Tudo parecia calmo naquela noite de sábado. O telefone não
dava mostras de existir. O pessoal de serviço entretinha-se a jogar às cartas.
Repentinamente o telefone deu sinal da sua existência. Alguém resolvera
interromper o sossego daqueles agentes ao serviço do público.
«Por favor venham depressa, a minha mulher foi baleada. Está morta.»
Carros da
polícia e ambulância irromperam na pacata vila da Aroeira. A receção dos
policiais foi a de um homem à beira da estrada, louro, com cerca de um metro e
noventa e olhos de um azul que fazia lembrar um husky, que bramia e gesticulava
como um louco.
«Aqui, aqui.
Fui eu quem telefonou.» Gritou ele à chegada dos automóveis da polícia.
Toda a
vivenda parecia arrumada, não fora o caso de a sala de estar apresentar
vestígios de alguém que lutara naquela divisão. Uma mesa com tampo de vidro
estava estilhaçada e voltada. Junto ao sofá viam-se cacos de uma jarra de
porcelana que provavelmente forra arremessada contra um armário com portas
envidraçadas agora feitas em cacos. No chão, contorcido em posição estranha, um
corpo de mulher. O sangue jorrava pelo peito da vítima. Uma arma de fogo jazia
perto.
Paulo
Salgado, proprietário de um stand de automóveis em Almada, local onde vivia,
recebe um telefonema da polícia para se apresentar na esquadra com a máxima
urgência. Atribui o caso ao assassínio da mulher e de imediato acorre à
esquadra.
O inquérito
durou mais de três horas. Paulo morava em Almada, era sócio de um stand de
viaturas em segunda mão e em Aroeira tinha a sua casa de fim de semana. Alegava
que não tocara na arma, que no momento em que ia a introduzir a chave na porta
ouvira um tiro. De imediato entrou e deu com a sua mulher estendida no chão. Um
ruído nas traseiras fê-lo correr e tentar apanhar o eventual intruso.
«Não receou
que, estando ele armado, lhe desse um tiro?» Indagou o inspetor.
«Nem pensei
em tal, corri atrás dele com um ferro da lareira.»
«Não
reparou na arma que estava junto ao corpo da sua mulher?»
«Só reparei
nela quando voltei.»
«E não lhe
tocou?»
«Não, não.»
«Então como
explica esta meia impressão digital do seu polegar nesta cavidade da arma?»
Interrogou o inspetor mostrando-lhe uma fotografia.
Paulo
Salgado corou e confessou.
«Fui
imprudente e tarde de mais me apercebi do erro, por isso limpei-a, mas pelo que
vejo, não o fiz convenientemente. Desta forma vou contar-vos tudo em pormenor.»
Paulo tirou
o lenço do bolso, limpou a testa e começou:
«Ao meter a
chave à porta ouvi um tiro. Corri para a sala e dei com o corpo da minha mulher
estendido no chão encharcado em sangue. De repente ouvi a porta das traseiras
abrir-se. Peguei num ferro da lareira e corri atrás do assassino. Este, ao
saltar a cerca, deixou cair a arma no lado de dentro do quintal e não se
atreveu a voltar atrás para a recolher, pois viu-me com um ferro na mão. Aquela
cara não me era estranha, aquele olhar já o tinha visto não me recordo onde.
Tenho tentado todos estes dias recordar-me onde já vira aquele rosto, mas sem
sucesso. Peguei na arma com o intuito de o ameaçar, mas ele embrenhou-se pelo
pinhal e nesta altura sim, tive medo de continuar a persegui-lo. Voltei para
casa e certifiquei-me que a minha mulher estava morta. Telefonei para o 112. De
repente lembrei-me da arma. Tinha as minhas impressões digitais. Tentei
limpá-la o melhor possível a fim de a polícia não pensar que era eu o
assassino. Juro-vos que esta é a verdade.
A história
ostentada pelo viúvo não convenceu a polícia.
«Se tem
advogado contacte-o. Por agora vai ficar detido preventivamente.»
Paulo
Salgado, o loiro de olhos de husky, estava detido há 3 meses num
estabelecimento prisional de Lisboa. O seu advogado pouco adiantara no processo
de prisão domiciliária. As pessoas que o visitavam eram poucas, salvo o seu
advogado e um amigo de longa data que amiudadas vezes lhe faziam companhia. O
seu amigo, o Pedro Alexandre, era um cavalheiro de estrutura idêntica à de Paulo.
Usava uma longa barba preta e uma vasta cabeleira da mesma cor. Os olhos negros
condiziam com a barba.
«Está tudo
pronto. Abri-te uma conta no BES, em meu nome. Tenho já os cartões de crédito e
de débito. Aluguei-te uma casa em Lisboa, Alvalade.» Disse Pedro Alexandre ao
seu amigo Paulo.
«Estás
preparado para o plano? Não temes as consequências?» Indagou Paulo.
«Tenho o
plano bem estudado. Tu, é que tens de
ter muito cuidado.»
«Passei
estes três meses a tentar recordar-me de onde conhecia o assassino de minha
mulher. Já sei quem é. Esteve no meu stand a comprar um carro. Pagou em
dinheiro. Logo que aceda ao meu computador dar-te-ei o seu nome e morada.
Arranja um detetive e quero todas as informações sobre esse cavalheiro, o que
faz, que sítios frequenta, etc.»
Despediram-se
com um abraço e um até breve.
Domingo
após o almoço Pedro Alexandre entra na prisão com uma mala de computador à
tiracolo e, após identificação, dirige-se para a sala de visitas. Há muitos familiares
na sala, o que agradou a Pedro. Rapidamente se dirige ao amigo.
«Estás
pronto?» Segredou Pedro ao amigo.
«Sim.»
«Vou para a
casa de banho. Dá-me um minuto.»
Pedro
afasta-se e dirige-se para o WC. Um minuto depois entra o Paulo. Dois minutos
chegaram e o cavalheiro de longa barba escura e mala à tiracolo sai. Diz ao guarda
que vai ao carro buscar um livro para o amigo. Sem dar mostras de pressa,
dirige-se para o automóvel, entra e arranca. Cerca de três quilómetros depois
estaciona, retira um volumoso envelope do porta-luvas e mete-o dentro da mala
do PC, confirma que não é seguido. Sai e apanha um táxi. Pede que o leve à
estação de Santa Apolónia. Entra na estação, mas sempre vigiando o taxista. Mal
este desaparece, olha em redor, sai da estação e apanha outro táxi até à estação
de comboios do Areeiro. Procede da mesma forma, sempre atento a alguma
perseguição e apanha um terceiro táxi, desta vez para Alvalade. Manda parar
junto à porta de uma pastelaria, na avenida de Roma. Acende um cigarro, olha discretamente
em redor, anda cerca de duzentos metros para trás e segue para a sua nova casa
numa transversal. Procura o n.º 35. Tira as chaves do bolso e sobe ao 1.º
andar. Por detrás das cortinas espreita para a rua. Tudo lhe parece calmo.
Na esquadra
o guarda ao portão estranha o não regresso do sujeito de barba. Fala com o
colega e vai dar uma volta pelas redondezas. Volta e conta o sucedido. De
imediato entram vários guardas na sala de visitas e procuram o detido Paulo.
Vão à sua sela mas não o encontram. É dado o alarme. Repentinamente ouvem um
grito vindo da casa de banho. Um prisioneiro espavorido diz que está um homem
morto na casa de banho. Acorrem e deparam com um homem de barba negra estendido
no chão em cuecas. Espalhado pelo chão, um casaco e umas calças, uma carteira e
mais uns objetos jaziam perto dele. Neste preciso momento o homem abre os olhos
e grita.
«Que me
aconteceu? O Paulo?»
Os guardas
olham estupefactos para o homem.
«Isso
perguntamos nós. O que aconteceu?»
«Não sei,
vim aqui, e logo de seguida entra o meu amigo Paulo. Não sei o que me fez que
eu devo ter desmaiado. Acordei agora.» Disse Pedro mostrando-se muito confuso e
concluiu «chamem-no e perguntem-lhe. Eu também quero saber.»
«Fugiu com
a sua roupa e uma barba e cabelo postiços. Foi você que lhe trouxe esses
objetos?»
«QUEM?!
EU?! Sou amigo dele, mas não pactuo com este tipo de coisas.» E olhando para o
chão. «Olha! A minha carteira.» Baixou-se, apanhou-a e revistou o conteúdo.
«Pelo menos deixou-me os documentos.»
«Como se
deslocou para cá?» Indaga um dos agentes.
«Vim de
carro.»
«Veja se
tem as chaves.»
«Ou estão
por aí espalhadas ou… não me digam que me roubou o automóvel.»
Duas horas
depois, após ter fornecido a identificação da viatura e prestadas declarações,
saiu.
Paulo
dirige-se à casa de banho. Tira a barba e cabelo postiços, as lentes de
contacto castanhas escuras e olha-se ao espelho. «Já sou eu outra vez», diz para com ele próprio.
A casa era
enorme e ao longo do corredor havia dois quartos, uma sala, um escritório e uma
boa cozinha e duas casas de banho. O frigorífico estava cheio.
«Tenho comida para quinze dias.» Pensou.
Abriu o
volumoso envelope e verificou que continha mil euros em notas pequenas e dois
cartões do BES em nome do seu amigo Pedro. Um envelope continha os códigos de
acesso àquela conta, uma lista das despesas que Pedro tivera e a diferença para
os 10.000€ que Paulo lhe tinha transferido, estariam à sua ordem no BES. Estava
um telemóvel sobre a secretária. O amigo não esquecera nada. Apetecia-lhe
telefonar para toda a gente, mas seria imprudência.
Ligou o computador, o seu computador, que o amigo
recolhera de sua casa em Almada. Tinha Internet. Abriu uma conta de correio
eletrónico no gmail.com. Consultou o
ficheiro de clientes do escritório do stand e procurou o nome daquele homem que
lhe tinha adquirido o carro e pago em dinheiro. Ao fim de algum tempo descobriu
o que procurava.
Espreitou
pela janela e tudo lhe parecia calmo. Tomou um banho e vestiu-se com a roupa
que fora recolhida de sua casa. Serviu-se de um whisky, sentou-se no sofá e
ligou a TV. O seu amigo Pedro por certo se teria desenvencilhado da encrenca em
que fora obrigado a meter-se. Teria de o compensar.
O
noticiário em se nada referiu sobre a sua fuga, era ainda cedo. Estava nervoso.
Aguardava um telefonema do seu amigo, não se atrevia a telefonar-lhe, seria
perigoso. A sua cabeça não descansava, só pensava na sua mulher, no assassino,
na prisão, no seu amigo. Bruscamente o telemóvel soa. Corre ao escritório, olha
o mostrador e não reconhece o número, hesita. A sua hesitação foi tão longa que
o telefone silenciou.
«Que raio, porque não atendeste, se tens aqui
um telefone é para atenderes.» Pensou Paulo.
De pé,
estático, olhando o telefone, não sabia o fazer. Levou-o para sala a sentou-se,
mas de imediato se levantou. O telefone tocou. Desta vez não vacilou.
«Sim?»
«Sou eu o
Pedro
«Que
alívio, de onde estás a telefonar?»
«De uma
cabina. Tenho receio que tenha o telemóvel sob escuta.»
«Como
decorreu a cena?»
«Olha,
agora és acusado de outro crime.»
«O quê!?»
«Sim, tive
de te acusar de roubo da viatura. Não tive outro remédio e apresentei queixa.
Onde o deixaste?»
«No sítio combinado.»
«Amanhã
passo por lá, levo o carro e levanto a queixa. Ninguém te seguiu?»
«Não,
apanhei 3 táxis para despistar qualquer perseguição.»
«Agrada-te
a casa? Não te falta nada?
«És um
anjo. Não, tenho tudo o que preciso. Vou ficar por aqui 8 dias sem sair. Vou
tentar engordar uns quilitos com a comida que me deixaste e vou mudar de
visual.»
«Ok. Eu
telefono-te sempre de uma cabina para saber de ti. Já descobriste o paradeiro
do fulano?»
«Já, toma
nota.» Paulo deu a direção e nome do “cliente”.
«Tens 8
dias para investigações, não olhes a despesas, antes disso não mexo uma palha.»
«Fica bem.
Se necessitares de algo urgente envia-me uma e-mail, mas discreto. É preciso muita cautela.»
«Está
descansado. Mais uma vez muito obrigado por tudo o que fizeste. Um abraço.»
Durante uma
semana Paulo não fez a barba. Pintou o cabelo e a barba de preto e colocou as
lentes de contacto. Olhou-se ao espelho. Havia qualquer coisa que não lhe
agradava, era a barba. Aparou-a no pescoço. Voltou a examinar-se. Agora sim,
tinha um aspeto mais agradável. Tinha engordado um pouco. Parecia outro. Seria
que o reconheceriam? As notícias anunciavam a sua fuga e a sua fotografia
aparecia nos ecrãs da televisão, um homem louro de olhos azuis. Não era ele. O
homem louro dera lugar a um cavalheiro de moreno de olhos negros. O creme de
bronzear dera resultado. Não tivera ainda notícias do seu amigo, deveria estar
a contactá-lo em breve. Estava cansado de estar em casa. Resolveu sair e dar
uma volta. Iria arriscar. Teria de o fazer mais cedo ou mais tarde. Vestiu-se a
rigor e meteu o telemóvel no bolso.
Na avenida de
Roma apanhou um táxi e foi até à avenida da Liberdade. Entrou no hotel Tivoli e
dirigiu-se ao bar. Sentou-se ao balcão e pediu um café e uma aguardente velha.
Discretamente olhou em volta, mas tudo parecia normal. Meteu conversa com o
barman e cavaqueou um bom bocado com ele. Tentou abordar o assunto das notícias
com muita cautela, alegando ter estado fora há quase um mês. O caso do louro
fugitivo da prisão não foi referido pelo empregado, o que lamentou, mas pelo
menos não deu mostras de o ter reconhecido. Perguntou se podia telefonar.
Foi-lhe apresentado o telefone fixo e discou ao amigo.
«Viva, como
tens passado? Já conseguiste o que te pedi?»
«Onde
estás!?» Pergunta surpreendido Pedro.
«No hotel
Ritz, cheguei hoje. Vou ficar por aqui dois ou três dias.» Mentiu Paulo.
«Logo
telefono-te.»
«Está bem.
Até logo»
«Ok. Tenho
novidades. Logo falamos.»
Desligou, e
Paulo continuou numa amena conversa com o barman.
Paulo
acabara de jantar e preparava-se para mais uma noite de tédio a ver televisão quando
o telemóvel tocou. Era mais uma vez uma chamada de uma cabine telefónica. De
imediato atendeu.
«Sim?»
«Sou eu, o
Pedro. Abre a porta. Estou a chegar.»
Segundos
depois Paulo abre a porta da rua e aguarda que o amigo suba.
Pedro olha
estupefacto para o amigo.
«Quem és
tu? Não te reconheceria se te visse na rua.»
«Folgo em
saber isso.» Responde Paulo desviando-se para dar entrada ao amigo.
«Vim de
táxi, mas está descansado que não fui seguido ou melhor, se fui despistei-os
bem. Parei nas traseiras do centro comercial Roma e saí pela frente. Apanhei
novo táxi e parei a uns bons metros daqui.»
«Bom, vamos
ao que interessa, que novidades me trazes.»
«É um fora
da lei.» Responde Pedro.
«O quê?»
«Sim, o teu
amigo é um fora da lei. Já esteve
preso várias vezes, uma por assalto a uma residência à mão armada e outras por
furtos e agressões. É também um carteirista. Tem um cadastro invejável. É uma
fraca figura, ninguém diria.»
«Ainda mora
na Amadora?»
«Mora e
frequenta os melhores bares de Lisboa, principalmente estes.» Diz o amigo Pedro
apresentando-lhe uma lista e continua. «Tens de ter cuidado. Lembra-te que és
procurado pela polícia.»
Paulo
conhecia alguns daqueles bares, eram bem frequentados, não teria problemas em
entrar neles e beber uma bebida. Estava desejoso de ver a cara do assassino de
sua mulher. Teria de começar de imediato. Optaria pelo primeiro da lista.
Durante 3 noites foi assíduo do primeiro da lista sem que o cavalheiro
aparecesse. Tentou o segundo, e o terceiro, e o quarto. Começava a desesperar.
Era
sexta-feira, o Pavilhão Chinês estava
repleto. Tinha lá estado na noite anterior. Três semanas tinham decorrido sem
vislumbrar o cadastrado. Havia um lugar ao balcão ocupado por mais 3
cavalheiros. Senta-se e pede um whisky com muito gelo, sem água. Bruscamente um
homem de estatura média com aspeto respeitável senta-se ao seu lado. Paulo
estremeceu. Era o homem que procurava. Tê-lo-ia reconhecido? Era cliente
habitual dado o barman o ter cumprimentado.
«Boa noite
senhor Rafael. O costume?»
Sem dizer
palavra, acenou com um hum hum.
Paulo
estava nervoso, mas não o demonstrou. Agitou o gelo no copo com a ponta do
dedo, enquanto de soslaio o mirava. Não lhe pareceu que o Rafael o tivesse reconhecido. Teria de começar o teatro como
planeara.
Acenou ao
empregado de balcão.
«Mais um,
por favor. Deixe o balde do gelo se não se importa.»
Atestou o
copo de gelo e brincou com ele fazendo-o girar com a ponta dos dedos.
Discretamente, sem ninguém notar, vaza o líquido do copo no balde. Pede um
terceiro, e um quarto procedendo de igual forma. Olha para o Rafael e eleva
ligeiramente o copo numa saúde, que foi retribuída. Decididamente não o
reconhecera. Liga um número imaginário do seu telemóvel e finge falar com um ligeiro
tremular na voz. Fala muito baixo, mas não tanto que o seu parceiro do lado não
ouvisse.
«Olá Xico,
amanhã passa lá por casa antes da 10. Tenho de ir ao banco depositar o dinheiro
e assim levas já a tua parte. Tenho de estar no aeroporto antes do meio-dia.»
«… …» Paulo
fingiu escutar o seu interlocutor.
«Não não,
estou bem, obrigado, apanho um táxi.»
«… …»
«Estou no
Pavilhão Chinês.
«… …»
«Não digas
disparates, daqui a pouco saio, arrivederci.
Olha, não te atrases, até amanhã.» E desligou.
Enquanto
falava, Paulo discretamente olhava o Rafael que fingia pensar em algo brincado
com a caneta rabiscando a base de cartão onde pousava do copo.
«Mais um
whisky por favor.» Já ia no sexto.
Decorrera
mais de uma hora e Paulo pediu o último whisky e a conta. Pediu para lhe
chamarem um táxi. O seu vizinho do lado deixou uma nota de 20 em cima do
balcão, despediu-se do barman e saiu apressado. Momentos depois o empregado
anuncia que tem o táxi à porta. Levanta-se e sem pressas, finge caminhar
razoavelmente sem tropeçar muito. Antes de entrar no táxi dá uma discreta olhada
em volta. Um Peugeot branco, parado em segunda fila, parece prestes a segui-lo.
Esboça um discreto sorriso. Entra e dá a sua morada ao motorista. Pelo caminho
vai reparando que o Peugeot continua no seu encalço.
São duas da
manhã quando mete a chave à porta. Fingindo-se embriagado demora algum tempo a
dar com a fechadura. Sobe ao primeiro andar, abre a porta e, sem acender a luz,
espreita através da cortina. Lá está o descarado com uma descontração incrível
defronte do seu prédio.
«Estás à espera que eu acenda a luz para
veres em que andar eu moro. Podes subir que eu apenas fechei a porta no trinco.» Disse para si próprio.
Acendeu a
luz, e preparou o esquema para a receção do intruso. Tinha tempo, por certo que
o cavalheiro esperaria que Paulo adormecesse para lhe invadir a casa no intuito
de o assaltar. Iria ser uma longa noite.
Paulo segue
até ao meio do corredor, abre a porta do escritório e acende a luz. Volta até à
sala e apaga a luz. De uma outra janela espreita. Lá estava o cavalheiro deambulando
para a frente e para trás de cigarro na boca. Manteve-se à espreita. Nisto vê
que se dirige-se para o carro e entra.
«Então, vais-te embora? Desististe? Não me
faças essa desfeita camarada.» Pensou.
Mas não,
não se foi embora, permaneceu dentro do carro.
«Vais voltar daqui a uma hora? Duas?» Pensou
Paulo.
Iria
esperar. Dirigiu-se para o escritório, encostou a porta a fim de não deixar sair
a claridade. Abriu um livro e olhou o relógio, eram duas e meia. Começou a ler
embora o seu sentido fosse mais para qualquer ruido do que para a leitura.
Não
decorrera meia hora e já alguém tentava meter uma chave na sua porta. Apagou a
luz e colocou-se num lugar estratégico. A escuridão era total. Aguardou no interior
de um quarto junto à porta. O assaltante iria tropeçar no fio de nylon a meio
do corredor. Um minuto bastou para que o larápio abrisse a porta. Sentiu a
porta fechar-se e muito de mansinho uns passos aproximam-se. Repentinamente um
tropeção. Acende a luz do corredor e depara com o cavalheiro estendido de
barriga para baixo ao comprido e uma arma a poucos centímetros do corpo. Dá um
pontapé à arma e outro nos rins do homem que se contorce com dores. Apoiou-lhe
o joelho nos rins e com a mão esquerda apertou-lhe o pescoço contra o chão. Com
a direita agarrou-lhe o braço e torceu-lho atrás das costas sempre com o joelho
sobre o corpo enquanto ele gemia e esperneava. Amarrou-lhe os pulsos e logo de
seguida os pés que não paravam de se agitar. Arrastou-o até ao escritório.
Sentou-o numa cadeira. O homem transpirava e os seus olhos mostravam surpresa
com um misto de terror. Não parecia o mesmo cavalheiro com ar respeitável ao
balcão do bar.
Paulo
sentou-se em frente com um ar ameaçador.
«O que me
vai fazer?» Gemeu o homem.
«Depende de
como te portares.»
«Quer
dinheiro?»
«O teu
dinheiro roubado? Não. Quero que confesses o crime.»
«Qual
crime?
«O crime de
assassínio.»
«Não matei
ninguém.» Gaguejou o homem.
Paulo
levanta-se e dá-lhe tamanha bofetada que o sangue lhe jorrou pelo nariz.
«Então?
Confessas ou queres outra do outro lado?»
O homem
gemeu e a medo balbuciou qualquer coisa ininteligível.
«Eu
avivo-te a memória. Na noite de 24 de novembro mataste uma senhora, em sua casa
na Aroeira.»
«Eu não a
queria matar, mas ela atirou-se a mim com uma jarra e a arma disparou-se.»
«Sabes que
alguém está preso pelo teu crime?»
«Sim, sei.»
«Então
queres confessar o teu crime ou não?
«Já
confessei.»
«Vais pô-lo
por escrito, agora.»
«O senhor é
da polícia?»
Paulo não
respondeu. Dirigiu-se à secretária, colocou algumas folhas de papel e uma
esferográfica sobre ela.
«Queres
escrever agora ou queres levar mais?»
«Tenho de
falar com o meu advogado.» Gaguejou.
Paulo não
se conteve e nova bofetada desferiu na cara do desgraçado. «O teu advogado é este.»
Disse-lhe Paulo ameaçando-o com o punho cerrado.
«Pode
matar-me, mas eu não escrevo nada.» Sussurrou.
«Não te
quero matar. O mínimo que te posso fazer é enviar-te para o hospital com as
pernas e braços partidos. Lembra-te que acabaste de assaltar a minha casa,
armado.» E, dizendo isto, pegou num ferro da lareira mostrando-lho. O sujeito
olhou o ferro e tremeu encolhendo-se todo.
Paulo pegou
na cadeira com o corpo do desgraçado e colocou-o junto à secretária.
«Queres
escrever ou queres levar?» Perguntou ameaçador Paulo.
«Escrevo,
mas terá de me libertar as mãos.» Implorou Rafael.
Paulo libertou-lhe
as mãos e recomendou.
«Vê o que
escreves, quero que contes tudo em pormenor e assina com a assinatura igual à
do teu cartão, caso contrário faço-te engolir a carta. Demora o tempo que
quiseres, não tenho pressa.»
«E depois
de eu escrever, o que me vai fazer?»
«Pôr-te na
rua. Estou saturado de ti.»
Dito isto
sentou-se no sofá atrás de Rafael, fingindo ler.
Rafael
começou a escrever, riscou, rasgou o papel e pegou noutra folha, olhando para
trás constantemente. Paulo fazia de conta que não via, continuando a sua leitura.
«Já
escrevi.» Vociferou Rafael.
Sem pressa,
Paulo levanta-se e pega na folha manuscrita. Lê a confissão e com um ar muito
natural olha o seu prisioneiro. Sem desviar o olhar rasga em pedaços a folha
acabada de escrever e com uma voz muito natural, ordena-lhe que abra a boca.
«O quê!?»
«Vais
engolir todos estes papelinhos. Depois vais escrever novamente, mas a verdade,
toda a verdade, sem esquecer um pormenor.»
Rafael
olhou atónito o seu carrasco e, pegando noutra folha, ia começar, mas uma forte
bofetada fê-lo tombar juntamente com a cadeira. Com Rafael ainda no chão Paulo baixou-se
e com o mesmo tom de voz calmo, disse.
«Não
ouviste o que eu disse?»
«Sim, ouvi
e ia começar a escrever.»
«Disse-te
para engolires todos estes papelinhos e só depois é que irias escrever.»
Paulo
levantou o homem amarrado e sentou-o novamente à secretária. Rafael chorava
como uma criança, enquanto Paulo de braços cruzados se mantinha de pé do outro
lado da secretária olhando o desgraçado.
Rafael
meteu dois ou três pedaços de papel na boca.
«Não
consigo engolir os papéis.» Gemeu.
Sem dizer
palavra, Paulo abrir o pequeno frigorífico de escritório, retirou uma garrafa
de água e atirou-lha. Alguns minutos depois todos os fragmentos da carta tinham
sido engolidos.
«Vou
sentar-me a ler, quando tiveres acabado diz-me, mas olha que, se faltar uma
vírgula que seja à tua confissão, faço-te engoli-la, mas desta vez não é com
água, é com os teus próprios dentes.» Verbalizou Paulo dirigindo-se par o sofá.
Olhou o relógio. Cinco e meia da manhã.
«O senhor
dá a sua palavra que após eu acabar me posso ir embora?»
«Só digo as
coisas uma vez. Cala-te e concentra-te.» Desta vez a resposta foi tom
ameaçador.
Enquanto
Rafael escrevia Paulo ia olhando para as costas de Rafael que parecia muito
empenhado na escrita. Já ia pelo menos na terceira folha.
«Coitado do homem acreditou mesmo na minha
ameaça. Estou admirado comigo mesmo como consegui ser tão duro, mas tinha eu
outra alternativa? Se não fosse assim não conseguiria a sua confissão.» Pensou.
De dez em
dez minutos Rafael parava e parecia pensar na frase seguinte.
Já a luz do
amanhecer espreitava pela janela quando Rafael deu por concluída a confissão.
Paulo
levantou-se, pegou nas folhas e voltou ao sofá, leu sem pressas. Estava tudo
bem patente, desde a sua entrada na casa, a luta com a sua querida mulher, o disparo
da arma, a entrada do marido e a fuga pelas traseiras. A arma caída no lado
interior do quintal e o seu embrenhamento no pinhal com receio de levar um tiro
com a sua própria arma fora apresentado na perfeição. Levantou-se, dobrou as
folhas de papel e meteu-as no bolso. Rafael murmurou.
«Era isso
que queria? Não omiti nenhum pormenor. Posso ir?»
«Espera um
pouco. Vou lavar a cara e volto já. Não quero ouvir nenhum ruido.»
Paulo
dirigiu-se à casa de banho, tirou as lentes de contacto, barbeou-se e dez
minutos depois regressa. Rafael parecia dormir, amarrado e recostado na cadeira.
Pega no telemóvel e liga ao seu advogado falando em voz baixa.
«Dr.
Albuquerque, desculpe ligar-lhe tão cedo…»
«Onde
está!?» Interrompeu o advogado num sobressalto.
«Oiça
doutor, tenho comigo o assassino de minha mulher. Quero entregar-me às autoridades,
mas levo comigo o verdadeiro assassino. Vou telefonar à polícia.»
«Paulo,
diga-me onde está que seguirei para aí de imediato. Não telefone a ninguém sem
eu chegar.»
Após ter
dado a sua morada ao Dr. Albuquerque desliga o telemóvel e volta ao escritório.
Rafael
acorda ou finge acordar, olha com espanto para o homem à sua frente, sem
barba e de olhos azuis.
«Que é
isto? Você é o dono do stand onde comprei o carro. Porque estava disfarçado?»
«Sim, sou
eu mesmo, mas deixa-te de perguntas.»
«Esteve a
telefonar para a polícia?» Interroga Rafael lívido.
«Não,
estive a falar com um amigo.»
«Prometeu
que me deixava ir embora. Pode desamarrar-me?»
«Ainda não.
Espera mais um pouco.»
«Fiz o que
me pediu, escrevi a minha confissão. Cumpri a minha parte, terá de cumprir o
que prometeu. Liberte-me.» Implorou Rafael.
«Eu cumpro
o que prometo. Terás de esperar mais um pouco até à chegada do meu amigo.»
Declarou Paulo dirigindo-se novamente para o sofá.
Rafael ia
ripostar, mas Paulo foi perentório quando o manda calar e esperar.
Eram oito
horas da manhã quando a campainha da porta soa. O Dr. Albuquerque entra de
rompante, olha o Paulo com espanto.
«Pintou o
cabelo?»
«Tive de me
disfarçar, para poder investigar.»
«Onde está
o homem?»
«Está lá
dentro, amarrado.»
«Bom, conte-me
tudo.»
Paulo
sintetiza as três semanas que passou fora da prisão.
«Arranjou a
bonita e meteu o seu amigo Pedro em maus lençóis. Agora, em vez de um tenho de
defender dois.»
«Ó Dr., o
Pedro é como um irmão e fez o que achou justo para que eu me pudesse defender.»
«Bom. Para
já devo avisá-lo que vai ficar detido por alguns dias. Acompanho-o à esquadra e
vou tentar que fique em prisão domiciliária até julgamento. Não diga nada sem a
minha presença, tudo o que disser poderá ser usado contra si. Dê-me a confissão
do cavalheiro e telefone à polícia.»
Pouco tempo
depois aquela artéria da avenida de Roma parecia uma romaria com carros da
polícia e espectadores.
Na esquadra
o advogado, num gabinete, prestava esclarecimentos do sucedido, enquanto Paulo
e Rafael aguardavam silenciosamente, até que este se queixou.
«Você
prometeu-me que me libertaria se eu lhe entregasse a confissão.»
«E
libertei-o, quem o prendeu foi a polícia.»
Uma hora
depois regressa o advogado de Paulo.
«Vou
preparar o processo este fim de semana. Até lá vão ficar os dois detidos.»
Declarou em surdina o avogado ao seu cliente e continuou. «Tenha cuidado com as
declarações que presta, de preferências nenhumas. Só na segunda-feira é que
regresso com as alegações.»
Paulo ainda
cumpriu três meses de prisão, grande parte em sua casa. O julgamento teve lugar
4 meses após a sua fuga. O Dr. Albuquerque alegou um forte motivo para a fuga
do seu cliente que pretendia provar a sua inocência, para além de ter estado
detido três meses sem culpa formada. Para além de tudo conseguira a captura do verdadeiro
assassino.
Rafael não sairia da prisão nos próximos anos.