terça-feira, 9 de setembro de 2014

Morte no Tejo


            Seria uma viagem normal naquela manhã de domingo, não fora o caso do comandante do barco procedente do Barreiro com destino a Lisboa, ser alertado por um tripulante que um cavalheiro, sentado na amurada, tinha sido baleado. Tratava-se de um homem a caminho da quarta idade que, parecendo dormir, apresentava vestígios de sangue no tórax.
            O comandante de imediato alertou a polícia e o cais de desembarque aparentava um aspeto de um filme policial, com ambulâncias, bombeiros e carros da polícia.
            Os passageiros provenientes do Barreiro eram em número reduzido, cerca de duas dezenas. O relógio da embarcação marcava onze e cinquenta e cinco da manhã. Não foi permitido o desembarque a qualquer pessoa ou tripulação.
            Joaquim Gonçalves era um cavalheiro em vésperas do seu 80.º aniversário, mas ainda rijo como ferro. Possuía uma herdade próximo do Barreiro avaliada em cerca de 2 milhões de euros. A sua conta bancária ascendia a mais de um milhão entre depósitos à ordem e a prazo. Apesar de tudo isso não gastava uma moeda que fosse em estravagâncias. Vestia sem gosto e evitava longos passeios de carro a fim de não gastar gasolina. Chorava o vencimento que pagava ao pessoal e aos camponeses que lhe tratavam das vinhas. O seu filho, o Gustavo, bem como a sua nora Isabel, viviam com ele e com muita paciência lá iam resolvendo e administrando a mansão e a herdade. Era avô de dois netos já adultos, um rapaz de 28 anos, Gustavo, tenente da GNR, casado com Paula. A sua neta Rosalina era um pouco mais nova e ainda solteira vivia em Lisboa onde exercia medicina numa clínica privada. Era ela que mais recalcitrava com o avô, chegando mesmo um dia a chamá-lo de forreta. Na realidade ninguém na família tinha paciência para aturar as suas exageradas poupanças. A Mansão estava a precisar de obras havia mais de 20 anos, mas segundo opinião de Joaquim Gonçalves, a casa estava muito bem. Os custos da reparação eram tão elevados que estava fora de questão quaisquer obras.
            No convés do barco a azáfama era enorme com o pessoal da PSP, da Judiciária, médico e bombeiros de um lado para o outro colhendo informações dos passageiros e tripulação. O comandante do barco, Cláudio Silveira, pediu autorizarão para mandar vir almoço para toda aquela gente. Eram duas da tarde e apenas tinha sido dispensada uma dúzia de passageiros que, depois de identificados, foram autorizados a sair. Restava a tripulação do barco, os familiares da vítima e pouco mais, para além do pessoal forense.
            O filho, nora e netos do falecido choravam agarrados uns aos outros.
            «Ele era sovina, mas não merecia isto.» Lamentava a neta.
            «Quem teria a coragem de matar o meu pai?» Lamentava Gustavo agarrado ao filho Ricardo e à nora Paula.
            Enquanto isto, chega uma equipa de mergulho. Um dos passageiros tinha visto cair um objeto pesado embrulhado naquilo que parecia ser um lenço branco. Provavelmente a arma do crime. Segundo o mesmo passageiro o objeto fora arremessado a estibordo momentos antes da atracação. 
            São seis da tarde quando a Polícia dispensa toda a gente. Havia muitas informações, análises, recolha de impressões digitais e outros pormenores que iriam ser estudados em laboratório. A arma do crime com o respetivo silenciador, fora encontrada no fundo do rio, muito próximo da amarração, assunto esse que não foi revelado aos passageiros nem à tripulação. A convocação dos arguidos, porque na realidade todos o eram, seria posteriormente comunicada.
            Três dias após o incidente a P.J. estava de posse de algumas informações relevantes. A arma do crime estava registada em nome de Ricardo Gonçalves, neto do falecido. No lenço que a envolvia estavam bordadas as iniciais RG. As impressões digitais na arma eram bem visíveis, as do Ricardo, mas havia mais algumas que teriam de ser examinadas em minúcia, dado não serem bem visíveis.
            O médico legista foi perentório. A bala tinha penetrado no peito, junto ao coração, de cima para baixo e correspondia à arma encontrada.
            Os agentes tiravam as suas conclusões.
            «Toda a família do assassinado tinha interesse naquela morte e provavelmente serão todos coniventes.» Declarou um dos agentes.
            «A que leva a ambição à fortuna, meu Deus.» Arremata um outro.
            «Vamos de imediato arranjar um mandato de captura a esse jovem tenente. Posteriormente falaremos com os restantes familiares.»
 
            O Tenente-Coronel que superintendia o tenente Ricardo ficou aterrado ao saber da sua detenção. Era impossível o rapaz ter cometido tal crime. Conhecia-o há longos anos e apadrinhara o seu casamento com a Paula. De imediato correu à P.J. e falou com Ricardo.
            «Juro por Deus. Não cometi tal crime. Alguém se apoderou daquela arma.» Declarou o tenente ao seu superior.
            «Está descansado, vou pessoalmente investigar o caso e arranjar-te um advogado. Até lá fala o menos possível. Em breve sairás daqui.» Ameniza o Tenente-Coronel.
            Não perdeu tempo. Falou com um advogado seu amigo que lhe deu acesso a todo o processo. Sondou o pessoal de bordo, familiares, passageiros e anotou todos os pormenores. Constatou que Ricardo estivera sempre no convés junto ao avô, a bombordo e neste caso seria difícil arremessar a arma para estibordo sem ser notado. O médico legista confirmava que o tiro fora disparado de alguma distância e de cima para baixo, o que obrigaria o atirador a postar-se em cima de um escadote. Pelo filho da vítima, o Gustavo, soube que, por azar, embarcaram naquele barco por que perderam o anterior, a sua filha Rosalina esquecera-se de algo no carro e voltara atrás para recolher o algo esquecido, mas também esta não saíra de junto do irmão e do avô. O filho Gustavo e a nora Isabel não paravam de um lado para outro e os passageiros que seguiam no convés não puderam confirmar por onde andavam. A tripulação afirmava que em nada de especial se tinha apercebido durante o trajeto. Apenas um marinheiro informou que o neto, o Ricardo, com um ar desvairado se lhe tinha dirigido e em voz baixa o tinha informado do estado do avô minutos antes da atracagem. De imediato se acercou discretamente do assassinado e confirmou o seu estado. Subiu rapidamente à ponte superior e informou o comandante que, sem largar o leme, ligou à P.S.P.
            Entretanto na P.J. conjeturavam-se as medidas e os passos a seguir de imediato. As impressões digitais de Rosalina também apareciam, embora pouco visíveis, na arma. Em princípio seria normal, dado a arma estar em casa do irmão e por curiosidade a irmã lhe ter pegado, mas havia impressões digitais no silenciador que não pertenciam à família, o que dificultava este caso.
            Poucos dias após a detenção de Ricardo, o seu advogado com os elementos e provas apresentadas, consegue a sua libertação até ao julgamento que se esperava para breve. Estavam convocados como arguidos os cinco elementos da família Gonçalves, a tripulação do barco e dois dos passageiros. Entretanto o advogado de Ricardo tinha montado uma vigilância apertada a toda a família Gonçalves.
            À porta de um elegante restaurante, um Volvo de cor branca estaciona. Rosalina acompanhada de um cavalheiro sai do carro. Entram no restaurante, pedem a ementa e escolhem o jantar. Duas horas depois regressam ao automóvel e dirigem-se para casa de Rosalina sem se aperceberem que um outro carro os seguia de perto. Faltavam cinco minutos para as seis da manhã quando a luz do primeiro andar se acende. Dez minutos depois o acompanhante de Rosalina sai. O exemplar da ementa manuseada pelo casal estava agora em posse do advogado de Ricardo.
            O dia do julgamento chega e com ele os convocados. Na sala de espera do tribunal os familiares conversavam em voz baixa. Um pouco nervosos inquirem qual o primeiro a ser chamado. A resposta veio de imediato quando uma voz chamou por Ricardo Gonçalves. Tremeu ao ouvir o seu nome e de imediato o fazem entrar na sala de audiência. Após o juramento habitual é-lhe mostrada a foto da arma.
            «Conhece esta arma?»
            «É parecida com a minha, mas a minha não tem silenciador.
            «Esta é mesmo a sua arma» declara o seu advogado e continua «quando foi a última que lhe tocou?»
            «Talvez há uns dois ou três meses, estive a limpá-la como faço de vez em quanto.»
            «Onde a guarda normalmente?»
            «Num armário, dentro do respetivo estojo.»
            «Quem mais sabe do lugar onde a guarda?»
            «A minha mulher, a minha irmã, e creio que mais ninguém.»
            «É tudo, pode sentar-se senhor Ricardo.» E dirigindo-se ao Dr. Juiz «Gostaria de falar com a D. Rosalina.»
            «D. Rosalina, conhece esta arma?»
            «Se não tivesse esse cano tão comprido diria que era a de meu irmão.»
            «Este cano comprido é um assessório, um silenciador.» E continuou. «Alguma vez tomou o peso desta arma?»
            «Quem, eu?! Tenho horror a armas.»
            «Podia ter-lhe tocado para sopesá-la…»
            «Oh, não.»
            «Na arma estão marcadas as suas impressões digitais, é porque lhe tocou.»
            Sem rodeios e com uma descontração espantosa, Rosalina respondeu.
            «Provavelmente sem querer desloquei-a do seu lugar para procurar uma mala.»
            «E foi preciso tirá-la de dentro do estojo.» Rematou o advogado sem se preocupar com o ar estupefacto da jovem.
            «Não tenho mais perguntas. Pode sentar-se.» Dirigindo-se novamente ao Magistrado, «chamo agora o senhor Cláudio Silveira.»
            «Senhor Cláudio Silveira, conhece aquela senhora?» Perguntou o advogado apontando para Rosalina.
            «Sim é a neta do falecido senhor Joaquim Gonçalves. Estava no meu barco no dia fatídico da sua morte.
            «Perguntei se a conhecia, para além desse dia.»
            «Não, não conhecia.»
            «Recorda-se onde jantou na passada quarta-feira?»
            O comandante empalideceu. Seria que o viram naquela noite, pensou.
            «Não, não me recordo.»
            «Eu recordo-lhe.» Atacou o advogado e continuou. «Jantou no restaurante Pap’Açorda…» «anda a perseguir-me?» Interrompeu Cláudio.
            Sem lhe responder o advogado continua. «Também deve recordar-se da hora em que saiu de casa da S. Rosalina.»
            «Senhor Doutor, a minha vida privada não é para aqui chamada.»
            O Juiz chama o advogado e conferenciam alguns segundos. Este pede-lhe que continue.
            «Senhor Cláudio, da ponte onde se encontrava não se apercebeu do que se passava no convés?»
            «A minha preocupação é a atracagem em segurança. O que se passa lá em baixo não é de minha conta.»
            «Além do senhor, estava mais alguém na ponte?»
            «Não, não estava ninguém.»
            «Seria possível alguém ter subido sem o senhor se aperceber?»
            «Não senhor. Ninguém sobe à ponte sem minha autorização.»
            «Por agora é tudo senhor Cláudio, pode sentar-se. Gostaria de mais uma vez interrogar a D. Rosalina.»
            «D. Rosalina, a senhora perdeu o barco das onze por se ter esquecido de qualquer coisa no carro, não é verdade?»
            «Sim, deixei lá o meu estojo de maquilhagem.»
            «Não teria sido propositado perder aquele barco para apanhar o das onze e meia, onde vinha o senhor Cláudio?»
            «Isto é demais senhor Doutor» enfurece-se Rosalina e continua «está a acusar-me de quê?»
            «Não estou a acusá-la de nada, estou apenas a constatar factos. Pelo que pude averiguar, do cais de embarque ao carro e voltar, necessitaria de dez minutos. Demorou trinta, tempo suficiente para perder aquele barco.»
            «Não encontrava o estojo, estava caído no chão.»
            «Pode sentar-se, não tenho mais perguntas.»
            «Senhor Cláudio pode por favor sentar-se aqui, tenho mais uma pergunta a colocar-lhe.»
            «Conhece esta arma?» Pergunta o Advogado apresentando-lhe a fotografia da arma.
            «Não senhor.» Respondeu Cláudio muito seguro de si.
            «É estranho, a arma tem as suas impressões digitais…»
            «Olhe senhor Doutor, por aí não me apanha. Se a arma estava envolta num lenço como pode ter as minhas impressões digitais?»
            «Quem falou em lenço, senhor Cláudio?»
            Bolas, meti água, pensou Cláudio. «Ouvi dizer que a arma estava embrulhada num lenço.»
            «Isso nunca foi divulgado, mas já agora posso informá-lo. O lenço que a protegia era demasiado pequeno para tapar toda a arma. O cano silenciador estava a descoberto. Ao arremessá-la borda fora, fê-lo pegando no silenciador.»
            «E como sabe que são as minhas impressões digitais?»
            «No dia que jantou com a sua cúmplice Rosalina, pegou na ementa. Como não lhe tinham sido tiradas as impressões digitais limitei-me a trazer a ementa e a P.J. comparou-as. Aproveito para informar este tribunal que as suas relações com D. Rosalina são de há muito conhecidas pela vizinhança.»
            Os advogados de defesa em vão tentaram amenizar o assunto, mas não convenceram o Juiz. Cláudio e Rosalina foram condenados.

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