Há longos anos, talvez em meados dos anos 50, numa noite de Natal, estávamos eu e minha mãe, sozinhos.
«Carlitos! Despacha-te que a mãe tem de ir fazer umas compras ainda antes do jantar.»
Não me recordo bem qual a razão de estarmos sós, creio que o meu irmão mais velho estava com a viver com a namorada e o mais novo estava num colégio interno, mas não sei o porquê de não vir passar o Natal connosco. O meu pai estava na marinha, em serviço nos Açores. Só não me esquecerei nunca, que, eu e a minha mãe, apenas os dois, pela primeira vez em toda a nossa vida estávamos sós naquela noite.
No bairro de Campolide num primeiro andar, muito próximo do Aqueduto das Águas-Livres, vivíamos nós. Recordo isso, recordo a minha mãe a subir a escada para convidar a vizinha de cima, uma amiga nossa que também vivia só, para connosco jantar. Não estava em casa. Recordo que telefonou para alguém a quem convidou mas não teve sucesso. A minha tia, sua irmã, vivia na baixa, junto ao Chiado, mas tinha ido passar o Natal com o meu primo, seu filho, à nossa terra, Espinho.
«Não temos ninguém para nos acompanhar» disse eu olhando para a minha mãe, mas ela desviou o olhar, correu para a casa de banho, parecia que chorava. Regressou e com um tremor na voz disse-me: «Carlitos vamos comprar umas prendas para os manos, para quando eles chegarem...» fez uma pausa e prosseguiu «não te importas que jantemos os dois num restaurante?»
«Claro que não mãezinha, que fazemos sozinhos aqui em casa?»
Claro que me importava, importava-me por ver a minha mãe triste, importava-me por não ter principalmente os meus os meus irmãos naquela noite a jantar connosco, importava-me de estar só eu em companhia de minha mãe, nunca tal tinha acontecido. Interiormente chorei, mas sem que a minha mãe se apercebesse, (ou teria reparado?)
Como sempre, uma árvore de Natal e um presépio não faltavam nunca na nossa casa, nem nesse ano; mas faltou o calor da família, do Zé Maria, do Toninho, (meus irmãos), do pai, da tia Eduarda e do primo Francisco. Estávamos sós; sós e tristes, afinal era noite de Natal. Por que todos nos tinham abandonaram naquela noite?
Apanhámos um elétrico e saímos no Rossio. Passeámos pela rua Augusta e parávamos para ver as montras; entrámos numa loja de roupas. A mãe comprou não sei o quê, pagou e saímos. Descemos essa rua e seguimos para a rua da Madalena. Entrámos na igreja da Madalena. Ali ficámos uns momentos. A minha mãe rezava e chorava.
«Então mãezinha, hoje é Natal» (eu sabia porque chorava e apetecia-me chorar com ela).
«É por isso mesmo Carlitos» disse-me ela com os olhos inundados de água, «estamos sós numa noite de consoada.»
«Mas está com o filho que mais lhe quer.»
Agarrou-se a mim e chorou, fazendo-me chorar também.
Saímos e subimos a rua da Madalena em direção ao Rossio. Eram quase nove horas da noite. Estava frio, mas o frio maior vinha dentro de mim. Como era possível naquela noite não termos a família junta como era hábito? Entrámos num restaurante de frangos da rua Jardim do Regedor. Apenas um casal de idosos estava na sala. Provavelmente não teriam filhos nem família. Sob a mesa deles viam-se embrulhos embalados em lindos papéis coloridos, certamente presentes de Natal. Apeteceu-me sentarmo-nos junto deles e dizer: por favor façam-nos companhia, estamos sós e a minha mãe sofre, temos família mas esta noite não.
Hoje tê-lo-ia feito.
Comemos bacalhau e frango em silêncio, com mais vontade de chorar do que comer.
Pouco passaria da dez horas quando saímos. Atrás de nós alguém nos seguia e nos abordou: «desculpe, minha senhora, é seu filho»?
«É sim, senhor», respondeu a minha mãe.
«Eu conheço-te» disse ele dirigindo-se a mim, «não trabalhas na "Transagraire"?» Era um escritório na rua do Comércio onde na realidade eu trabalhava.
«Trabalho, sim»...
«É natural que não te recordes de mim, mas costumas ir à "Pombalina" lanchar.»
Era verdade, por baixo do escritório, havia uma pastelaria onde eu ia amiudadas vezes não só lanchar como buscar refrigerantes ou cafés para os meus colegas do escritório.
O casal de idosos que estivera a jantar no mesmo restaurante, tinha estado a observar-nos. Era o dono da "Pombalina" e a sua esposa.
«Onde moram?»
«Em Campolide», informou a minha mãe.
«Eu e minha mulher, íamos passar a meia-noite em casa, sozinhos» e logo de seguida «estão sozinhos também»?
«Sim» disse a minha mãe.
«Não pretendo ser indiscreto, mas para onde vão agora?«
«Para casa, o meu marido e meus dois outros filhos não estão cá»...
«Seria um prazer para nós se nos fizessem companhia, já seríamos quatro e em conjunto festejaríamos a meia-noite.»
Moravam na rua das Pretas, numa grande casa, com muitas divisões. É apenas o que me recordo.
Recordo igualmente que a minha mãe entrou na casa daquele casal com dois embrulhos e saiu com quatro.
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Quantos milhares de pessoas passam noites de Natal, de Fim de Ano, de Páscoa de Festas, e todos os dias, sozinhas sem uma mãe?
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Foi um Natal triste mas feliz
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Nota: As imagens inseridas neste texto foram retiradas da Internet
A CADA TEXTO QUE LEIO SEU, VEJO QUE ESTÁ NA HORA DE VC COLETAR TUDO E PUBLICAR UM LIVRO. OS TEXTOS SE PRENDEM MINHA ATENÇÃO E, NO FINAL, SURPREENDO-ME MAIS COM SUA CRIATIVIDADE. BEIJINHOS, KIKA
ResponderEliminarObrigado minha querida amiga Kika. Pensarei no que me diz quando eu for velhinho e tiver aprendido mais daquilo que sei.
ResponderEliminarUm beijinho para ti.
Carlos