Fernando Tomé,
homem rude sem princípios éticos, vivia com sua mulher e filha numa aldeia, a
sul do rio Mondego. Possuía uma pequena herdade de cultivo e tinha como vizinho
um proprietário de uma herdade geminada à sua que fazia inveja a toda a
população. Este abastado fazendeiro era casado e pai de um rapaz da mesma idade
da sua filha Érica. Sonhava na associação das duas herdades e sentir-se o
senhor da aldeia. Não tinha amigos. Apenas o seu vizinho o aturava e com quem
habitualmente convivia. A sua filha Érica, uma linda garota de cabelos negros
com franja, era admirada e cobiçada por todos os rapazes da aldeia e colegas de
escola, todavia Fernando Tomé preferia que ela casasse com o Carlos, filho do
vizinho e assim estreitar a sua ligação com ele e com a sua propriedade. Desde
crianças que conviviam lado a lado e estudavam na mesma escola.
Fernando Tomé incitava a filha,
agora com 17 anos, a um namoro com o Carlos. Mostrava-lhe o respeitador que
era, filho exemplar, etc. Estas conversas eram muitas vezes abordadas em reuniões
das duas famílias, mas Érica não apreciava tais conversas, chegando muitas
vezes a questionar o pai dizendo-lhe que o rapaz era apenas um amigo de
infância, nada mais do que isso, que não via nele um futuro marido. Não, não
tinha namorado, mas não seria o Carlos que a levaria ao altar. O pai opunha-se,
fazendo-a ver nas vantagens de tal ligação das propriedades juntas, do seu futuro.
As conversas muitas vezes azedavam e Érica chegara mesmo a dizer que não estava
à venda, que casaria com quem lhe apetecesse, rico ou pobre. Queria lá saber
das propriedades, do vizinho, do Carlos.
As relações entre pai e filha
tornaram-se azedas e apenas a mãe compreendia a sua filha e lhe dava razão, mas
nada podia fazer, o pai era o seu marido a quem tinha de se subjugar.
Com dezoito anos, Carlos ficara-se
pelo 12.º enquanto Érica seguiria para a faculdade, embora contra vontade de
seu pai que em nada a ajudava, muito pelo contrário. Para quê o curso? Érica já
sabia o suficiente para governar a propriedade e a casa, uma pura perda de
tempo, uma idiotice.
Após muitas discussões e ameaças de
sair de casa, Érica levara a sua avante e inscrevera-se na Universidade de
Coimbra. As horas foram controladas, os horários fiscalizados e Érica via-se
presa àquele controlo, mas o seu desejo fora satisfeito.
Uns escassos 20 quilómetros os
separavam, um numa margem, outro na outra. O pai não aceitava a união da filha
com aquele rapaz que nem conhecia nem queria conhecer. Tinha-a prometido ao seu
vizinho e não tirava essa ideia da cabeça. A mãe tentava em vão apaziguar
aquelas quezílias entre pai e filha, mas em vão. Por isso Érica limitava-se a trocar
mensagens carregadas de amor com o seu colega César, que conhecera na faculdade
onde estudavam.
Naquela linda manhã de sol de um domingo,
César apetecia-lhe sair com a sua amada Érica, mas sabia que era impossível e
enquanto lia, recebe uma mensagem de Érica.
«Aonde vamos domingo à tarde, amor?»
«Vamos ao cinema, ver Música no Coração.»
Disse César, em tom de brincadeira.
Segundos depois recebe outra
mensagem, desta vez uma música de Nelson Ned,
“Domingo à Tarde”.
Era esta a única forma de se
contactarem dado o tempo ser controlado pelo pai. Passavam tardes e noites
trocando mensagens, muitas delas carregadas de amor.
Érica era uma garota sempre
sorridente, cheia de vida. O seu corpo franzino contrastava com a grandeza da
sua alma. Tinha o dom de cativar os que a rodeavam. Não havia festa sem a sua
presença. Adorava dançar as danças modernas, embora dançasse as clássicas, mas
estas só o fazia em raras ocasiões, quando nas poucas vezes que tinha
oportunidade de se encontrar com o seu amado César. O pouco tempo que tinham
eram os intervalos das aulas.
Érica conhecera César e logo se
apaixonara no primeiro encontro.
César morava na cidade de Coimbra
com seus pais. Era um rapaz romântico, respeitador, um
pouco leviano, próprio da idade. Conhecera sua colega Érica e logo uma empatia
mútua se apoderara deles. Três meses depois começou o namoro que se transformou
em paixão. Em todos os momentos disponíveis agarravam-se ao computador e
enviavam mensagem um ao outro. Havia madrugadas em que se amavam por correspondência.
A troca de promessas de amor de desejos não concretizados, eram compensados por
frases carregadas de carinho, de ternura. Tinha-se beijado às escondidas na
faculdade. Evitavam os colegas, alguns deles conhecidos da família de Érica.
Aquela vida não facilitava aquele amor. César por várias vezes tentara levar a
sua amada para longe dali, mas o receio de Érica não só pelo atraso que daí
poderia advir, como por receio de perder a cabeça e entregar-se nos braços do
seu amor. Ansiava por esse dia e desejava-o tanto como o temia. Era nesses
momentos que as madrugadas se prolongavam pela noite dentro. Érica perdia-se
com as palavras carinhosas de César, Sentia-o junto a ela, adormecia a pensar
num encontro mais íntimo. Desejava-o tanto como o receava.
Naquele dia faltaram às aulas.
Dedicaram a tarde para estarem juntos, longe da universidade e dos olhares do
mundo. Os pais de César tinham partido para Lisboa e só regressariam no dia
seguinte. Tinham combinado aproveitar aquela oportunidade para se unirem e se
amarem. César parecia um adolescente tímido, olhando a sua Érica com misto de
ternura e receio como se a tivesse conhecido
naquele momento. Ela, mais afoita, dava-lhe a mão ou acariciava-lhe o cabelo.
«Amor!» Exclama Érica atirando-se
para os braços de César e beijando-o loucamente, logo que entraram em casa.
César sorri, retribui o beijo, mas a sua timidez era notória, todavia, nessa
tarde amaram-se como se fosse a última vez que o faziam. Foi nesse dia que
juraram amar-se para sempre e César lhe pediu que o aceitasse como marido.
O pai continuava a olhar o relógio
quando a filha chegava. Érica estava quase a completar os 21. Era com César que
casaria mesmo contra a vontade do pai. Tinham tudo planeado tendo aberto uma
conta bancária em nome de ambos, com as economias, com os trabalhos que faziam
em explicações particulares. Os pais de César adoravam Érica, estavam a par de
tudo, das economias de ambos, do planeamento do casamento, das desavenças entre
pai e filha. Ajudariam em tudo o que estivesse ao seu alcance, quer financeira
quer moralmente. Em vão tentaram falar com o pai de Érica, mas sentiram uma
enorme rejeição e uma antipatia que os desencorajou.
Érica andava louca de felicidade de
tal forma que já nada escondia nem se preocupava com os olhares dos colegas,
dos falatórios. Tinha acabado de completar os 21, já era adulta. Não queria
saber se os conhecidos da sua família contassem o seu comportamento com César,
com os beijos que lhe dava em público, já não temia o pai. Apenas lhe
interessava a sua felicidade e queria demonstrar ao mundo que amava César e era
amada. Tinha o seu apoio, o apoio de sua mãe e o apoio dos pais do seu amado. O
seu pai se não aceitava aquela união, não seria problema seu. Não iria abdicar
da sua felicidade em troca de uma herdade, casando com um rapaz que não amava.
Gostava muito do seu pai, mas não suportava nem lhe perdoava que “vendesse” a
filha por um bocado de terra.
Agora, com 26 anos, Érica acabara o
curso e arranjara um emprego estável. O seu noivo César já estava empregado há
quase um ano. Decidiram casar. Arrendaram uma casa em Coimbra, e prepararam
tudo para um casamento simples. Convidaram apenas a família e alguns amigos
mais chegados. O pai de Érica negou-se comparecer à cerimónia, alegando não
conhecer o noivo de sua filha, o que era verdade, pois nunca o aceitou no seio
da família.
«Podes ir tu, eu não vou. Sabes bem
que não apoio este casamento.» Disse Fernando Tomé à sua esposa, que chorosa
rogava a sua presença naquele dia em que sua querida filha iria dar o passo
mais importante da sua vida.
Aquele 12 de julho, dia do casamento,
chegou. À porta da Igreja de Santa Cruz, umas vinte pessoas aguardava a chegada
da noiva. O noivo, nervoso, não tirava os olhos do relógio, nem dos convidados presentes.
Estava ansioso e um pouco receoso por sua amada tardar. Receava o seu futuro
sogro. Aquele casmurro prepararia alguma coisa para estragar aquele dia? Temia
o pior, mas de repente, vê aproximar-se um carro negro enfeitado com flores
brancas e segundos depois parar junto à porta da igreja. Era a sua noiva
acompanhada pela mãe. Finalmente chegara. A mãe vinha com as lágrimas nos olhos.
Não sabia se de alegria ou de tristeza pela falta do marido.
A celebração da missa começara e
tanto a mãe como a filha pareciam inquietas e volta e meia olhavam para trás na
expectativa de uma chegada desejada que não se concretizava.
«Há alguém que se oponha a este casamento?»
Começo padre. «Se há, que fale agora ou se cale para sempre.»
«EU…» Grita alguém que a meio da
igreja prossegue em passo lento em direção ao altar.
Todos se voltam para o local de onde
vinha tal grito e um murmúrio ecoa pela igreja.
Lentamente Fernando Tomé chega ao pé
do padre e num tom muito natural exclama: «Eu… dou o meu consentimento à minha
filha para se casar com este jovem.»
Um salva de palmas perturba o
silêncio da igreja, enquanto Fernando Tomé se dirige a César e lhe dá um forte
abraço.
«Benvindo César. Benvindo meu filho
ao seio desta família. Sê feliz e dá a felicidade à tua noiva.»
Érica e mãe não conseguem impedir
que as lágrimas lhes corram pelas faces. Abraçam-se num choro que comoveu
todos. César não consegue abraçar a sua amada porque o abraço do seu futuro
sogro lhe pareceu sincero e comovido. Os olhos do “velho rabugento” mostraram
lágrimas. O padre pousa a mão no ombro de Fernando e segredou-lhe:
«Deus ouviu-me, Fernando. Vai beijar
a tua filha, homem de Deus.»
Pai mãe e filha choram abraçados.
«Eu sabia que vinhas, meu pai.» Choramingou
Érica.
«Pensavas que te não apoiava, minha
querida filha? És forte, corajosa e tens uma grande personalidade. Admiro-te e
respeito-te. A tua casa tem as portas abertas para o César. Desejo-vos as
maiores felicidades.»
«Pai querido, eu sei que me amas,
tal como eu te amo, mas deixa-me abraçar o meu noivo agora.»
Mais uns choros. Érica abraça-se a
César. Foi necessário o padre impor ordem e prosseguir o evento.
Já casados, o pai envolve a filha
com um braço e César com o outro, exclamando.
«Para um grande amor, não existem
obstáculos insuperáveis.»
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