quinta-feira, 12 de março de 2026

A Carta Que Não Escrevi 

Naquela noite, depois de um suculento jantar, resolvi dar uma volta a pé para digerir melhor a refeição. Estava em Alfama, não muito longe do Panteão Nacional. A noite estava quente e agradável. Os turistas, em grande número passeavam pelas estreitas ruas falando alto e parando para sacar umas fotos.

Tinha decidido jantar só e recordar o último jantar naquele restaurante, com a minha amiguinha de quem me separei, a seu pedido, há 8 meses. Pensei escrever-lhe, apenas queria saber como estava de saúde, mas não só. Eu nada fizera para provocar aquele desfecho, todavia nada é eterno e tenho de aceitar os factos e respeitar os desejos da parceira.

Era quase meia-noite e continuava o meu passeio noturno. Tinha chegado ao Terreiro do Paço. Voltei para trás e meti-me no carro. Não tinha sono e o meu pensamento não se afastava dela. De repente olho em volta… mas, aqui era a nossa casa! Distraído tinha feito o percurso que antes fazia todos os dias. Parado à “nossa” porta, quis bater, mas era demasiado tarde. Olhei a Caixa de Correio, a carta que não escrevi era só nossa, não podia ser lida por mais ninguém. Nessa carta encontras as palavras que te dizia, as palavras que me segredavas ao ouvido constantemente, palavras carregadas de amor, de carinho e ternura, palavras sentidas, cheias de felicidade. Algumas delas não eram ditas, mas os olhos falavam por nós.

Recordas aqueles dias de zangas e cada um de nós seguia para as suas lidas, e, à noite, nos encontrávamos em casa, jantávamos em silêncio amuados? Duas ou três horas depois, já no leito, o calor dos nossos corpos já desnudados provocavam o amor que durante horas não nos deixava dormir? “Éramos felizes, mas não sabíamos”.

Esta carta não pode ser destruída, não pode ser lida nem ouvida por mais ninguém. É só nossa. Amanhã de manhã, corre à Caixa de Correio e olha bem no fundo. Não a verás porque não foi escrita, foi vivida apenas por nós.

Quando estiveres triste, cansada, com saudades, quando te fores deitar, pensa na nossa carta que poderia ter sido escrita, mas não foi.

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