A Carta Que Não Escrevi
Naquela noite, depois de um suculento jantar, resolvi dar uma volta a pé para digerir melhor a refeição. Estava em Alfama, não muito longe do Panteão Nacional. A noite estava quente e agradável. Os turistas, em grande número passeavam pelas estreitas ruas falando alto e parando para sacar umas fotos.
Era quase meia-noite e
continuava o meu passeio noturno. Tinha chegado ao Terreiro do Paço. Voltei
para trás e meti-me no carro. Não tinha sono e o meu pensamento não se afastava
dela. De repente olho em volta… mas, aqui era a nossa casa! Distraído tinha
feito o percurso que antes fazia todos os dias. Parado à “nossa” porta, quis
bater, mas era demasiado tarde. Olhei a Caixa de Correio, a carta que não
escrevi era só nossa, não podia ser lida por mais ninguém. Nessa carta encontrarás as palavras que te dizia, as
palavras que me segredavas ao ouvido constantemente, palavras carregadas de
amor, de carinho e ternura, palavras sentidas, cheias de felicidade. Algumas
delas não eram ditas, mas os olhos falavam por nós.
Recordas aqueles dias de
zangas e cada um de nós seguia para as suas lidas, e, à noite, nos encontrávamos
em casa, jantávamos em silêncio amuados? Duas ou três horas depois, já no
leito, o calor dos nossos corpos já desnudados provocavam o amor que durante
horas não nos deixava dormir? “Éramos felizes, mas não sabíamos”.
Esta carta não pode ser
destruída, não pode ser lida nem ouvida por mais ninguém. É só nossa. Amanhã
de manhã, corre à Caixa de Correio e olha bem no fundo. Não a verás porque não
foi escrita, foi vivida apenas por nós.
Quando estiveres triste,
cansada, com saudades, quando te fores deitar, pensa
na nossa carta que poderia ter sido escrita, mas não foi.