O
polémico Centro Cultural de Belém admirado por uns, contestado por outros, é o
lugar ideal para umas horas de prazer, onde a arte impera, a cultura predomina
e o tempo passa tão depressa que são necessárias horas infinitas para percorrer
as dezenas de salões onde centenas de artistas expõem a sua arte.
«A
arte e a vida são feitas de contrastes. A arte é tudo aquilo que o homem faz;
quer pintura, escultura ou uma ideia apresentada em papel ou mesmo em filme.
Podes gostar ou desgostar.» Retorquiu Carlos.
«Mas
já não há artistas como aqueles do século XVI que construíram aquele Mosteiro.»
«Não
digas isso. O Mosteiro dos Jerónimos foi construído no século XVI, com o seu
estilo Manuelino de facto, mas depois das guerras napoleónicas no início do
século XIX, que devastaram uma boa parte dos Jerónimos, quem foi que tomou a
cargo as obras de restauro? Foram os artistas da época, não é verdade?» E
continuou «o edifício do CCB é de uma arquitetura moderna, linhas direitas,
verticais e horizontais. Tudo tem a sua época, não por falta de artistas ou de
gosto, mas por falta de tempo ou dinheiro. Como classificarias a Sé de Lisboa?
Não é igualmente uma obra de arte? Todavia o estilo românico é também composto
de linhas direitas.» Concluiu Pedro.
A
discussão prolongou-se até que, depois de ambos concordarem que o motivo da sua
ida ali era a exposição no interior do CCB e não a sua arquitetura. Entraram.
Percorreram demoradamente as longas salas, parando aqui ou ali para melhor
apreciação de um quadro ou uma escultura. Olharam demoradamente para um quadro
de Picasso. Pararam numa sala para apreciarem “Os Núcleos”, obras suspensas no
espaço, algumas delas compostas de várias peças, um novo conceito de arte; um
telefone, escultura de Salvador Dali.
O
Manuel questionava-se sobre o tipo de arte que as centenas de artistas lhes
queriam mostrar; olhava uma sequência de um filme sem o compreender, via
dezenas de tijolos sobrepostos ou umas pedras colocadas no chão aparentemente
ao acaso; uma escultura de ferro em forma circular ocupava toda uma sala. Por
fim desabafou:
«Imagina
que te dão uma tela e uma lata com tinta branca e te pedem para pintares um
quadro, que responderias ou fazias?» Indagou Pedro.
«Sei
lá? Por certo que pensaria que estavam a galhofar comigo.» Respondeu Manuel.
Pedro
pegou-lhe num braço e dirigiu-se para o fundo da sala pespegando Manuel defronte
de um quadro, uma tela branca pintada de branco.
Pedro,
olhando a cara de Manuel que parecia extasiado, continuou:
«E
se te pedissem para expor uma construção?»
«Para
te ser franco, a partir de agora, tudo o que me possas mostrar nada me irá
surpreender.» Informou Manuel.
Percorreram
mais umas salas. Esculturas, quadros tridimensionais, películas de filmes,
iluminação a néon ou lâmpadas fluorescentes, iluminação a gás, etc. etc.,
patenteavam arte e deliciavam quem os olhasse.
Manuel
não pode esconder a sua admiração.
«Na
realidade a arte é tudo aquilo que possamos imaginar. Não faria ideia de como
apresentar esta escultura. É fascinante.» Confessou.
«Mas
há mais» informou Pedro e continuou «tudo o que viste é demasiado valioso, não
lhes podes tocar e em alguns casos nem te aproximar demasiado, existindo os
separadores para não os ultrapassar.»
«Que
mais poderá haver?» Pergunta espantado Manuel.
«Se
um artista te pedisse para tocar nos objetos expostos, pisasses o seu trabalho,
te deitasses em cima dele, entrasses no seu espaço, acreditarias?»
«Não
é possível!» Exclamou Manuel.
«Anda
daí e verás como é possível.» Finalizou Pedro.
Não,
não era possível, Pedro estava agora a ensandecer. Pensou
Manuel.
Pedro
e Manuel não resistiram em entrar no paraíso de “Hélio Oiticica”. Descalços, pisaram
aqueles chãos entrando nas cabinas envoltas em tecidos translúcidos. Pisaram livros,
flocos de esponja, areia, palha e sentiram uma sensação de prazer que há muito não
sentiam.
Não resistiram e entraram na tenda de campismo. Sentaram-se
no chão e colocaram os auscultadores que ali se encontravam e ouviram música. O
tempo parou. Deram poi isso quando saíram e chegaram à rua. Começava a entardecer.
Tinham entrado no CCB pelas 3 da tarde.