quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O DESTINO – HISTÓRIA DE UM GRANDE AMOR (Segunda parte)


               São três horas da tarde naquele mês de outubro. Dentro do seu carro estacionado num parque-auto coberto, olhou o telemóvel com impaciência. O seu amor ficara de o avisar logo que entrasse no parque. Tinha combinado aquele local de encontro para evitar os olhares de terceiros. Havia quase um ano que a não via e iria recebê-la com demasiado entusiasmo. Queria estar à vontade.

          Um minuto depois recebe o esperado telefonema.

          «Olá querido. Entrei agora no parque.»

               «Olá amor, vou já ao teu encontro.» Respondeu, deslocando-se para a entrada. Abriu a porta e ela entrou. Olhou-o com aqueles olhos meigos que sempre o fascinaram. Recebeu um beijo na face e sorriu. Não retribuiu o beijo e conduziu uns 50 metros estacionando de novo. Desligou o motor do carro, trancou as portas com a mão esquerda e com a direita segurou a cabeça da sua amada. Olharam-se com ternura. Aproximou a sua cara à dela. Os seus lábios entreabriram-se. Não resistiu e passou a sua língua por eles. Sentiu um prazer que há muito não sentia. Uniu os seus lábios aos dela, desta vez com sofreguidão. Provou a sua língua e as suas borboletas despertaram. Estava sequioso dos seus beijos, do seu sabor, do seu calor, dos seus olhos, do seu cabelo. Durante muito tempo as suas línguas brincaram uma com a outra. Estavam loucos de prazer. As mãos percorriam o corpo um do outro sem parar.

          «Vim apenas para tomar um café, querido.» Disse ela com aquele sorriso de criança.

          «Eu sei, amor. Apenas te cumprimentei. Dá um retoque na maquilhagem enquanto eu conduzo. Estás toda esborratada.» Disse ele sorrindo também.

          Saíram do parque, direitos a uma pastelaria, de mãos dadas e entraram. Para seu agrado, estava quase deserta. Sentaram-se ao fundo e de novo os seus olhares acusaram amor mútuo. Pegou-lhe nas mãos e apertou-as com tanta força que a magoou.

          «Querido, partes-me os ossos…» gemeu. Olhou-a embevecido e desejou-a. Queria abraçá-la, beijá-la com ternura. Queria envolver os dedos nos seus cabelos. O seu gemido fez-lhe recordar a última vez que estiveram juntos, havia muitos anos.

          «Perdoa-me, amor. De quanto tempo dispomos para estarmos juntos?» Perguntou.

          «Depende.»

          «Depende de quê?»

          «Do tempo que tu tens.» Respondeu ela.

          «Podes ficar comigo até às 8?»

          «Da manhã?» Brincou ela.

          «Oh, amor, não me martirizes. Adorava, mas hoje não estava preparado.» Lamentou.

          «Então vamos embora.» Respondeu ela.

          «Estamos aqui há 15 minutos, porquê irmos embora já?»

          «Temos pouco tempo para estarmos juntos. Despacha-te. Já marcaste hotel?»

          «Amor, és mesmo “safada”». Beijou-a na boca e só então reparou, ou foi impressão sua, mas os poucos clientes presentes tinham os olhos postos em ambos. O sangue subiu-lhe à face a ponto de ela lhe perguntar:

          «Que foi? Coraste.» Beijando-o novamente na boca continuou.

          «És um complexado. Então, marcas o hotel ou queres que o marque eu?»

           Saíram sempre de mãos dadas. Ele não olhou para ninguém, mas sentiu que todo o mundo o olhava pelas costas.

           Foram para o Hotel.

           A última vez que Cláudio vira a sua querida Estela, numa loja de brinquedos, acompanhada pela sua neta, fora há quase um ano.

           Conhecera-a há umas décadas, ainda eram solteiros. Nessa altura amaram-se durante aproximadamente um ano, mas em virtude de Cláudio se ter ausentado em serviço para a Suíça por cerca de ano e meio, perdera o rasto de Estela. Por sua vez Estela esquecera-o em virtude do seu comportamento e a falta de contactos que aos poucos foram escasseando.

           Naquela tarde na loja de brinquedos onde se encontraram, pouco puderam falar. Cláudio soube apenas que Estela, outrora vivendo no Porto, tinha mudado a sua residência para Lisboa. Era já avó de uma linda menina, que a acompanhava na altura. Estela, por sua vez, soubera que Cláudio, embora já reformado e viúvo, continuava a trabalhar na mesma empresa alimentar onde décadas antes trabalhara.

 

           Decorria o mês de junho. Cláudio entrou no gabinete de trabalho e após uma vista de olhos pela papelada, repara numa nota de um telefonema de uma Estela. Ficou louco. Só podia ser a sua amada Estela. Há quase um ano que aguardara por aquele telefonema.

           De imediato entra em contacto com ela.

           «Estela, querida, há tanto tempo que anseio este telefonema…»

           «Cláudio, como tens passado? Olha, antes de continuar vou pedir-te um favor. Evita telefonar-me. Eu entro em contacto contigo sempre que possa. Sabes bem que tenho família e posso não estar só. Podes deixar mensagem no telefone.» Informou Estela.

           «Mas, voltas a telefonar-me daqui a mais um ano?» Lamenta-se Cláudio.

           «Não querido, juro que te telefono em breve. Dá-me o teu número do telemóvel.»

           

           Os telefonemas esporádicos passaram a diários. O amor renasceu entre ambos. Os desejos de um encontro tornaram-se numa obsessão. Ambos o desejavam, mas Estela receava esse encontro, receava apaixonar-se novamente por Cláudio. Amara-o quando era jovem e sofrera muito com a separação. Hoje era uma senhora casada, avó de uma linda menina, mas nunca esquecera o seu primeiro amor, as maravilhosas noites no hotel onde Cláudio se hospedava nas suas viagens ao Norte e posteriormente em sua casa. Fora um ano que jamais iria esquecer. Agora era tarde, mas, seria tarde? Desejava-o com todo o seu íntimo, desejava voltar a amar como nunca amara antes, nem mesmo o seu marido, com quem casara mais para esquecer Cláudio, do que por amor. O casual encontro na loja de brinquedos despertara-lhe recordações e debatia-se com a sua consciência. Não queria vê-lo, mas desejava-o. Não queria um encontro, mas não resistia. O seu desejo era superior, mas evitava-o. Queria esquecê-lo, mas não conseguia. Sofria por não o ver e sofria por não poder abraçá-lo e dizer-lhe que nunca o esquecera, que o amara sempre.

           Não resistiu e foi naquela tarde de outubro que marcou encontro num parque-auto subterrâneo.

 

           Cláudio e Estela saem do parque-auto direitos a um recatado hotel, sobem uma escadaria que mais parecia a escada do Titanic. Uma empregada com a esfregona de limpeza, indica-lhe o quarto. Era um quarto modesto, com cama de casal. Mal se viram sós, Estela mais afoita, atira-se ao pescoço do seu amado e beija-o longa e apaixonadamente. Encosta-o à parede e com o indicador apontado para o céu e encostado aos lábios, segreda-lhe. “Chiu”, não mexe.» Cláudio, estático olha-a sem entender quais os seus intuitos.

           Estela ajoelha-se à sua frente, tira-lhe o cinto, despe-lhe as calças e acaricia-o com amor. Cláudio, paralisado não só pela situação como pelo prazer, afaga-lhe os cabelos, a cara o peito. Pega nela ao colo e atira-a para cima da cama. Despe-a devagar, apreciando aquela nudez que lentamente vai ficando visível. Recordou os anos em que eram jovens e foi cobrindo-a de beijos à medida que o seu corpo nu se ia mostrando. Beijou-a como sempre o fizera, com amor, carinho e desejo. Beijou todos os centímetros do seu corpo, enquanto Estela se contorcia de prazer e o acariciava também. O tempo parecia ter parado e horas depois, ainda numa dança de corpos nus enroscados e cobertos de suor, amaram-se. Amaram-se como se quisessem recuperar todos aqueles anos de separação.

 

           A todos os momentos e diariamente a troca de mensagens e de telefonemas eram constantes. O amor mútuo cresceu. Cláudio queria vê-la novamente, tocá-la, beijar aqueles olhos que o olhavam e pareciam dizer: AMO-TE TANTO… aquela boca que, calada, parecia chamá-lo de querido, amor, estou apaixonada por ti. Queria tocar nos seus seios, acariciá-los e beijá-los. Queria envolvê-la nos seus braços, apertá-la, beijar o seu pescoço enquanto lhe segredava ao ouvido palavras de amor.

 

           Um segundo encontro tardava. Estela adiava-o constantemente, amava-o, mas temia, era uma senhora casada. Estava apaixonada por Cláudio. Um segundo encontro era o seu maior desejo, mas debatia-se com a sua consciência. Queria-o nos seus braços, desejava-o ardentemente. A sua consciência não a deixava. Não dormia, apenas pensava no seu querido Cláudio.

 

           Por sua vez Cláudio desesperava, queria-a junto a si, amá-la com naquela tarde outubro. Compreendia a situação de Estela. Sabia que não amava o seu marido, mas tinha de o respeitar. Os telefonemas e mensagens entre ambos eram diários.

 

           «Eu quero, querido. Eu amo-te, mas, não compreendes… não posso, não devo.» Dizia muitas vezes Estela em momentos de ternura, quer por telefone, quer por mensagens.

           «Compreendo, amor, mas sofro por não te ver, não sentir o teu cheiro, não tocar nos teus cabelos, nas tuas mãos.» Queixava-se Cláudio.

 

          Os meses passavam, o amor mantinha o contacto entre ambos, quer por telefone quer por mensagens. Muitas noites passavam em mensagens amorosas amando-se virtualmente. Estela jurava que iria amá-lo ou chorar por ele. Cláudio amava aquela mulher e não queria aceitar um não a um reencontro. Queria olhar aqueles olhos que o convidavam a amá-la. Aqueles lábios que lhe pediam um beijo. Queria mordê-los como o fizera outrora. O sabor daquela língua que o excitava. Aquele cabelo onde tantas vezes entrelaçara os dedos. Aquele corpo que lhe aquecia o coração.

          «Querido, o que mais me custa são as noites, passo-as a pensar em ti, agarro as minhas maminhas e imagino as tuas mãos acariciarem-me.»

          «Estela, meu amor, não me faças sofrer mais.» Queixava-se Cláudio.

          Estas conversas prolongavam-se por horas. Amavam-se a toda a todo o momento, quer por telefone que por mensagens. Estavam loucamente apaixonados, mas Estela, tinha medo, medo de um reencontro. Queria muito vê-lo novamente, mas receava, a sua consciência não a deixava. Sofria e desesperava.

          «Um dia mando tudo à “fava”, a minha consciência não me deixa, mas qualquer dia perco a cabeça e corro para os teus braços.» Declarava Estela nos dias mais deprimentes.

          «Não me amas, Estela, se me amasses como dizes corrias para junto de mim.» Lamentava Cláudio.

          «Amo-te, amo-te muito, mas não posso, não devo.» Declarava Estela.

          As zangas começavam, os amuos e rebeldia eram agora constantes. Guerreavam-se sem motivos. Guerreavam-se por não se verem, não se acariciarem, não se tocarem. Mas Estela continuava presa à sua consciência, não podia, não devia. Não. Não.

          Certo dia aconteceu o inevitável. Amuos, dias sem se contactarem, mas havia sempre um que cedia e voltavam aos contactos.

          «Como sabes esta é a única forma de me “ouvires” sem me interromper…» escrevia Cláudio a Estela. «Pedi-te para atirar as pedras fora e depois contactar-me. Fingiste não entender e respondes que já as atiraste, mesmo as que estavam no fundo da alma e que, os amigos que te conhecem sabiam que, quando se trata da tua dignidade, és radical.
          Primeiro: as pedras saem pela boca disfarçadas em palavras, nunca pela alma. Segundo: a tua dignidade é igual à minha. Sim, também a tenho, apesar de, no teu pensamento, ter todos os defeitos que diária e constantemente me apontas. Só que não sou radical. Um ano de contactos telefónicos ou escritos, deram para te conhecer melhor do que pensas. Por muito que escondas, há sempre um palavra que te denuncia. A tua franqueza, a tua sinceridade deixa transparecer que as pedras que atiras são pela boca, nunca pela alma. És boa demais para ter pedras no teu interior. Por seres aberta, sincera, por dizeres o que pensas, tornam-te a mulher que eu admiro e louvo, mas a tua sinceridade por vezes magoa, fere-me profundamente. Pedi-te há dias para nos deixarmos de guerrilhas que nos fazem mal. Agora fui mais direto, pedindo-te que deitasses as pedras fora e respondes-me daquela maneira. Eu calculo que andes desesperada, tal como eu, mas não é caso para me acusares de leviano. Recorda que não tenho 40 anos, que não sou tenho vida nem idade para flirts. A minha sinceridade para contigo tem-me prejudicado e tu abusas. Eu sempre te respeitei e admirei. Não me acuses de te ofender por que nunca o fiz intencionalmente.»

          «Sabes bem que não posso nem devo. Respeita-me. Gosto de ti, amo-te, bem sabes, mas a minha situação não me permite leviandades. Bem sei que fui a culpada. Não devia ter ido contigo naquele dia.» Lamenta-se Estela.

          Estas conversas muitas vezes azedavam e outras tantas se zangavam.

          «Penso muitas vezes em ti, no teu estado de alma. Não conseguia concentrar-me no que escrevia, repetia as questões. Não lia o que me escrevias. Desculpa-me por isso. Andas nervosa com tudo isto. Debates-te entre o que queres e o que a tua consciência não quer. Compreendo-te perfeitamente a revolta entre ti e a tua consciência obrigam-te a uma luta constante. Gritas, contigo própria. Não podes desabafar em casa. Acumula-se dentro do teu peito um mal-estar que te obriga a gritar, a dizer basta. Isto não pode continuar. Estou cansada. Desabafas comigo. Gritas comigo. Dizes coisas que não querias. Eu sei, Estela. Eu sei que não és tu que o fazes. É a tua consciência. Por isso aceito essa teu rebeldismo. Refilo contigo, com o que me dizes, mas também não sou eu, é o meu subconsciente ou a minha consciência inconsciente que fala e contesta em meu nome. Tens de concordar que a nossa convivência tem vindo a degradar-se cada dia que passa. Que, qualquer dia, começaremos a insultar-nos, a lutarmos um contra o outro. Apetece-nos batermo-nos, ferirmo-nos, magoarmo-nos com palavras. Se nos encontrássemos neste momento lutaríamos? Insultávamo-nos? Ou correríamos para os braços um do outro? Provavelmente nunca o iremos saber. Naquela noite pensei em nós. Não podíamos continuar a nossa luta daquela maneira. Teríamos de parar. Teríamos de sacrificar o lado amoroso para vivermos em paz, um com o outro. Foi difícil e muito penosa a minha exposição. Tocou muito no meu interior. Ponderei imenso e um de nós teria de tomar uma iniciativa. De outra forma onde nos levaria esta vivência? Foi pelo amor que nutrimos um pelo outro, e antes que esse amor acabe, que tomei esta iniciativa. Estela, eu amo-te apaixonadamente, bem sabes. Pensa um pouco: quererias continuar a martirizarmo-nos, a guerrearmos, a gritarmos um com o outro até que nos odiássemos? Não, por certo. Sejamos amigos, amemo-nos em surdina, tal como nos amamos virtualmente, mas não nos declaremos. O que é preferível? Amarmo-nos ou guerrearmo-nos? Estela, admiro a tua força, a tua consciência e é por isso que há um ano continuo a não te querer substituir “pela mais pintada”. Sabe-lo bem. Sabes que, ou pelo menos deves calcular, se eu tivesse alguém a quem dar o meu amor continuaria contigo a martirizar-te e a mim? Estela, foi por te amar, por não te querer perder, que te apresentei a proposta de sermos amigos e não falarmos de amor um ao outro.» Escreveu certo dia Cláudio à sua amada Estela.

           

          A promessa de amizade entre ambos pouco durou. Os telefonemas e mensagens continuaram amorosos. Continuaram as juras de amor e promessas de um dia se reencontrarem e se amarem.

 

         Aproximava-se o aniversário de Cláudio e Estela cautelosamente se referia a esse dia, o que costumava fazer, onde ia, com quem passava, etc.

         «É um dia como os outros. Já há muito que deixei de festejar o meu aniversário.» Informa Cláudio.

         Em véspera desse dia, Estela telefona a Cláudio.

         «Querido, amanhã tenho uma surpresa para ti. Vais a algum lado?»

         «Não. Porquê?»

         «Quero ver-te.»

         «Não acredito, amor.»

         «Não queres, querido?»

         «Oh, amor, é a minha prenda de anos?»

         «Sim, às 3 horas encontramo-nos na pastelaria onde nos conhecemos há 40 anos. Recordas-te?»

         «Como se fosse hoje.» Declara Cláudio.

 

          Nesse dia, Cláudio esmera-se não só no vestir como no tratamento do corpo, da barba, unhas, cabelo, etc. Perfuma-se, emboneca-se como de fosse apresentar-se pela primeira vez a um concurso de manequins. Iria ver a sua grande paixão, a sua Estela. Queria impressionar.

          Meia hora antes da hora marcada, ali estava ele sentado a uma mesa não longe da entrada da pastelaria, onde 40 anos antes conhecera Estela. Pede um café e uma garrafa de água. Lê o jornal ou melhor finge ler, pois o seu olhar não se desviava da porta de entrada. Olha o relógio de minuto a minuto. São três da tarde, Estela deveria chegar a todo o momento. Por várias vezes mete a mão ao bolso para tirar um cigarro e de imediato percebe que não pode fumar naquele local. Vira a folha do jornal que não tinha lido. Mexe-se na cadeira e bebe um pouco de água. Volta a virar a folha do jornal que não lera. Para numa página onde estão as palavras cruzadas. Mete a mão ao bolso para tirar uma caneta que não tem. Pensa: para que quero a caneta? Não consigo concentrar-me. Mas, que terá acontecido? São quase quatro da tarde e Estela não aparece, não telefona. Vou telefonar-lhe. Pega no telefone. Por três vezes tenta ligar, mas desiste. Aguardaria mais um pouco. Teria Estela brincado com ele? Seria que o enganou? Não, Estela nunca faria isso. Era aquela a pastelaria onde a conhecera, não havia engano. Pensava Cláudio. Chamou o empregado.

          «Reserve-me a mesa por favor. Vou só fumar um cigarro e volto já.»

          À porta da pastelaria olha em volta. Sabia que Estela tinha um carro, a sua cor, matrícula, mas ali seria difícil um lugar. Andaria à procura de lugar? Mas, porque não telefonava? Cláudio pensava em tudo, mas não conseguia vislumbrar uma solução. Voltou para dentro. Pediu mais um café e água. Pela centésima vez olha o relógio. Quatro horas e trinta. Agarra o telemóvel com um nervosismo. Vou telefonar. Decide.

           Liga e, para seu espanto, uma voz masculina atende:

           «Sim?»

           «Queria falar com D. Estela.» Informa a medo Cláudio.

           «Daqui fala um enfermeiro do INEM. Vamos a caminho do hospital. A D. Estela sofreu um acidente…»

           «Mas,» interrompe Cláudio. «Que aconteceu?»

           «Foi grave, D. Estela não resistiu.» Informa o pessoal do INEM.»

           «Grave? Mas… está viva?»

           «Infelizmente não.» Responde o enfermeiro.

           «Está, ESTÁ? Quem está ao telefone? ESTÁ?» Grita o enfermeiro que não obtém resposta.

           O pessoal do INEM, não obteria jamais resposta. Desconheciam que o frágil coração de Cláudio não aguentara a notícia.

 

           À noite, no necrotério, o corpo de Cláudio repousava numa maca. No seu rosto parecia haver um sorriso de felicidade. A dois metros da sua maca jazia o corpo de Estela. O destino não os quisera juntar em vida, juntou-os na morte.

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