terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Incompreendido


Tinha 6 anos quando começou a cantar no coro da igreja. Andava no 1.º ano e era um exemplar aluno. O Zezinho como lhe chamavam, adorava cantar. Em casa, no banho, cantarolava e sua mãe admirava-o com a habitual ternura de uma mãe. Incitava-o a cantar:
«Cantas muito bem meu filho» dizia-lhe muitas vezes.
Zezinho, frequentador assíduo da missa dominical, andava na catequese. O pároco da igreja gostava muito dele e, numa festa natalícia, convida-o a cantar a solo.
Pais, amigos e colegas da escola estão presentes no salão de festas da igreja. Zezinho no palco, munido de um gravador e de um microfone, inicia a sua canção acompanhada pela música do seu gravador. Às primeiras baladas repara que uma senhora acompanhada pelo seu filho, muito lentamente e sem ruído, levanta-se e sai. Segundos depois duas senhoras fazem o mesmo e mais umas e outros seguem o mesmo caminho. Ainda não tinha acabado a sua cantoria e já a sala estava vazia ou melhor: um único espectador restava, sentado ao fundo da sala. Destemido conclui o canto. Desliga o gravador, pousa o microfone e dirige-se para a única pessoa presente na sala, a fim de lhe agradecer. Com espanto repara que era o pároco e este dormitava a sono profundo.
Anos mais tarde, já no liceu, Zezinho que nunca mais tinha cantado a solo, foi convidado pelo diretor para uma festa de fim de ano letivo. Uns declamavam, outros contavam anedotas ou faziam palhaçadas. Ninguém se oferecera para cantar e o diretor incitou Zezinho a fazê-lo. Este pensou: teria uma segunda oportunidade.
Tal como da primeira vez, a sala estava cheia, mas a sua maioria eram colegas do liceu. Zezinho foi o último a atuar.
Cantou a primeira canção e ouve um burburinho pela sala. Quando acabou, uma salva de palmas ruidosas ecoou pela sala. Entusiasmado canta uma segunda, novos aplausos de pé. Canta a terceira e gritos de “BIS!” BIS!”. Cantou mais uma e, ouvindo um novo pedido de bis, pede uns minutos para descansar.
Ouvem-se gritos em uníssono:
«CONTINUA A CANTAR ATÉ APRENDERES».
Vermelho como um pimento, cabisbaixo, retira-se lentamente do palco não deixando de ouvir atrás de si as risadas de todos os colegas. Jurou para si não voltar mais a cantar.
Zezinho, já homem, passara a José e mais tarde na tropa a “35”, o soldado 35.
Estava na recruta e como habitualmente foram para campanha em treino militar. Uma semana de treino, carregados de mochilas, armas, tenda de campismo, etc. No final da campanha, um sábado, o comandante do pelotão encarrega o sargento e um cabo miliciano de organizar juntamente com os mancebos, uma festa de fim de campanha.
É improvisado um palco, luzes, som e tudo o mais necessário para o festim. Uns tocam guitarra, outros ensaiam ilusionismo, há quem se mascare e brinque aos palhaços. Zezinho apenas sabe cantar e não vê outro remédio se não atuar. Agora iria fazê-lo para adultos. Talvez o compreendessem melhor, tal como sua mãe.
Zezinho queria brilhar e propôs-se para último. Desta vez empregaria toda a sua voz e com a ajuda daquelas potentes colunas de som faria um brilharete.
Não chegou a um minuto de atuação, já todos gritavam:
«OH 35! VAI CANTAR PRÁ TUA RUA» ou
«EXPERIMENTA CANTAR BAIXINHO COM A BOCA FECHADA»
«CANTA DE COSTAS 35, PARA NÃO TE VERMOS»
Risadas, gritaria, barulho ensurdecedor de tal forma que o comandante se levantou e olhou para trás. Todos se calaram. Então, muito sério e com a calma que lhe era habitual, virou-se para o palco e bateu pausadamente 4 ou 5 palmas. O José, o 35, curvou-se e agradeceu:
«Obrigado meu comandante, vejo que é o único que aprecia a minha voz.»
«Não te estou a aplaudir. Estou a aplaudir a opinião dos teus camaradas.
Hoje o Senhor José, já avô, se lhe pedem para cantar fica de tal forma irado que quem não o conheça estremece de medo.