Na antiga A1 a caminho de Leiria, Júlio Salomão conduzia o seu velho Fiat. Destino: casa do seu antigo companheiro de armas, igualmente reformado. Havia algum tempo que se não visitavam e recordavam as aventuras e desventuras da guerra em Angola.
«Olá meu velho amigo, há quase um ano que não falávamos pessoalmente.» Disse Gustavo da Fonseca, ao abrir a porta a Júlio Salomão.
Júlio, um veterano de guerra, sofria, como grande parte destes combatentes, de perturbações psíquicas, embora não graves.
«Com as novas tecnologias as pessoas comunicam via Internet e muitas vezes esquecem o contacto pessoal.» Afirmou Júlio.
«É uma das desvantagens da evolução. Tomas alguma coisa?»
«Apenas um chá.»
«Açúcar ou adoçante?»
«Adoçante.»
«Leite?»
«Não. Água»
«Para onde estás sempre a olhar?»
«É para o teu papagaio.»
«Que tem de especial?»
«É lindo. Aquele olhar…»
Júlio, na posição onde estava, obrigava-o a olhar para o lado, onde um papagaio, num poleiro de ramo de árvore natural, o olhava fixamente.
«Júlio! Pareces hipnotizado, homem.»
«Que cores, mas principalmente aquele olhar penetrante do bicho…»
«Gostas do papagaio? Leva-o»
«O quê?»
«Ofereço-to.»
«Oh, não.»
«Leva-o, Júlio. De onde esse veio, há lá mais.»
«Mas…»
«Queres levá-lo ou não.»
«Obrigado. Não calculas como fico feliz.»
Pelo caminho de regresso Júlio não parava de olhar pelo retrovisor o seu papagaio.
«Olá, olá» dizia Júlio ao mesmo tempo que, com as duas mãos no volante, levantava os cotovelos como se batesse asas. Não parava de dizer olá, olá e olhar para o retrovisor. Numa dessas ocasiões, um camião em sentido contrário, buzina estrondosamente. Júlio, distraído, circulava na faixa da esquerda e tentando corrigir a trajetória despenha-se numa pequena ravina indo de encontro a uma árvore de grande porte.
Júlio acorda e olha em seu redor. Encontra-se no hospital. Chama a enfermeira.
«Que me aconteceu? Por que estou aqui.» Pergunta espantado.
«Sofreu um acidente de automóvel, não se lembra?»
«Um acidente? Como»
A enfermeira pede a Júlio que aguarde um momento enquanto vai chamar o médico.
«Bom dia senhor Júlio. Sou o médico que o tem assistido há oito dias.»
«Como! Há oito dias?» Admira-se Júlio
«Sim, o senhor sofreu um acidente de viação há oito dias e tem estado inconsciente, até agora.»
«Como é possível? Que desastre? Não tenho ideia de nada.»
«Sabe como se chama? Onde mora?» Pergunta o médico, depois de lhe examinar os olhos.
«Sim, sim, perfeitamente, mas do desastre não faço a mínima ideia de que se trata.»
«Senhor Júlio, o senhor perto de Torres Vedras, vindo do norte, sofreu um acidente de automóvel, mas apenas teve ligeiras escoriações. Esteve em coma durante oito dias. Provavelmente terá alta ainda hoje. Quer que telefone a alguém para o vir buscar?»
«Não, não obrigado. Não tenho família. Eu sei onde moro.»
«O seu carro ficou espatifado, capotou e o reboque colocou-o nas traseiras da sua casa. O seu telemóvel ficou destruído, por isso não pudemos telefonar a ninguém.»
Júlio sai do hospital, apanha um táxi e dirige-se para sua casa. Pelo caminho matuta no desastre. Que raio de acidente é que eu tive? Pensou. Porquê em Torres? Donde viria eu?
Chegado a casa mirou-se ao espelho. Não lhe doía nada, apenas um penso na testa e um pequeno arranhão na face demonstrava ter acontecido qualquer coisa. Sentia uma ligeira dor quando tocava na testa. Provavelmente tinha sido a causa do desmaio por oito dias. Não conseguia lembrar-se de nada. Resolveu dar uma espiada ao seu automóvel. Olhou-o e pensou: «Este é o meu carro? Que horror, como foi possível? Nem na sucata o vão querer?»
Júlio não consegue recordar-se de nada. Aquele desastre era-lhe muito estranho. Sai à rua e compra um jornal. Regressa, senta-se, lê os cabeçalhos. Oito dias sem notícias, mas nada de estranho se passara durante esse tempo. De repente lembra-se do computador. Procura o seu correio eletrónico. E-mails vários por ler, Faturas, extratos bancários, piadas de mau gosto, muito lixo e uns quantos do seu amigo Gustavo da Fonseca. Leu-os e num deles a pergunta o que era feito dele, que já lhe tinha telefonado para casa, para o telemóvel e nada sabia dele. Pedia respostas aos seus e-mails mas continuava sem saber o que se passava. Num outro e-mail a pergunta sobre o papagaio.
Saltou da cadeira. Deu uma palmada na testa que lhe provocou uma dor imensa. Desceu as escadas a correr. O seu papagaio. Tudo lhe veio à memória instantaneamente. A brincadeira com o “olá, olá”, com o “bater de asas” como se quisesse voar. O camião direito a ele. O desvio e a queda na ravina.
Com um esforço tremendo conseguiu abrir a porta do carro. Olhou em volta. Poeira, terra, estilhaços de vidro, banco traseiro atirado para a frente, mas e o papagaio? Rebuscou o lado de trás do carro, olhou no lugar onde outrora estivera o banco. Remexeu papelada, peças que nem sabia se pertenciam ao carro. Chorou. O seu papagaio? Continuou a procurar. Meteu-se dentro do carro atirou bocados de metal e papelada para a frente e, eis que o seu papagaio estava a atirado para um canto. Agarrou-o e olhou-o. Estava intacto. O seu papagaio de porcelana não se tinha quebrado.
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