quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SE EU FOSSE PESSIMISTA

Estou a sobrevoar Paris. Lá em baixo a Torre Eiffel chama-me para uma visita. O rio Sena atravessa a cidade sob as dezenas de majestosas pontes convidando-me a um passeio pelas suas margens. Resolvi começar por descer a avenida dos Campos Elísios em direção ao Arco do Triunfo. Ia a pé e quando estava prestes a alcançá-lo, tocam à porta. Estava uma noite chuvosa e fria. Olhei o monitor do meu computador. Marcava 00:30. Quem me bateria à porta a hora tão tardia? Provavelmente algum vizinho que se esquecera da chave, mas àquela hora…
            Da sala minha mulher pergunta: «Quem será a esta hora?»
            Desliguei o Google Earth e respondi-lhe na brincadeira «deve ser algum ladrão»
            «Sim?» Indaguei através do intercomunicador.
            «É de casa do senhor Carlos?» Perguntou uma voz feminina. Estranho, uma mulher à minha procura a estas horas? Sabia o meu nome e onde eu morava. Só esperava que não viesse com um bebé ao colo dizendo-me que era meu filho. Era impossível, eu até uso filtros, nos cigarros…
            «Sim sou eu.» Respondi
            «Somos da polícia…» da polícia? Eu que não tinha assaltado nenhuma caixa de multibanco, dependência bancária ou sede de um banco... Também há muitos anos que não matava nem uma mosca. Aliás, neste último verão matei uma melga, na cozinha. Será que alguém da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal viu? Mas não creio que isso seja um crime, andam sempre a criar novas leis… Além disso matei-a com uma pancada firme, sem sofrimento para a bicha. Não via razões para uma queixa à polícia.
            A frase “somos da polícia” ficou-me no ouvido. Somos? Quantos seriam? Provavelmente a rua estaria cheia de automóveis celulares e dezenas de agentes armados de pistolas e metralhadoras. Não tinha para onde fugir. O terraço não era solução. Certamente haveria polícias nos prédios fronteiriços armados de espingardas com telescópio.
            Resolvi perguntar. «Que pretendem?»
            «O Peugeot matrícula tal é sua?» Teria pisado um traço contínuo? Passado um sinal vermelho? Eu que até sou do Sporting, nunca passo um vermelho, espero sempre pela cor do Sporting. Sou daqueles que para em todos os “Stops”. Não me recordo de ter atropelado ninguém nem ter ultrapassado a velocidade permitida… era demais. Viriam cobrar-me uma Multa? Não podiam ter esperado para amanhã?
            «Sim é o meu carro.» Respondi.
            «Tem a janela traseira aberta.» Pronto. Só me faltava esta. Assaltaram-me o carro. Mentalmente conferi o que tinha dentro da viatura. Uns óculos de sol com cerca de 20 anos, umas lâmpadas sobresselentes, um pano do pó e pouco mais.
            «Obrigado, desço já.» Já dentro do elevador pensei:
espero que não me tenham roubado nada, pelo menos o pano do pó, era novo e nem sequer o tinha ainda utilizado.
            Uma senhora e um homem, fardados de polícias, receberam-me com cortesia e disseram-me: 
            «Veja se está tudo em ordem. Está a chover e molha o interior do carro.» Agradeci, abri o carro e pareceu-me tudo bem. O pano do pó estava lá. Fechei o vidro e despedi-me com um muito obrigado pela atenção.
            Nessa noite sonhei com o meu carro rodeado por uma dezena de agentes da autoridade, todos de guarda-chuvas abertos.
 
Nota: a história é real, os pensamentos são meus.