atracagem em segurança. O que se passa lá em baixo não é de
minha conta.»
«Além do
senhor, estava mais alguém na ponte?»
«Não, não
estava ninguém.»
«Seria possível
alguém ter subido sem o senhor se aperceber?»
«Não
senhor. Ninguém sobe à ponte sem minha autorização.»
«Por agora
é tudo senhor Cláudio, pode sentar-se. Gostaria de mais uma vez interrogar a D.
Rosalina.»
«D.
Rosalina, a senhora perdeu o barco das onze por se ter esquecido de qualquer
coisa no carro, não é verdade?»
«Sim,
deixei lá o meu estojo de maquilhagem.»
«Não teria
sido propositado perder aquele barco para apanhar o das onze e meia, onde vinha
o senhor Cláudio?»
«Isto é
demais senhor Doutor» enfurece-se Rosalina e continua «está a acusar-me de quê?»
«Não estou
a acusá-la de nada, estou apenas a constatar factos. Pelo que pude averiguar,
do cais de embarque ao carro e voltar, necessitaria de dez minutos. Demorou
trinta, tempo suficiente para perder aquele barco.»
«Não
encontrava o estojo, estava caído no chão.»
«Pode
sentar-se, não tenho mais perguntas.»
«Senhor
Cláudio pode por favor sentar-se aqui, tenho mais uma pergunta a colocar-lhe.»
«Conhece
esta arma?» Pergunta o Advogado apresentando-lhe a fotografia da arma.
«Não
senhor.» Respondeu Cláudio muito seguro de si.
«É
estranho, a arma tem as suas impressões digitais…»
«Olhe
senhor Doutor, por aí não me apanha. Se a arma estava envolta num lenço como
pode ter as minhas impressões digitais?»
«Quem falou
em lenço, senhor Cláudio?»
Bolas, meti água, pensou Cláudio. «Ouvi
dizer que a arma estava embrulhada num lenço.»
«Isso nunca
foi divulgado, mas já agora posso informá-lo. O lenço que a protegia era
demasiado pequeno para tapar toda a arma. O cano silenciador estava a descoberto.
Ao arremessá-la borda fora, fê-lo pegando no silenciador.»
«E como sabe
que são as minhas impressões digitais?»
«No dia que
jantou com a sua cúmplice Rosalina, pegou na ementa. Como não lhe tinham sido tiradas
as impressões digitais limitei-me a trazer a ementa e a P.J. comparou-as. Aproveito
para informar este tribunal que as suas relações com D. Rosalina são de há muito
conhecidas pela vizinhança.»
Os advogados de defesa em vão tentaram amenizar o assunto,
mas não convenceram o Juiz. Cláudio e Rosalina foram condenados.