terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As Putos, As Putos

A D. Aninhas, velhinha com mais de 80 anos, vivia num prédio de um bairro de Lisboeta. Todos os dias por volta das 10 horas ia tomar o seu pequeno-almoço ao café do seu prédio. Descia no elevador e o espaço que mediava entre a porta deste e a da rua, era composto por um pequeno Hall e 5 degraus. Era muito querida por toda a vizinhança, não só pela sua cortesia como também pelo facto de não ter papas na língua, tendo sempre uma resposta brejeira para quem a desafiava.

Numa manhã, a D. Aninhas como sempre, desce no elevador, mas ao chegar aos degraus do Hall de entrada desequilibra-se e cai, esfola um pouco as pernas. Senta-se um pouco nos degraus, aprecia os estragos e resolve ir, a coxear, até à farmácia ali próximo. A D. Fernanda, sua vizinha, vendo-a naquele estado pergunta-lhe:
«D. Aninhas, que lhe aconteceu?»
«Caí nas escadas e vou à farmácia.» Respondeu a D. Aninhas, mostrando as mazelas nas pernas.
«Que horror… o melhor é ir ao hospital. Quer que vá consigo?»
«Não D. Fernanda, obrigado. Se me sentir mal mando chamar uma ambulância.» Após várias recusas da companhia da vizinha, lá continuou o seu caminho a coxear.

«Sente-se um pouco enquanto eu preparo umas compressas para tratarmos dessas feridas» disse a farmacêutica e continuou, «não me parece grave, mas depois de a tratar fique aqui um pouco até as dores lhe passarem. Se for necessário mandamos vir uma ambulância.»
«Não é preciso. Estou bem. Apenas umas dores. Isto já passa.»

Entretanto a D. Fernanda depois de deixar a D. Aninhas a caminho da farmácia, dirige-se ao café lá do prédio.
«D. Branca. Já sabe o que aconteceu?» Enquanto a D. Branca, a proprietária do café, olhava admirada para a D. Fernanda, esta continuou, «a D. Aninhas, caiu aqui nas escadas aqui do prédio e tem as pernas numa miséria. Quis levá-la ao hospital, mas sabe como ela é… preferiu mandar vir uma ambulância.»


A Fatinha, moradora também no prédio da D. Aninhas, entra no café da D. Branca.
«Bom dia D. Branca, dê-me um galão por favor.»
«Bom dia Fatinha, já sabe o que aconteceu à D. Aninhas?»
«Que aconteceu?» pergunta sobressaltada a Fatinha.
«Caiu nas escadas e partiu as pernas. Foi de Ambulância para hospital.»
«Coitada da senhora. Esta escadaria de pedra é um perigo. Logo as duas pernas. Quem foi com ela?»
«Não conhece a D. Aninhas?, teimosa, não quis companhia.» Respondeu a D. Branca.

«Olá Fatinha, bom dia. Quer vir tomar um cafezinho?» Pergunta a D. Bela, sua vizinha.
«Não Belinha. Acabei agora de tomar. Sabe que a D. Aninhas está no hospital com as pernas partidas?» E conta-lhe o que sabia e o que não sabia.
A D. Aninhas depois de se recompor regressa a casa, mas sem vontade de tomar o seu habitual pequeno-almoço. Sobe o 2.º andar, deita-se um pouco e adormece.
Um falatório vindo do hall, acorda-a. Olha o relógio. São duas da tarde. Discretamente abre a porta e tenta aperceber-se do que se passa. Pé ante pé, percorre o corredor do seu patamar até ao vão da escada. Olha para baixo e depara com a vizinhança falando sobre a sua queda nessa manhã.
«…deve estar ainda no hospital» dizia uma das vizinhas.
«O mais certo é ficar lá uns dias e, com aquela idade só de lá sairá em cadeira de rodas» comentava uma outra.
Do cimo da escada, D. Aninhas indignada, diz:
«Boa tarde vizinhas» e, lentamente volta para sua casa cantarolando:

Parecem bandos de abutres à solta as putos, as putos…(*)

                                         
(*) Para os meus leitores que vivem no estrangeiro e por ventura não conheçam a letra original da canção muito em voga, (letra de José Carlos Ary dos Santos) interpretada pelo famoso fadista “Carlos do Carmo”, aqui vai:
Parecem bancos de pardais à solta
Os putos, os putos. (“putos” – nome carinhoso, vulgarmente dado às crianças que, razões óbvias, é apenas atribuído às do sexo masculino. (N. do A.)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ontem, Hoje e Amanhã

Ontem desloquei-me do Porto com destino a Lisboa. Apanhei o comboio na estação de São Bento. Era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa. O comboio saiu à tabela, seriam 8 horas da manhã. Homens de negócios de fatos escuros e chapéus de coco, com pastas debaixo do braço, entravam nas carruagens de 1.ª classe. As damas de vestidos compridos, extravagantes chapéus e sombrinhas, acompanhadas pelos maridos ou não, subiam igualmente para as carruagens de primeira classe, ajudadas pelos empregados da estação que gentilmente as ajudavam a subir colocando um banquinho junto aos degraus das mesmas. Muitos cavalheiros, ao passarem pelas damas, tiravam o chapéu e faziam uma ligeira vénia. Mulheres carregadas de cestos, malas, crianças ao colo, provavelmente em deslocação de migração, ocupavam as carruagens de terceira. Eu, limitei-me a um lugar de 2.ª.
Um longo corredor do lado direito das cabinas com as largas janelas, deixava que os passageiros apreciassem a paisagem que lhes era oferecida ao longo do percurso. O vagão-restaurante oferecia uma modesta refeição ou uma bebida àqueles que, irrequietos, não pretendiam passar as oito horas da viagem sentados a ler ou simplesmente olhar através das janelas. Outros havia que, numa amena cavaqueira, lá iam passando o tempo. Sob a ponte Dona Maria Pia, os barcos rabelos descendo o Douro carregados de pipas do afamado vinho do porto, navegavam para o porto de embarque.
Em Coimbra alguns rapazolas saíram. Provavelmente estudantes em início de mais um ano de faculdade.
Numa das muitas paragens desci do comboio a fim de desentorpecer as pernas. Percorri a gare apinhada de gente com malas de cartão, cestos e um regimento de bagageiros que acompanhava os mais endinheirados. Fui até à máquina a vapor e apreciei os fogueiros que atiravam com achas de lenha para a fornalha, enquanto uma enorme conduta enchia os depósitos de água.
Cheguei à estação de Santa Apolónia cerca das quatro da tarde. Esperavam-me os meus pais. Um senhor, muito bem vestido, com a sua avantajada mão tirou do bolso do colete o seu relógio de bolso preso a uma grossa corrente de ouro. Comparou as horas com as da estação. Uma charrete puxada por quatro cavalos esperava-o. Nós seguimos para casa de táxi.

Hoje levantei-me cedo. O avião que me levaria a Londres partia às 8:30. Dentro do avião, uma elegante e simpática assistente de bordo informava quais as saídas de emergência, mandava apertar os cintos, explicava como colocar as máscaras de oxigénio quando estas caiam do teto, etc. Os cerca de 1.600 km a percorrer seriam feitos em menos de 3 horas, informava o comissário de bordo. O longo e estreito corredor, não era comparado ao do comboio e as janelas minúsculas apenas nos deixavam ver nuvens ou mar, um mar muito distante a cerca de 9km abaixo. Os passageiros dormitavam ou permaneciam calados, uns de fato e gravata, outros desportivamente iam passeando ao longo do corredor.    
Chegámos por volta da 11:20. A estação do metro, Heathrow, levou-me até Sloane Square, muito próximo do hotel, onde me hospedei por quatro dias. Tive oportunidade de visitar o museu de cera Madame Tussauds, London Eye, Big Ben, tower of London, entre outras, deslocando-me de metro ou bus.    

Amanhã é o meu grande dia. Vou de férias por 30 dias. A viagem que sempre sonhei será realizada. Já tinha visto em filmes, programas de viagens, publicidade em revistas e jornais, mas tê-la ao meu alcance não passava de um sonho.
Oito da manhã. O enorme plasma que ocupa quase toda a parede fronteiriça à minha cama, desperta-me. A imagem e voz daquela simpática personagem que me desperta, anuncia: são oito horas. Às nove, um helicóptero estará no seu terraço para o levar à estação de embarque. Depois de repetir não sei quantas vezes aquela frase, respondi com um “obrigado”, pondo fim à repetida frase. Enquanto me arranjava, ia sendo informado das principais notícias do dia. A mesma simpática voz, antes de eu subir para o terraço, dava-me as instruções pormenorizadas do que deveria levar na bagagem. “Nada de excessos”. Mais uma vez agradeci, a fim de lhe dar conhecimento de que tinha recebido a mensagem.
Um hotel espacial esperar-me-ia. Seriam 30 dias no espaço em torno do nosso satélite natural. Estava prevista uma saída desse hotel para uma viagem a um passeio lunar. Ser-nos-ia fornecido um fato espacial, concebido em fibra de carbono, a fim de suportar as condições ambientais extremas. A temperatura à superfície ronda entre os 150 graus centígrados negativos noturnos e os 120 positivos diurnos, obrigando a uma descida à lua a uma hora tal que combine com uma temperatura aceitável e nunca superior a escassos minutos.
O hotel, uma nave com mais de 10.000 m2, era composto por 50 suítes, 2 restaurantes e 3 grandes salas-jardim. Os 250 empregados do hotel lá estariam para nos obsequiar de tudo o que estivesse ao seu alcance.
A viagem dos 400.000 km seria efetuada em 4 dias e durante esse tempo, quer na ida quer no regresso, mostrariam através das largas janelas e teto, tudo em material transparente, todo o firmamento e seus astros. As viagens em torno da Lua mostrariam o nosso planeta azul e as suas fases noite e dia. As máquinas fotográficas com grande zoom ser-nos-iam facultadas para a captação de fotos que jamais iríamos esquecer.
O helicóptero levar-me-ia à estação orbital em Torres Vedras em pouco mais de 10 minutos. A nave “vaivém” partiria com os 50 passageiros destinados ao hotel, na sua maioria casais em lua-de-mel.
Apollo 11 que levara Armstrong à Lua, não passava de uma brincadeira no presente.

Depois de amanhã aonde nos levará o progresso?


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Debaixo da Ponte

Quem vem na marginal no sentido Belém/Lisboa, na Rocha Conde de Óbidos, depara com uma estrutura metálica, pintada de branco debaixo da ponte. Parece uma escultura e o seu aspeto é agradável à vista. A finalidade desta estrutura, para além de decorativa, destina-se igualmente à proteção da queda de objetos como parafusos ou outros provenientes dos carros ou comboios que circulam na ponte, para a via pedonal.
Decorria o mês de outubro e o verão teimava em não dar lugar ao outono. Estava uma tarde quente e desloquei-me até às Docas no intuito de aí passar uma tarde relaxante. Percorri o espaço comprendido entre Belém e Rocha Conde de Óbidos. Sob a ponte deparamos com a marina, dezenas de restaurantes, esplanadas, bares, etc., num espaço de laser onde alguns turistas a pé ou de bicicleta percorriam aquele espaço, olhando o estuário do Tejo. Do outro lado do rio, no alto do monte, Cristo de braços abertos parecia abraçar todos os que O olhavam.
Os restaurantes e esplanadas aguardavam a hora de jantar na esperança de alguns dos transeuntes ocuparem as mesas quase desertas. A crise parecia estar presente naquela tarde quente e agradável que convidada a uma bebida refrescante. Sentei-me e pedi um sumo fresco enquanto apreciava os poucos turistas que num vai e vem iam passando. Numa mesa próximo um casal de ingleses discutia com o filho por atirar parte da sua sandes ao rio e se deliciar a olhar as dezenas de tainhas que se atropelavam na caça aos bocados de comida que lhes eram oferecidos. Achei graça e apetecia-me fazer o mesmo.
Reparo num casal que, quase da minha idade, desce a plataforma que o leva ao barco acostado na marina. Pela idade e aspeto deveriam ser turistas reformados, aliás, quase todas as pessoas que por ali deambulavam pareciam ser turistas, embora muitos de aspeto jovem e endinheirados. Olhei à minha volta e reparei que, ao longe, também havia quem trabalhasse. As gruas não paravam. Carregavam e descarregavam os navios que partiam ou chegavam. Naquele espaço de laser o paradoxo estava presente: enquanto uns gozavam a tarde quente, outros trabalhavam.
Debaixo da ponte não só dormem os sem-abrigo, também há o outro lado da vida, os que trabalham nos bares e restaurante para satisfazerem aqueles que têm a merecida reforma ou gozam as suas férias. O mundo é feito destes contrastes.   
   

sábado, 27 de agosto de 2011

Qual a sua Idade?

Há muitos anos a Maria Olímpia (que Deus a tenha em descanso), era telefonista (hoje promovidas a rececionistas) numa empresa importadora de aços suecos onde eu trabalhava como vendedor. Atendia os clientes com uma juvenilidade que muitos clientes me sondavam sobre essa telefonista, imaginando-a uma jovem e, quando os informava dos seus cinquenta e muitos anos, admiravam-se da sua educação e animação com que os atendia.
Um dia perguntaram-me que idade tinha. Respondi com outra pergunta «qual delas? Tenho duas, a exterior e a interior.» Todos nós temos duas idades a física e a cerebral, embora algumas vezes coincidam. A Maria Olímpia tinha perto dos sessenta, mas a sua idade interior era a de uma mulher de trinta. O ano passado estive na Universidade Aberta e deparei com um cavalheiro de 82 anos que se ia matricular.
Quantas vezes deparamos com jovens com idade interior de velhos, e velhos com mentes jovens? O nosso cérebro tal como o corpo necessitam de exercício. A preguiça mental é muitas vezes a causa de um cérebro patológico. A leitura e a escrita ajudam o cérebro. Se não lê nem escreve faça palavras cruzadas, jogos de memória, tome banho ou lave os dentes de olhos fechados, ensaboe-se com a mão não dominante, vista-se às escuras, mude a rotina das suas deslocações. A matemática é uma boa terapia para o nosso cérebro. Os cálculos de cabeça são um excelente exercício para a mente.
Os cem biliões de neurónios num cérebro que apenas pesa 2% do nosso corpo necessitam de muita e boa alimentação. A nossa massa encefálica não se cansa, o que poderá acontecer é estar mal alimentada. Além disso não menosprezar o exercício físico. Recorde o ditado corpo são, mente sã.
Caro amigo faça mais por si, recorde que não se prejudica apenas a si; os que o rodeiam também sofrem e de uma maneira geral muito mais. Eles estão conscientes ao contrário de você que nem se apercebe que erra. Quando se deitar, antes de adormecer, pense no que fez durante o dia ou melhor: no que não fez e que podia e deveria ter feito. Você não vive só, há um mundo que o rodeia e que vive consigo. O negativismo e o pessimismo poderão ser um sintoma de patologia mental. Se anda mal-humorado, impertinente, se tudo lhe corre mal, os que o rodeiam não tem culpa. Ainda vai a tempo de uma cura. Pense nos outros pelo menos, já que não quer pensar em si.
A Dra. Ivone Carvalho, digníssima psicóloga terapeuta, disse um dia: prefiro enfrentar o Mundo com a minha consciência de que enfrentar a minha consciência por causa do Mundo.       


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Confissão

Num dos meus blogues do ano passado, dirigido a todos os meus leitores, informava que tudo o que escrevia ou pelo menos a sua maioria, era dirigido a alguém, familiar ou amigo, embora muita gente se sinta retratado neles. Desta vez não é dirigido a ninguém; ou melhor, é dirigido a mim próprio.


O som estridente do meu despertador soou. Eram oito horas. Olhei o relógio e pensei: só mais uns minutinhos. Adormeci.

Entrava numa tabacaria com o intuito de vender os meus produtos. Curiosamente reparei nas centenas de cautelas expostas. Todas tinham o mesmo número: 13674. Pedi uma. A empregada sorriu e mostrou-me que aquelas cautelas não passavam de uma enorme foto publicitária. Entretanto entra uma cliente e compra uma. A empregada entrega a cautela com o número 13674. Estranhei e reclamei que também eu queria uma com aquele número. A mesma resposta: «isto é um cartaz, venha ver.» Entrei, apalpei e na realidade não passava de uma fotografia. Mais um comprador entra e leva uma cautela, e mais outro. Desesperado tentei tirar da mão da empregada a cautela que ela estendia a um outro cliente, mas tanto a cautela como a empregada pareciam esfumar-se entre as minhas mãos. Não conseguia perceber o que se estava a passar. O 13674 saia da fotografia e ia parar as mãos das dezenas de clientes que agora faziam fila no interior da tabacaria. Tentei roubar uma das mãos desses clientes, mas, para além de me sorrirem, pareciam hologramas sem que eu os conseguisse tocar. Saí da tabacaria e a fila de pessoas ultrapassava umas centenas de metros. Coloquei-me no final da fila. As pessoas entravam às dezenas e saiam todas com uma cautela na mão: o 13674. Esperei mais de uma hora mas chegou a minha vez. Estendi a mão como todos faziam e a empregada repetiu a malfadada frase: «é uma foto.» Saltei pelo balcão e a foto lá estava com centenas de cautelas com o malfadado n.º 13674. Gritei, tentei empurrar a empregada, maltratei-a com palavras pouco usuais em mim, mas estava desesperado. A empregada não era palpável. Era mais um holograma. Chegou a polícia e agarrou-me e eu gritei e eles algemaram-me e meteram-me num carro celular e eu atravessei a porta que não existia. Corri. Cansado, sentei-me e olhei em meu redor. O despertador continuava a tocar. Eram oito horas.
Levantei-me e segui para o escritório. O número 13674 ficara na minha mente. Era quinta-feira. A lotaria era sorteada às sextas ao meio-dia. Teria sonhado com a taluda? Telefonei para a Santa Casa da Misericórdia. Aquele número tinha sido vendido a um revendedor do Porto. Procurei e telefonei ao revendedor. Um cauteleiro, normalmente da zona de Santa Catarina, tinha-o adquirido. Desconheciam o seu contacto.
Não poderia deixar de adquirir aquelas cautelas. Eram doze. O seu custo era de 45 escudos cada. Compraria as que houvesse. Decididamente só tinha uma solução: ir ao Porto. Justificaria a minha viagem com as vendas que conseguisse.
Segui para o Porto pela nacional 1 e, cerca das quatro da tarde estava na rua de Santa Catarina. Cauteleiro, nem cheiro. Indaguei pelas lojas de comércio, tendo-me sido informado que só pela manhã o encontraria. Segui para o hotel. Nessa noite não dormi. Sete da manhã já estava a pé. Em jejum segui para Santa Catarina. Duas horas rua acima rua abaixo. Finalmente o António cauteleiro apareceu. Cautelas com o n.º 13674, já lá iam. Tinham sido vendidas não sabia a quem. Inconformado ainda fui ao revendedor da lotaria na esperança de ter ficado lá uma delas por esquecimento.
Nesse dia não vendi nada, claro está. Nem me atreveria a entrar numa loja para vender fosse o que fosse. Deambulei pelas ruas do Porto olhando toda a gente com uma vontade enorme de perguntar se tinham comprado lotaria e qual o número.
Pouco faltava para o meio-dia quando segui para o hotel a fim de ouvir na rádio, em direto, o cantar do sorteio. Os três principais prémios acabaram de ser divulgados, mas o 13674 não constava em nenhum deles. Provavelmente seria atribuído um prémio dos mais pequenos. Aguardei pela saída da lista de prémios. Nem uma terminação. Amaldiçoei o meu sonho. Como acreditara nele? Como iria dar conta da gasolina gasta, da conta do hotel? Não. Não podia dar. Teria de ser tudo às minhas custas.
Regressei a Lisboa resmungando todo o caminho. Tinha sono. Parei dezenas de vezes para tomar café, espreguiçar-me, molhar a cara, mas cheguei. Revoltado e ensonado como estava, nem me apercebi que era sexta-feira e que sábado não trabalharia. O despertador continuava preparado para às oito da manhã dar-me cabo da cabeça e não me deixar dormir.
Sábado, oito da manhã: terrim, terrim, terrim. Acordo sobressaltado. Olho o relógio. 8:00. Por baixo das horas reparo no calendário: 15/6/74. Dei um safanão ao despertador e rolou pelo chão.
«Nunca mais me enganas.» Disse eu ao reparar que tinha sonhado dois dias antes com a data que o calendário me apresentara: 13/6/74.
Fui castigado e por isso me penitencio. Não quis telefonar ao meu colega do Porto para que me adquirisse a lotaria. Teria medo que ele ficasse com o eventual prémio? Teria eu ido ao Porto e venderia nos seus clientes demonstrando a sua incompetência? Infelizmente esse colega já não faz parte deste mundo mas, tenho a certeza que ele lá em cima me perdoa.

domingo, 24 de julho de 2011

Amor Impossível

Era uma sexta-feira do mês de agosto. A tarde estava escaldante, abafada. Pedro olhou o relógio: quase cinco horas; teria tempo de dar um mergulho e tomar um banho na praia da Conceição, em Cascais. O Sol despedia-se a caminho do horizonte. Pedro não tinha ninguém à espera para jantar. Meteu-se no carro e percorreu os poucos quilómetros que o separavam do escritório à praia. Despiu-se no carro e, em fato de banho, correu para o mar. Jantaria depois mesmo na esplanada da praia e iria tomar um banho a casa, arranjar-se e sair para mais uma noite de discoteca. Pensava ele.

O mar estava chão e a água tépida. Nadou, nadou pelo mar adentro sem se aperceber que a maré vazante o levava para longe da praia. Tarde de mais. Quis regressar mas o mar não o deixava. Era bom nadador, mas a corrente era mais forte. Lutou, tentou acalmar-se, olhou para terra que cada vez mais se afastava. Começou a temer não poder regressar. O pânico apoderou-se dele e desesperado bracejou com força até que se sentiu cansado. Inesperadamente, perto dele, uma garota morena de longos cabelos loiros sorriu-lhe. Era linda, de grandes olhos castanhos, não aparentando mais de dezoito anos. Que faria ela ali, tão longe da praia? Pensou Pedro. Tentou gritar e pedir auxílio, mas não conseguiu articular palavra.

A garota de longos cabelos loiros aproximou-se dele, segurou-lhe a cabeça e com uma calma impressionante segredou-lhe: «tem calma, não desesperes.

Pedro olhou-a fascinado, não só pela sua beleza como também pela voz harmoniosa com que proferiu tais palavras. Aquela voz tinha o dom de um calmante impressionante. Sentiu-se voar sobre a água. A praia ficava cada vez mais distante, mas a sensação de bem-estar, o conforto com que era transportado acalmaram-no sobremaneira.

«Que fazes aqui tão longe da praia?» Perguntou Pedro.
«Isso pergunto eu,» respondeu a garota e continuou. «Não devias ter nadado até tão longe, a maré está a baixar e é muito perigoso.»

Pedro concordou e nem se atreveu a questionar. A garota olhou-o com um sorriso perturbador e com a sua voz melodiosa disse-lhe: «vais respirar pela minha boca enquanto mergulhamos.» Pedro sentiu a boca da jovem colar-se à sua. Que agradável era aquele beijo. Mas... seria um beijo?

Com as bocas coladas, ambos mergulharam e Pedro teve a certeza que a velocidade do mergulho era vertiginosa. Não se importou e até lhe agradou aquela descida. Entraram numa abertura de uma rocha e, curiosamente, uma antecâmara se abriu para dar lugar a uma outra como se de um submarino se tratasse, onde os mergulhadores entram para depois saírem para o mar. Entraram numa sala enorme toda forrada a nácar, muito brilhante e escorregadia. A um canto, uma enxerga de limos. Deveria ter mais de dez metros de altura e uns cinquenta metros quadrados de área. Foi só nessa altura que a misteriosa e encantadora criatura descolou a sua boca da de Pedro. Ali respirava-se um ar puro e um agradável cheiro a maresia, a claridade parecia vir das paredes, do nácar.

«Deita-te um pouco Pedro, ali nos limos que estão secos. Deves estar cansado.» Disse a donzela. Pedro olhou-a. Era extremamente bela e o seu rosto era perfeito. Parecia uma musa. Estava desprovida de roupa da cintura para cima. O seu corpo esbelto denunciava perfeição. Reparou que, tinha qualquer coisa vestido da cintura para baixo, como se, de uma sereia se tratasse.

«Onde estamos?» Perguntou.
«É aqui que eu descanso muitas vezes.» Disse ela.
Pedro não tivera ainda a oportunidade de se apresentar e por isso admirou-se de ela saber o seu nome.
«Como sabes o meu nome?»
«Disseste-mo tu.»
«E tu, como te chamas? Quem és?»
«Agora descansa que depois falamos.»
A voz dela era de uma suavidade tão profunda, que Pedro nunca ouvira na vida e simultaneamente tão agradável e meiga que Pedro não resistiu em aproximar o seu rosto ao dela. Sem esperar, recebeu um beijo tão intenso, tão terno, tão apaixonado que quase enlouqueceu.
«Deita-te e dorme, Pedro. Temos muito tempo para falar.»
Aquela era uma ordem que, dito por ela, dava prazer cumprir. Assim o fez.

Um som divinal fez despertar Pedro. Olhou o seu relógio de mergulho, eram seis da manhã. Com o olhar percorreu a sala que, embora nua de mobiliário, era muito atrativa. Aquela luz indireta era acolhedora e repousante. O cheiro a maresia permanecia no ar. Estava deitado sobre uns limos, em fato de banho, mas não tinha frio nem calor. Tinha dormido umas doze horas. Não sabia onde estava nem quem o tinha socorrido. Onde estaria ela? Quem seria aquela Vénus? E de onde vem esta som divinal? Estarei no céu? Pedro desejou ardentemente voltar a ver aquela personagem. Queria olhá-la, escutá-la. Aquele beijo que recebera jamais esqueceria; conhecia muitas mulheres, beijou dezenas, mas esta…

Procurou uma porta, uma janela, mas nada. A um canto deparou com uma espécie de mesa, uma pedra forrada a algas; sobre ela umas grandes conchas cheias de camarões, lagostins, navalheiras, etc. Comeu até se saciar. Teria sido ela que lhe proporcionara tal refeição? Pedro continuava a ouvir aquele som celestial de uma voz ímpar. Observou tudo em redor. Parecia dentro de uma concha gigantesca, mas, apesar de tudo, repousante. Ele próprio admirou-se de estar em tal lugar, fechado, sem janelas nem portas e, mesmo assim não tinha medo.

O som da voz divina era cada vez mais audível até que, finalmente, Pedro descobriu a sua procedência. A “Vénus” entrava na caverna a cantar uma melodia desconhecida, mas sedutora.
«Olá Pedro! Pelo que me apercebo já almoçaste. Estás bem?»
«Olá beleza. Foste tu que me trouxeste estas iguarias?»
«Sim, gostaste? Aqui não há mais nada, apenas frutos do mar. Calculei que gostasses.»
«Como te chamas? Continuas com essa... saia?» Perguntou Pedro.
«Chama-me sereia e isto não é uma saia. É o meu corpo.»
«Não brinques.»
«É verdade, apalpa-me.»
Com as mãos e os olhos, Pedro percorreu o seu corpo. Era macio, aveludado. Em lugar das pernas tinha um rabo de peixe, igualmente macio e sedoso. A sua cintura muito fina foi enlaçada pelo braço de Pedro. E a sereia abraçou-o e beijou-o longamente mais uma vez. Pedro delirou e desejou que aquele beijo fosse eterno.
«Não acredito que existam sereias.»
«Então o que sou eu, Pedro?»
«Não sei.»
«Nunca ouviste falar das tágides, quando vivíamos no Tejo e muito faladas nos Lusíadas, de Camões? Nós somos uma espécie em vias de extinção. Em cada cem sereias apenas uma é macho. Vivemos no Atlântico e os meus antepassados contavam histórias sobre os vossos navegadores que se apaixonavam por nós. Mas não importa. Vivamos estes momentos enquanto pudermos. Sabes? Gosto muito de ti. Há mais de um ano que reparo em ti, mas tu nunca me olhaste.»
«O quê?»
«É verdade. Tu já vens a esta praia há longo tempo. De longe observo-te. Nunca vens acompanhado, por isso penso que sejas solteiro.»
«Sim, sou solteiro, tenho trinta e dois anos. Mas, fala-me de ti, como vives, tudo, quero saber tudo a teu respeito.»

Pedro sentou-se no chão com os olhos postados no rosto da sereia. Ela deitou-se de barriga para baixo, o queixo apoiado nas mãos e o seu rosto, sempre sorridente, olhava Pedro com um ar apaixonado. Com a sua voz melodiosa começou:
«Nós, as sereias, somos descendentes dos delfins, golfinhos e respiramos como eles, por pulmões. Necessitamos de oxigénio para sobreviver. Vimos amiudadas vezes à tona da água para nos abastecermos de oxigénio. Aparecemos no mundo muito tempo antes de vocês, humanos. Ao contrário dos golfinhos, vivemos muitos mais anos do que os da vossa espécie. A minha bisavó, com quem contacto por telepatia, tem atualmente 196 anos. Possuímos, para além dos vossos cinco sentidos, a telepatia. O nosso sentido da visão, tal como o da audição, são muito superiores aos vossos. Conseguimos ver ou ouvir a mais de 500 metros de distância…»
«Mas…» interrompeu Pedro «no meio duma multidão de milhares de pessoas, como consegues ouvir uma só?»
«Tal como tu, no meio duma multidão, consegues ver determinada pessoa, nós, ao olharmos para essa pessoa, ouvimo-la, todos os outros sons ficam para segundo plano.»
«Desculpa a interrupção, amor. Continua.»
«Não me chames amor ou ficarás aqui comigo para sempre.»
«Não me importo, querida.»
«Pedro… querido… não dificultes as coisas. Tu não podes ficar aqui eternamente, tens a tua vida lá em cima…»
«Sou feliz aqui. Amo-te. Que mais posso desejar? Não me trouxeste? Agora tens de tomar conta de mim.»
«Meu príncipe… Sou uma jovem. Só serei adulta por volta dos 40, após ser fecundada pela sereia macho, mas até lá tento viver a vida. Apaixonei-me por ti, mas o nosso amor e efémero.»
«Não digas isso. Amo-te e não te deixarei tão depressa.»
«Pedro! Queres ouvir o resto ou vamos continuar a falar de amor?»
«Está bem, acaba. Depois vou amar-te o resto do dia.»
«Como estava dizendo, para além dos vossos cinco sentidos, o da telepatia é o mais importante. Leio o vosso pensamento e, se eu quiser, lerão também o meu. Há mais de três anos que me misturo com as gentes desta praia. Oiço-as e convivo com elas, mas de longe. Evito aproximar-me demasiado com medo que me reconheçam como sereia. Deves calcular o que seria de mim se me apanhassem. Destino: o cativeiro num oceanário.»
«Mas, como sabes falar a nossa língua?»
«Conheço todas as línguas por onde passo. Basta ouvir uma e pela telepatia interpreto tudo.»

Durante longos minutos olharam-se e tocaram-se. Assim ficaram longas horas até que ela se apercebeu que Pedro tinha fome.
«Amor! Vou buscar-te comida, volto já.»

Pedro, nos poucos minutos que permaneceu só, conjeturou o seu futuro esquecendo-se de que a sereia lhe lia os pensamentos.
«Olá meu príncipe. Trouxe-te alguma comida.» Disse a sereia ao entrar na sala.
«Amor! Estive a pensar, podias ir um tempo para minha casa. Levas-me até à praia, eu vou ao carro, trago uma toalha e envolvo-a no teu corpo. Levo-te ao colo e ficas lá até quando quiseres. Poderei levar-te a passear numa cadeira de rodas. Voltarás para o mar quando entenderes.»
«Está bem. Concordo. Vamos na segunda-feira de madrugada.»
Pedro achou por bem aquela sugestão. Teriam um fim de semana para se amarem sem preocupações. Depois, o tempo diria,

«Pedro! Acorda. São quatro horas.» Disse a sereia. Pedro levantou-se. A sereia abraçou-o e disse-lhe: «vamos, respira pela minha boca e partamos.»

Em breves minutos chegaram à praia. Era noite ainda. Pedro correu para o carro enquanto a sereia o olhava e sem que Pedro se apercebesse chorou. Quando Pedro regressou com a toalha não mais viu a sereia.

Pedro ficou horas ali prostrado, chorou também até que se apercebeu que a sereia lhe transmitia um adeus com muito amor, mas um amor impossível.

Esta história passou-se há cerca de 10 anos, mas ainda hoje poderão ver muitas vezes o Pedro no final de tarde sentado na praia a olhar o mar.

sábado, 25 de junho de 2011

Visita Inesperada

Nada fazia prever o temporal que iria apanhar na sua deslocação ao Alentejo. Eduardo Rodrigues tinha planeado passar o fim de semana em casa dos seu avós, já falecidos, num monte alentejano. Saíra de Lisboa com um tempo de chuva, mas nada comparado à torrencial chuva que, pelo caminho, apanharia à saída de Grândola. O vento e trovoada eram tal que quase desistira da viagem, pensando mesmo em voltar para trás. Estava próximo do destino. Seria um erro naquela altura retroceder. Os relâmpagos eram ininterruptos e única iluminação naquela estrada da serra do Caldeirão. Não se via um palmo à frente, tanta era a água que do céu jorrava. Chegou a temer a viagem naquela escuridão.

Duas horas depois, com a tempestade que teimava prolongar-se pela noite dentro, chegou a casa. Do carro à sua porta teria de percorrer uns 50 metros pelo caminho de cabras. Ainda aguardou uns 20 minutos dentro do carro, mas não valeria a pena. Abrir o guarda-chuva seria um contrassenso. O vento tê-lo-ia inutilizado. Correu para casa debaixo da chuva tocada a vento, abriu a porta e entrou. Estava encharcado até aos ossos. Despiu-se à entrada deixando a roupa sobre uma cadeira. Um lago circundou o espaço onde se despira. Todo nu, correu a limpar-se e vestir um roupão. A casa estava fria e desconfortável. Acendeu a lareira e uma hora depois, com a casa mais confortável, procurou um livro e serviu-se de um conhaque.

No momento em que se dirigia para o cadeirão junto à lareira, com o copo numa mão e o livro na outra, um ruído à porta da entrada fê-lo voltar-se e pôr-se à escuta. Não restavam dúvidas. Havia alguém do lado de fora a querer entrar. Resoluto abriu a porta. Um olhar meigo com um misto de receio fixou-se nele. «Queres entrar?» Perguntou Eduardo fazendo um gesto de convite. «Depressa para fechar a porta.» Concluiu.

Estava num pingo que metia dó. A medo entrou e correu para a lareira. Eduardo foi à casa de banho e trouxe uma toalha; limpou-a e ela aninhou-se no chão tão próximo da lareira que Eduardo receou que se queimasse. Foi ao quarto e muniu-se de uma almofada e um cobertor. Aconchegou-a e tapou-a.

Sentou-se no cadeirão diante dela e da lareira. Olhou-a e teve pena dela. Era bonita e o seu olhar mostrava gratidão. «Queres comer?» Perguntou e sem esperar resposta foi à cozinha arranjar alguma coisa para lhe dar. Comeu tudo e adormeceu.

Era quase meia-noite. Não tirava os olhas dela. Pesou: «já não sais daqui. Quando me for embora levo-te comigo para Lisboa

O telefone tocou. «Olá Eduardo» (era Adriana, sua namorada, enfermeira em Faro) «dentro de uma hora estou aí»
«Está um temporal horrível» disse Eduardo e continuou «não venhas com este tempo. Vêm amanhã.»
«Nem penses, tenho muitas saudades tuas, nem que chovam picaretas não vou perder este fim de semana junto do meu amor
«Mas, querida…»
«Já te disse» interrompeu Adriana «estou a caminho e dentro de momentos estou nos teus braços. Quero beijar-te muito. Há 15 dias que aguardo por este dia
«Mas…» tentou Eduardo.
«Até já. Muitos beijinhos.» E desligou o telefone.

Ela continuava a dormir junto à lareira. Eduardo acariciou-a e verificou que já não tremia de frio. Dormia profundamente.

Uma hora da manhã. Ouviu o motor de um carro que acabava de chegar. Correu à porta. O temporal continuava. Em roupão e com um cobertor pela cabeça percorreu em corrida o espaço que o separava da porta ao automóvel. Os dois, como que empurrados pelo vento, voaram para casa.

«Vai mudar de roupa enquanto te preparo qualquer coisa para comer.» Disse Eduardo à sua namorada.
«Primeiro quero um grande beijo. Depois quero outro. E a seguir vou mudar-me.»

Enquanto Adriana tomava banho, Eduardo preparou uns ovos mexidos e umas couves salteadas. Sentou-se no cadeirão e aguardou a chegada da sua amada. Enroscada junto à lareira, ela continuava a dormir.

«Que preparou o meu amor para a ceia?» Perguntou Adriana enquanto descia a escada.
«Uns ovos e couves, mas não são só para ti. Eu também como.»
«Olha que venho cheia de fome, não só de comida como também… que é aquilo?» Disse espantada Adriana apontando para o vulto iluminado pelas labaredas da lareira.
«Não sei. Apareceu-me aqui há cerca de uma hora. Vinha esfomeada e tremia de frio. Estava num pinto, encharcada. Mandei-a entrar e a medo lá se foi aconchegar junto à lareira.»

Adriana aproximou-se dela e toucou-lhe na cabeça, fazendo-lhe uma festa. Como retribuição, a cadela lambeu-lhe as mãos.


























segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Olhar Penetrante do Papagaio

Na antiga A1 a caminho de Leiria, Júlio Salomão conduzia o seu velho Fiat. Destino: casa do seu antigo companheiro de armas, igualmente reformado. Havia algum tempo que se não visitavam e recordavam as aventuras e desventuras da guerra em Angola.
 
«Olá meu velho amigo, há quase um ano que não falávamos pessoalmente.» Disse Gustavo da Fonseca, ao abrir a porta a Júlio Salomão.
Júlio, um veterano de guerra, sofria, como grande parte destes combatentes, de perturbações psíquicas, embora não graves.
«Com as novas tecnologias as pessoas comunicam via Internet e muitas vezes esquecem o contacto pessoal.» Afirmou Júlio.
«É uma das desvantagens da evolução. Tomas alguma coisa?»
«Apenas um chá.»
«Açúcar ou adoçante?»
«Adoçante.»
«Leite?»
«Não. Água»
«Para onde estás sempre a olhar?»
«É para o teu papagaio.»
«Que tem de especial?»
«É lindo. Aquele olhar…»
Júlio, na posição onde estava, obrigava-o a olhar para o lado, onde um papagaio, num poleiro de ramo de árvore natural, o olhava fixamente.
«Júlio! Pareces hipnotizado, homem.»
«Que cores, mas principalmente aquele olhar penetrante do bicho…»
«Gostas do papagaio? Leva-o»
«O quê?»
«Ofereço-to.»
«Oh, não.»
«Leva-o, Júlio. De onde esse veio, há lá mais.»
«Mas…»
«Queres levá-lo ou não.»
«Obrigado. Não calculas como fico feliz.»

Pelo caminho de regresso Júlio não parava de olhar pelo retrovisor o seu papagaio.
«Olá, olá» dizia Júlio ao mesmo tempo que, com as duas mãos no volante, levantava os cotovelos como se batesse asas. Não parava de dizer olá, olá e olhar para o retrovisor. Numa dessas ocasiões, um camião em sentido contrário, buzina estrondosamente. Júlio, distraído, circulava na faixa da esquerda e tentando corrigir a trajetória despenha-se numa pequena ravina indo de encontro a uma árvore de grande porte.

Júlio acorda e olha em seu redor. Encontra-se no hospital. Chama a enfermeira.
«Que me aconteceu? Por que estou aqui.» Pergunta espantado.
«Sofreu um acidente de automóvel, não se lembra?»
«Um acidente? Como»
A enfermeira pede a Júlio que aguarde um momento enquanto vai chamar o médico.
«Bom dia senhor Júlio. Sou o médico que o tem assistido há oito dias.»
«Como! Há oito dias?» Admira-se Júlio
«Sim, o senhor sofreu um acidente de viação há oito dias e tem estado inconsciente, até agora.»
«Como é possível? Que desastre? Não tenho ideia de nada.»
«Sabe como se chama? Onde mora?» Pergunta o médico, depois de lhe examinar os olhos.
«Sim, sim, perfeitamente, mas do desastre não faço a mínima ideia de que se trata.»
«Senhor Júlio, o senhor perto de Torres Vedras, vindo do norte, sofreu um acidente de automóvel, mas apenas teve ligeiras escoriações. Esteve em coma durante oito dias. Provavelmente terá alta ainda hoje. Quer que telefone a alguém para o vir buscar?»
«Não, não obrigado. Não tenho família. Eu sei onde moro.»
«O seu carro ficou espatifado, capotou e o reboque colocou-o nas traseiras da sua casa. O seu telemóvel ficou destruído, por isso não pudemos telefonar a ninguém.»

Júlio sai do hospital, apanha um táxi e dirige-se para sua casa. Pelo caminho matuta no desastre. Que raio de acidente é que eu tive? Pensou. Porquê em Torres? Donde viria eu?

Chegado a casa mirou-se ao espelho. Não lhe doía nada, apenas um penso na testa e um pequeno arranhão na face demonstrava ter acontecido qualquer coisa. Sentia uma ligeira dor quando tocava na testa. Provavelmente tinha sido a causa do desmaio por oito dias. Não conseguia lembrar-se de nada. Resolveu dar uma espiada ao seu automóvel. Olhou-o e pensou: «Este é o meu carro? Que horror, como foi possível? Nem na sucata o vão querer?»

Júlio não consegue recordar-se de nada. Aquele desastre era-lhe muito estranho. Sai à rua e compra um jornal. Regressa, senta-se, lê os cabeçalhos. Oito dias sem notícias, mas nada de estranho se passara durante esse tempo. De repente lembra-se do computador. Procura o seu correio eletrónico. E-mails vários por ler, Faturas, extratos bancários, piadas de mau gosto, muito lixo e uns quantos do seu amigo Gustavo da Fonseca. Leu-os e num deles a pergunta o que era feito dele, que já lhe tinha telefonado para casa, para o telemóvel e nada sabia dele. Pedia respostas aos seus e-mails mas continuava sem saber o que se passava. Num outro e-mail a pergunta sobre o papagaio.

Saltou da cadeira. Deu uma palmada na testa que lhe provocou uma dor imensa. Desceu as escadas a correr. O seu papagaio. Tudo lhe veio à memória instantaneamente. A brincadeira com o “olá, olá”, com o “bater de asas” como se quisesse voar. O camião direito a ele. O desvio e a queda na ravina.

Com um esforço tremendo conseguiu abrir a porta do carro. Olhou em volta. Poeira, terra, estilhaços de vidro, banco traseiro atirado para a frente, mas e o papagaio? Rebuscou o lado de trás do carro, olhou no lugar onde outrora estivera o banco. Remexeu papelada, peças que nem sabia se pertenciam ao carro. Chorou. O seu papagaio? Continuou a procurar. Meteu-se dentro do carro atirou bocados de metal e papelada para a frente e, eis que o seu papagaio estava a atirado para um canto. Agarrou-o e olhou-o. Estava intacto. O seu papagaio de porcelana não se tinha quebrado.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Contar com o Ovo...

Pelo caminho sinuoso que distava da casa de Agustina da Conceição, anciã de 80 anos, e a margem do rio Lima, numa estrada poeirenta mas de uma vegetação e um arvoredo que só no norte se vislumbra, seguia a passo firme e ligeiro Agustina. Vivia numa aldeia do município de Ponta da Barca, a cerca de um quilómetro da margem do rio. A sua herdade prolongava-se até lá e, todas as tardes, depois de uma sesta, Agustina caminhava pelo carreiro que a levava até à margem e aí passava um bom bocado a ver o pôr do sol. Viúva, mãe de três filhos já casados e com três lindos netos a quem dava o maior carinho, tinha como companhia a sua empregada com quem vivia há longos anos e um vizinho, homem na casa dos quarenta, dono da herdade geminada com a sua, o ‘ti Fernando’.

«Mamã, porque não vens viver connosco? Tens três casas em Ponte da Barca: a minha e as dos manos. Ficavas mais acompanhada, mais próximo de nós.» Dizia Daniel, o filho mais velho, numa tarde em visitara a mãe.

«É verdade mãe, pode lá ficar o tempo que quiser e vir a sua casa de vez em quando.» Adiantou Luísa, mulher do Daniel.
«Oh meus filhos! Eu gosto estar de aqui, na minha casa, com a Maria do Rosário. Aqui não me falta nada, vou até ao rio, volto quando me apetece, a Maria do Rosário tem o jantar pronto quando chego…»
«Mas mãe. Lá em casa tem tudo o que quiser, até pode levar a Maria do Rosário consigo. Se eu fosse a si, vendia a herdade e ia viver para a vila. Fazia-me companhia quando o Daniel estivesse de noite no hospital.» Interrompeu a Luísa. (Daniel era médico no hospital).

Esta conversa era assiduamente comentada quer por Daniel, quer pelos outros dois filhos, mas principalmente pelas noras sempre que visitavam a sogra.

Daniel não tinha filhos. José, o filho do meio, tinha dois filhos em idade escolar. Gustavo apenas tinha um. Todos viviam desafogadamente. As noras, Luísa, Isabel e Gracinda, reuniam-se amiudadas vezes em conversas sobre a teimosia da sogra que persistia em não vender a herdade. O ‘ti Fernando’ tinha-lhe oferecido um milhão de euros, importância ligeiramente superior ao avaliado. O ‘ti Fernando’ pretendia a herdade da Agustina para aumentar a sua cultura de vinhas do afamado vinho verde.

«Aquela velha nem morre nem vende a herdade,» dizia numa tarde a Luísa em casa da cunhada Isabel.
«Está rija como um pêro. Não vamos ver a herança da herdade tão depressa.» Comentou Isabel.
«Não a compreendo, não liga nenhuma à herdade…» e prosseguiu «…melhor seria que a vendesse, a receita da herdade daria cerca de trezentos e trinta mil euros a cada uma, para além dos cem mil euros que tem no banco, a prazo e à ordem.» Concluiu Luísa.
«A Gracinda… não a compreendo, não formula opinião sobre este assunto. Evito sempre falar no caso ao pé dela.» Disse Isabel

Estas conversas tinham lugar sempre longe dos maridos, que, por pudor e respeito pela mãe, não eram permitidas.

Seriam cerca das nove da noite. Maria do Rosário, em casa de Agustina, aguardava a chegada da patroa para o jantar. Começou a preocupar-se: por que não chegava? Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Resolveu pôr-se a caminho do rio. Encontrou-a caída, inanimada.

No hospital, dr. Daniel da Conceição, filho de Agustina, prognosticou-lhe um (AVC) acidente vascular cerebral. Chegara tarde de mais. Nada havia a fazer.

Na igreja de Vila Nova de Muía, concelho de Ponte da Barca, todos os habitantes compareceram para o velório de Agustina. Presentes encontrava-se igualmente os filhos e noras da falecida. Maria do Rosário chorava em pranto junto ao féretro daquela que fora sua patroa e amiga nos últimos 40 anos. Luísa, Isabel e Gracinda, separaram-se um pouco de todos para conferenciar.
«Enfim, chegou a sua hora, tão alegre, saudável e cheia de vida, deixou-nos com apenas 82 anos. Nada fazia prever esta adversidade.» Choramingou Gracinda.
«É o destino, minha amiga.»
«Um destino amargo, nada fazia prever tão infeliz desfecho.»
Luísa separou-se um pouco de Gracinda e segredou a Isabel: «já era tempo… recordas-te daquela moradia no alto da colina? Está para venda. Já sondei o preço e não vai além dos duzentos mil euros. O Daniel também gosta dela.»
«É uma pechincha. Vale bem o dinheiro. Eu não penso mudar, a minha casa é tão grande…» e continuou, «gostava de ir a Paris, não tenho nada para vestir e em Lisboa não encontrei nada de jeito.»
Juntando-se novamente à cunhada choramingaram lágrimas de crocodilo.

No escritório do notário estavam presentes os filhos, noras, a empregada Maria do Rosário e o ‘ti Fernando’, únicos arrolados para assistir à leitura do testamento de Agustina.
«Este é o único testamento registado que existe. A D. Agustina deixou aqui expresso o seu desejo há cerca de 5 anos e não voltou a alterá-lo. Assim, como era seu desejo, pediu para que todos vós estivésseis presentes à sua leitura.» Informou o advogado da família.
«Como é do vosso conhecimento o senhor Fernando sempre se interessou pela herdade da vossa mãe e pela qual atribuiu um valor razoável. É seu desejo que lhe seja vendido pelo valor de um milhão de euros. Este valor será dividido em três partes iguais.» Luísa e Isabel expressaram um sorriso demasiadamente notório e o advogado prosseguiu. «O dinheiro existente no banco, tanto o que está a prazo como à ordem, ronda os 100 mil euros. Já há bastante tempo que estava em nome da vossa mãe e da Maria do Rosário. Esse dinheiro, conforme seu desejo, fica para a Maria do Rosário.»
«Velha bruxa» saiu uma voz surda da boca da Luísa. E, não se contendo: «para que quer ela tanto dinheiro?»
«Contenha os comentários» vociferou o advogado.
«Como estava dizendo, o valor da venda da herdade, dividido em três partes iguais, será depositado no banco em nome dos vossos três filhos. Estes só serão herdeiros após a maior idade e depois de concluírem um curso superior…»
«Grande vaca» grita Luísa sem se importar com os filhos da falecida presentes. «Eu que não tenho filhos…»
«Cale-se ou ponho-a na rua. Daniel contenha a sua mulher.» Gritou o advogado e continuou. «No caso de algum dos vossos filhos, por quaisquer razões, não terminar o curso, 50% do valor da herança reverterá para uma instituição sem fins lucrativos. É tudo».

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Eleições 2011


Tem sido interessante, divertida, evolucionista e principalmente muito esclarecedora, esta campanha eleitoral.  Creio mesmo que foi das mais esclarecedoras campanhas dos últimos anos. Todos ficámos a saber que os outros partidos são pior que este. Que este é melhor que os outros. Que os outros mentem. Que este diz a verdade. Todos ficámos elucidados. Não devemos votar nos outros. Votemos neste. Este é o garante da governação exemplar. Os outros são corruptos, mentirosos, não fazem o que apregoam.

Há poucos partidos em Portugal. Nas próximas eleições vou propor à assembleia que se formem 10 milhões de partidos:
·         Partido dos Democratas
·         Partido do não Democratas
·         Partido dos Empregados
·         Partido dos Desempregados
·         Partido dos Patrões
·         Partido dos Pedintes
·         Partido dos Imigrantes
·         Partido dos Explorados
·         Partido dos que Recebem do Desemprego
·         Partido dos que não Recebem
·         Partido dos Sem Partido
·         Partido dos Et Cetera, etc., etc.

A fim de serem todos ouvidos na Rádio e TV falariam 100.000 de cada vez e, desta forma, ficaríamos mais esclarecidos do que estamos. Proporei também que ganhe aquele que mais mal disser dos outros.

Lembrem-se todos que este é o melhor partido, o que fala verdade, o que vai revolucionar a governação dos desgovernados. Acreditem os outros são maus, corruptos, mentirosos; mas, não deixem de votar.

Voto em branco – aquele que não acredita em nenhum dos partidos, mas está presente.
Voto nulo – aquele que é uma besta e não devia lá por os pés.
Abstencionista – aquele que não tem direito a reclamar, o preguiçoso, o que se está marimbando para todos e para si próprio.

No dia 5 de junho cumpra a sua obrigação de cidadão e não deixe de votar, mas mais uma vez lembro: vote bem e em consciência.