Nada fazia prever o temporal que iria apanhar na sua deslocação ao Alentejo. Eduardo Rodrigues tinha planeado passar o fim de semana em casa dos seu avós, já falecidos, num monte alentejano. Saíra de Lisboa com um tempo de chuva, mas nada comparado à torrencial chuva que, pelo caminho, apanharia à saída de Grândola. O vento e trovoada eram tal que quase desistira da viagem, pensando mesmo em voltar para trás. Estava próximo do destino. Seria um erro naquela altura retroceder. Os relâmpagos eram ininterruptos e única iluminação naquela estrada da serra do Caldeirão. Não se via um palmo à frente, tanta era a água que do céu jorrava. Chegou a temer a viagem naquela escuridão.
Duas horas depois, com a tempestade que teimava prolongar-se pela noite dentro, chegou a casa. Do carro à sua porta teria de percorrer uns 50 metros pelo caminho de cabras. Ainda aguardou uns 20 minutos dentro do carro, mas não valeria a pena. Abrir o guarda-chuva seria um contrassenso. O vento tê-lo-ia inutilizado. Correu para casa debaixo da chuva tocada a vento, abriu a porta e entrou. Estava encharcado até aos ossos. Despiu-se à entrada deixando a roupa sobre uma cadeira. Um lago circundou o espaço onde se despira. Todo nu, correu a limpar-se e vestir um roupão. A casa estava fria e desconfortável. Acendeu a lareira e uma hora depois, com a casa mais confortável, procurou um livro e serviu-se de um conhaque.
No momento em que se dirigia para o cadeirão junto à lareira, com o copo numa mão e o livro na outra, um ruído à porta da entrada fê-lo voltar-se e pôr-se à escuta. Não restavam dúvidas. Havia alguém do lado de fora a querer entrar. Resoluto abriu a porta. Um olhar meigo com um misto de receio fixou-se nele. «Queres entrar?» Perguntou Eduardo fazendo um gesto de convite. «Depressa para fechar a porta.» Concluiu.
Estava num pingo que metia dó. A medo entrou e correu para a lareira. Eduardo foi à casa de banho e trouxe uma toalha; limpou-a e ela aninhou-se no chão tão próximo da lareira que Eduardo receou que se queimasse. Foi ao quarto e muniu-se de uma almofada e um cobertor. Aconchegou-a e tapou-a.
Sentou-se no cadeirão diante dela e da lareira. Olhou-a e teve pena dela. Era bonita e o seu olhar mostrava gratidão. «Queres comer?» Perguntou e sem esperar resposta foi à cozinha arranjar alguma coisa para lhe dar. Comeu tudo e adormeceu.
Era quase meia-noite. Não tirava os olhas dela. Pesou: «já não sais daqui. Quando me for embora levo-te comigo para Lisboa.»
O telefone tocou. «Olá Eduardo» (era Adriana, sua namorada, enfermeira em Faro) «dentro de uma hora estou aí»
«Está um temporal horrível» disse Eduardo e continuou «não venhas com este tempo. Vêm amanhã.»
«Nem penses, tenho muitas saudades tuas, nem que chovam picaretas não vou perder este fim de semana junto do meu amor.»
«Mas, querida…»
«Já te disse» interrompeu Adriana «estou a caminho e dentro de momentos estou nos teus braços. Quero beijar-te muito. Há 15 dias que aguardo por este dia.»
«Mas…» tentou Eduardo.
«Até já. Muitos beijinhos.» E desligou o telefone.
Ela continuava a dormir junto à lareira. Eduardo acariciou-a e verificou que já não tremia de frio. Dormia profundamente.
Uma hora da manhã. Ouviu o motor de um carro que acabava de chegar. Correu à porta. O temporal continuava. Em roupão e com um cobertor pela cabeça percorreu em corrida o espaço que o separava da porta ao automóvel. Os dois, como que empurrados pelo vento, voaram para casa.
«Vai mudar de roupa enquanto te preparo qualquer coisa para comer.» Disse Eduardo à sua namorada.
«Primeiro quero um grande beijo. Depois quero outro. E a seguir vou mudar-me.»
Enquanto Adriana tomava banho, Eduardo preparou uns ovos mexidos e umas couves salteadas. Sentou-se no cadeirão e aguardou a chegada da sua amada. Enroscada junto à lareira, ela continuava a dormir.
«Que preparou o meu amor para a ceia?» Perguntou Adriana enquanto descia a escada.
«Uns ovos e couves, mas não são só para ti. Eu também como.»
«Olha que venho cheia de fome, não só de comida como também… que é aquilo?» Disse espantada Adriana apontando para o vulto iluminado pelas labaredas da lareira.
«Não sei. Apareceu-me aqui há cerca de uma hora. Vinha esfomeada e tremia de frio. Estava num pinto, encharcada. Mandei-a entrar e a medo lá se foi aconchegar junto à lareira.»
Adriana aproximou-se dela e toucou-lhe na cabeça, fazendo-lhe uma festa. Como retribuição, a cadela lambeu-lhe as mãos.
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