quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O Acidente


               Era um domingo de julho. Às seis da manhã o Sol já prometia um dia de intenso calor. Ramiro levanta-se e prepara um pequeno-almoço de torradas, café, leite, bolachas, ovos mexidos com presunto e um jarro com sumo de laranja. Coloca tudo num tabuleiro e dirige-se novamente para o quarto, pousa o tabuleiro dá um beijo à esposa e anuncia:
            «Bom dia Isa. São horas de levantar.»
            «Que horas são?» Pergunta Isabel ensonada e abrindo os olhos, vê o tabuleiro com o pequeno-almoço na mesinha de cabeceira, continua «há muito que não me obsequiavas com este miminho.»
            «Hoje é um dia especial, amor.»
            «É verdade querido, obrigada.» Disse puxando o marido e beijando-o ternamente. 
            Ramiro e Isabel, um jovem casal ainda em lua-de-mel, seguiam pela marginal com destino a uma praia de Cascais. Naquele dia comemoravam o primeiro aniversário de casados. Seguiam alegres acariciando-se mutuamente. Bruscamente um autocarro de turismo que rodava em sentido contrário, sai da sua faixa de rodagem e vem de encontro ao carro de Ramiro. Este tenta desviar-se para a direita, mas a parede de um prédio impede-o de fugir. Isabel dá um grito e desmaia.
            Aquela manhã de domingo tornara-se numa tragédia não só para os acidentados, como igualmente para todos aqueles que pretendiam passar o dia num merecido descanso à beira mar. O trânsito fora cortado nos dois sentidos. As ambulâncias, polícia e carros dos bombeiros a custo chegaram e com dificuldade conseguiram retirar os dois corpos de dentro do carro de Ramiro.
            Ramiro, o mais sinistrado, parecia ter partido ambas as pernas, enquanto que, Isabel, apenas com alguns hematomas no braço direito, despertara do desmaio e soluçava convulsivamente.
            Três horas após o acidente, já no hospital, Isabel foi informada da operação do marido a ambas as pernas. Iria ficar paralisado por alguns meses.
            Isabel visitava todos os dias o seu amado e foi com alegria que recebeu a notícia desejada. Seu marido estava curado. A operação correra bem, apenas precisaria de fazer fisioterapia durante algum tempo.
            Três meses após a operação e não sentindo melhoras, recorreu ao hospital. Após prolongados exames, os médicos foram perentórios:
            «O seu marido está bom. Os ossos solidificaram na perfeição. Os nervos estão ótimos, sem danos. Trata-se de um caso psicológico. O seu marido tem medo de se por de pé.»
            «Senhor doutor, ele não consegue levantar-se.»
            «Têm de ter paciência e forçá-lo a reagir. Os exames não mostram quaisquer danos. Psicologicamente pensa que não está bem, tem medo de pôr-se de pé. Force-o a levantar-se. Não é muito comum, mas por vezes acontece os pacientes amedrontarem-se depois de algum tempo de inatividade.»          
            Isabel por muito que incutisse essa informação ao marido com os maiores cuidados, apenas recebia respostas agressivas.
            «Eu não estou maluco. Se te digo que não consigo pôr-me de pé, é porque não estou bem. A operação não correu bem. Esses médicos são uns idiotas.»
            «Mas querido, fá fomos a três especialistas e todos confirmam as mesmas teorias.»
            «Acreditas mais nos médicos ou em mim?»
            «Amor, acredito em ti bem sabes, mas esforça-te um pouco.»
            «Sou um estorvo para ti, sou um aleijado que não posso sair desta maldita cadeira.»
            «Não digas disparates, querido. Sabes bem que te amo e nunca te abandonarei, mas é para teu bem que te peço para te esforçares e tentes dar um passinho com as canadianas.»
            «Estás cansada de me ver inativo. Vai para a tua mãe e deixa-me.»
            «Nem parece teu, querido. Sabes bem que nunca te deixaria mesmo que estivesses de cama. Amo-te e por nada te abandonaria.»
            «Perdoa-me Isa, mas acredita que não consigo pôr-me de pé.»
            Estas eram as conversas constantes entre o casal. Isabel, com uma paciência de santa, ia apaparicando o marido com ternura e paciência. Consultou psicólogos, terapeutas e um sem número de amigos sobre o caso sem todavia receber patologia eficaz. Cansada de ver o marido sem força de vontade suficiente, resolve tomar uma atitude drástica. Iria pôr à prova as suas próprias capacidades, esperando um milagre.
            «Querido, amanhã vamos almoçar a casa de minha mãe? É o dia do seu aniversário, gostava de lá ir se não te importasses.»
            «Porquê importar-me amor? Está bem, vamos. Compra-lhe uma prenda e, da minha parte, um ramo de flores.»
            «És um querido, mas não te preocupes que já comprei tudo.» 
            Isabel amava o seu marido e o seu sofrimento era o dela. Acreditava nos especialistas e não tinha dúvidas de que o marido poderia curar-se, não fora o caso de psicologicamente sentir-se um inútil incurável. Recorrera a psicólogos fingindo-se fisioterapeutas, mas não resultara. Houve mesmo um dia em que o Ramiro dissera à mulher.
            «Querida, eu sei que queres que eu me cure. Não o desejas mais do que eu. Acredita que eu não estou maluco, não vale a pena levares-me a psicólogos disfarçados de fisioterapeutas, como o fizeste da última vez. Vês bem que faço exercícios diários e se não consigo pôr-me de pé é porque não estou ainda curado.»
            «Como sabes que era um psicólogo?»
            «Conheço demasiado bem os fisioterapeutas e este último nada percebia do assunto.»
            «Perdoa-me querido, mas gostava tanto que te curasses…»
            «Estás cansada de me ver assim, mas acredita que eu estou muito mais.»
            Estas conversas sucediam-se e Isabel, sempre carinhosa, tentava convencer o marido de que estava curado.
            «Repara nas tuas pernas, amor. Estão musculosas como antes do acidente.» Dizia Isabel apalpando-lhe as pernas.
            «Mas não tenho força nelas.» Queixava-se.
            Estava uma manhã fria de inverno. Isabel levantou-se cedo e como habitualmente ajudou o marido a tomar banho e preparou-lhe o pequeno-almoço. Era o dia de aniversário da mãe e tal como tinham planeado, iam almoçar a casa dela.
            Durante o almoço Isabel parecia longe, abstrata, alheia à conversa animada entre a mãe e o marido.
            «Isabel! Estou a falar contigo, não me respondes.» Exclama a mãe.
            «Desculpe mãe. Estava tão longe…»
            «É por minha causa, mãe.» Interrompe Ramiro dirigindo-se à sogra.
            «É sim, por tua causa. Não tens força de vontade. Por muito que te incutam no teu cérebro que estás curado, continuas apegado a essa cadeira como se fosses um inválido.» Retorque Isabel num tom zangado.
            «Então filha, o teu marido não tem culpa do que aconteceu.»
            «Tem sim mãe, há mais de três meses que os médicos o deram como curado e eu não vejo força de vontade suficiente para largar aquela maldita cadeira.» Diz Isabel com as lágrimas a quererem brotar. Ramiro não respondeu. Limitou-se a olhar a sogra e encolher os ombros. Já estava habituado àqueles desabafos da mulher.
            O almoço tinha-se prolongado e Isabel não querendo regressar a casa de noite despede-se da mãe e conduz o seu marido para a saída. Mete o marido dentro do automóvel e fecha a cadeira de rodas no porta-bagagens.
            Isabel estava revoltada, apetecia-lhe bater no marido, sacudi-lo, chamá-lo à razão. Vingou-se na condução acelerando mais do que era seu hábito a ponto de o marido exclamar:
            «Cuidado Isa, Vai muito depressa.»
            «Quero lá saber. Se tiver um acidente fico como tu, paralítica.» Gritou Isabel acelerando mais.
            «ISABEL! PARA. Ainda nos matas.»
            «É isso que eu quero, morrer. Estou cansada, desiludida. Farta desta vida.» Profere Isabel já lavada em lágrimas.
            «Por favor Isabel. Para um pouco até te acalmares. Vamos conversar.»
            Isabel afrouxa um pouco, mete por uma azinhaga e para o carro não muito longe da berma de um rio sobre o qual atravessava uma ponte. Chora convulsivamente. O marido tenta acarinhá-la, mas o resultado foi negativo. Isabel, desta vez aos gritos, sai do carro. Senta-se sobre a frente do carro e bate com os punhos fechados sobre o capot. Bruscamente corre em direção ao rio. Sobre à ponte e dirige-se para a balaustrada. Ao tentar transportá-la ouve um grito do marido.
            «ISA! OLHA, ESTOU DE PÉ.»
            Isabel abandona do seu intento e olha para trás. O seu marido, de pé, tentava dar os primeiros passos após tantos meses de inatividade. Isabel sorri e corre de encontro ao marido.
            Três meses depois Ramiro estava completamente restabelecido, abdicando das canadianas que o tinham ajudado na recuperação.
            «Vês meu amor que eu tinha razão? Foi preciso pregar-te um grande susto para tu acordares.»
            «Foste a minha melhor terapia querida. Atiravas-te da ponte se eu não me tivesse posto de pé?»
            «És tonto meu amor. Amo-te demasiado para perder-te. Não sou cobarde ao ponto de me matar para não enfrentar os problemas. Tinha tudo estudado para ver se reagirias. A farsa começou em casa da mãe, o choro, a velocidade, a corrida para a ponte e pelo que vês… resultou.