quinta-feira, 16 de março de 2017

PARA UM GRANDE AMOR, NÃO EXISTEM OBSTÁCULOS INSUPERÁVEIS


           Fernando Tomé, homem rude sem princípios éticos, vivia com sua mulher e filha numa aldeia, a sul do rio Mondego. Possuía uma pequena herdade de cultivo e tinha como vizinho um proprietário de uma herdade geminada à sua que fazia inveja a toda a população. Este abastado fazendeiro era casado e pai de um rapaz da mesma idade da sua filha Érica. Sonhava na associação das duas herdades e sentir-se o senhor da aldeia. Não tinha amigos. Apenas o seu vizinho o aturava e com quem habitualmente convivia. A sua filha Érica, uma linda garota de cabelos negros com franja, era admirada e cobiçada por todos os rapazes da aldeia e colegas de escola, todavia Fernando Tomé preferia que ela casasse com o Carlos, filho do vizinho e assim estreitar a sua ligação com ele e com a sua propriedade. Desde crianças que conviviam lado a lado e estudavam na mesma escola.

            Fernando Tomé incitava a filha, agora com 17 anos, a um namoro com o Carlos. Mostrava-lhe o respeitador que era, filho exemplar, etc. Estas conversas eram muitas vezes abordadas em reuniões das duas famílias, mas Érica não apreciava tais conversas, chegando muitas vezes a questionar o pai dizendo-lhe que o rapaz era apenas um amigo de infância, nada mais do que isso, que não via nele um futuro marido. Não, não tinha namorado, mas não seria o Carlos que a levaria ao altar. O pai opunha-se, fazendo-a ver nas vantagens de tal ligação das propriedades juntas, do seu futuro. As conversas muitas vezes azedavam e Érica chegara mesmo a dizer que não estava à venda, que casaria com quem lhe apetecesse, rico ou pobre. Queria lá saber das propriedades, do vizinho, do Carlos.

            As relações entre pai e filha tornaram-se azedas e apenas a mãe compreendia a sua filha e lhe dava razão, mas nada podia fazer, o pai era o seu marido a quem tinha de se subjugar.

            Com dezoito anos, Carlos ficara-se pelo 12.º enquanto Érica seguiria para a faculdade, embora contra vontade de seu pai que em nada a ajudava, muito pelo contrário. Para quê o curso? Érica já sabia o suficiente para governar a propriedade e a casa, uma pura perda de tempo, uma idiotice.
            Após muitas discussões e ameaças de sair de casa, Érica levara a sua avante e inscrevera-se na Universidade de Coimbra. As horas foram controladas, os horários fiscalizados e Érica via-se presa àquele controlo, mas o seu desejo fora satisfeito.   

            Uns escassos 20 quilómetros os separavam, um numa margem, outro na outra. O pai não aceitava a união da filha com aquele rapaz que nem conhecia nem queria conhecer. Tinha-a prometido ao seu vizinho e não tirava essa ideia da cabeça. A mãe tentava em vão apaziguar aquelas quezílias entre pai e filha, mas em vão. Por isso Érica limitava-se a trocar mensagens carregadas de amor com o seu colega César, que conhecera na faculdade onde estudavam.

            Naquela linda manhã de sol de um domingo, César apetecia-lhe sair com a sua amada Érica, mas sabia que era impossível e enquanto lia, recebe uma mensagem de Érica.
            «Aonde vamos domingo à tarde, amor?»
            «Vamos ao cinema, ver Música no Coração.» Disse César, em tom de brincadeira.
            Segundos depois recebe outra mensagem, desta vez uma música de Nelson Ned, “Domingo à Tarde”.
            Era esta a única forma de se contactarem dado o tempo ser controlado pelo pai. Passavam tardes e noites trocando mensagens, muitas delas carregadas de amor.           

            Érica era uma garota sempre sorridente, cheia de vida. O seu corpo franzino contrastava com a grandeza da sua alma. Tinha o dom de cativar os que a rodeavam. Não havia festa sem a sua presença. Adorava dançar as danças modernas, embora dançasse as clássicas, mas estas só o fazia em raras ocasiões, quando nas poucas vezes que tinha oportunidade de se encontrar com o seu amado César. O pouco tempo que tinham eram os intervalos das aulas.
            Érica conhecera César e logo se apaixonara no primeiro encontro.
           César morava na cidade de Coimbra com seus pais. Era um rapaz romântico, respeitador, um pouco leviano, próprio da idade. Conhecera sua colega Érica e logo uma empatia mútua se apoderara deles. Três meses depois começou o namoro que se transformou em paixão. Em todos os momentos disponíveis agarravam-se ao computador e enviavam mensagem um ao outro. Havia madrugadas em que se amavam por correspondência. A troca de promessas de amor de desejos não concretizados, eram compensados por frases carregadas de carinho, de ternura. Tinha-se beijado às escondidas na faculdade. Evitavam os colegas, alguns deles conhecidos da família de Érica. Aquela vida não facilitava aquele amor. César por várias vezes tentara levar a sua amada para longe dali, mas o receio de Érica não só pelo atraso que daí poderia advir, como por receio de perder a cabeça e entregar-se nos braços do seu amor. Ansiava por esse dia e desejava-o tanto como o temia. Era nesses momentos que as madrugadas se prolongavam pela noite dentro. Érica perdia-se com as palavras carinhosas de César, Sentia-o junto a ela, adormecia a pensar num encontro mais íntimo. Desejava-o tanto como o receava.

            Naquele dia faltaram às aulas. Dedicaram a tarde para estarem juntos, longe da universidade e dos olhares do mundo. Os pais de César tinham partido para Lisboa e só regressariam no dia seguinte. Tinham combinado aproveitar aquela oportunidade para se unirem e se amarem. César parecia um adolescente tímido, olhando a sua Érica com misto de ternura e receio como se a tivesse conhecido naquele momento. Ela, mais afoita, dava-lhe a mão ou acariciava-lhe o cabelo.
            «Amor!» Exclama Érica atirando-se para os braços de César e beijando-o loucamente, logo que entraram em casa. César sorri, retribui o beijo, mas a sua timidez era notória, todavia, nessa tarde amaram-se como se fosse a última vez que o faziam. Foi nesse dia que juraram amar-se para sempre e César lhe pediu que o aceitasse como marido.

            O pai continuava a olhar o relógio quando a filha chegava. Érica estava quase a completar os 21. Era com César que casaria mesmo contra a vontade do pai. Tinham tudo planeado tendo aberto uma conta bancária em nome de ambos, com as economias, com os trabalhos que faziam em explicações particulares. Os pais de César adoravam Érica, estavam a par de tudo, das economias de ambos, do planeamento do casamento, das desavenças entre pai e filha. Ajudariam em tudo o que estivesse ao seu alcance, quer financeira quer moralmente. Em vão tentaram falar com o pai de Érica, mas sentiram uma enorme rejeição e uma antipatia que os desencorajou.

            Érica andava louca de felicidade de tal forma que já nada escondia nem se preocupava com os olhares dos colegas, dos falatórios. Tinha acabado de completar os 21, já era adulta. Não queria saber se os conhecidos da sua família contassem o seu comportamento com César, com os beijos que lhe dava em público, já não temia o pai. Apenas lhe interessava a sua felicidade e queria demonstrar ao mundo que amava César e era amada. Tinha o seu apoio, o apoio de sua mãe e o apoio dos pais do seu amado. O seu pai se não aceitava aquela união, não seria problema seu. Não iria abdicar da sua felicidade em troca de uma herdade, casando com um rapaz que não amava. Gostava muito do seu pai, mas não suportava nem lhe perdoava que “vendesse” a filha por um bocado de terra.

            Agora, com 26 anos, Érica acabara o curso e arranjara um emprego estável. O seu noivo César já estava empregado há quase um ano. Decidiram casar. Arrendaram uma casa em Coimbra, e prepararam tudo para um casamento simples. Convidaram apenas a família e alguns amigos mais chegados. O pai de Érica negou-se comparecer à cerimónia, alegando não conhecer o noivo de sua filha, o que era verdade, pois nunca o aceitou no seio da família.
            «Podes ir tu, eu não vou. Sabes bem que não apoio este casamento.» Disse Fernando Tomé à sua esposa, que chorosa rogava a sua presença naquele dia em que sua querida filha iria dar o passo mais importante da sua vida.

            Aquele 12 de julho, dia do casamento, chegou. À porta da Igreja de Santa Cruz, umas vinte pessoas aguardava a chegada da noiva. O noivo, nervoso, não tirava os olhos do relógio, nem dos convidados presentes. Estava ansioso e um pouco receoso por sua amada tardar. Receava o seu futuro sogro. Aquele casmurro prepararia alguma coisa para estragar aquele dia? Temia o pior, mas de repente, vê aproximar-se um carro negro enfeitado com flores brancas e segundos depois parar junto à porta da igreja. Era a sua noiva acompanhada pela mãe. Finalmente chegara. A mãe vinha com as lágrimas nos olhos. Não sabia se de alegria ou de tristeza pela falta do marido.
            A celebração da missa começara e tanto a mãe como a filha pareciam inquietas e volta e meia olhavam para trás na expectativa de uma chegada desejada que não se concretizava.
            «Há alguém que se oponha a este casamento?» Começo padre. «Se há, que fale agora ou se cale para sempre.»
            «EU…» Grita alguém que a meio da igreja prossegue em passo lento em direção ao altar.
            Todos se voltam para o local de onde vinha tal grito e um murmúrio ecoa pela igreja.
            Lentamente Fernando Tomé chega ao pé do padre e num tom muito natural exclama: «Eu… dou o meu consentimento à minha filha para se casar com este jovem.»
            Um salva de palmas perturba o silêncio da igreja, enquanto Fernando Tomé se dirige a César e lhe dá um forte abraço.
            «Benvindo César. Benvindo meu filho ao seio desta família. Sê feliz e dá a felicidade à tua noiva.»
            Érica e mãe não conseguem impedir que as lágrimas lhes corram pelas faces. Abraçam-se num choro que comoveu todos. César não consegue abraçar a sua amada porque o abraço do seu futuro sogro lhe pareceu sincero e comovido. Os olhos do “velho rabugento” mostraram lágrimas. O padre pousa a mão no ombro de Fernando e segredou-lhe:
            «Deus ouviu-me, Fernando. Vai beijar a tua filha, homem de Deus.»
            Pai mãe e filha choram abraçados.
            «Eu sabia que vinhas, meu pai.» Choramingou Érica.
            «Pensavas que te não apoiava, minha querida filha? És forte, corajosa e tens uma grande personalidade. Admiro-te e respeito-te. A tua casa tem as portas abertas para o César. Desejo-vos as maiores felicidades.»
            «Pai querido, eu sei que me amas, tal como eu te amo, mas deixa-me abraçar o meu noivo agora.»
            Mais uns choros. Érica abraça-se a César. Foi necessário o padre impor ordem e prosseguir o evento.
            Já casados, o pai envolve a filha com um braço e César com o outro, exclamando.
            «Para um grande amor, não existem obstáculos insuperáveis.»