quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O DESTINO – HISTÓRIA DE UM GRANDE AMOR (Segunda parte)


               São três horas da tarde naquele mês de outubro. Dentro do seu carro estacionado num parque-auto coberto, olhou o telemóvel com impaciência. O seu amor ficara de o avisar logo que entrasse no parque. Tinha combinado aquele local de encontro para evitar os olhares de terceiros. Havia quase um ano que a não via e iria recebê-la com demasiado entusiasmo. Queria estar à vontade.

          Um minuto depois recebe o esperado telefonema.

          «Olá querido. Entrei agora no parque.»

               «Olá amor, vou já ao teu encontro.» Respondeu, deslocando-se para a entrada. Abriu a porta e ela entrou. Olhou-o com aqueles olhos meigos que sempre o fascinaram. Recebeu um beijo na face e sorriu. Não retribuiu o beijo e conduziu uns 50 metros estacionando de novo. Desligou o motor do carro, trancou as portas com a mão esquerda e com a direita segurou a cabeça da sua amada. Olharam-se com ternura. Aproximou a sua cara à dela. Os seus lábios entreabriram-se. Não resistiu e passou a sua língua por eles. Sentiu um prazer que há muito não sentia. Uniu os seus lábios aos dela, desta vez com sofreguidão. Provou a sua língua e as suas borboletas despertaram. Estava sequioso dos seus beijos, do seu sabor, do seu calor, dos seus olhos, do seu cabelo. Durante muito tempo as suas línguas brincaram uma com a outra. Estavam loucos de prazer. As mãos percorriam o corpo um do outro sem parar.

          «Vim apenas para tomar um café, querido.» Disse ela com aquele sorriso de criança.

          «Eu sei, amor. Apenas te cumprimentei. Dá um retoque na maquilhagem enquanto eu conduzo. Estás toda esborratada.» Disse ele sorrindo também.

          Saíram do parque, direitos a uma pastelaria, de mãos dadas e entraram. Para seu agrado, estava quase deserta. Sentaram-se ao fundo e de novo os seus olhares acusaram amor mútuo. Pegou-lhe nas mãos e apertou-as com tanta força que a magoou.

          «Querido, partes-me os ossos…» gemeu. Olhou-a embevecido e desejou-a. Queria abraçá-la, beijá-la com ternura. Queria envolver os dedos nos seus cabelos. O seu gemido fez-lhe recordar a última vez que estiveram juntos, havia muitos anos.

          «Perdoa-me, amor. De quanto tempo dispomos para estarmos juntos?» Perguntou.

          «Depende.»

          «Depende de quê?»

          «Do tempo que tu tens.» Respondeu ela.

          «Podes ficar comigo até às 8?»

          «Da manhã?» Brincou ela.

          «Oh, amor, não me martirizes. Adorava, mas hoje não estava preparado.» Lamentou.

          «Então vamos embora.» Respondeu ela.

          «Estamos aqui há 15 minutos, porquê irmos embora já?»

          «Temos pouco tempo para estarmos juntos. Despacha-te. Já marcaste hotel?»

          «Amor, és mesmo “safada”». Beijou-a na boca e só então reparou, ou foi impressão sua, mas os poucos clientes presentes tinham os olhos postos em ambos. O sangue subiu-lhe à face a ponto de ela lhe perguntar:

          «Que foi? Coraste.» Beijando-o novamente na boca continuou.

          «És um complexado. Então, marcas o hotel ou queres que o marque eu?»

           Saíram sempre de mãos dadas. Ele não olhou para ninguém, mas sentiu que todo o mundo o olhava pelas costas.

           Foram para o Hotel.

           A última vez que Cláudio vira a sua querida Estela, numa loja de brinquedos, acompanhada pela sua neta, fora há quase um ano.

           Conhecera-a há umas décadas, ainda eram solteiros. Nessa altura amaram-se durante aproximadamente um ano, mas em virtude de Cláudio se ter ausentado em serviço para a Suíça por cerca de ano e meio, perdera o rasto de Estela. Por sua vez Estela esquecera-o em virtude do seu comportamento e a falta de contactos que aos poucos foram escasseando.

           Naquela tarde na loja de brinquedos onde se encontraram, pouco puderam falar. Cláudio soube apenas que Estela, outrora vivendo no Porto, tinha mudado a sua residência para Lisboa. Era já avó de uma linda menina, que a acompanhava na altura. Estela, por sua vez, soubera que Cláudio, embora já reformado e viúvo, continuava a trabalhar na mesma empresa alimentar onde décadas antes trabalhara.

 

           Decorria o mês de junho. Cláudio entrou no gabinete de trabalho e após uma vista de olhos pela papelada, repara numa nota de um telefonema de uma Estela. Ficou louco. Só podia ser a sua amada Estela. Há quase um ano que aguardara por aquele telefonema.

           De imediato entra em contacto com ela.

           «Estela, querida, há tanto tempo que anseio este telefonema…»

           «Cláudio, como tens passado? Olha, antes de continuar vou pedir-te um favor. Evita telefonar-me. Eu entro em contacto contigo sempre que possa. Sabes bem que tenho família e posso não estar só. Podes deixar mensagem no telefone.» Informou Estela.

           «Mas, voltas a telefonar-me daqui a mais um ano?» Lamenta-se Cláudio.

           «Não querido, juro que te telefono em breve. Dá-me o teu número do telemóvel.»

           

           Os telefonemas esporádicos passaram a diários. O amor renasceu entre ambos. Os desejos de um encontro tornaram-se numa obsessão. Ambos o desejavam, mas Estela receava esse encontro, receava apaixonar-se novamente por Cláudio. Amara-o quando era jovem e sofrera muito com a separação. Hoje era uma senhora casada, avó de uma linda menina, mas nunca esquecera o seu primeiro amor, as maravilhosas noites no hotel onde Cláudio se hospedava nas suas viagens ao Norte e posteriormente em sua casa. Fora um ano que jamais iria esquecer. Agora era tarde, mas, seria tarde? Desejava-o com todo o seu íntimo, desejava voltar a amar como nunca amara antes, nem mesmo o seu marido, com quem casara mais para esquecer Cláudio, do que por amor. O casual encontro na loja de brinquedos despertara-lhe recordações e debatia-se com a sua consciência. Não queria vê-lo, mas desejava-o. Não queria um encontro, mas não resistia. O seu desejo era superior, mas evitava-o. Queria esquecê-lo, mas não conseguia. Sofria por não o ver e sofria por não poder abraçá-lo e dizer-lhe que nunca o esquecera, que o amara sempre.

           Não resistiu e foi naquela tarde de outubro que marcou encontro num parque-auto subterrâneo.

 

           Cláudio e Estela saem do parque-auto direitos a um recatado hotel, sobem uma escadaria que mais parecia a escada do Titanic. Uma empregada com a esfregona de limpeza, indica-lhe o quarto. Era um quarto modesto, com cama de casal. Mal se viram sós, Estela mais afoita, atira-se ao pescoço do seu amado e beija-o longa e apaixonadamente. Encosta-o à parede e com o indicador apontado para o céu e encostado aos lábios, segreda-lhe. “Chiu”, não mexe.» Cláudio, estático olha-a sem entender quais os seus intuitos.

           Estela ajoelha-se à sua frente, tira-lhe o cinto, despe-lhe as calças e acaricia-o com amor. Cláudio, paralisado não só pela situação como pelo prazer, afaga-lhe os cabelos, a cara o peito. Pega nela ao colo e atira-a para cima da cama. Despe-a devagar, apreciando aquela nudez que lentamente vai ficando visível. Recordou os anos em que eram jovens e foi cobrindo-a de beijos à medida que o seu corpo nu se ia mostrando. Beijou-a como sempre o fizera, com amor, carinho e desejo. Beijou todos os centímetros do seu corpo, enquanto Estela se contorcia de prazer e o acariciava também. O tempo parecia ter parado e horas depois, ainda numa dança de corpos nus enroscados e cobertos de suor, amaram-se. Amaram-se como se quisessem recuperar todos aqueles anos de separação.

 

           A todos os momentos e diariamente a troca de mensagens e de telefonemas eram constantes. O amor mútuo cresceu. Cláudio queria vê-la novamente, tocá-la, beijar aqueles olhos que o olhavam e pareciam dizer: AMO-TE TANTO… aquela boca que, calada, parecia chamá-lo de querido, amor, estou apaixonada por ti. Queria tocar nos seus seios, acariciá-los e beijá-los. Queria envolvê-la nos seus braços, apertá-la, beijar o seu pescoço enquanto lhe segredava ao ouvido palavras de amor.

 

           Um segundo encontro tardava. Estela adiava-o constantemente, amava-o, mas temia, era uma senhora casada. Estava apaixonada por Cláudio. Um segundo encontro era o seu maior desejo, mas debatia-se com a sua consciência. Queria-o nos seus braços, desejava-o ardentemente. A sua consciência não a deixava. Não dormia, apenas pensava no seu querido Cláudio.

 

           Por sua vez Cláudio desesperava, queria-a junto a si, amá-la com naquela tarde outubro. Compreendia a situação de Estela. Sabia que não amava o seu marido, mas tinha de o respeitar. Os telefonemas e mensagens entre ambos eram diários.

 

           «Eu quero, querido. Eu amo-te, mas, não compreendes… não posso, não devo.» Dizia muitas vezes Estela em momentos de ternura, quer por telefone, quer por mensagens.

           «Compreendo, amor, mas sofro por não te ver, não sentir o teu cheiro, não tocar nos teus cabelos, nas tuas mãos.» Queixava-se Cláudio.

 

          Os meses passavam, o amor mantinha o contacto entre ambos, quer por telefone quer por mensagens. Muitas noites passavam em mensagens amorosas amando-se virtualmente. Estela jurava que iria amá-lo ou chorar por ele. Cláudio amava aquela mulher e não queria aceitar um não a um reencontro. Queria olhar aqueles olhos que o convidavam a amá-la. Aqueles lábios que lhe pediam um beijo. Queria mordê-los como o fizera outrora. O sabor daquela língua que o excitava. Aquele cabelo onde tantas vezes entrelaçara os dedos. Aquele corpo que lhe aquecia o coração.

          «Querido, o que mais me custa são as noites, passo-as a pensar em ti, agarro as minhas maminhas e imagino as tuas mãos acariciarem-me.»

          «Estela, meu amor, não me faças sofrer mais.» Queixava-se Cláudio.

          Estas conversas prolongavam-se por horas. Amavam-se a toda a todo o momento, quer por telefone que por mensagens. Estavam loucamente apaixonados, mas Estela, tinha medo, medo de um reencontro. Queria muito vê-lo novamente, mas receava, a sua consciência não a deixava. Sofria e desesperava.

          «Um dia mando tudo à “fava”, a minha consciência não me deixa, mas qualquer dia perco a cabeça e corro para os teus braços.» Declarava Estela nos dias mais deprimentes.

          «Não me amas, Estela, se me amasses como dizes corrias para junto de mim.» Lamentava Cláudio.

          «Amo-te, amo-te muito, mas não posso, não devo.» Declarava Estela.

          As zangas começavam, os amuos e rebeldia eram agora constantes. Guerreavam-se sem motivos. Guerreavam-se por não se verem, não se acariciarem, não se tocarem. Mas Estela continuava presa à sua consciência, não podia, não devia. Não. Não.

          Certo dia aconteceu o inevitável. Amuos, dias sem se contactarem, mas havia sempre um que cedia e voltavam aos contactos.

          «Como sabes esta é a única forma de me “ouvires” sem me interromper…» escrevia Cláudio a Estela. «Pedi-te para atirar as pedras fora e depois contactar-me. Fingiste não entender e respondes que já as atiraste, mesmo as que estavam no fundo da alma e que, os amigos que te conhecem sabiam que, quando se trata da tua dignidade, és radical.
          Primeiro: as pedras saem pela boca disfarçadas em palavras, nunca pela alma. Segundo: a tua dignidade é igual à minha. Sim, também a tenho, apesar de, no teu pensamento, ter todos os defeitos que diária e constantemente me apontas. Só que não sou radical. Um ano de contactos telefónicos ou escritos, deram para te conhecer melhor do que pensas. Por muito que escondas, há sempre um palavra que te denuncia. A tua franqueza, a tua sinceridade deixa transparecer que as pedras que atiras são pela boca, nunca pela alma. És boa demais para ter pedras no teu interior. Por seres aberta, sincera, por dizeres o que pensas, tornam-te a mulher que eu admiro e louvo, mas a tua sinceridade por vezes magoa, fere-me profundamente. Pedi-te há dias para nos deixarmos de guerrilhas que nos fazem mal. Agora fui mais direto, pedindo-te que deitasses as pedras fora e respondes-me daquela maneira. Eu calculo que andes desesperada, tal como eu, mas não é caso para me acusares de leviano. Recorda que não tenho 40 anos, que não sou tenho vida nem idade para flirts. A minha sinceridade para contigo tem-me prejudicado e tu abusas. Eu sempre te respeitei e admirei. Não me acuses de te ofender por que nunca o fiz intencionalmente.»

          «Sabes bem que não posso nem devo. Respeita-me. Gosto de ti, amo-te, bem sabes, mas a minha situação não me permite leviandades. Bem sei que fui a culpada. Não devia ter ido contigo naquele dia.» Lamenta-se Estela.

          Estas conversas muitas vezes azedavam e outras tantas se zangavam.

          «Penso muitas vezes em ti, no teu estado de alma. Não conseguia concentrar-me no que escrevia, repetia as questões. Não lia o que me escrevias. Desculpa-me por isso. Andas nervosa com tudo isto. Debates-te entre o que queres e o que a tua consciência não quer. Compreendo-te perfeitamente a revolta entre ti e a tua consciência obrigam-te a uma luta constante. Gritas, contigo própria. Não podes desabafar em casa. Acumula-se dentro do teu peito um mal-estar que te obriga a gritar, a dizer basta. Isto não pode continuar. Estou cansada. Desabafas comigo. Gritas comigo. Dizes coisas que não querias. Eu sei, Estela. Eu sei que não és tu que o fazes. É a tua consciência. Por isso aceito essa teu rebeldismo. Refilo contigo, com o que me dizes, mas também não sou eu, é o meu subconsciente ou a minha consciência inconsciente que fala e contesta em meu nome. Tens de concordar que a nossa convivência tem vindo a degradar-se cada dia que passa. Que, qualquer dia, começaremos a insultar-nos, a lutarmos um contra o outro. Apetece-nos batermo-nos, ferirmo-nos, magoarmo-nos com palavras. Se nos encontrássemos neste momento lutaríamos? Insultávamo-nos? Ou correríamos para os braços um do outro? Provavelmente nunca o iremos saber. Naquela noite pensei em nós. Não podíamos continuar a nossa luta daquela maneira. Teríamos de parar. Teríamos de sacrificar o lado amoroso para vivermos em paz, um com o outro. Foi difícil e muito penosa a minha exposição. Tocou muito no meu interior. Ponderei imenso e um de nós teria de tomar uma iniciativa. De outra forma onde nos levaria esta vivência? Foi pelo amor que nutrimos um pelo outro, e antes que esse amor acabe, que tomei esta iniciativa. Estela, eu amo-te apaixonadamente, bem sabes. Pensa um pouco: quererias continuar a martirizarmo-nos, a guerrearmos, a gritarmos um com o outro até que nos odiássemos? Não, por certo. Sejamos amigos, amemo-nos em surdina, tal como nos amamos virtualmente, mas não nos declaremos. O que é preferível? Amarmo-nos ou guerrearmo-nos? Estela, admiro a tua força, a tua consciência e é por isso que há um ano continuo a não te querer substituir “pela mais pintada”. Sabe-lo bem. Sabes que, ou pelo menos deves calcular, se eu tivesse alguém a quem dar o meu amor continuaria contigo a martirizar-te e a mim? Estela, foi por te amar, por não te querer perder, que te apresentei a proposta de sermos amigos e não falarmos de amor um ao outro.» Escreveu certo dia Cláudio à sua amada Estela.

           

          A promessa de amizade entre ambos pouco durou. Os telefonemas e mensagens continuaram amorosos. Continuaram as juras de amor e promessas de um dia se reencontrarem e se amarem.

 

         Aproximava-se o aniversário de Cláudio e Estela cautelosamente se referia a esse dia, o que costumava fazer, onde ia, com quem passava, etc.

         «É um dia como os outros. Já há muito que deixei de festejar o meu aniversário.» Informa Cláudio.

         Em véspera desse dia, Estela telefona a Cláudio.

         «Querido, amanhã tenho uma surpresa para ti. Vais a algum lado?»

         «Não. Porquê?»

         «Quero ver-te.»

         «Não acredito, amor.»

         «Não queres, querido?»

         «Oh, amor, é a minha prenda de anos?»

         «Sim, às 3 horas encontramo-nos na pastelaria onde nos conhecemos há 40 anos. Recordas-te?»

         «Como se fosse hoje.» Declara Cláudio.

 

          Nesse dia, Cláudio esmera-se não só no vestir como no tratamento do corpo, da barba, unhas, cabelo, etc. Perfuma-se, emboneca-se como de fosse apresentar-se pela primeira vez a um concurso de manequins. Iria ver a sua grande paixão, a sua Estela. Queria impressionar.

          Meia hora antes da hora marcada, ali estava ele sentado a uma mesa não longe da entrada da pastelaria, onde 40 anos antes conhecera Estela. Pede um café e uma garrafa de água. Lê o jornal ou melhor finge ler, pois o seu olhar não se desviava da porta de entrada. Olha o relógio de minuto a minuto. São três da tarde, Estela deveria chegar a todo o momento. Por várias vezes mete a mão ao bolso para tirar um cigarro e de imediato percebe que não pode fumar naquele local. Vira a folha do jornal que não tinha lido. Mexe-se na cadeira e bebe um pouco de água. Volta a virar a folha do jornal que não lera. Para numa página onde estão as palavras cruzadas. Mete a mão ao bolso para tirar uma caneta que não tem. Pensa: para que quero a caneta? Não consigo concentrar-me. Mas, que terá acontecido? São quase quatro da tarde e Estela não aparece, não telefona. Vou telefonar-lhe. Pega no telefone. Por três vezes tenta ligar, mas desiste. Aguardaria mais um pouco. Teria Estela brincado com ele? Seria que o enganou? Não, Estela nunca faria isso. Era aquela a pastelaria onde a conhecera, não havia engano. Pensava Cláudio. Chamou o empregado.

          «Reserve-me a mesa por favor. Vou só fumar um cigarro e volto já.»

          À porta da pastelaria olha em volta. Sabia que Estela tinha um carro, a sua cor, matrícula, mas ali seria difícil um lugar. Andaria à procura de lugar? Mas, porque não telefonava? Cláudio pensava em tudo, mas não conseguia vislumbrar uma solução. Voltou para dentro. Pediu mais um café e água. Pela centésima vez olha o relógio. Quatro horas e trinta. Agarra o telemóvel com um nervosismo. Vou telefonar. Decide.

           Liga e, para seu espanto, uma voz masculina atende:

           «Sim?»

           «Queria falar com D. Estela.» Informa a medo Cláudio.

           «Daqui fala um enfermeiro do INEM. Vamos a caminho do hospital. A D. Estela sofreu um acidente…»

           «Mas,» interrompe Cláudio. «Que aconteceu?»

           «Foi grave, D. Estela não resistiu.» Informa o pessoal do INEM.»

           «Grave? Mas… está viva?»

           «Infelizmente não.» Responde o enfermeiro.

           «Está, ESTÁ? Quem está ao telefone? ESTÁ?» Grita o enfermeiro que não obtém resposta.

           O pessoal do INEM, não obteria jamais resposta. Desconheciam que o frágil coração de Cláudio não aguentara a notícia.

 

           À noite, no necrotério, o corpo de Cláudio repousava numa maca. No seu rosto parecia haver um sorriso de felicidade. A dois metros da sua maca jazia o corpo de Estela. O destino não os quisera juntar em vida, juntou-os na morte.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O DESTINO - HISTÓRIA DE UM GRANDE AMOR


            Cláudio, um homem na casa dos quarenta, vivia e trabalhava em Lisboa, numa empresa de produtos alimentares muito conceituada. A sua simpatia cativava colegas, clientes e o próprio diretor comercial. Alguns meses após a sua entrada para essa empresa, finais dos anos 70, a direção propôs dar-lhe um cargo de vendedor. Teria de se deslocar amiudadas vezes ao Porto, local onde o mercado não estava a ser devidamente explorado.

               Decorria o mês de junho. O dia tinha dado frutos, as vendas tinham sido abundantes e Cláudio, satisfeito com as vendas que iniciaram no primeiro dia de visita ao Porto, recolheu ao hotel, tomou banho e saiu para jantar. Estava só, não conhecia ninguém naquela cidade. Entrou num restaurante, pediu a ementa e, enquanto aguardava ia olhando discretamente os outros clientes. Numa mesa um casal jovem, numa outra, três cavalheiros que pelo aspeto seriam vendedores, havia ainda um grupo de homens e mulheres, todos entre os trinta e quarenta anos. A sua atenção focou-se, embora discretamente, naquela mesa, tentou adivinhar se seriam família ou um grupo de amigos. Um dessas pessoas, e motivo principal da sua observação, era uma mulher ainda jovem de cabelo negro e olhos castanhos. Havia algo naquele olhar que despertava a sua curiosidade. Ela parecia ser o alvo das atenções naquela mesa. Os seus olhos dançavam de um para outro lado dos presentes. Num preciso momento aquele olhar cruzou-se com o de Cláudio. Aqueles olhos faiscaram de tal forma que Cláudio sentiu-se incomodado. Era um olhar meigo, ternurento carregado de paixão. Não era possível, não a conhecia, mas não conseguiu disfarçar o desejo de a contactar. Ela parecia brincar com a situação, estava acompanhada e desafiava-o. Apetecia-lhe dirigir-se à mesa e pedir-lhe o seu telefone, mas isso era impensável. Seria casada? Alguém naquela mesa seria o marido? Não, não devia ser casada, caso contrário não o olhava daquela forma. Cláudio sentiu que ela o desafiava, mas com que intenção? Aquela garota era de uma beleza normal, sem maquilhagem, magra. Vestia uma blusa branca e calças pretas, mas os seus olhos tinham qualquer coisa de fascinante. Cláudio sentiu-se atraído por aquele olhar. Havia uma magia que nunca tinha notado em nenhuma outra mulher.

               O empregado de mesa, serviu-lhe o jantar. Enquanto comia observava o grupo daquela mesa que já tinham jantado e pediam café. Com um à vontade que ele próprio se admirou, ergueu o copo, como que a fazer um brinde. A misteriosa personagem sorriu e pegou no copo de água elevando-o discretamente como que a retribuir. Cláudio não sabia o que fazer. Aquela senhora, delicada e cortesmente estava a incentivá-lo. Como contactá-la? Como lhe dizer que queria o seu contacto? Se não a contactasse naquela noite provavelmente nunca mais a veria. Entre ambos tinha havido uma empatia que não poderia ficar apenas com uma troca de olhares. Era forçoso haver um contacto, uma morada, um número de telefone. Mas como? Cláudio tirou da carteira um cartão-de-visita e colocou-o em cima da mesa. Em determinado momento, quando o grupo se entretinha numa animada conversa, aguardou que aquela personagem o olhasse e, discretamente, exibiu o cartão. A dona daquele olhar, levou os dedos à cara e sorriu. Cláudio não entendeu se era um sinal, mas se o era não o entendeu. Acabara o jantar e pediu a conta. Aquele grupo continuava em animada conversa parecendo não ter pressa para sair, mas repentinamente aquela senhora levanta-se e olha-o. Com ela uma outra se levanta dirigindo-se para a casa de banho. Cláudio permanece sentado sem saber o que fazer nem como contactar aquela garota. Dois minutos depois toma uma decisão. Levanta-se e vai à casa de banho. Lava as mãos, dá um toque na gravata, ajeita o cabelo e naquele momento aqueles olhos saem da casa de banho. Cláudio mete a mão no bolso e discretamente exibe o cartão-de-visita. Sem esperar ela tira-lho da mão e guarda-o dentro da blusa ao mesmo tempo que sorria. Cláudio, espantado, sai rapidamente corando sem se atrever a dizer qualquer coisa. Tinha-lhe entregue um cartão da empresa onde trabalhava, em Lisboa.

               Quinze dias após aquele encontro, Cláudio volta em serviço para o Porto. Durante a semana que lá permaneceu, jantou todos os dias no mesmo restaurante na expectativa de voltar a encontrar aquela garota, mas sem sucesso. Os empregados não conheciam o grupo que jantara naquela noite. Desiludo, regressa a Lisboa. Aquela que lhe fizera perder a cabeça, aquele olhar que o deslumbrara tinha desaparecido para sempre, brincara com ele, com os seus sentimentos. Não compreendia o porquê daquele atrevido, meigo e sedutor olhar. Não, não era possível que ela tivesse intenção de gozar com a situação. O seu olhar não de gozo nem tão pouco de indiferença, era um olhar de paixão, de desejo. Provavelmente perdera o seu cartão, fora ela que lho arrebatara da mão e o guardara no seu colo, dentro da blusa. Tinha havido uma empatia comum, disso tinha a certeza, mas porque não lhe telefonava?

               Teriam passado aproximadamente dois meses quando, ao chegar ao escritório, depara com um recado de alguém lhe ter telefonado, uma Estela, cujo indicativo telefónico seria do Porto.

               Naquele dia de aniversário de uma colega, Estela convida a aniversariante para um jantar juntamente com o restante pessoal da empresa onde trabalhava como decoradora, na cidade do Porto. Era oito, os convidados. O jantar foi servido num restaurante na avenida dos Aliados, no Porto. Como habitualmente Estela era a anfitriã, a rainha da noite. Era ela que, como habitualmente se diz, “deitava os foguetes e apanhava as canas”. Todos adoravam aquela colega que, embora diretora daquela empresa, era uma camarada que sabia tão bem dirigir como executar.

               A meio do jantar Estela vê entrar um cavalheiro de fato e gravata, provavelmente um vendedor. Havia qualquer coisa naquele homem que despertou a curiosidade a Estela. Era um personagem bem-parecido, elegante, vestia com gosto, mas havia qualquer coisa nele que Estela não resistiu em olhá-lo bem nos olhos. Foi nesse momento que sentiu uma atração por ele. O seu olhar era meigo, ternurento. Tentou desviar a atenção dele, mas não conseguia. Aqueles olhos diziam-lhe que gostava dela. Estava mesmo à sua frente e por muito que quisesse disfarçar, não conseguia. Aquele olhar atraia-a, sentindo-se também atraída. De repente vê-lhe nas mãos um cartão. Quereria ele entregá-lo? Mas como? Fez-lhe um sinal que ia à casa de banho. Aguardou uns momentos. Levantou-se juntamente com uma amiga e dirigiu-se para a casa de banho. Aguardou alguns minutos e, mal sentiu a presença de alguém saiu. Lá estava o cavalheiro a compor o nó da gravata. Tinha um cartão-de-visita na mão sem saber o que fazer com ele. Rapidamente tirou-lho da mão e meteu-o dentro da blusa sorrindo. Reparou na sua cara embaraçada, que corou de imediato. Pareceu-lhe tímido vendo-o sair apressado.

               Estela por várias vezes pegou naquele cartão do Cláudio, desejava telefonar-lhe no dia seguinte. Era o cartão da empresa onde trabalhava, em Lisboa. Provavelmente iria ficar uns dias no Porto e só depois lhe dariam o recado. Aguardaria alguns dias e telefonaria depois.

               Os dias foram passando. Estela desejava contactar Cláudio, mas receava fazê-lo de imediato. Que pensaria ele se lhe telefonasse logo no dia seguinte? Não, não o faria. Se ele gostasse, esperaria por um telefonema, não lhe queria dar demasiada confiança. Não resistiu e telefonou-lhe cerca de dois meses depois.
               Apenas esperou três dias e recebe um telefonema de Cláudio.
               «Olá, Estela. Que agradável ter-me telefonado, Há dois meses que aguardava a sua chamada.»
               «Olá Cláudio. Não tenho tido oportunidade, o trabalho tem sido demasiado nesta altura. Como tem passado? Tem vindo aqui?»
               «Sim Estela, Estive aí há quinze dias e jantei várias vezes no mesmo restaurante na expectativa de a encontrar novamente.»
               «Fomos aí jantar casualmente. Não é meu hábito. Quando volta ao Porto?»
               «Penso voltar na próxima semana. Vou no domingo à noite para começar a trabalhar na segunda, de manhã.»
               «Que bom, Cláudio. Telefone-me na segunda-feira, saio por volta das sete.»
               «Posso convidá-la para jantar?»
               «Gostaria, sim. Irei com prazer.»
               Cláudio ficou louco de alegria. Iria ver aquela que o enfeitiçara com o olhar. A sua Estela. Iria tê-la muito junto de si, jantar com ela e quem sabe? Uma carícia, um trocar de olhares, uma palavra de admiração e sedução. Iria dizer-lhe que gostara dela naquela noite, que se sentira uma atração enorme pelos seus olhos que o tinham fascinado. Enfim iria declarar-se sem pejo algum.
               «Bom dia Estela, estou aqui, no Porto. Cheguei ontem à noite. Quer jantar comigo Logo?»
               «Bom dia Cláudio. Já lhe tinha dito que aceitaria o seu convite, com prazer.»
               «Onde a posso ir buscar e a que horas?»
               O local de encontro foi ditado e Cláudio chegou com quase meia hora de antecedência.
               «Que elegante que vem, Estela. Obrigo-me a procurar um restaurante à sua altura.»
               «Não seja tonto Cláudio. Se me permite eu escolho o restaurante. Conheço o Porto, provavelmente melhor que o Cláudio.»
               «Concordo consigo e aceito, Estela. Eu mal conheço o Porto.» Declarou Cláudio.
               Estela escolhera um restaurante na Ribeira, junto ao Douro. Aquela noite de julho estava amena e convidativa para um jantar à beira rio muito junto à ponte D. Luís. Durante todo o jantar os piropos, gracejos e palavras carinhosas endereçadas a Estela, faziam-na rir e ficar embevecida com a espiritualidade de Cláudio.
               «Agora sou que te convido a ir tomar um “copo” a um bar que conheço.» Propôs Cláudio após aquele romântico jantar, que entretanto se começaram a tratar por “tu”.
               Levou-a à avenida da Boavista, a um bar recentemente aberto naqueles anos de finais de 70. Não tinham pressa. A noite, embora numa segunda-feira, estava amena e deserta. Os gracejos e palavras românticas continuaram e, já depois da meia-noite, saíram e desceram a Boavista até ao Castelo do Queijo. Cláudio para o carro. Saem e dão uma volta a pé de mãos dadas. Repentinamente Cláudio estanca e olha o mar. Vira-se de frente para Estela pegando-lhe nas duas mãos. Olha-a com ternura. Puxa-a contra si, olha-a nos olhos e beija-a apaixonadamente. Estela não resistiu e retribui-lhe o beijo com paixão. Era o início de um romance. E foi o início de um amor que se prolongou pela noite dentro.
               Cerca da duas da manhã, Cláudio levou-a a casa. À porta, Estela beija-o com carinho e despede-se com um até amanhã, querido, vamos dormir que amanhã é dia de trabalho, vou sonhar contigo. Embora esperando um convite para entrar, compreendeu que seria precipitado, tinham-se conhecido naquele dia. Aceitou o beijo e retribuiu-lho com amor. Não iria estragar a noite com conversa imprópria. Dormiu e sonhou com ela.

               Nos dias que se seguiram, os jantares a dois foram cada vez mais românticos. Pareciam dois adolescentes enamorados. As carícias, os olhares apaixonados, as palavras carinhosas proferidas, deixavam prever um amor mútuo. Aproximava-se a sexta-feira e com ela a sua partida para Lisboa, no sábado de manhã.
               Sexta-feira chegou. Cláudio, como habitualmente, foi busca-la ao emprego.
               «Amor, onde vamos jantar hoje?» Pergunta Cláudio, habituado a ser a sua amada a decidir qual o restaurante.
               «Hoje és meu convidado. Vamos a um lugar especial para despedida.» Exclama sorridente Estela.
               «Aceito, mas vê lá, não escolhas um muito caro…»
               Estela dá-lhe um beijo e diz-lhe:
               «Leva-me a casa, quero vestir-me. Prometo não me demorar.»
               Vinte minutos depois regressa vestida com um vestido de noite, ligeiramente decotado, mas discreto. Parecia uma princesa. Cláudio olha-a embevecido.
               «Estela! Estás linda, onde me vais levar?» Ela sorriu e com ar autoritário dá-lhe a direção de um restaurante.
               Cláudio, cada vez mais assombrado não sabe o que argumentar, limitando-se a seguir as instruções do caminho a seguir.
               O jantar, decorreu com a ternura habitual dos dois enamorados. As mãos acariciavam-se constantemente, obrigando muitas vezes a servirem-se de uma só mão para levarem o garfo à boca. Quando terminaram, Cláudio perguntou:
               «Queres ir tomar um copo antes de te deitar?»
               «Sim, vamos. Deixa-me só ir à casa de banho, volto já.»
               Minutos depois, Estela regressa.
               «Vamos?»
               Saíram. Foram a um bar. Tomaram um digestivo e Estela segreda:
               «Vamos molhar os pés na praia?»
               Estava uma noite amena. O luar parecia convidá-los a passear pela praia. Molharam os pés numa correria de crianças, saltando entre as ondas que lhes vinham beijar os pés.
               «Vês? As ondas vêm beijar-me os pés, e tu? Ainda não me beijaste hoje.» Choramingou Estela.
               Cláudio agarrou-a de tal forma que caíram um por cima do outro e beijaram-se estendidos na areia. Rebolaram um sobre o outro. Estavam loucos de desejo.
               De repente Estela exclama:
               «Vamos embora, amor.»
               «Já?»
               «Sim. Vamos passar pelo teu hotel, fazes as malas, pagas e vens-te embora.»
               «O quê?»
               «Faz o que te digo e rapidamente. Não me faças perguntas.»
               Cláudio não sabia o que dizer ou fazer. Estela, agarra-o pela mão e corre para o carro.
               «Segue depressa para o hotel, mete a tua roupa na mala rapidamente. Espero-te no carro. Não demores, querido.»
               Cláudio cumpriu a ordem e minutos depois metia a mala no porta-bagagens.
               «E agora? Onde vou dormir?»
               «Dormir? Hoje? Nem penses! Não vais para Lisboa só amanhã?»
               «Qual é a tua ideia, querida?»
               «Primeiro… leva-me a casa.»
               «Mas…»
               «Vá lá, hoje que manda sou eu e já te disse: NADA DE PERGUNTAS.» Interrompe Estela.
               Seguiram. Cláudio tentava falar, mas Estela estendia o indicador e encostava-o aos lábios. «XIU.»
               Chegaram. Cláudio para à porta da sua amada. Estela, perentória ordena:
               «Arruma o carro. Trás a mala. Hoje vai dormir em minha casa. Tenho um sofá-cama.»
               Subiram abraçados até ao segundo andar. Ainda mal fechara a porta, Estela agarra o seu amor e beija-o apaixonadamente.
               «Senta-te aqui um bocadinho, enquanto eu te faço a cama e me preparo para deitar.» Declara Estela sorrindo.
               Sentou-se, olhou em redor apreciando a sala ampla, mobilada com esmero, sem luxo, mas com muito gosto. Pensou: Ou não fosse ela decoradora.
               Cláudio levanta-se, pega numa foto de uma senhora, provavelmente a mãe de Estela e, inesperadamente ouve a voz de Estela:
               «É a minha mãe, falecida há três anos. Deixou-me esta casa que eu remodelei.» Cláudio volta-se e depara com a sua amada envolta numa toalha turca. Acabara de tomar um duche.
               «Amanhã mostro-te a casa. Agora vai preparar-te para dormir.»
               «Onde durmo?» Indaga Cláudio olhando em volta.
               «Vai, que já te digo.»
               Cláudio dirige-se para a casa de banho. Momentos depois sai, também ele coberto com uma toalha de banho. Não vendo ninguém na sala, indaga:
               «Onde estás?»
               «Aqui!» Responde Estela do interior da casa.
               Seguindo o som, Cláudio segue pelo corredor.
               «Onde?»
               «Aqui!»
               Dá mais umas passadas e, vendo luz numa divisão, entra. Depara com Estela, sentada na cama.
               «Vêm, deita-te aqui.»
               Cláudio atira-se para cima da cama, libertando-se da toalha. Agarra-se a Estela e beija-a com sofreguidão.
               «Amor, eu sabia que não me ias deixar dormir no sofá.» Declarou abraçando-a num abraço muito apertado.
               Sentiu o calor do seu corpo nu encostado ao dela. Um calor agradável uniu-os e as suas bocas encontraram-se. As línguas e lábios juntos saborearam as salivas um do outro. As suas bocas, caras e pescoços ficaram húmidos dos seus fluidos salgados, mas saborosos. Os seus corpos transpiraram amor. Dos seus sexos, apenas encostados, brotam fluidos de amor. Roçaram um contra o outro, ávidos e gulosos. Ficaram sujos, sujos mas felizes. O amor fê-los gemer de prazer. Aquele prazer perdurou pela noite dentro. Cláudio e Estela entraram em delírio enroscando-se um no outro, pernas entrelaçadas, bocas coladas, mãos percorrendo o corpo um do outro. Amaram-se como se fosse a última vez que o faziam.
               Adormeceram já o dia despertava. Cláudio sonhou estar no céu e acordou quando um anjo o despertou.
               «Serviço de quarto… pequeno-almoço.» Adverte Estela aproximando-se da cama com um tabuleiro carregado de guloseimas.
               «Que horas são, querida?»
               «Porque queres saber as horas? Hoje é sábado. Vais trabalhar?»
               «Não, mas…»
               «Come e cala-te. Estás por minha conta… ou tens horas para chegar a Lisboa?» Interrompe Estela.
               «Não, meu bem, não tenho hora de chegar…»

               Não foi naquele dia que Cláudio deixou o Porto. Deixou-o no domingo depois do jantar. Passaram o fim-se-semana em casa, amando-se com paixão. Estela, nos intervalos, ia-lhe enumerando as suas ideias futuras. O prédio onde vivia, todo ocupado por escritórios, sendo ela a única condómina residente, valeria bom dinheiro. Tinhas alguns clientes e muitos contactos em Lisboa. Era para na capital que ela queria desenvolver o seu negócio e viver. Compraria um andar e alugaria uma loja e montaria o seu próprio negócio.

               Durante aproximadamente um ano, Estela e Cláudio viveram separados pelos trezentos quilómetros, falando-se por telefone por vezes mais de uma vez por dia. De duas em duas semanas, por vezes três, iam-se encontrando e a paixão crescia cada vez mais. Os jantares em casa ou em restaurantes, as idas à praia ou a um bar, as noites mal dormidas, os fins-de-semana, continuaram como se nada mais existisse se não paixão, amor, carinho. Deixou de ir para o hotel, passando as semanas de trabalho dormindo em casa de Estela.
               «Amor… tenho uma notícia desagradável para te dar.» Disse Cláudio um certo dia, falando com a sua amada por telefone.
               «Não me assustes, querido. Que se passa?»
               «Eu… vou estar ausente por dois ou três meses.»
               «Ausente como?»
               «Fui convidado pela minha empresa para chefiar a equipa de vendas, na Suíça, por dois ou três meses.»
               «Oh, e quando vais?»
               «Dentro de 2 meses.»
               «Vais esquecer-te de mim, querido.»
               «Não sejas tontinha, amo-te de mais para te esquecer,»
               «Tens de ir mesmo?»
               «É uma oportunidade que não posso perder.»

               Nos dois meses que se seguiram, Estela e Cláudio, não desperdiçaram um único fim-de-semana. Cláudio ia ao Porto ou Estela vinha a Lisboa. As noites loucas de amor continuaram como sempre, apaixonadas e deliciosas, com promessas de afeto eterno.

               Cláudio partiu rumo a Zurique. Telefonava a Estela 2 ou 3 vezes por semana, dos correios, quando saia do escritório. Não podia e não o devia fazer no local de trabalho, as chamadas para além de caras ficariam registadas. Escrevia-lhe cartas de amor todas as semanas. Dois meses depois é convidado a permanecer por mais um ano. As camadas telefónicas e cartas começaram a ser mais espaçadas. Entretanto Cláudio arranjou novas amizades. A sua vida naquela cidade era muito diferente da vida de Lisboa. A sua Estela, começou a ficar para segundo plano, telefonando-lhe de oito em oito dias e por vezes ficava quinze dias sem lhe telefonar. As cartas eram raras. Por sua vez Estela reclamava a escassez dos telefonemas e as desculpas de Cláudio não a convenciam. Até que um dia Cláudio tem a desilusão de que o telefone de casa de Estela já não existia. No escritório onde trabalhava foi-lhe informado que Estela já não trabalhava ali nem sabiam, ou diziam que não sabiam, para onde tinha ido. Mandou-lhe uma carta e recebeu-a dias depois com informação que o remetente não residia lá. Tentou semanas mais tarde, mas sem resultado.

               Ano e meio mais tarde regressa a Lisboa para o seu local de trabalho. Um mês depois volta ao Porto e descobre que a casa de Estela já não era a casa de Estela, mas sim um escritório. O atelier onde trabalhava, já não existia. Teria ela ido para Lisboa conforme seu desejo? Mas para onde? Pensava Cláudio. Procurou nas “Páginas Amarelas”, decorações, decoradoras, mas, após telefonemas, ninguém conhecia tal personagem. Desesperou. Tinha sido ele o culpado. Esquecera-se que, enquanto vivera em Zurique, tinha uma namorada no Porto, uma mulher que amara, e que abandonara. Fora ele o causador de tudo. Como tivera coragem para isso? Como fora possível esquecer aquela mulher que lhe dera tanto amor? Deveria estar zangada com ele, para não o procurar. Sim, estava zangada. Estela sabia onde ele trabalhava e não o procurava. Castigara-o. Reconheceu que mereceu ser castigado. Agora era tarde. Lisboa, cidade pequena, era grande de mais para a encontrar.  

               Cerca de quarenta anos mais tarde, Cláudio estava na casa dos 70, já viúvo, mas ainda no ativo, entrava numa loja de brinquedos. Aproximava-se o Natal e tinha uns sobrinhos netos a que presentear umas prendas. Era um hábito que mantinha desde que eles nasceram. Repentinamente olha ao longe e uma certa figura feminina fez-lhe lembrar a sua Estela. Relembrou todos os momentos em que estivera com ela, dos jantares, dos pés molhados nas ondas da praia, das loucas noites de amor que jamais esqueceria.
               «Olá Cláudio!» Exclama uma voz atrás de si.
               Cláudio fica estático olhando aquela que lhe parecera a sua Estela. Sim, era ela. Continuava elegante e bonita, embora mais velha. Apeteceu abraçá-la e beijá-la, mas conteve-se.
               «Olá, Estela… há quantos anos… o que é feito de ti?» Antes de receber uma resposta, uma criança corre no encalço de Estela.
               «Vovó, achei a boneca que queria…»
               «Está bem, vou já. Vai ao avô, que já vou ter convosco. Deixa-me falar com este senhor está bem amor?»
               Cláudio olha a menina e acena-lhe com a mão e oferece-lhe um sorriso.
               «Tua neta?»
               «Sim.»
               «Que linda… sai à avó.»
               «Obrigado Cláudio. Tu também estás na mesma, elegante como sempre. Gostei de te ver. Agora vivo em Lisboa onde tenho o meu escritório de decoração.*
               «Gostava de voltar a encontrar-te, Estela, mas… calculo que sejas casada…» Estela interrompe-o com uma pergunta.
               «E tu, que fazes? Casaste?»
               «Estou viúvo. Administro a mesma empresa onde sempre trabalhei. Vou lá uma ou 2 vezes por semana.»
               «Tenho de ir Cláudio. Eu contacto-te.» Disse Estela com um olhar meigo e triste, não deixando de transparecer uma emoção que lhe fez humedecer os olhos.

               Chorou ao despedir-se com um aperto de mão do seu primeiro amor. Chorou nesse momento e chorou nos dias que se seguiram. Amara loucamente aquele homem que a abandonara. Recordava-o muitas vezes, lembrava-se de todos os momentos que passaram juntos, das noites carinhosas que lhe dera e recebera. Lembrava-se que estivera apaixonada por ele. Não o esqueceu nunca, mas agora era tarde. Lutou muitas vezes contra si própria, por querer telefonar-lhe e não ter coragem. Era preferível assim. Porque o teria encontrado? Agora iria sofrer muito mais. Aquele encontro ressuscitou o passado. Amava-o e continuou a amá-lo. Não, não lhe telefonaria. Era preferível.

               Cláudio, saiu da loja de brinquedos sem comprar nada. Também ele chorou. Chorou muito nos dias que se seguiram, aguardando um telefonema que não vinha. Despedira-se de Estela sem poder pedir-lhe perdão pelo seu procedimento de há quarenta anos. Sem a ter beijado com o amor que ainda lhe tinha. Sem poder dizer-lhe que a recordava muitas vezes. Que a amara loucamente, mas o destino fizera-o ir para longe. Teria sido o destino? Não fora ele que procurara o destino aceitando o convite para Zurique? Oh, como é fácil deitar as culpas ao destino. O futuro é aquilo que nós preparamos no presente. O que escolhemos, o que nos é mais fácil, aquilo que nos parece melhor. O destino e o nosso futuro, é criado por nós.

FIM DA PRIMEIRA PARTE